MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/10/2016

“O Sol Vinha Descalço”: O óbvio e o raro na poesia de Eduardo Rosal

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos, em 04 de outubro de 2016)

Como conhecer Deus/e participar da vida? ”. Geralmente, tenho um pé atrás com poesias sobre uma genérica condição humana, desatrelada das contingências, da nossa “situação” especifica no mundo. Por isso, foi uma imensa surpresa a leitura de O SOL VINHA DESCALÇO (Editora Reformatório), de Eduardo Rosal, que recupera o teor meditativo e metafisico de uma Hilda Hilst ou de um Carlos Nejar (para mim, o maior poeta brasileiro vivo); não esquecendo Adélia Prado (só que ela trabalha mais explicitamente com signos do catolicismo ligados às contingências do cotidiano).

Rosal utiliza o verso interrogativo, perseguindo os rastros de Deus e o porquê do nosso existir. É a parte mais marcante da sua coletânea: “Somos solitários míopes/mendigando o mesmo espelho?/o mesmo espectro? ”. O ponto alto dessa interrogação incessante é o poema Deuses do qual tirei os versos que abrem esta resenha. Em todos, o mesmo objetivo obsessivo: “viajar de volta/ao fim/tão bem desconhecido”. Ou seja, uma viagem sem mapas pela galáxia da finitude do ser (para lembrar o saudoso Léo Gilson Ribeiro): “Nem onde/nem sina”.

Outra vertente muito cara ao modernismo em geral, e que poderia cair na banalidade epigonal, é a exploração da memória afetiva, especialmente da infância. Mesmo aí, O SOL VINHA DESCALÇO demonstra grande força imagética: “A memória é uma ilha/cercada de futuros”. Sol, sombra, fumaça, são invólucros para o exercício de rememoração, além do confronto com a divindade que nos marca com a morte: “A terra na mão/o menino brinca/gerações/e gerações/o silêncio/sabe de cor//Terra—/memória/que não esqueço/de apertar”. O menino tenta segurar os seus bens humanos diante do fato estrondoso de que somos irremediavelmente efêmeros: “Há um deus que/me persegue/com a morte no calcanhar/numa esquina qualquer/desiste/sem curvar a espinha/ao medo/me deixa passar/cede minha vez/a outro deus/(ou me ama?)”; ou ainda: “Para retornar ao pó/é preciso ser carne//O menino talvez tenha lido ou escutado//Guardou bem”.

Eduardo Rosal, apesar de jogos de palavras bastantes eficazes (“Amor—ternura política”, vejam que achado genial!), pratica uma poesia do “significado”, embora hoje em dia ainda se valoriza mais a poesia do “significante”, por conseguinte é maior ainda o seu feito: “Ser só/este rascunho/de fracasso?/um terraço/onde o sol não bate?”.

Que não se enganem: sou todos//Nenhuma mudança me alcança/mas sou sempre outro//”, versos que lembram Fernando Pessoa. Mas com Eduardo Rosal é assim: mesmo lembrando outros poetas, ele se mantêm inteiramente pessoal, equilibrando apaixonadamente o óbvio e o raro: “Talhar o que escapa/inscreve o risco?/É óbvio e raro?//Ao passo que emerge/foge? E pressente/o passado?//Natimortos, vingamos/nas imagens – voláteis?/Depois da morte?//A fumaça se escreve/à nossa imagem/e semelhança?”.

O SOL VINHA DESCALÇO é um dos melhores livros deste início de século.

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