MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/06/2013

QUEM MATOU JAY GATSBY?

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“Mas, de alguns anos para cá, o que acho mais desencorajador não é isso, e sim a covardia cada vez maior dos críticos profissionais. Mal remunerados, sobrecarregados de trabalho, eles já não têm nenhum interesse pelos livros. Que tristeza ver, nos últimos tempos, tantos jovem romancistas morrerem de asfixia por não terem um espaço para se fazer ouvir (…) Para mim é um enigma que um homem assuma a responsabilidade de escrever um romance sem ter uma atitude precisa e resoluta em face da existência. O fato de um crítico pretender analisar em algumas horas uma visão particular que engloba doze pontos de vista diferentes de uma realidade social me faz pensar na horripilante passagem de um dinossauro pela solidão desértica de um jovem escritor.”  (Prefácio de F. Scott Fitzgerald à edição de 1934 de O Grande Gatsby)

“Creio que finalmente escrevi algo inteiramente meu, mas ainda é preciso saber se o que é  ´meu´é bom (…)” (Correspondência com o editor Maxwell Perkins)

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de junho de 2013, sem notas de rodapé ou trecho selecionado)

De saída, entrego o jogo contando para o meu leitor que o personagem-título de O Grande Gatsby (The Great Gatsby) é assassinado.

Mas em 2013 a lista de suspeitos aumentou consideravelmente: o joão-ninguém que vira um nababo por meios obscuros, entre os quais podemos incluir a michetagem e a contravenção (como fraudar resultados de jogos), oferecendo festas ostensivas e cafonas para impressionar uma antiga amada, pode ser vítima tanto da sanha kitsch e cabotina do diretor Baz Luhrmann, um dos maiores picaretas do cinema atual, cuja carreira é pontuada por abobrinhas do naipe de Romeu + Julieta, Moulin Rouge e Austrália, quanto da ganância editorial.

Pois nada menos do que quatro traduções novas do romance de Scott Fitzgerald (1896-1940) estão sendo lançadas, e três delas (a da Tordesilhas, a da Landmark e a da Geração Editorial) com capas idênticas, calcadas oportunisticamente no cartaz da versão cinematográfica. Exatamente por este motivo, descartei-as todas, embora considere acima da média a da Tordesilhas devido à inclusão do pungente prefácio do próprio autor para uma edição de 1934 (ano da publicação do belo e subestimado Suave é a noite) e da correspondência entre ele e o editor Maxwell Perkins em torno da publicação original de sua obra-prima.

Escolhi, então, uma quarta, a da Leya. Para descobrir que continuam assassinando o pobre Jay Gatz, que se reinventa como Gatsby. A tradução de Alice Klesck quando não peca por destruir a beleza do estilo fitzgeraldiano, pleno de ressonâncias e reminiscências (ainda mais no seu auge), peca por dificultar a compreensão de certos trechos. Por exemplo, no final do capítulo 8 (quando Gatsby espera uma mensagem de sua amada Daisy, de que ela enfim deixaria o marido): “Ninguém telefonou, mas o mordomo ficou sem dormir, esperando uma ligação até as quatro da tarde—até bem depois de haver alguém para quem pudesse transmitir caso ligassem”!!!!????

O que é isso? Será a Maldição de Zelda, a desequilibrada esposa de Fitzgerald que muito contribuiu para o declínio da sua vida após o rápido e prematurao apogeu? “Alguém para quem pudesse transmitir”???!!!!

No original se lê: “No telephone message arrived, but the butler went without his sleep and waited for it until four o´clock—until long after there was any one to give it to if it came”.  E na tradicional tradução de Brenno Silveira: “Não houve qualquer recado telefônico, mas o mordomo ficou sem dormir, até as quatro horas, à espera de algum chamado—até muito depois da hora em que qualquer pessoa poderia transmiti-lo, se alguém telefonasse”.

