MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2011

MINHA RAPIDINHA COM PAULO COELHO

                                  CORRE, COELHO

resenha publicada, de forma mais condensada, originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2008)

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   Após uma única e estapafúrdia experiência de leitura de Paulo Coelho (O Alquimista) há quase 20 anos, seus livros posteriores não me despertaram o mínimo interesse, embora acompanhasse seu imenso sucesso e verificasse o consenso geral sobre a ruindade da sua ficção. Todavia, O Vencedor Está despertou minha curiosidade quando soube tratar-se do seu 12º. romance. Pensei: ninguém pode construir uma carreira de escritor popular e ter no currículo onze romances anteriores… sem ter aprendido nada, sem ter desenvolvido sequer uma carpintaria narrativa básica!

    Seguindo esse raciocínio, me dispus a ler O Vencedor Está Só como já li, digamos, Morris West, o qual era considerado best seller, mas tratava de problemas espirituais da nossa época com rara engenhosidade ficcional, ou como li mais recentemente Michael Crichton, o qual, por sua vez, sempre aborda assuntos interessantes e novidades da vida contemporânea disfarçados numa roupagem de corre-corre e eventos concentrados no tempo e no espaço. Na pior das hipóteses, um Sidney Sheldon, com seu estilo vulgar, exuberante entrelaçamento do folhetinesco e do sórdido, da tríade imbatível: sexo-riqueza-poder.

Paulo+Coelho+-+O+Vencedor+est%C3%A1+s%C3%B3+-+Romance

    O romance de Paulo Coelho tem um perfeito esquema narrativo, dentro das fórmulas tradicionais, com o acréscimo do ingrediente da globalização: concentra-se em 24 horas em pleno festival de Cannes. Um mega-empresário da telefonia, o russo Igor, comete vários assassinatos numa represália (que vai se tornando psicótica) longamente planejada contra a esposa que o abandonara dois anos antes, Ewa, ora casada com um consagrado estilista árabe, Hamid, este embarcando na sua primeira produção cinematográfica. Os crimes de Igor acabam fazendo dele um involuntário anjo exterminador do mundo do cinema, colocando-o no caminho de uma candidata a estrela, Gabriela, contratada justamente para o filme produzido por Hamid (aliás, o astro do filme é uma das vítimas). Temos o topo da cadeia alimentar da indústria cultural: cinema e moda (outra personagem importante é uma modelo negra, Jasmine, que Hamid deseja ter como a “cara” da sua marca).

    O que estraga O Vencedor Está Só e o impede de ser um simples e ótimo entretenimento bem montado no seu entrecruzar de trajetórias diversas é que Paulo Coelho quer fazer um comentário sombrio sobre a nossa época midiática e devorada pelo culto às celebridades e pela sociedade do espetáculo.

    Sem contar citações inúteis de versos, provérbios e parábolas (há até um momento hilário em que ele insinua uma citação velada de Pessoa: Gabriela vê uma tabacaria e uma pequena comendo chocolates), as informações cretinas enxertadas da maneira mais chinfrim no meio do texto, que parecem zombar da inteligência do leitor (o casal Igor-Ewa, no passado, janta fora e Coelho discute o uso do termo champagne: “O uso da palavra foi proibido por causa das chamadas reservas de domínio: champagne era o vinho branco com determinado tipo de bactéria que através de um rigoroso processo de controle de qualidade começa a gerar gases na garrafa à medida que envelhece por um mínimo de 15 meses —o nome referia-se à região em que era produzido…” etc etc), as aproximações esdrúxulas (como o russo Igor que monta um exército para interferir na guerra civil em Ruanda!!??) só para mostrar que está tudo ligado, os investigadores de araque (locais e aposentados da Scotland Yard) que aparecem na história (eu adoro particularmente quando eles destilam o que Coelho designa como “cultura” e “erudição” e parecem mais a Velma do Scooby-Doo), e isso tudo poderia passar em branco e ser aceito no esquema geral “entretenimento” e “diversão sem compromisso”; não, o que realmente compromete a narrativa é que o texto não se limita a representar ficcionalmente a cultura da superfície, da imagem: ele (con)funde os pensamentos das personagens e o discurso do narrador em dissertações moralizantes. E assim a trama tropeça na pregação, que torna óbvio o que poderia estar implícito no próprio desenrolar da intriga e nas obsessões das personagens.

    Assim, o próprio Coelho corre, cresce e, em crise, cai sabota seu livro. Não dá nem para dizer que é uma auto-ajuda disfarçada;  parece mais um resgate anacrônico e involuntário, para aquém de Sheldon & Crichton, do estilo de best sellers mais antigos, como Grande Hotel, de Vicki Baum, nos quais, concentrada a ação no tempo e no espaço, se tentava uma síntese didática similar dos males do materialismo.

    No fundo, ainda é sempre o mundo das “ilusões perdidas” balzaquianas, mais do que o retrato moderníssimo que o autor pretendia. Só que, felizmente, está longe do horror que eu imaginava.

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