MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/03/2012

UM SENTIDO DE MISSÃO: Palavra de Poeta (Cabo Verde/Angola)

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de julho de 1999)

   Apesar de já ter afirmado nesta minha coluna a inutilidade  dos livros de entrevistas com escritores, é preciso chamar a atenção para PALAVRA DE POETA (CABO VERDE/ANGOLA),organizado por Denira Rozário (editado pela Bertrand Brasil), por conta do desconhecimento que ainda mantemos a respeito das literaturas dos países africanos de língua portuguesa.

   A empreitada parecia perigosa porque no seu livro anterior de entrevistas, com escritores de Portugal, Denira Rozário notabilizou-se pela indigência intelectual e pela completa vacuidade (quando não estultície) das suas perguntas. Tudo fazia cfrer que ela seria contratada para o Video Show ou qualquer programa do gênero.

    Mas eis que ressurge madame Rozário e, que os céus sejam louvados, ela está fazendo menos perguntas, está sendo mais objetiva,  mais crua e direta, portanto as entrevistas funcionam melhor.

     De vez em quando ela tem uma recaída, e aí vem um petardo do tipo “Sofre muito quando não está escrevendo?”; ou, então, no meio de uma reflexão do cabo-verdiano Mário Fonseca sobre patriarcalismo, “Parece que você está gripado”!!!!???? Há, ainda, pérolas de tolice renitente: “Sentiu-se poeta quando recebeu direitos autorais do seu primeiro livro?”!!!!!!!?????; “Com uma boa esferográfica o prazer de escrever é maior?”????!!!!

    A verdade, contudo, é que o tom das entrevistas é mais austero e elas permitem entrever um universo literário muito peculiar. É bom que se diga que não se trata de escritores que são predominantemente poetas, muitos escrevem até mais ficção do que poesia. O fato é que avulta das entrevistas o sentido de missão, de papel social fundamental dos escritores angolanos e cabo-verdianos: construir uma identidade, após o fracionamento que a situação de colônias e as guerras de independência causaram. Por isso destaca-se muito o papel das revistas e periódicos e o papel de determinados grupos literários em momentos  estratégicos.

    De fato, surpreende uma valorização quase unânime do trabalho coletivo, ao invés do talento individual, coisa muito rara em se tratando de uma atividade que tantas vezes instiga a mera vaidade.

   O destaque de PALAVRA DE POETA (CABO VERDE/ANGOLA) é a pequena antologia de poesias de cada autor. Com essa amostra, e confessando a falta de um conhecimento mais aprofundado do contexto, tendo em vista o que puerilmente poderíamos chamar de “leitura universal”, baseada apenas numa apreensão imediata do trabalho textual, não levando em conta o alegado trabalho missionário dos autores e o esfacelamento ideológico-cultural dos seus países, o saldo é terrível: a maioria esmagadora é de maus poemas.

   Há bons momentos, como “Nasci em um país que não é meu/ Se de meu país só restar o que me deram” (Arnaldo França; aliás, há um poema dele que visivelmente foi impresso em páginas invertidas).

   Há aquele tipo de verso, muito comum em nações que sofreram sob um regime autoritário: “Então/o poeta/ esquece a sua dor/ e põe-se a sorrir/ só porque seu irmão sorri” (João Rodrigues), que poderia ser chamado de “apelo fraternal”, só que infelizmente tresanda a pieguice. Em matéria de pieguice, diga-se de passagem, o escritor cabo-verdiano dá um verdadeiro show, como neste poema que poderia virar uma música de Vicente Celestino: “São as flores/ que não tive/ para/ depor sobre essa campa/ quando/ fecharam-te os olhos/ cruzaram-te as mãos/ e te cobriram de pó/ E eu te cobri de lágrimas” !!!!???????

    Há um apelo utópico que subjaz em muitas imagens: “Oh rosa/ Onde fincar os pés senão em tuas inexistentes pétalas?/ Onde senão no insistente sonho de tuas persistentes pétalas? Aqui?/ Aqui onde tudo o que medra é só e apenas terras?” (Mário Fonseca), que contrasta com a desilusão com os rumos nacionais: “O exílio é a Pátria/ que me confirma/ no meu país confiscado/ onde a Nação abortou” (Manuel Guedes dos Santos Lima).

   Há a inevitável lembrança da guerra: “Dois meninos sentados/ um terceiro de pé/ todos irmanados/ na orfandade de um pé” (idem).

    E, é claro, temos sempre a consciência racial: “Não, não feches os olhos à tragédia/ olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça/ os nossos irmãos acorrentados/ como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis/ semelhando ventres de deus bárbaros/ Virginia, Alabama/ Mississipi/ sangue vermelho/ suor de negro branqueando algodão/ Cuba, Brasil/ Martinica/ mais sangue vermelho/ suor de negro movendo engenhos de açúcar” (Jofre Rocha).

   Eis então, leitor, 368 páginas e 26 escritores, número que dá bem a idéia de como se negligenciou no Brasil a circulação de obras de países com a mesma língua.

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