Long Island Map Gatsby

Na edição da Tordesilhas (com a malfadada capa), lemos o cuidado obsessivo do grande escritor com os mínimos detalhes do seu livro e dá para imaginar seu desânimo com tal desleixo, não bastasse a recepção fria que seu terceiro romance recebeu, quando a “moda Fitzgerald”, inflada pelo sucesso dos contos e principalmente de sua estreia, Este lado do paraíso (1920), arrefeceu tanto quanto as festas de seu mais famoso herói, ao concretizar finalmente o objetivo de se reaproximar de Daisy, casada com o esnobe e truculento Tom Buchanan, graças à vizinhança de Nick Carraway, primo dela e narrador da história.

Depois do desagrado com que a evanescente (e ao mesmo tempo muito calculista)  Daisy encara suas recepções de arromba, Gatsby fecha a casa (que se torna uma espécie de Xanadu fantasmagórica[1]), e depois da sua morte, não tem praticamente ninguém para velá-lo e acompanhar seu funeral. Um dos mais entusiasmados frequentadores das festanças telefona e ao ser convocado por  um compungido Nick para a cerimônia de adeus ao notório anfitrião, resume o mundo ilusório em que se movimenta o “grande” Gatsby: “O motivo da minha ligação é que esqueci aí um par de calçados. Pensei se não seria muito incômodo pedir para o mordomo mandá-los. Sabe, trata-se de um par de tênis, e não sou nada sem eles.”

O Grande Gatsby foi publicado em 1925, mesmo ano em que outra obra notável, Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, também expunha uma anfitriã famosa por suas recepções, enfrentando a realidade do pós-guerra com um mundo de aparências, uma espécie de ilusionismo realçado pela estação do ano (o verão, a mesma em que transcorre o romance fitzgeraldiano[2]) e atenção a detalhes materiais (mas minada por dentro pela noção da passagem do tempo, do desperdício das oportunidades, pelo sem-sentido de toda aquela vida “cerimonial”) e representa a cristalização perfeita do tema maior da ficção dos EUA, a inocência perdida[3] (aliás, antecipa também toda a corrente de best sellers que lida com sexo, poder e dinheirama, e a obsessão pela celebridade hoje onipresente).

Nick, o narrador, vem do provinciano Oeste para descobrir o preço que a sofisticação moderninha do Leste cobra à alma em formação (não é por acaso que na proximidade das propriedades dos ricaços em Long Island há um “vale das cinzas”, uma terra de ninguém, degradada e sombria, o lado B do “sonho americano”). A trágica história do vizinho de Nick também é a consumação de uma frase-chave de Fitzgerald, pelo que ela contém de ilusão e impossibilidade: “Apenas o romantismo preserva as coisas que vale a pena preservar” (de outro de seus romances, Belos e Malditos, 1922). Como se lê na claudicante tradução de que me ocupo: [Gatsby] “talvez tivesse percebido que perdera seu velho mundo terno, pagando caro por viver tanto tempo com um único sonho” (“…he must have felt that the had lost the old warm world, paid a high price for living too long with a single dream”).

É por isso que, num certo sentido, talvez O Grande Gatsby ainda seja o Grande Romance Americano. Ao contrário de seu protagonista, que contemplava a casa de Daisy do outro lado da faixa de oceano na região onde transcorre a narrativa, muito próxima, mas muito mais longe do que ele imaginava, Fitzgerald chegou mais próximo do que qualquer um de realizar esse objetivo ambicionado por tantos escritores do seu país. E é por isso também que, por mais assassinado que seja por visitações oportunistas e efêmeras, seu anfitrião continua mais vivo do que nunca.

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TRECHO SELECIONADO

Escolhi um trecho do quinto capítulo, momento em que Nick conspirando com o vizinho Gatsby consegue atrair para um encontro Daisy Buchanan:

Na tradução de que se ocupa minha resenha (de Alice Klesck):

__ Quero que você e Daisy venham à minha casa—disse ele.—Quero mostrar a ela onde vivo.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Claro que sim, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto, e já era tarde demais quando me lembrei, humilhado, das minhas toalhas, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__Minha casa é bonita, não acha?—ele perguntou.—Veja como bate sol em toda a fachada.

