MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/07/2015

Manhãs de névoa, névoa de palavras, teatro de sombras: o inventário de ausências de Krishna Monteiro

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«Peço a vocês que deixem de lado, ao menos durante este curto espaço de tempo em que conversamos, qualquer traço de ceticismo. Proponho, em lugar disso, que se lembrem dessas vozes inesperadas que de quando em quando nos chamam pelo nome…» (Krishna Monteiro)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de julho de 2015)

Uma entidade (o Demo?[1]), expulsa por «um mundo povoado por criaturas racionais», é convocada para palmilhar encruzilhadas no coração arcaico do país, junto a um tal doutor Rosa, estabelecendo um pacto, após o qual, tendo junto a si as laudas de Grande Sertão: Veredas (cujo protagonista, como se sabe, procurava decretar cabalmente a inexistência do Tinhoso), dá-se conta de que «já não mais morava em meus aposentos, e sim no interior, nas entrelinhas do texto que ele, o médico, me confiara no topo da montanha. Percebi que, revestido, aninhado, envolto pelo cobertor daquelas páginas, eu habitava o ser, o cerne delas, as palavras».

Eis uma das linhas de força de O Que Não Existe Mais, reunião de sete relatos (entre eles, As Encruzilhadas do Doutor Rosa). Os personagens do paranaense Krishna Monteiro padecem de um quebranto, um encantamento (no sentido mesmo dos contos de fada): a certa altura, o curso da vida estanca, enrodilha-se, e eles são habitados por coágulos do tempo, instantes, seres e vozes obsedantes: «…ainda não poderei terminar este relato, dizendo: Encerrado, ponto final, tu não existes mais. Não… tu e eu estamos  encerrados aqui, nesta história, e o curso destas linhas deve prosseguir»[2], lemos no conto-título, confronto de um filho com a presença fantasmática do  pai morto (o livro até poderia se chamar “inventário de ausências”) na casa ancestral; em Quando Dormires, Cantarei, um galo de briga, em plena rinha, rememora vislumbres de sua existência doméstica; em Monte Castelo, a experiência na Segunda Guerra do avô do narrador—com o qual ele tinha forte ligação—imbrica-se e confunde com uma disputa que cindirá a família; em Alma em corpo atravessada, vem à tona uma infância pontuada pelo ritmo de certas histórias.

Figuras tutelares representam a descoberta enciclopédica do mundo (aliás, um evento literal em Monte Castelo), um alargamento da imaginação e da sensibilidade[3]; em contrapartida, essas mesmas figuras encontram-se no olho do furacão de mudanças abruptas, e metamorfoseiam-se em nêmeses de estagnação, ou “âmbitos cerrados como um sonho” (há um conto narrado pelo gato de uma suicida que tem esse título—extraído de um verso de Borges), manhãs de névoa, névoas de palavras, teatro de sombras, um universo primordial marcado por atavismos, que vão do galo cantando ao amanhecer («puxava para fora dele algo que sempre existira: um querer, uma força ancestral, um estremecimento adormecido») à rinha de mulheres em rixa («A violência que desde sempre engolfou a ambas parecia ser mais poderosa do que seu desejo de tranquilidade e paz. Parecia derivar de correntes profundas, leis imutáveis, arcanos mais fortes do que a vontade»). A existência como narrador, num presente embaciado, cercado pelo silêncio ou pelo alarido, sempre começará numa ruptura da linguagem até então compartilhada: «E foi a partir daí que outro léxico, que uma língua desconhecida se revelou».

Nesse agônico continuum entre viver e narrar[4], esgueira-se uma solução de continuidade: a necessidade de purificação, de limpeza (um exemplo, entre muitos:  «Livrando-me de tudo de impuro que resta em mim»[5]). Talvez por isso, apesar do esmero da sua prosa, muito acima da média (e daí a abundância de citações[6]), Krishna Monteiro em alguns momentos, e nos contos mais fracos (a meu ver, Um âmbito cerrado como um sonho e O Sudário) passa ao leitor a sensação de um virtuosismo um tanto gélido, um texto “bonito” em excesso, para o qual um quê de “impureza” não faria mal.

Ainda assim, com pelo menos três narrativas dignas de nota (As Encruzilhadas do Doutor Rosa, Quando Dormires, Cantarei e Monte Castelo[7]), sem falar na qualidade geral da coletânea, O Que Não Existe Mais representa a estreia de um escritor em quem devemos ficar de olho.

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NOTAS

[1] Embora possamos tomá-la também pelo Leitor—se pensarmos neste último como figura simbólica, igualmente pactária com a narrativa.

[2] «… se eu fosse, hoje, tecer o fio do relato do período que passamos juntos…[…] as histórias  narradas não pela boca, pelo corpo, pelas mãos e pelo rosto dela, mas sim por sua herança e por seus artefatos, tudo o que compunha sua casa… pois objetos narram…a narrativa vedada, inconclusa; o verbo que à mulher faltou, o fluxo que tanto perseguiu…», lemos em Alma em corpo atravessada.

