MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/09/2013

Procurando o ângulo do encontro com “Os Malaquias”

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Pode-se fazer uma leitura “esquizofrênica” de Os Malaquias (2010), de Andréa del Fuego. Numa delas, acompanhamos uma linda formulação moderna do tema da dissolução familiar. Até por razões eufônicas pode-se associá-lo a Os Malavoglia (1881), de Giovanni Verga.

Um grupo familiar que é apresentado, a princípio, “unido”, no Brasil “profundo”, desagrega-se ao sabor das circunstâncias, de uma propensão fatídica, de eventos históricos, até da vilania humana. Mortos os pais, três irmãos, Nico, Júlia e Antônio são separados, e espoliados da sua herança. Nico se torna peão do latifundiário local; Antônio—que sofre de nanismo—é adotado pelas freiras de um orfanato; Júlia, após algum tempo na instituição, é levada para a cidade por uma senhora, Leila, que a usa como empregada.

Mesmo escapando de Leila, e mesmo se mantendo ao corrente da vida dos irmãos (como o casamento de Nico com Maria), por motivos vários, Júlia jamais reencontra os irmãos. O que é deles, em termos materiais, sempre é embolsado por alguém, mesmo assim Nico, com a ajuda de Antônio (que vai morar com ele após o casamento), sempre luta para manter a família unida e prosperar.

As moradias da região onde se passa parte da história (Serra Morena), paralelamente à cidade grande para onde foi levada Júlia, são inundadas devido à construção de uma hidrelétrica. Muitos se mudam para a cidade grande, não os Malaquias. Fora da casa de Leila, Júlia trabalha na rodoviária da cidade (com vários imbroglios ligados a bebês que mudam de mãos ali), depois no armazém de Messias, que tem uma queda por ela. Júlia se torna modista, fica grávida, dá à luz um anão, e por isso é rejeitada pelo comerciante,  desconfiado de traição (ela não sabe que o irmão é anão também, o que indicaria uma propensão genética, como também não sabe que é filha de Geraldo, o latifundiário, e portanto sua herdeira natural).

O que vemos nessa sucessão de acontecimentos, onde não há a necessidade de muita descrição de locais e regiões, onde os traços são primordialistas e concisos, quanto a detalhes espaciais e temporais, são os universos persistentes e duráveis da sucessão de gerações, do trabalho, da interação problemática entre roça e cidade, entre o atraso e o progresso, imobilismo e mobilidade, entre a racionalização da vida através da conquista tecnológica e a explicação mágica do mundo de quem não tem acesso aos códigos “científicos”, a relação entre pais e filhos, entre irmãos, entre maridos e esposas, relação que não elide a solidão, o isolamento ou a taciturnidade, e um outro nível de relação, o de patrões e empregados, onde os afetos não estão ausentes, mas estão todos corrompidos, entre exploradores e explorados, entre autoridades constituídas e vozes populares, entre origens étnicas diferentes (se atentarmos para os nomes Leila, Fuad, Messias).

Veja-se um capítulo[1] do qual gosto muito:

“Geraldo estava de leito há dias. Respirando pouco, pé inchado voz raleando. Sentia peso nas cadeiras, peso no peito. O coração era maior que o pé, inchaço maior, artéria larga para pouca seiva. A casca toda seca, rachadura nas solas, na nuca, no cotovelo. Tizica, velhinha de pele fina feito biju, agridoce no hálito.

__ Geraldo, capaz de você ir e me deixar, não morro mais.

__ Pega água para mim, Tizica. Ande!-grunhiu Geraldo….   

Tizica foi buscar. Não deixou que a moça, enfermeira de casa, fosse ligeira até a cozinha. Ia ela, Tizica, obedecer por gosto a ordem de Geraldo. Lenta, o sol das janelas varrendo as tábuas de madeira, a canela fina interrompendo a luz. A casa na cidade era tão grande quanto a sede da Fazenda Rio Claro. Tizica pegou copo de alumínio, encheu com água da moringa. O rádio da cozinha falava sozinho, tocando propaganda de leite de magnésia. Voltou na velocidade que foi, as canelas cortando a luz dois graus mais baixa que na ida. Entrou no quarto, a enfermeira batendo com as duas mãos cruzadas o peito de Geraldo, os braços dele pendidos pela beirada da cama. O sentido dos pés opostos, direita e esquerda, cada um apontando o seu. O copo caiu no chão, a água pousou na madeira encerada, foi roliça atrás de um sulco pra se esconder e alcançou o pé da cama, onde se dividiu em filetes. Tizica caiu. A enfermeira deixou o corpo de Geraldo e levantou Tizica, fraquinha.

