MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/08/2012

A era tardia do homem europeu e seu possível renascimento

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de maio de 2003)

Outro livro de Hermann Hesse reaparece nas livrarias: O último verão de Klingsor  (1920). Na narrativa-título (no original, Klingsor´s letzler Sommer)—há mais duas—pode-se ler: “Diziam: é esse o homem, ecce homo,o homem cansado, selvagem, infantil e refinado de nossa era tardia, o homem europeu moribundo e que quer morrer, retesado por todos os desejos, enfraquecido por todos os vícios, entusiasmado com a consciência do seu declínio, pronto para qualquer progresso, maduro para qualquer retrocesso, submetendo-se à dor e ao destino como um morfinômano à sua droga, ao mesmo tempo Fausto e Karamázov, animal e sábio… cheio de medo infantil da morte e de uma cansada disposição para morrer”.

     A partir de certo momento, Hesse dedicou-se a narrativas que diagnosticavam o estágio espiritual crítico da Europa pós-Primeira Guerra e que, além disso, montavam uma espécie de Teatro do Eu, projeções expressionistas do enredo em cenários fantásticos, onde os personagens enfrentam suas cisões internas, criadas por princípios dicotômicos. É o caso de Demian, de Klingsor, de Viagem ao Oriente, de O lobo da estepe. E obras que ensaiam uma tentativa de conciliação de forma mais explícita e quase didática (ou antes, pedagógica, para utilizar uma expressão goethiana), como Narciso & Goldmund  e O jogo das contas de vidro (as supremas obras de Hesse).

Para isso, ele teve de matar—num determinado sentido—o artista que havia sido, autor de romances mais tradicionais como Rosshalde (1914), cujo protagonista é um pintor, assim como Klingsor, que morrerá aos 42 anos, após um intenso verão mágico, no qual se interpenetram impasses artísticos, fantasias e aspectos pessoais deformados. Sua última obra será um auto-retrato perturbador. Klingsor tem que morrer para Hesse renascer como artista e renovar seu estilo. O texto também é uma espécie de tomada de posição modernista do grande escritor alemão diante da forma tradicional do relato. Não é à toa que Klingsor reaparecerá transfigurado num dos seus livros mais originais e arrojados, Viagem ao Oriente.

Outro texto poderoso do livro é Klein e Wagner (no original, Klein und Wagner), no qual o “teatro do Eu” que o protagonista tem de enfrentar já prefigura o Teatro Mágico (só para raros e loucos) de O lobo da estepe. Após anos de uma vida medíocre com uma esposa que não suportava, Klein comete um desfalque e foge para a Itália, o sonho romântico dos alemães. Lá se envolve com uma mulher de vida duvidosa, apaixonada pela jogatina, e confronta-se com o dilema da sua existência e dos personagens hessianos típicos: a fragmentação.

O nome Wagner que aparece no título alude tanto ao grande compositor (pelo qual Klein e seu autor mantêm sentimentos ambivalentes de reconhecimento e desprezo) quanto a um assassino famoso, que massacrou a família e que se torna uma espécie de alter ego para Klein.

O texto encaminha-se para uma das duas soluções extremas que desde o início apareciam como acordes dissonantes na libertação de Klein da mediocridade burguesa: assassinato ou suicídio? Hesse, entretanto, surpreende ao fazer do final uma versão ocidental da iluminação de Sidarta: “A única diferença que havia entre a velhice e a mocidade, entre Babilônia e Berlim, entre o bem e o mal, entre o dar e o tomar,a única coisa que enchia o mundo de diferenças, valores, paixões, contendas e guerras era o espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano na fase da mocidade turbulenta, ainda longe do conhecimento, ainda longe de Deus. O espírito humano inventava contradições, inventava nomes. Chamava algumas coisas de belas, outras de feias e para ele algumas coisas eram boas e outras más. Uma parte da vida era chamada de amor, outra de assassinato. Como era jovem, leviano e cômico esse espírito!”

Quanto ao terceiro texto, Alma de criança (no original, Kinderseele; como os outros, traduzido por Pinheiro de Lemos), o qual lembra uma parte de Demian, é um dos mais belos já escritos sobre a angústia, além de ser um ajuste de contas com a figura paterna, coma qual Hesse sempre teve problemas (ele dizia que sua “fonte” era materna). Nele, é narrada uma transgressão: o filho entra furtivamente no quarto paterno, de onde rouba algumas coisas, aguardando depois a sanção inevitável. Se tomarmos como verdadeira a afirmação de que “o menino é pai do homem”, então Alma de criança é o preâmbulo perfeito para se conhecer o universo de Hermann Hesse e de seus principais personagens.

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