MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/02/2015

Carmine, o Curioso e a Senhora da Ficção: “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough

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“Carmine havia acabado de completar seu primeiro ano na Universidade de Chubb quando Pearl Harbor foi atacado; então, ele postergou a faculdade e se alistou. Por puro acaso, foi transferido para a polícia militar e, depois que passou pela fase de tirar guarda e prender soldados bêbados, descobriu que amava o trabalho (…) Quando a guerra e o período de ocupação no Japão chegaram ao fim, ele era major, qualificado para completar sua formação na Chubb através de um programa de aceleração. Então, com um bom diploma embaixo do braço… ele decidiu que gostava mais do trabalho policial (…) Holloman não era grande o bastante para ter uma divisão de homicídios nem qualquer das subdivisões que as forças policiais das cidads grandes possuíam, então Carmine podia ser designado para todo tipo de crime. No entanto, assassinato era sua especialidade e ele contava com uma formidável taxa de sucesso: quase cem por cento; nem todos condenados, é claro.”

“Eu jamais teria me fixado nela se não houvesse desenvolvido tamanho fascínio por Carmine, o Curioso. Mas já que, apesar de toda a sua curiosidade, ele não é presciente… jamais me fez as perguntas que poderiam ter acionado a chave em seu cérebro teimoso.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 2015)

Falecida há alguns dias, aos 77 anos, Colleen McCullough era uma escritora que rompia fronteiras: muitos títulos de uma carreira prestes a completar quatro décadas tornaram-se best sellers (só Pássaros Feridos vendeu 30 milhões de exemplares), nem por isso menos apreciados por quem gosta de ficção que não seja mero entretenimento.

Se mesmo obras menores como A Paixão do Dr. Christian (1985)[1] ou A Canção de Troia (1998) podem ser lidas sem a sensação de desperdício de tempo, quando acertava em cheio, caso da já referida história do padre Ralph de Bricassart e Meggie Cleary (1977, seu segundo romance — a estreia se deu dois anos antes, com Tim), de Uma Obsessão Indecente (1981), do primeiro volume da notável heptalogia sobre o período pré-imperial da Roma Antiga (Primeiro Homem de Roma, 1990), ou ainda do delicioso e curto (para os padrões dela) As Moças de Missalonghi (1987) a australiana se mostrava digna da fidelidade de um leitor.

Após encerrar o ciclo Senhores de Roma, dedicou-se a desenvolver a série policial iniciada em 2006, com Liga, Desliga. A partir de Assassinatos Demais (2009), o protagonista, Carmine Delmonico, era alçado a capitão da polícia em Holloman (Connecticut); até 2013 já havia cinco de suas investigações — McCullough, lá no seu refúgio na Ilha de Norfolk, mesmo gravemente doente, continuou prolífica.

Quando um leitor mais experimentado se depara com a edição brasileira de Liga, Desliga[2], tudo parece contra o livro: embaixo do título, o apelativo “o jogo do assassino está apenas começando…”; na contracapa: “belas adolescentes estão sendo cruelmente assassinadas. Vale a pena mais um thriller de assassino em série?; ainda mais investigado por um detetive “dedicado e solitário como Carmine nos é (mal) apresentado na orelha? Mais um investigador disfuncional? Já não os há às pencas?

Ultrapassado esse estágio de má vontade, uma lida nas páginas iniciais proporcionará a primeira surpresa mcculloughiana: a identidade de Jimmy, acordando dentro de um congelador destinado aos cadáveres de animais que servem de cobaias para o Hug, renomado instituto de pesquisas neurológicas. Ali, partes do corpo de uma adolescente assassinada são casualmente encontradas. O ano é 1965 (Colleen utilizou suas experiências como neurofisiologista e o período em que viveu nos EUA) e os funcionários do Hug passam a ser os suspeitos do que se revelará uma sucessão (até então ignorada) de sequestros, estupros brutais e desmembramentos de moças de família, todas muito parecidas. Por causa da etnia (latinas, mulatas e negras), em plena época de distúrbios civis, os crimes (bem como o tipo de ciência praticado no Hug — aliás, focalizado com surpreendente ceticismo pela autora) despertam a fúria de grupos raciais militantes. Mas no centro do mistério está uma família tão marcada pela tragédia e certas taras quanto os Cleary de «Pássaros Feridos».

É gratificante acompanhar o (lento) desenvolvimento de Liga, Desliga, principalmente porque ela desilude quem procura um daqueles enredos em que os investigadores deslindam as ações e motivos dos criminosos, trocando-os em miúdo para os leitores (pelo contrário, aqui os agentes da Lei ficam “por fora” e fracassam, em larga medida). Entretanto, mesmo com todos os méritos da narrativa, caberá ao último capítulo (no qual o título se justifica), cujo único defeito é ser muito curto (poderia ser uma seção do romance), iluminar o conjunto, dando-lhe dimensão insuspeitada. Mesmo quem desconfiar da identidade do assassino levará um susto e tanto. É imperdoável revelá-la[3].

Portanto, se não tivesse escrito mais nada, a grande Colleen McCullough ainda ficaria como um dos melhores autores policiais contemporâneos. Contudo foi uma faceta a mais de uma legítima Senhora da Ficção.

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TRECHO SELECIONADO

“__ O problema é que você está neste caso há tanto tempo que já esgotou todas as probabilidades e não tem mais onde olhar, exceto para as improbabilidades.

__ Existe um viés religioso, e está ligado à raça!

__ Concordo, mas a religião não é o que interessa aos Fantasmas. O que interessa a eles é o fato de que são as famílias tementes a Deus que produzem o tipo de garota que eles querem.

__ Os Bewlee estão escondendo alguma coisa, têm de estar—Carmine resmungou.—Caso contrário, Margaretta não se encaixa.

__ Volte para o básico. Se você acha que os Fantasmas são estupradores, antes de assassinos, então você não está procurando por um fanático religioso de qualquer cor ou seita, cristã ou não. Está procurando por um homem ou dois que odeiam todas as mulheres, algumas mais do que outras. Os Fantasmas odeiam a virtude aliada à juventude aliada à cor aliada a u rosto aliado a outras coisas que não sabemos. Mas sabemos sobre a virtude, a juventude, a cor, o rosto. Nenhuma delas era totalmente branca, e nenhuma será, disso eu tenho certeza absoluta. Seu melhor grupo de amostragem é o das latinas católicas, só isso. As garotas são criadas um tanto imaturas para sua idade, estritamente supervisionadas e intensamente amadas. Você sabe disso, Carmine!… A resposta está nos elementos  básicos do caso.”

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NOTAS

[1] Cujo título original é A Creed for the Third Millennium.

[2] On, Off, que comento na tradução de Sibele Menegazzi (Bertrand Brasil).

[3] Desde O Assassinato de Roger Ackroyd creio que não há um final (e o foco narrativo) de romance do gênero que exija tanto discrição daqueles que já o leram.

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