__Pega meu corpo–ordenou Tizica.

__ A senhora precisa deitar.    

O corpo de Geraldo foi velado no cemitério da nova e pequena cidade. O túmulo dele foi um dos primeiros. Tizica pediu que ficasse perto do portão de entrada, assim ela podia ver, quando passasse pela rua, a ponta da derradeira cama do patrão, sem que para isso precisasse entrar no jardim dos mortos. Não foi ao enterro, acompanhado por Timóteo na dianteira do caixão. Tizica teve um sono de raiz, sedada por injeções de agulha grossa. Dormiu e acordou senil. Geraldo teve enterro anunciando pelos sinos da igreja. Nico compareceu, rezou e não chorou.”

Tudo isso perpassa Os Malaquias. Ao se prestar atenção na sua espinha dorsal narrativa, é o que dá força ao livro, um aspecto a um tempo primevo e ainda assim muito moderno pela economia de meios. O livro ganhou o prêmio José Saramago, o que não deixa de ser pertinente, nesse sentido, pois se havia um autor que se apropriava do tempo passado sem necessidade de badulaques descritivos ou da demonstração de “pesquisas” era ele. E também seus livros “contemporâneos” administravam uma relação muito especial entre instâncias “duráveis” e a dissolução que a modernidade tornava obrigatória.

Por outro lado, sobreposta a essa leitura, há outra: há eventos “fantásticos”: um trovão que “cozinha”, por assim dizer, os pais dos Malaquias; uma matriarca, Geraldina, a mãe de Geraldo, que ao morrer se torna uma entidade que se prende ao mundo dos vivos e acompanha os eventos; há uma caverna onde há um navio pronto a zarpar pelo mundo, quando as águas da represa hidrelétrica baixarem; há personagens como duas velhas gêmeas que aparecem aqui e ali; uma cadela que está aqui, mas também está acolá; mais ainda do que esses eventos saramandaiescos há uma obsessão com imagens “poéticas”, inusitadas (não que isso seja impossível de alcançar, é só lembrar da obra daquele que assina a edição brasileira de Os Malaquias, José Luís Peixoto).

O efeito desse segundo Os Malaquias é diluir e esgarçar o poder daquele primeiro descrito lá atrás. O que poderia ser a originalidade e singularidade do livro, parece mais a procura exaustiva e laboriosa, e não muito bem-sucedida, da originalidade e singularidade a qualquer custo. Vejamos o trecho de uma matéria [que saiu na Espanha] onde a própria autora fala sobre seu processo de escrita:

Una vez que pone el punto final, Andréa del Fuego le da a sus textos un largo periodo de reposo. Luego, ya con cierto desapego, vuelve a ellos y corrige. El exceso de lirismo, para empezar. Las largas metáforas, para seguir. Se esfuerza para que las cosas, por más fantásticas que sean, parezcan reales. Quita y quita, como si para ella un escritor valiera más por lo que quita que por lo que deja. Y lo que deja son frases cortas llenas de acción y ritmo poético. Se propone, en suma, que el texto sea menos artificioso y más transparente.

La creación es vecina de la locura. Creares abrir puertas que el tiempo cierra por no entrar em  las convenciones cotidianas

Hace este ejercicio poco a poco, sin prisa. Entrando y saliendo del texto para desechar arrebatos, improvisaciones y barroquismos. Deja, al final, una puntuación a veces telegráfica, pero no por ello menos efectiva. “La reescritura”, dice, “es la parte que más tiempo me lleva en mi trabajo. Y la que más me preocupa. Puedo tardar un mes en escribir una novela y más de seis años en reescribirla, por ejemplo. Corrijo todo aquello que el tiempo me deja ver que es superfluo. Me parece que la creación es vecina de la locura, en el sentido de que crear es abrir puertas que el tiempo cierra por no caber en las convenciones cotidianas. En la escritura vamos domando esas voces. Y esto no es puro placer, tiene sus dolores”.

Gracias a este empeño, asegura, ha descubierto las limitaciones que posee al escribir. “Creo que tengo un exceso de prosa poética y un exceso de realismo mágico. ¡Sencillamente, no consigo escribir sin estas características! También tengo una especie de ansiedad porque en la narración acostumbro a revelar pronto lo que tal vez sería mejor revelar más tarde”. También, reconoce, se da cuenta de lo arriesgada que es su labor y por eso, en algunos momentos, exhibe cierta inseguridad. “Siento que corro el riesgo de ser peor de lo que creo. De repetirme. Riesgo de no ser publicada, de no ser leída. Riesgo de morirme sin escribir determinado libro”.

Certamente não faltará quem vincule essa feição ao “realismo fantástico”, que desabrochou tão fatídica quanto maravilhosamente com Cem anos de solidão e o prestígio mundial de García Márquez. Pode ser. A minha impressão é a de o fantástico não se coaduna com o tecido narrativo do livro de Andréa del Fuego porque ela o mescla com aquele “frase a frase” preciosista e postiço, e portanto tudo fica com um ar kitsch (“__ Você quer a Maria?–Dário a entregaria naquele momento, cardume de lambaris que Nico tinha nas duas represas do rosto, as escamas refletindo Dário”  ).