   Concordei que era esplêndida.

__ Sim—os olhos dele estudavam cada porta em arco e a torre quadrada.—Levei três anos até ter o dinheiro para comprá-la.

__ Achei que seu dinheiro tivesse sido herdado.

__ E foi, meu velho—disse ele, maquinal—, mas perdi grande parte com o grande pânico, o pânico da guerra.

   Acho que ele nem sabia direito do que estava falando, pois, quando perguntei qual era seu ramo de negócios, respondeu: “Isso é assunto meu”, antes que notasse não se tratar de uma resposta apropriada.

__ Ah, eu já fiz uma porção de coisas—ele se corrigiu.—Estive no ramo farmacêutico, depois no setor petrolífero. Mas agora não estou em nenhum deles—ele me olhou mais atento.—Isso quer dizer que você andou repensando o que lhe propus na outra noite?

   Antes que pudesse responder, Daisy surgiu à porta e duas fileiras dos botões de seu vestido cintilaram sob a luz do sol.

__ É aquele lugar imenso “ali”—exclamou ela, apontando para a mansão de Gatsby.

__Gostou?

__Adorei, mas não vejo como pode morar ali sozinho.

__ Eu a mantenho repleta de gente interessante, dia e noite. Gente que faz coisas interessantes. Celebridades.

 

Na tradução brasileira “canônica”, por assim dizer, a de Brenno Silveira (transcrita de uma edição do Círculo do Livro, revista por Fernando Nuno Rodrigues):

__ Quero que você e Daisy vão até minha casa. Gostaria que ela a conhecesse.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Certeza absoluta, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto (e eu pensei, humilhado, demasiado tarde, em minhas toalhas), enquanto Gatsby e eu ficamos á sua espera no jardim.

__ Minha casa tem bom aspecto, não é?—indagou ele.—Veja como toda a sua fachada recebe luz.

  Concordei em que sua casa era esplêndida.

__ Sim—ajuntou, percorrendo com o olhar toda as suas portas ogivais e todas as suas torres retangulares.—Precisei de exatamente três anos para ganhar o dinheiro com que a comprei.

__ Pensei que você havia herdado o seu dinheiro.

__ Herdei, meu velho—respondeu automaticamente.—Mas perdi grande parte dele no grande pânico… o pânico da guerra.

  Penso que ele mal sabia o que estava dizendo, pois, quando lhe perguntei qual era o seu ramo de negócio, replicou:

__ Eis aí o que faço.

   Imediatamente, porém, percebeu que essa não era uma resposta adequada.

__ Oh, dediquei-me a várias coisas—corrigiu-se.—Estive metido na indústria farmacêutica e depois em negócios de petróleo. Mas não faço nada disso, agora.—Olhou-me mais atentamente.—Quer dizer que você está pensando na proposta que lhe fiz aquela noite?

   Antes que pudesse responder, Daisy saiu da casa e as duas fileiras de botões de metal de seu vestido cintilaram ao sol.

__ Sua casa é aquela “coisa imensa”?—exclamou ela.

__ Ela lhe agrada?

__ Acho-a encantadora, mas não sei como é que você pode morar lá sozinho.

__ Tenho-a sempre, noite e dia, cheia de gente interessante. Pessoas que fazem coisas interessantes. Gente famosa.

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Na tradução de Cristina Cupertino, pela Tordesilhas:

__ Quero que vocês venham até a minha casa—disse ele.—Tenho de mostrá-la para os dois.

__ Você quer mesmo que eu vá?

__ Evidentemente, meu velho.

    Daisy foi até o andar de cima para lavar o rosto—tarde demais, eu me lembrei humilhado das minhas toalhas–, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__ Minha casa é bonita, não é?—indagou ele.—Veja como ela recebe luz em toda a extensão da fachada.

   Concordei que a casa era esplêndida.

__ É.—seus olhos a percorreram inteira, passando por todas as portas arqueadas e todas as torres quadradas.—Levei exatamente três anos para ganhar o dinheiro que ela me custou.

