MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/10/2013

O Peru de Pantaleón Pantoja (Vargas Llosa- Apetite pela totalidade-II)

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em sete de janeiro de 1997)

O Peru anda em destaque por causa do ressurgimento inesperado da guerrilha Tupac Amaru no episódio da embaixada do Japão. Na década de 70, fizeram muito sucesso no Brasil os livros do peruano Mario Vargas Llosa. Alguns poderão dizer que devido ao fato de estarmos em plena ditadura o leitor brasileiro estava ávido por radiografias de países em que situações similares (ou piores). Ainda mais porque praticamente não tivemos obras literárias comparáveis às dos hispano-americanos nesse período, com as exceções de praxe.

De todo modo, Vargas Llosa continuou a produzir grandes romances após os anos 70 (basta lembrar de A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O Falador,  Elogio da Madrasta, Lituma nos Andes) e pense-se o que se quiser de seus posicionamentos políticos, ainda hoje é um dos maiores ficcionistas do mundo. Por isso, é interessante acompanhar a iniciativa da Companhia das Letras de oferecer ao leitor dos anos 90 novas versões dos seus livros de Llosa lançados por aqui na época da ditadura, começando pelo seu primeiro romance cômico, o implacável Pantaleón e as visitadoras, agora numa versão da mais-que-competente Heloísa Jahn (a anterior, de Remy Gorga, Filho, publicada pela Nova Fronteira, continua em circulação). Assim, podemos verificar se literariamente tais livros sobreviveram ao clima ideológico da época, ou ficaram datados irremediavelmente.

No caso de Pantaleón, cuja publicação original se deu em 1973, o leitor fique tranqüilo. É ainda um delicioso exercício de ironia. Nele, mostra-se como o exército peruano resolve criar um serviço de prostitutas, as “visitadoras”, para os soldados em ativa na selva. É uma necessidade imperiosa: os guardiões da pátria acabam passando em armas as moças locais e até as senhoras casadas, estuprando-as e desgraçando-as.

O escolhido para ser o encarregado das visitadoras é o honesto e competente capitão Pantaleón Pantoja, que tem de se mudar com a família par a selva, contratar as prestadoras desse serviço patriótico, organizar os horários e escalas de visitação, numa missão extremamente detalhada em relatórios burocráticos, mas que não lhe serve em nada em termos de apresentação social, pois tem de tomar a aparência de um cafetão e freqüentar os antros de Iquitos, a cidadezinha amazônica onde transcorre a ação do livro.

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E como levar a sério relatórios conscienciosos nos quais as relatadas têm alcunhas como Peitinhos, Chuchupe ou Peludinha? Paralelamente, cresce a figura do místico exaltado, irmão Francismo, e sua pregação da martirização, como contraponto da carreira do capitão proxeneta, martirizado pelo cumprimento do dever:

“É verdade que o senhor passava pessoalmente pelas armas as candidatas ao Serviço de Visitadoras?”

“Fazia parte do exame de qualificação, meu general. Para verificar aptidões. Eu não podia me apoiar no testemunho dos meus colaboradores. Havia constatado a existência de favoritismos, subornos.”

“Não sei como o senhor não acabou tuberculoso. Ainda não cheguei a uma conclusão se o senhor é um bobalhão angelical ou um cínico de primeira grandeza.”

Talvez o grande achado do livro seja a figura do capitão Pantaleón Pantoja, com sua impecável folha de serviço e a disposição de fazer tudo do modo mais severo e organizado possível. Pois a degradação social e moral dele e de sua família (a qual sequer tem o direito de morar na Vila Militar), por conta do serviço de atendimento que ele tem de fornecer ao exército, permite a Llosa mostrar como uma instituição pode queimar o que tem de melhor, de mais digno e mais sério, para apaziguar, reprimir e submeter os aspectos rasteiros e baixos do ser humano, e que vêm à tona de uma maneira ou outra.

Não pense o leitor que vai se deparar com algo tipo Dona Anja e quejandos, onde uma pálida sátira convive com apelações duvidosas. Llosa é um mestre da construção romanesca (e estava no auge da maestria, é só lembrar que Pantaleón e as visitadoras veio logo após o formidável Conversa na Catedral) e mostra os desdobramentos da decisão do exército em criar o serviço urgente de visitação por meio dos mais variados recursos (diálogos simultâneos, cartas, memorandos, relatórios). E, permeando tudo, o humor corrosivo (que até então não era praxe na sua carreira), mas suficientemente humanista para fazer desse capitão, desse bobalhão angelical, ridículo e patético (se não for um cínico de primeira grandeza, embora pareça mais cínica uma instituição que o usa e destrói, uma instituição que cria, como contrapartida do seu arbítrio, místicos e guerrilheiros exaltados, que às vezes podem surpreender até o neoliberalismo triunfante dos nossos dias) um personagem de primeira grandeza.

VER TAMBÉM NO BLOG:

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