MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/10/2012

A MARAVILHOSA VIDA LONGA DE DORIS LESSING

Filed under: rapidinhas — alfredomonte @ 12:45
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Hoje, 22 de outubro, é aniversário de Doris Lessing, num determinando sentido o autor mais importante na minha trajetória de leitor, e ainda hoje uma das (re)leituras que mais encanto me trazem à minha vida. Por nenhum outro motivo, exumando algumas coisas antigas, extraí de 2007 observações ligeiras sobre dois textos dela que li naquele ano (em que ela ganhou o Nobel)[1] Não são nada demais, é só para a data não passar em branco, ainda mais depois da morte de Autran Dourado (em 30 de setembro), outra companhia diária por anos e anos, em agradecimento a tudo o que ela já me proporcionou desde 1982, quando a li pela primeira vez.

Quando se começa a ler O sonho mais doce, de Doris Lessing, é-se projetado de imediato no mundo dela, nas suas obsessões, essas mulheres que são cercadas por gente o tempo todo, essas dependências que se criam dentro das grandes casas[2] (e também a sobreposição de perspectivas—como um fato ou gesto poderia ser interpretado anos depois).

Por isso mesmo, o livro pode trazer ao apreciador da estupenda escritora inglesa, a sensação de déjà vu. No entanto, como não admirar o verdadeiro poder simbólico que ela conferiu à mesa da casa de Julia, que reúne as características de comunhão e proteção, opostas à dispersão, além da fartura (oposta ao abandono e à penúria); e enfim, é um apelo à unidade (oposta ao desmantelamento de todos os valores) e à fraternidade (oposta ao egoísmo intolerável dos que “sonham com a comunhão” e amam uma “humanidade futura”, ainda totalmente inexistente):

“Na cozinha, Colin acomodou Sylvia em volta da mesa, a MESA , de novo ampliada  para sua capacidade máxima (…) [Sylvia] Estava deprimida; Londres às vezes tem esse efeito em londrinos que estiveram fora e que, enquanto morava ali, não faziam muita ideia do peso, das numerosas dádivas e capacidades da cidade.Londres, depois da missão,  estava lhe dando um murro mais ou menos na região do estômago. É um erro ir muito depressa de, digamos, Kwadere, para Londres; antes, é preciso passar por alguma coisa equivalente a uma câmara de descompressão”.

Se a princípio parece fadado a ser um livro mais mais fraco entre os romances realmente longos de Lessing, O sonho mais doce cresce alucinantemente na sua centena de páginas final, apesar de haver uma certa falta de empatia com a personagem dominante nesse passo [Sylvia].

Pensado bem, o romance tem um movimento  de se abrir para o mundo e ao mesmo tempo de fazer as personagens sempre voltarem a certas constantes  [a mesa mítica, por exemplo],que o faz um inesperado irmão das histórias de John Irving (como Hotel New Hampshire  ou As regras da Casa de Sidra). No final, remontamos a Dickens, acompanhando gente que cresce, se afasta e “ganha o mundo”, mas sempre se reencontra.

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[1]  Eram textos que ainda não conhecia (demorei um pouco para ler O sonho mais doce, achando que seria a última obra dela, e queria guardá-lo ainda um pouco mais, como se fosse um amuleto para que ela continuasse entre nós—e não é que, ela hoje está completando 93 anos ?)– hoje o meu exemplar de Alfred e Emily é que faz essa função dentro do meu pensamento mágico; no início de 2007, eu relera O carnê dourado por conta de um curso sobre Cortázar; numa das aulas, fiz  uma leitura comparativa entre a obra-prima de Lessing e O jogo da amarelinha.

[2] As avós, a obra seguinte (bem mais curta, com um quê de Henry James na sua fusão de uma narrativa quase mundana e polida com um sopro de crueldade e perversidade) bagunça o coreto: são mulheres que centralizam a vida à sua volta, mas com um propósito bem definido: criar um “nós” entre elas e os filhos (que se tornam amantes), estabelecendo uma linha divisória com o “eles” (o resto do mundo, mesmo que sejam eventuais maridos e esposas).

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