MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/04/2012

Maggie Tulliver e Isabel Archer: o mundo é um moinho

Resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 19 de outubro  de 1993

Com a nova tradução de O moinho sobre o rio (The mill on the floss), de George Eliot, a tradutora Gilda Stuart e o Círculo do Livro continuam, após Retrato de uma senhora, de Henry James (ver texto abaixo), a publicação de clássicos indispensáveis.

No movimento desse moinho há águas bem mais profundas que as do mero enredo, embora ele nos envolva mostrando a engrenagem capitalista moendo as pequenas estruturas sociais do interior da Inglaterra pré-vitoriana. O romance trata de duas ruínas, a da família Tulliver e a do mundo interior de Maggie Tulliver, a protagonista, quase a ilustração da linda canção de Cartola, O mundo é um moinho: “Ouça-me bem, amor/ presta atenção, o mundo é um moinho/vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/vai rduzir as ilusões a pó”…

O pai de Maggie, proprietário de um moinho, perde tudo para o advogado Wakem e tem de trabalhar como empregado na sua ex-propriedade para não se afastar das terras onde nasceu; Tom, o filho, vira uma máquina de trabalho para saldar as dívidas do pai, limpando o nome da família e, a longo prazo, para vingar-se de Wakem; a pouco cinvencional Maggie se envolve com o filho corcunda de Wakem, Philip. Mesmo com a morte do pai, a autoridade do irmão, a quem ela venera desde a infância (numa relação particularmente masoquista), impede o relacionamento que também será complicado por outros fatores e eventos…

Publicado em 1860, a trama de O moinho sobre o rio se ressente um pouco das convenções da época. Daí o feitio melodramático (a la Dickens), o sentimentalismo, os golpes do destino (literário), e sobretudo Philip Wakem, que parece ter saído da pior ficção romântica: deformado e sensível, isto é, reunindo em si o grotesco e o sublime, é um páreo duro para o marido desfigurado e manco de Angélica, a marquesa dos anjos da divertidíssima série francesa.

Por outro lado, se Flaubert—ao mostrar com objetividade a tacanha vida provinciana em Madame Bovary (1857)—“chapou” tudo pela mediocridade e imobilismo, Mary Ann Evans (o verdadeiro nome de Eliot), além do senso da natureza, da ligação com a terra, conseguiu captar com precisão o momento histórico em que as formas de vida tradicional são solapadas pelo moderno capitalismo, mergulhando o leitor nessa mentalidade moribunda e já arcaica, com personagens como as tias de Maggie, as quais praticamente roubam o livro, e ficam no mesmo nível das caracterizações provincianas do primeiro volume de Em busca do tempo perdido (Do lado Swann), de Marcel Proust, pois Eliot, visionariamente, antecipou alguns dos processos mais revolucionários e profundos da literatura modernista (e temos “vestígios” dela, além de Proust, nas obras de Lawrence e Virginia Woolf).

O seu prodigioso senso da passagem do tempo, das transformações microscópicas nas pessoas, é o mergulho inicial que desabrochará não só no projeto proustiano de recuperar o tempo perdido (e a lembrança de Proust ocorre muitas vezes também por conta do precioso detalhismo de O moinho sobre o rio), mas também em James, Conrad e Machado de Assis. E não seria machadiano o seguinte trecho: “… não é possível ser bom o tempo todo. A própria natureza aloja, de vez em quando, um parasita inconveniente num animal por quem não nutre qualquer má vontade. E aí Admiramos o cuidado dela pelo parasita…”?

Precedida por Jane Austen e pelas irmãs Brontë, George Eliot, dentro da grande tradição feminina da literatura inglesa, abriu caminho para as duas grandes autoras da atualidade, Doris Lessing e Iris Murdoch.

A MAIS IMPORTANTE TRADUÇÃO DO ANO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de agosto de 1993)

       Coube ao Círculo do Livro a mais importante tradução do ano: a de RETRATO DE UMA SENHORA (Portrait of a lady). Há tão poucas traduções de Henry James no Brasil que 1993 pode ser considerado uma festa para quem gosta de literatura: a Companhia das Letras lançou a coletânea A morte do leão e agora temos um de seus maiores romances, publicado em 1880-81 (porém, depois, muito modificado numa segunda versão).

O retrato de Isabel Archer, a moça americana que vai para a Europa, pertence à primeira fase da produção jamesiana, dedicada ao tema do cosmopolitismo, isto é, das relações entre americanos e europeus, e suas mútuas influências e desencontros.

Muitos escritores do século XIX (Tolstói, Flaubert, Ibsen, Machado, Eça) objetivaram mostrar como a mulher burguesa era tolhida pelas convenções. James enriquece a questão ao fazer com que Isabel herde (quase que gratuitamente) uma fortuna, a qual lhe daria a liberdade absoluta, sendo órfã, maior de idade, de espírito independente e inteligente.

Nem por isso deixa de embarcar num casamento frustrado: seu marido, Gilbert Osmond, parece odiá-la por não dominar seu espírito, mesmo mantendo-a numa teia de formalidades: “Ela podia reviver o incrédulo terror com que se dera conta da dimensão de sua morada. Entre aquelas quatro paredes, ela passara a viver desde então; iriam rodeá-la até o fim da vida. Era a casa das trevas, do mutismo, do sufocamento. A bela mente de Osmond não deixava entrar nela nem luz nem ar; a bela mente de Osmond, na verdade, parecia espiar por uma pequena janela lá do alto e zombar dela”.

Ao longo de RETRATO DE UMA SENHORA há uma asfixiante aparição de pretendentes, como se toda a vida da mulher fosse um estado de espera pelo “homem certo”. Apesar de toda a sua personalidade, Isabel faz esse jogo e se dá mal. É um aspecto apaixonante do livro, mas é pouco em se tratando de James. Interessa mais o vertiginoso aprofundamento psicológico, realizado num estilo filigranado de metáforas, e através dos mais extraordinários diálogos da história da literatura.

E as personagens, então?  Se as masculinas já são marcantes (Osmond; Ralph, o primo e responsável por Isabel ter herdado uma fortuna; os pretendentes preteridos, Lord Warburton e Caspar Goodwood), as femininas dominam o romance e são de uma qualidade que faria com que as maiores atrizes se estapeassem para interpretá-las. Quantas, no entanto, seriam capazes de dar conta das infinitas nuances de Madame Merle, a admirável intrigante que empurra Isabel para o casamento e quase destrói sua vida?

E as descrições dos lugares, então? O leitor parece sentir os cheiros e sensações de uma estadia na Inglaterra, em Florença ou em Roma, onde Isabel vai viver com o odioso marido.

E as cenas, então? Como deixar de falar da cena em que Isabel surpreende por acaso o elo entre Madame Merle e o marido e passa a suspeitar a possibilidade de que seu casamento tenha sido uma armação? E o momento de pura perfídia que é a cena das revelações da Condessa Gemini, irmã de Osmond? E…  leitor, o que você está fazendo, aí sentado lendo esta resenha, quando deveria já ter saído atrás do livro do ano?

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