MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/08/2011

O MESTRE DE EDIMBURGO

SOBRE ALGUMAS RELEITURAS E TRADUÇÕES DE STEVENSON

O belo (apesar de alguns pecadilhos) O segredo de Mary Reilly, de Stephen Frears, realizado quase que com a mesma equipe (o roteirista Christopher Hampton, o fotógrafo Philippe Rousselot, o músico George Fenton, John Malkovitch e Glenn Close no elenco) de Ligações perigosas, revisita um dos maiores clássicos do século XIX, conhecido no Brasil como O médico e o monstro.

O livro de Robert Louis Stevenson tem pelo menos três traduções recentes e acessíveis (a melhor edição foi há alguns anos, pela Nova Fronteira, com tradução de Rodrigo Lacerda, que não comentarei aqui): a de Lígia Cademartori (pela FTD), a de Helóisa Jahn (pela Ática) e a de Edla van Steen (pela Scipione).

Mary Reilly não aparece no livro original (o filme de Frears tem como base um romance de Valerie Martin). Quem assistiu ao filme (no qual ela é interpretada por uma Julia Roberts com cara e fragilidade da Mia Farrow de O bebê de Rosemary) sabe como é uma personagem impressionante. Na narrativa de Stevenson (publicada em 1886), quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é outro personagem admirável, o severo Mr. Utterson, advogado do doutor Jekyll. Ele fica intrigado e constrito com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, o qual vai se tornando cada vez mais arisco e misantropo, trancafiado em seu laboratório.

Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões (pois a breve narrativa é bem complexa), Utterson descobre que Jekyll e Hyde na verdade são a mesma pessoa e que Hyde aos poucos vai preponderando sobre a personalidade de Jekyll, além de cometer crimes mais e mais perversos.

O romance de Stevenson é genial. Em primeiro lugar, por ter antecipado Freud e a psicanálise ao demonstrar que todos nós temos uma porção irracional que só quer satisfazer seus desejos, não conhecendo nenhuma amarra moral (a não ser o medo da autoridade= prisão, punição), e que essa porção convive com o nosso verniz civilizado. Em segundo lugar, pela maneira como vai oferecendo os fatos ao leitor, de uma forma tão fragmentada quanto a própria personalidade de Jekyll. Esse, aliás, sempre foi o problema das adaptações cinematográficas (e nem a versão de Frears escapou nesse quesito), as quais sempre pecaram por estragar esse requinte de construção narrativa, preocupadas em mostrar a transformação de Jekyll em Hyde.

O mérito de Mary Reilly é fazer o leitor conhecer a história por dentro, através do olhos da seduzida Mary Reilly, num grande exercício de sutileza. Vista pelos olhos de Utterson, a história da dissociação de Jekyll em Hyde podia chocar a época vitoriana, como se fosse uma monstruosidade que surgisse numa sociedade sadia e estável, bem representada por um advogado cheio de valores éticos e apegado às formalidades legais. Vista pelos olhos de Mary, que desde criança conhece o mal que sustenta a própria sociedade, por sua condição servil, não é à toa que a monstruosidade latente em Jekyll e encarnada por Hyde hipnotize a melancólica criada: ela já conhece o avesso de uma sociedade tão obcecada pela moral aparente, pelo senso de dever, mas completamente carcomida pela miséria e pela hipocrisia.

Quanto às traduções, a de Liga Cademartori, embora premiada, peca por detalhes (colocar colégio em lugar de universidade; farol, absurdamente, no lugar de lampião de postigo) e por trechos incompreensíveis. Na cena em que Hyde pisoteia uma menina, as outras duas tradutoras consultadas para esta resenha, colocaram o seguinte: “Segundo o doutor não havia nada de grave com a criança, era principalmente susto” (Heloisa Jahn); [a menina] que tinha ficado mais assustada do que machucada—assegurou o médico” (Edla van Steen). Cademartori coloca: “A criança não era a mais assustada, de acordo com o médico”. Erro de revisão ou de interpretação do trecho?

