MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/05/2012

Orfeu e o inferno do Arquivo Morto: “Todos os nomes”, de José Saramago

A burocracia foi um dos pesadelos que mais assombraram a imaginação do século XX. O esmagamento do indivíduo em meio a corredores intermináveis, seções, departamentos, repartições,  tornou-se ainda mais horrível com a formalidade burocrática  que norteou a organização dos campos de extermínio nazistas. De Kafka & George Orwell a Joseph Losey (o de  Mr.KleinCidadão Klein, um dos grandes filmes dos anos 70) e Danilo Kîs, esse pesadelo burocrático assolou livros e filmes, pondo em xeque a identidade pessoal, a nossa preciosa individualidade, tanto quanto os direitos do mero cidadão, pois muitas vezes rimou com totalitarismo. Talvez nenhuma imagem seja tão eloqüente quanto a do subversivo (vivido por Robert de Niro) sendo literalmente aniquilado por papéis, em Brazil, de Terry Gillian.

José Saramago retomou a imaginário burocrático (desprezando a moderna tecnologia, na qual a informática, com o seu inquietante universo virtual, faz o mundo ainda mais abstrato e vulnerável do que a papelada em arquivos físicos) consagrado pelo século que está em vias de terminar. Em Todos os nomes, ele apresenta a Conservatória, uma repartição gigantesca do serviço público em que convivem, separados, os verbetes das pessoas que nascem e os das pessoas que morrem. Os corredores dos mortos formam um labirinto e é preciso levar um fio de ariadne para orientar-se.

O herói, chamemo-lo assim, senhor José,é um oficial de baixo escalão que mora numa casa pegada à Conservatória (e, portanto, pode entrar no edifício à noite, detalhe essencial à trama) e cujo hobby é colecionar informações sobre celebridades. Um dia, ele tem a idéia de copiar informações dos verbetes da Conservatória para enriquecer sua coleção e, por acaso, acaba tendo em mãos o verbete de uma mulher desconhecida. Desinteressando-se da sua coleção de celebridades, ele passa a infringir regras, faltar ao serviço, invadir propriedades, tudo para coligir informações sobre a desconhecida, até descobrir que ela deixou o arquivo dos vivos e foi colocada no labiríntico arquivo dos mortos (se nesse resumo parecem confundir-se a existência do indivíduo com a sua documentação, isso é decorrência do enredamento que a narrativa de Saramago faz dos dois; bizarramente, porém, em uma narrativa que se chama Todos os nomes, nenhum personagem tem nome, exceção feita ao senhor José).

Não há ninguém mais rebaixado em termos de condição humana do que esse senhor José. Trata-se de um sujeitinho insignificante, burocrática e socialmente (lembra até o protagonista do clássico O capote, de Gógol). Porém, ao investigar a vida de uma mulher que ele não conheceu, porque ela se suicida, subverte toda a sua irrelevância e dá um novo sentido à conservação da memória praticada pela sua repartição (que, na verdade, não conserva nada, transforma tudo em papel morto).

Nenhum momento da bela narrativa de Saramago deixa isso mais claro do que a noite em que o senhor José penetra no labirinto do arquivo dos mortos para resgatar o verbete da desconhecida. Nesse momento, ele deixa de ser o burocrata reles e atrapalhado para se tornar um Orfeu, descendo aos infernos em busca de sua Eurídice. Não será, aliás, a única vez em que ele vagará pelos mortos, pois Todos os nomes ainda tem uma memorável cena em um cemitério, o qual, na sua expansão desmesurada, espelha o crescimento desenfreado da cidade onde vive o senhor José. É ali que ele descobre a outra última morada da suicida desconhecida, além dos arquivos dos mortos. E descobre que, também ali, seu nome está perdido (porque um pastor tem o hábito de trocar os números das lápides):

“Tinha procurado a mulher desconhecida por toda a parte, e veio encontrá-la aqui, debaixo deste montículo de terra, fecharam-se para ela todos os caminhos do mundo, andou o que tinha de andar, parou onde quis, ponto final, porém o senhor José não consegue libertar-se dessa idéia fixa, a de que mais ninguém, a não ser ele, poderá mover a derradeira pedra que ficou no tabuleiro, a pedra definitiva, aquela que, se for movida na direção certa, virá a dar sentido real ao jogo, sob pena, não o fazendo, de o deixar empatado para a eternidade. Não sabe que mágico lance será esse, se aqui se decidiu a passar a noite não foi por ter esperança de que o silêncio lho viesse segredar ao ouvido nem que a luz da lua amavelmente lho desenhasse entre as sombras da árvore, está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar a paisagem de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sente que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões”.

Como os heróis mitológicos, o senhor José é auxiliado por forças superiores, e esse é outro detalhe surpreendente e matreiro de Todos os nomes.  Quem o ajuda é o supremo chefe da repartição, o Conservador, por motivos que é melhor deixar em segredo, apenas adiantando que esse sorrateiro personagem é um dos achados do romance.

Assim, nesse jogo entre vida e morte, memória e esquecimento, autoridade e rebelião, profanação e sagração, caos e ordem (um jogo que é também uma corda bamba perigosa entre alegoria e realismo), José Saramago mostra, mais uma vez, o dom de conduzir as palavras certas com o fio de ariadne da maestria literária para trazer à luz nossos medos e desacertos. E alguma esperança.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em  A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 1997)

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