MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/08/2010

O GRANDE PRECURSOR: os 200 anos de Gógol

 

    As águas de março de 2009  marcam os 200 anos do nascimento de Nikolai Gógol, o menos conhecido dos gênios da literatura russa do século XIX. Num certo sentido (o que o torna tão fundamental quanto Edgar Allan Poe, também bicentenário neste ano ), porém, ele é o que se apresenta mais atual para nós, com sua linguagem límpida e seus textos “velozes”, a maioria deles de feitio curto, e que antecipam alguns dos escritores mais significativos da modernidade, como Kafka e Pirandello.

    Ucraniano, Gógol foi para São Petersburgo em 1828, tornando-se o primeiro grande cronista dessa cidade-ícone do imaginário literário. Aliás, ela é uma personagem tão importante quanto as pessoas em obras-primas como O Capote e O Nariz, certamente dois dos textos mais divertidos de todos os tempos, e que para o leitor brasileiro parecem antecipar um tom, uma atmosfera, um modo de ver a vida, que encontramos em boa medida na obra de Machado de Assis e, em larga medida, na de Lima Barreto.

    Antes de morrer prematuramente (como Poe) aos 43 anos, Gógol escreveu uma maravilhosa farsa teatral que ainda não envelheceu (O Inspetor Geral) e que podia ser anualmente encenada para nossos políticos e funcionários públicos; a pequena narrativa épica, muito bonita, Taras Bulba e o romance extraordinário e inacabado (o que não tira o prazer da leitura), Almas Mortas, magistralmente traduzido por Tatiana Belinky (editora Perspectiva) e eivado de ironia e crítica ferina das instituições (“almas”, na Rússia czarista, eram os mujiques, servos em condição de escravatura). No entanto, a fama mundial de Gógol se deve mesmo a novelas como Diário de um louco, O Nariz (estas duas publicadas juntas pela L± O Nariz foi traduzido e estudado por Arlete Cavalieri em O Nariz & A Vingança- A magia das máscaras, pela Edusp), e sobretudo a mais antológicas das histórias gogolianas, O Capote, na qual o insignificante e ridicularizado funcionário público (protótipo do “homo burocraticus” que aparecerá em Lima Barreto & Kafka),Akaki Akakiévitch Bachmatchkin se arruína para adquirir um belo e vistoso capote de inverno, que lhe dá pela primeira vez a sensação de ser uma pessoa…até que lhe é roubado.

      Percorrendo inutilmente as instâncias policias e hierárquicas para reavê-lo, ele é humilhado e esmagado de tal forma que cai doente, morre… e São Petersburgo ganha uma aparição fantasmagórica que agride transeuntes e passageiros de carruagens, para lhes tomar os casacos. Veja-se o estilo mortífero com que o texto é escrito: “Quem poderia ter acreditado que levaria no além-túmulo uma existência movimentada, capaz de conhecer aventuras ruidosas, sem dúvida para compensar o pouco brilho de sua vida terrena?”. Isso após narrar de forma sumamente cruel a morte do seu herói: “Graças à generosa colaboração do clima de Petersburgo, a doença evoluiu muito mais rapidamente do que se poderia esperar… O morto foi levado, colocado na sepultura e Petersburgo ficou sem Akaki Akakiévitch”.

     Existem alguns momentos de perfeição literária e, com certeza, O Capote é um deles.

 

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