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       Na ficção brasileira, há algumas maldições. Há a maldição Guimarães Rosa, há a maldição Clarice Lispector, há a maldição Rubem Fonseca, ou seja a presença abusiva e cancerígena desses grandes autores nos textos de certos “discípulos”. Também há a maldição dos autores que não são, a meu ver, nem um pouco do porte daqueles. É o caso da maldição Lúcio Cardoso e da maldição Nélida Piñon. Esta última vitima Andréa del Fuego. É uma maldição que envolve um trato pernóstico e quase parnasiano da frase, que agrega uma espécie de “moto contínuo” do Feminino, que desvendaria as dobras e costuras do mundo patriarcal, assumido ideologicamente, e não organicamente, dentro da linguagem, de uma espécie de gratuidade do inusitado, do paradoxal e do fantástico nas referências fabulares. Eu sou avesso às obras da austregésila senhora que nos deu Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração,  Vozes do Deserto, entre outros, e acho que o mal que mina Os Malaquias está aí. Na verdade, é uma incompatibilidade que outros não têm, e pode ser que muitos vejam aí a qualidade específica do livro.

Para mim, é na utilização da entidade-Geraldina após a morte que fica mais evidente essa feição deletéria da composição da narrativa:

“Uma vez morta, Geraldina pôde circular  onde bem quisesse. Caso fosse aumentada milhares de vezes, se veria a composição da matriarca: uma cadeia molecular , bolinhas capazes de se mover com certa autonomia e poder de decisão. Ela chegou ao colégio levada por um caixeiro viajante, sujeito que atravessava as fazendas e os povoados. Geraldina foi assentada entre garrafas de melado. Ficou na cozinha do colégio até se ambientar, depois flanou pelo pátio até alcançar os quartos, um carrapato procurando perna(…)

Geraldo tem medo dela até hoje, do charco que era a mãe, lugar onde botas não marcam pegada, o alagadiço prende o movimento. Geraldina, num instinto separatista, se faria perturbadora ao se aproximar de Geraldo, para que ele saltasse do charco materno, feito pulga expulsa pela pata do animal.”   

   Em outro trecho, ligado à mesma personagem ectoplásmica, a questão se complica:

“Todas as mínimas partes da mãe se uniram à fórmula da água. Geraldina era elemento da represa, mas tinha propriedades como toda substância. Passando das margens de Serra Morena, a água era só a água do mundo e ela poderia se juntar outra vez. Na represa Geraldina era um veneno que, de tão diluído, teria efeito improvável.”

A princípio, como não estava gostando da leitura do romance como um todo, pelos motivos apontados, achei a passagem acima muito ruim. Com sua agudeza habitual, Denise Bottmann me chamou a atenção para a formulação muito bonita da “água era só a água do mundo e ela poderia se juntar outra vez”. A minha impaciência com a coisa postiça toda que é a exploração “fantástica”, “inusitada”, da condição da mãe, me impediu de ver que, nesse caso, o trabalho mínimo do frase a frase, atingia um ponto pertinente e feliz de limpidez e beleza de dicção. Pena que, na frase seguinte, a voltagem caia, com “um veneno que, de tão diluído, teria efeito improvável”.

Curiosamente, quando não está preocupada com esse “dizer bonito”, o elemento “fantástico” em Andréa del Fuego, é um dado muito bem-colocado e instigante, como aquele não-ver uns aos outros dos irmãos no porto (quem dera fosse sempre assim). Talvez seja também a minha relação de leitor com o seu universo, essa fatalidade que gera equívocos e desencontros:

“Ficaram próximos, Júlia e os irmãos. Entre eles havia um passageiro, girando o pescoço com facilidade, procurava parentes. O homem vestia casaco longo e chapéu. Um passageiro foi suficiente para impedir que Júlia e Nico se vissem. Quando um Malaquias dava um passo, o passageiro dava outro, quase ensaiados (…) Antônio parou parra amarrar o cadarço de Anésia. Júlia viu o anão de costas, aos pés da menina (…) Nico olhava para um lado, Júlia para outro. Os olhares fizeram duas retas paralelas, ele por cima, ela por baixo. Havia uma chance de insersecção, mas Nico deu um passo à frente e o ângulo do encontro foi desfeito…”

   Talvez a chance de intersecção, e sem procurar cair em nenhuma condescendência, que o livro não precisa disso, seja a afirmação de que é um livro em aberto para mim. Odiando a leitura no primeiro impacto, muito porque vi na autora mais uma continuadora dos disparates piñonescos, devido às primeiras páginas, reconhecendo—com o prosseguimento da leitura e até pelas intervenções de amigos—que era um texto a não se desprezar, com uma força peculiar, mas mantendo um pé atrás e a sensação de que algo ali desandou ou que não encontrou o “tom”. Um livro discutível, como se diz tantas vezes, mas estranhamente impossível de colocar de lado com muxoxos críticos. Um veneno de efeito improvável, esse Os Malaquias.

(setembro de 2013)


[1] Os 73 capítulos de Os Malaquias são bem curtos.

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