[3] «…E Conceição mostrando, falando e ensinando nomes, descerrando e catalogando o mundo…»

[4] Fiz um “apanhado” de trechos de Monte Castelo que enfatizam esse aspecto:

«…hoje lembro claramente[…] Hoje recordo, hoje sei[…]à medida que preencho com palavras esta folha em branco, fazendo de alguma forma as pazes com aquela velha seca e dura, concluo que ela, por vias tortuosas, estaca certa: pois algumas coisas que seu marido e eu presenciamos tocaram a fímbria do sagrado[…] Entro na casa com meu avô e as encontro na lembrança[…] Sua visão — penso hoje — me lembra talvez a de uma única mulher cindida[…] E hoje, ao relembrar uma das últimas épocas da minha vida em que vi meu avô, sinto-me a escavar meu passado como um arqueólogo que remove camadas e camadas de cinza vulcânica,  e descobre, fascinado, a cada metro que se aprofunda, ruas, palácios, mercados e praças de uma imponente cidade romana; mas que, no interior de suas construções, também tropeça em corpos rígidos, retorcidos, duros como pedra[…] Há limites para a coragem. A minha não é tão grande a ponto de eu reproduzir, aqui, o teor de tudo o que foi dito, quando finalmente se falo[…]Começara. As armas, os instrumentos, os mecanismos de execução daquela guerra foram elas, as palavras.  Até hoje, por vezes, algumas daquele tempo ainda emergem em mim: ocupam espaços que descuido em deixar desabitados[…] nada é muito claro para mim mesmo hoje[…] Um dia destes, velho, escrevi como tu fizeste uma pausa em teu relato neste ponto, tomando fôlego[…] este mesmo nome que escrevo—ou relembro—agora[…] Hoje, à beira de meus quarenta anos, lidando com meus próprios medos[…] E agora, velho, quando tudo terminou, e eu trabalho até tarde, lutando  contra as frases, recordando que naquele dia, após o enterro de minha mãe e à sombra das árvores que velavam as alamedas, eu lhe perguntei detalhes sobre o desfecho do ataque[…] E hoje, quando  transformei a escrita numa fuga, ou num esboço de ofício[…] pois recordar não é lembrar o que, tantas vezes, nunca existiu?[…] Hoje, quando escrevo, e penso, e recrio…»

[5]  Talvez a formulação mais explícita seja o clímax do seguinte trecho, de Alma em corpo atravessada:

«Porém, na cena  que a tudo poria termo, percebemos algo errado: outra fala parecia insinuar-se na fala dela, impedindo-a de concluir a história em que tanto se empenhara, conduzindo-a por outras trilhas, desvios, rumos, fazendo com que aquela dicção tão forte e clara que admirávamos se tornasse quase nula; e, logo depois,  que crescesse em volume e amplitude, a ponto de se assemelhar a gritos; ela falava de outro jeito; era outra a que falava; ela falava, declamava como um leito desviado de seu curso e cuja água se encorpa e revolve e rebela e torna turva, falava alheia a nós, às paredes, às panelas,  às prateleiras e à luz, aos fachos desviados por suas mãos que folheavam o ar à semelhança de quem manuseia um livro, mãos que pareciam tentar tocar a superfície de uma língua estranha que mais uma vez se ouvia; eram claros seus esforços, era nítido seu empenho; e a tal ponto com eles nos comovíamos que junto e aos pés dela nos embrenhamos confins da noite adentro, testemunhando sua insistência, suas negativas em calar-se, até que o cansaço pareceu falar mais alto, e ela despertou como de uma queda brusca e tomou um lápis, escreveu duas ou três linhas, preparou um bule de café, sorvendo-o em longos goles. Exaustos, dormimos sobre a mesa, sem poder vê-la olhar-sorrir para nós.

    Era outra história. Com o tempo nos demos conta. Estava entesourada nos limites daquela linguagem nova. Com esmero, como quem garimpa, a mulher buscava livrá-la de areia e impurezas… Era uma história aos poucos revelada para nós…»

[6] Contribuem para isso as belas formulações, como a das hóstias em As Encruzilhadas do Doutor Rosa, «um a um os discos de trigo deslizam do cálice para a mão, da mão para as mãos, e delas para a saliva e a memória, nas quais se dissolvem», ou a do momento em que o galo de Quando Dormires, Cantarei alça voo pela primeira vez, «Um dia, para sua surpresa, viu-se erguido ao ar: era seu próprio bater de asas».

[7] Gosto menos do conto-título sobretudo porque, apesar do vezo estilístico apurado do uso da segunda pessoa, são raros os casos (como nos textos de Marguerite Duras), tirante a prosa mais clássica, em que ele não me incomode; considero-o cafona, mas trata-se de uma idiossincrasia minha, a qual pouco tem a ver com o estatuto de qualidade retórica (e ela é tal, no conto de Monteiro, que nem desisti da leitura, como normalmente faria—felizmente); com relação ao último, Alma em corpo atravessada, acho que fica evidenciado o problema do relato compenetrado em ser “bonito”, uma faca de dois gumes, que às vezes pode gerar um Raduan Nassar, contudo sói gerar mais comumente as Nélidas Piñons, os Evandros  Affonsos Ferreiras, o Bartolomeu Campos de Queirós de Vermelho Amargo.

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Krishna-Monteiro

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