MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/12/2011

O “tudo que é sólido desmancha no ar” dostoievskiano: OS DEMÔNIOS

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https://armonte.wordpress.com/2011/12/09/o-tudo-o-que-e-solido-desmancha-no-ar-turguenieviano-pais-e-filhos/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de fevereiro de 2005)

Na sua coluna da Caros Amigos, o saudoso Léo Gilson Ribeiro contava como desistiu de ler Dostoiévski em português porque achou abomináveis as traduções de Rachel de Queiróz e saúda a recente versão (feita do russo) de Os Demônios  (1872)realizada por Paulo Bezerra na esteira de Crime e Castigoe  O Idiota.

Pois bem, eu confesso que então me falta a compreensão do que é uma boa tradução. Conhecia Os Demônios e era apaixonado pelo livro, justamente através da tradução de Rachel de Queiróz (publicada pela José Olympio) e também a de Natália Nunes (nas Obras Completas da Aguilar, com seus erros e acertos), e sempre considerei ambas perfeitamente aceitáveis.

Instigado pelas palavras de Ribeiro, e mesmo tendo sido quase derrotado pelas traduções anteriores de Paulo Bezerra, enfrentei sua versão da história de Stávroguin & outros conspiradores. Ora, mais de uma vez foi preciso recorrer a dupla Rachel & Natália para que certos trechos ficassem claros. Mais ainda: o leitor que só conhecia Os Demônios em português através das outras versões conhece o essencial do livro e não perdeu nada. São escassos (e insignificantes) os momentos em que se acrescenta algo novo à compreensão das personagens, do seu modo de falar, das suas idéias e da atmosfera do romance. O que nos leva à conclusão, diante do alarde que certas versões recebem, que marketing existe até no insuspeito território da tradução.

Por exemplo, o início da 2ª parte (depois de uma série de cenas teatrais e extraordinárias, dignas de Shakespeare) foi traduzido assim por Rachel de Queiróz: “É claro que corriam a cidade estranhos rumores a respeito da bofetada, do desmaio de Lisa, e dos outros acontecimentos daquele domingo memorável. E aquilo muito nos admirava: como aqueles fatos teriam sido tão rapidamente espalhados, até nos pormenores mínimos ?” Natália Nunes, por sua vez: “Na cidade, não se falava, é claro, senão da bofetada, do desmaio de Lisa e dos outros acontecimentos daquele famoso domingo. Mas uma coisa nos espantava: como tudo quanto se passara tinha podido ser conhecido tão depressa e com tal precisão ?” Vejamos a “contribuição” de Paulo Bezerra para o leitor brasileiro quanto ao mesmo trecho: “É dispensável dizer que pela cidade correram os mais diversos boatos, isto é, a respeito da bofetada, do desmaio de Lizavieta Nikoláievna e de outros acontecimentos daquele domingo. Mas uma coisa nos deixava surpresos: através de quem tudo aquilo poderia ter vazado com tal velocidade e precisão?”

Não se está tentando diminuir, é evidente, o tour-de-force de um tradutor que tem enfrentado as obras mais intensas e tumultuosas da ficção, e a partir do original, mas é um esnobismo ridículo  desdenhar versões que fazem parte da nossa tradição de leitura.

No mais, depois de ter criado a mistura russa de Hamlet e Dom Quixote (com a sombra de Cristo pairando ainda por cima) em O Idiota (talvez seu mais belo livro), Dostoiévski surpreendia mostrando um grupo de terroristas ideológicos empenhados numa sutil operação de desmoralização e desestabilização de uma província. E isso através de uma narrativa oblíqua, complexa e devoradora. O que acontece nos bastidores é tão importante quanto o que acontece no palco. Daí a escolha genial de um narrador provinciano, que convive com os protagonistas, mas sempre está também à parte, atrasado,  diante de fragmentos contraditórios e controversos.

Como, depois de um livro desses, Dostoiévski ainda pode escrever Os Irmãos Karamázov, que parece ainda mais vasto e exorbitante ?

