MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/11/2013

A moralidade de best seller de Rubem Fonseca

 

José Joaquim Kibir é um ex-seminarista (adora citar frases feitas em latim) que resolve se aposentar. Até então, era um assassino profissional, o Especialista, cujo contratante ele conhecia como o Despachante. Só que um dos sujeitos que ele executou tinha em seu poder um CD comprometedor com relação a um tal Ziff, figurão da sociedade (recebido pelo presidente sem que precise marcar audiência), detalhando sua participação no narcotráfico, e por isso, tanto José quanto o Despachante, e mais a filha deste (Kirsten), por quem o primeiro se apaixona, estão marcados para morrer. José procura a ajuda de um ex-colega de seminário, D.S., um importante editor, enquanto investiga a situação na qual vai ficando cada vez mais implicado (há alguns crimes dos quais ele é o principal suspeito), tentando permanecer vivo, constantemente mudando de esconderijo, com Kirsten, após o assassinato do Despachante…

Além de ter nascido no mesmo ano (1925), Rubem Fonseca tem em comum com Dalton Trevisan a maestria no conto. Lamentavelmente, em algum momento aziago da sua (e para a nossa) vida, ele decidiu que também era romancista. E o admirador da sua formidável obra como contista (A coleira do cão, Feliz ano novo, O buraco na parede) teve então de aturar textos bisonhos e ruins como O caso Morel, A grande arte, Bufo & Spallanzani, Vastas emoções e pensamentos Imperfeitos. Eu desisti de ser masoquista, após ler Agosto. Deveria ter mantido minha decisão, já que seu novo romance, O seminarista, é tão irritante e frustrante quanto os outros. Parece escrito por um imitador inepto dos piores defeitos de Rubem Fonseca, ou por um imitador iniciante, que não tem a própria voz e não sabe o que quer.

Eu não vejo necessariamente como um problema um texto trazer informações eruditas ou discussões intelectuais. Mas, e esse é um vício recorrente nos romances anteriores (e, sejamos honestos, até nos seus contos menos felizes), desde as citações latinas, até a leitura compartilhada de alta poesia pelo ridículo casal José-Kirsten, sem falar na rotina do seminarista-matador profissional (que percorre sebos e assiste filmes de Kuruosawa, Fellini ou Kubrick), o que aparece de “intelectual” em O Seminarista é uma perfumaria rasa, que só torna a história mais fraca e irreal. E previsível: qualquer pessoa, menos o idiota do herói-narrador, percebe de cara que o verdadeiro vilão da história é o mascarado amigo D.S, e não o suposto Ziff.

Não bastasse isso, há também o fato de que os antecedentes familiares de Kirsten (que é alemã) nunca poderiam ser “prosaicos”. Assim como os que fazem regressão a vidas passadas, e descobrem que foram Cleópatra, Napoleão ou Ivan, o Terrível, o avô da dita cuja não poderia ser ninguém menos do que um participante da Operação Valquíria contra Hitler (aquela mesma do filme com Tom Cruise). Quando comecei a ler “Meu avô era um jovem oficial da Wermacht, primeiro-tenente, em 1944. Fazia parte do staff do coronel Claus Von Stauffneberg, e participou da chamada Operação Valquíria”, eu, que já não estava levando o texto a sério, matei a charada: Rubem Fonseca está tão seguro na sua posição de  “medalhão” que não tem mais o menor pudor de escrever qualquer besteira que lhe ocorra. Vejam a inútil passagem (num romance de apenas 180 páginas) em que o dono de um restaurante descreve seu cardápio: Estão todos muito bons, disse o seu João com  um forte sotaque, mas o bacalhau à Gomes de Sá eu mesmo preparei; comecei ontem, pu-lo de molho numa bacia de água, trocando a água seis vezes, depois escorri o bacalhau, retirei-lhe as peles e as espinhas e desfi-lo em pequenas lascas que coloquei numa panela funda, cobri-a com leite bem quente e deixei ficar em infusão por três horas. Enquanto isso, cortei as cebolas em rodelas e o dente de alho e levei a alourar ligeiramente numa frigideira de ferro com um trisco de azeite, até que ficassem translúcidas e levemente amarronzadas, em seguida juntei as batatas, que haviam sido cozidas com a pele e depois peladas e cortadas também em rodelas, e juntei o bacalhau escorrido, mexi tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar, temperei com sal e pimenta, coloquei num tabuleiro de barro e levei-o a um forno bem quente durante quinze minutos, o Joaquim deixa ficar vinte, mas eu prefiro quinze minutos, com o forno a duzentos graus...”etc, etc e etc… Se ele ainda estivesse fazendo um painel oitocentista e balzaquiano da sociedade brasileira, concorrendo com o registro civil…

Ele continua tentando satirizar os novo-ricos. Só que os cacoetes de classe alpinista, ostentações, tudo o que supostamente desmascara neles é justamente o que ele demonstra como escritor. Quando satiriza uma personagem que fala da sua adega chique um texto decorado e kitsch, ele está descrevendo o seu próprio estilo: “Perguntei-lhe qual o vinho branco que devia comprar para acompanhar aquelas iguarias… podia ser um Riesling, mas tinha que ser dos melhores, ou então, se eu optasse pelo tinto,  um Spätburgunder,  cuja origem eram cepas Pinot Noir que importaram da Borgonha. Não foi fácil achar esses vinhos,  aqui, quando se toma branco alemão há o costume de tomar o Liebfraulmich, raramente bom, e os tintos são difíceis de ser encontrados.” etc, etc e etc.

E, diga-se de passagem, que ricos e poderosos são esses do livro, que não convencem ninguém? Parecem mais caricaturas de personagens de Orson Welles. Só para dar uma idéia da completa ausência de senso de realidade de O seminarista, basta citar um trecho da incursão de José Joaquim Kibir no apartamento de uma viúva, que serve como “casa de encontros”: … fingindo que prestava atenção ao que ela dizia, enquanto olhava as pessoas no salão. Alguns contatos ainda estavam na fase dos prolegômenos, mas outros haviam sido estabelecidos com tal rapidez que casais acordantes já se retiravam discretamente. E as mulheres não eram evidentemente garotas de programa, se não todas, pelo menos na maioria eram donas de casa ricas e enfadadas em busca de um enredo romanesco que acrescentasse um pouco de elã às suas vidas.”!!!! “Donas de casas ricas e enfadadas em busca de romance”: ele deve estar lendo o mundo atual com os olhos da Jacqueline Susann de O vale das bonecas ou de Harold Robbins. Rubem Fonseca chegou à moralidade dos best sellers. Pior para nós.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de primeiro de dezembro de 2009)

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/quitutes-do-caldeirao-do-bruxo/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/o-genial-rubem-fonseca-dos-primeiros-tempos/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/amalgama-um-rubem-fonseca-pifio-para-50-anos-de-carreira/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/24/parcas-emocoes-e-romances-imperfeitos-a-fastidiosa-ficcao-longa-de-rubem-fonseca/

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