Também insólito, por outras razões, é o trabalho de Edla Van Steen, que faz parte da bem sucedida série “Reencontro”, que apresenta para o leitor escolar condensações de obras clássicas. Acontece que, a não ser por pequenos trechos, van Steen praticamente mantém intacto o texto de Stevenson. Por que colocar, então, como condensação e por que esses cortes tão insignificantes, mas imperdoáveis, já que desnecessários? e já que ela apresenta um resultado tão bom?

Talvez, feitas as contas, a mais correta seja a de Heloísa Jahn, apesar da horrível edição da Árica (por que eles acham que seu público-alvo gosta de feiúra, de ilustrações chinfrins?).

De todo modo, seja pelo olhar de Mr. Utterson, seja pelo olhar dilacerado e dilacerante de Mary Reilly, o estranho caso do dr. Jekyll e do sr. Hyde é um clássico obrigatório.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 20 de agosto de 1996)

FREUD EXPLICA

    Com seu gosto pelo umheimlich (o sinistro, o estranho), que estudou no grande escritor alemão E.T.A. Hoffmann (O Homem da Areia), Freud com certeza apreciaria O médico e o monstro, enfim reconduzido no Brasil ao seu titulo correto, O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, em sua nova versão (na verdade, uma tradução fraca de Fábio Cyrino para a discutível editora LandMark

Esta novela (publicada em 1886) é um dos meus textos prediletos. Eu o colocaria em qualquer lista dos dez melhores do século XIX. Aliás, é preciso enfatizar o gênio de Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de obras-primas como O clube dos suicidas e O morgado de Ballantrae (e por que não A ilha do tesouro?).

Todo mundo sabe atualmente que o Sr. Hyde é o Dr. Jekyll. Quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é o severo e admirável Mr. Utterson, advogado do cientista, o qual fica intrigado e escandalizado com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, agora recluso e insociável. Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões, Utterson acompanha um processo em que a porção Hyde prepondera cada vez mais e comete crimes mais e mais perversos, embora acabe revelando um ser desamparado, infantil e patético no final, acuado no laboratório do Jekyll.

Hyde representa o que Freud caracterizou como “retorno do reprimido”, a manifestação dos impulsos inconscientes na consciência que até o século retrasado parecia soberana de nossa mente e da nossa personalidade, tida como unívoca. Stevenson intuiu essa ilusão tão precisamente que até a maneira como os fatos vão se oferecendo ao leitor refletem a fragmentação da identidade do protagonista, abalando os alicerces morais e éticos do vitoriano Utterson: “agora sua imaginação também estava envolvida, ou melhor, escravizada… a figura nessas fantasias assombrou o advogado a noite toda; e se chegava a adormecer, ela surgia rapidamente, movendo-se de um modo furtivo… ou rapidamente, muito rápido, a ponto de rodopiar, através dos vastos labirintos da cidade, a cada esquina pisoteando uma criança e deixando-a a gritar. E ainda que a figura não tivesse rosto pelo qual pudesse ser reconhecido, pois mesmo em seus sonhos ele não adquirira um fisionomia, ou quando o possuía era embaçado e se evaporava diante de seus olhos; e assim era que se espalhava e crescia na mente do advogado, com uma força singular, uma curiosidade quase exagerada de contemplar as feições do verdadeiro Senhor Hyde”.

Esse desejo de Utterson de confrontar o “vilão” que oprime seu amigo é muito natural. Utterson representa as forças da ordem, da razão, da repressão (o princípio da realidade). Hyde representa o irracional, o princípio do prazer assumido sem amarras morais ou considerações éticas, e deveria ficar mesmo “hyde” (escondido), não aflorar pelas ruas da maior metrópole do mundo, o coração da civilização.

(resenha publicada em 6 de dezembro de 2008)

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