__ Achei que você tinha herdado o dinheiro.

__ Sim, eu herdei, meu velho—disse ele sem hesitação—, mas perdi a maior parte no grande pânico, o pânico da guerra.

   Acho que Gatsby mal sabia do que estava falando, porque quando lhe perguntei em que negócio ele trabalhava, sua resposta foi: “Isso é assunto meu”, e só depois se deu conta de que fora descortês.

__ Ah, andei fazendo muitas coisas—corrigiu-se ele.—Estive nos negócios de remédios e depois passei para o ramo de gasolina. Mas agora não estou em nenhum deles.—Ele me olhou com mais atenção.—Quer dizer que você andou pensando que eu lhe ofereci naquela noite?

  Antes que eu pudesse responder, Daisy saiu da casa, e as duas fileiras de botões de metal do seu vestido brilharam à luz do sol.

__ Aquela casa enorme “ali”?—gritou ela apontando.

__ Você gosta?

__ Adoro, mas não imagino como é que você pode morar lá sozinho.

__ Eu sempre a mantenho cheia de gente interessante, de noite e de dia. Gente que faz coisas interessantes. Pessoas famosas.

 

Na tradução de Vanessa Barbara (pela Penguin/Companhia das Letras):

__ Quero que você e Daisy venham à minha casa—ele disse. –Gostaria de lhe mostrar onde vivo.

__ Tem certeza de que quer que eu vá?

__ Claro que sim, meu velho.

   Daisy subiu para lavar o rosto—e só tarde demais me lembrei, humilhado, das minhas toalhas—, enquanto Gatsby e eu esperávamos no gramado.

__ Minha casa está bonita, não acha?—ele perguntou.—Veja como a fachada inteira reflete a luz do sol.

   Eu concordei, dizendo que era esplêndida.

__ É.—Seus olhos a examinaram em cada porta arqueada e torre retangular.—Levei três anos juntando dinheiro para comprá-la.

__ Pensei que você tinha herdado a sua riqueza.

__ E herdei, meu velho—ele disse mecanicamente—, mas perdi a maior parte no grande pânico: o pânico da guerra.

   Creio que ele mal sabia do que estava falando, pois quando lhe perguntei qual era seu ramo de negócios, ele respondeu: “Isso é assunto meu”, antes de perceber que não era uma resposta apropriada.

__ Ah, já trabalhei em várias áreas—corrigiu-se.—Estive no ramo farmacêutico e depois trabalhei com petróleo. Mas atualmente não estou em nenhum deles.—Ele me olhou com mais atenção.—Quer dizer que você reconsiderou a proposta que lhe fiz aquela noite?

   Antes que eu pudesse responder, Daisy surgiu à porta e as duas fileiras de botões de seu vestido brilharam à luz do sol.

__ É “aquela” coisa enorme ali atrás?—ela exclamou, apontando para a mansão de Gatsby.

__ Gostou?

__ Adorei, mas não entendo como você pode morar ali sozinho.

__ Está sempre cheia de pessoas interessantes, dia e noite. Pessoas que fazem coisas interessantes. Pessoas famosas.

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   E, por fim, o original (extraído de uma edição da Collin Classics):

“I want you and Daisy to come over to my house,” he said, “I´d like to show her around.”

“You´re sure you want me to come?”

“Absolutely, old sport.”

   Daisy went upstairs to wash her face—too late I thought with humiliation of my towels—while Gatby and I waited on the lawn.

“My house looks well, doesn´t it?” he demanded. “See how the whole front of it catches the light.”

   I agreed that it was splendid.

“Yes”. His eyes went over it, every arched door and square tower. “It took me just three years to earn the money  that bought it.”

“I thought you inherited your money.”

“I did, old sport,” he said automatically, “but I lost most of it in the big panic—the panic of the war.”

  I think he hardly knew what he was saying, for when I asked  him what businesses he was in he answered, “That´s my affair”, before he realized that it wasn´t the appropriate reply.