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em  05 de março de 2005)

“Proclamaremos a destruição…porque…porque mais uma vez essa ideiazinha é fascinante…Espalharemos incêndios…Espalharemos lendas… Aí qualquer grupo sarnento será útil. No meio desses mesmos grupos encontrarei pessoas tão dispostas que darão qualquer tipo de tiro e ainda ficarão agradecidas pela honra. Bem, aí começará o motim! Haverá uma desordem daquelas que o mundo nunca viu…A Rússia ficará mergulhada em trevas…”

Continua-se aqui o comentário a respeito da tradução de Paulo Bezerra (direta do russo) para Os Demônios, um dos quatro romances supremos de Dostoiévski (junto com Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov).

O fio condutor da trama (uma sábia decisão do autor) é a relação de amor irrealizado/ódio entre dois personagens inesquecíveis, Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski e Varvara Pietrovna Stavróguina. Ela se torna a protetora dele, um intelectual pomposo e inerte, que se resigna a um parasitismo abjeto, como agregado de luxo. Os dois principais “demônios” do título são os filhos de ambos, Piotr Stiepánovitch (de quem são as palavras acima) e Nikolai Vsievolódovitch, o famoso Stavróguin, que retornam à província e propagam conspirações, crimes, atos de terrorismo e desatinos à sua volta, chegando a envolver até o governador, Lembke e sua pretensiosa esposa, Yúlia Mikháilovna, que se julga “avançada” e pronta para orientar jovens, quando na verdade está sendo manipulada e desmoralizada.

O objetivo, segundo Chigalióv, um dos membros do grupo criado na província pelo filho de Vierkhoviénski, é “desacreditar constantemente, mediante uma propaganda sistemática de denúncias, a importância do poder local, gerar perplexidade nos povoados, engendrar o cinismo e escândalos, a total descrença no que quer que exista… e, por fim, lançando mão de incêndios como meio predominantemente popular, no momento determinado lançar o país até no desespero em caso de necessidade”.

Esse mesmo Chigalióv antecipa sinistramente os crimes cometidos em nome do socialismo, ao afirmar um sistema ideológico no qual, partindo da liberdade ilimitada, chega-se ao despotismo ilimitado. Noventa por cento da humanidade ficaria escrava do iluminado dez por cento que a colocaria para trabalhar e modificar sua natureza através de gerações.

Uma das maneiras de assegurar lealdade ao grupo é o crime cometido em comum, o sangue derramado servindo como elemento de coesão. A vítima escolhida é Chátov, tido como delator devido às intrigas do venenoso Piotr Stiepánovitch. Esse incidente é baseado num fato real que serviu como idéia-mestra de Os Demônios.

Não se pode deixar também de citar Kiríllov e seu projeto de matar-se para libertar o homem da idéia da morte e cujas idéias sobre suicídio foram amplamente discutidas por Albert Camus (o qual, aliás, adaptou Os Demônios para o teatro).

Há ainda outras complicadíssimas personagens femininas, como a irmã de Chátov, Dária, dama de companhia da mãe de Stavróguin, e Liza, mais uma representante das “histéricas” dostoievskianas, e não obstante, objeto da paixão de vários personagens, entre os quais o próprio narrador, esse ser tão ambíguo criado por Dostoiévski, que nos revela diálogos íntimos por inteiro, aos quais não poderia ter assistido, mas que deixa boa parte da ação ocorrer nos bastidores e está sempre a nos informar da sua insuficiência para o papel, mesmo tendo convivido com todos os protagonistas. Por exemplo, logo no início da 3ª parte: “É claro que ninguém está no direito de exigir de mim, como narrador, detalhes excessivamente exatos…”

O fato é que toda a recente onda de terrorismo trouxe novo interesse a um livro que já era fascinante, embora terrível de se ler, tortuoso e atravancado como é, e ainda tendo de açambarcar as tendências reacionárias do seu autor  e seu ajuste de contas dissimulado com inimigos na vida real. Mas com gênios o negócio é assim: tem que se aceitar o pacote inteiro.

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