“Oh, I´ve been in several thing,”  he corrected himself, “I was in the drug business and then I was in the oil business. But I´m not in either one now.” He looked  at me with more attention. “Do you mean you´ve been thinking  over what I proposed  the other night?”

   Before I could answer, Daisy come out of the house and two rows of brass bottons on her dress gleamed in the sunlight.

“That huge place ´there´” she cried pointing.

“Do you like it?”

“I love it, but I don´t see how you live there all alone.”

“I keep it always full of interesting people, night and day. People who do interesting things. Celebrated people.”

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[1] Nesse ponto, ele se torna o legítimo antepassado dos protagonistas “misteriosos” de Orson Welles.

[2] Frye: “… o ritmo humano é o oposto do solar: uma libido titânica desperta quando o sol adormece, e a luz do dia é frequentemente a escuridão do desejo”.  Embora transcorram, em sua plano mais aparente,  no verão, que para o autor de Anatomia da Crítica é o mythos da ´estória romanesca” e da aventura, O Grande Gatsby e Mrs. Dalloway, creio que ambos apontam mais para o ponto “outonal” no espectro simbólico da evocação dos grandes ciclos naturais (diga-se de passagem, tanto Fitzgerald quanto Virginia Woolf estão muito atentos à natureza em seus grandes textos)—é obvio que tudo isso precisaria ser melhor fundamentado, com argumentação mais ancorada em uma análise minuciosa dos textos, o que não é meu objetivo aqui, embora uma linha de interpretação desses dois romances maravilhosos, fundamentada nos conceitos e formulações de Northrop Frye, me pareça irresistível.

Outro paralelo que pode ser feito é entre o Gatsby e O Coração das Trevas. Nick Carraway, como Marlow, percorre uma jornada infernal até o centro da loucura e do mundo “oco” de um personagem que adquiriu ressonância mitológica monstruosa, Kurtz e Gatsby. Depois que estes são mortos, são os narradores que têm de arcar com o fardo, o ônus, das revelações e lampejos perturbadores proporcionados por tal convivência derrisória, com relação ao que é uma “civilização”. “Mr. Gatsby´s dead”, ao escrever essa frase Fitzgerald provavelmente evocava o “Mistah Kurtz—he dead” conradiano.

Em outra resenha já apontei para esse caminho comparativo. Ver aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-vale-das-cinzas/

E na sua correspondência com Maxwell Perkins, Fitzgerald comenta, a respeito da rejeição sofrida por Gertrude Stein: “Pensei que fosse um objetivo dos críticos e dos editores educar o público para apreciar uma obra original. Os primeiros que se aventuraram a publicar Conrad certamente não o encaravam como um empreendimento comercial. A evolução de uma obra surpreendente para uma obra aceita terminou vinte anos atrás?”

[3] E aqui cabe lembrar novamente de Charles F. Kane e seu “rosebud”, a palavra que representa a inocência e estado virginal que se perdeu irremediavelmente, com toda a sua aura.

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22/07/2011

O VALE DAS CINZAS

 

Azar Nafisi tentou manter a literatura como atividade lúcida e lúdica em meio ao furor fundamentalista que lhe tirou a possibilidade de trabalhar como professora no Irã. Os leitores brasileiros não vivem sob nenhum regime antidemocrático. Nem por isso têm acesso a várias das obras mencionadas no livro de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã.

Felizmente, O Grande Gatsby, cujo “julgamento” encenado pelos alunos da autora iraniana (quando lhe era permitido dar aulas) ocupa a segunda parte do livro, ganhou recentemente duas novas traduções: a de Roberto Mugiatti para a Record e a de William Lagos para a L&PM (há uma tradicional versão de Brenno Silveira, já publicada por várias editoras). Ainda bem, pois esse notável romance de 1925 transformou-se no paradigma da visão que os norte-americanos têm de si mesmos e que temos deles.

E isso com a banal história do pobretão que enriquece contrabandeando bebidas, tornando-se famoso por suas festas, embora na verdade só queira reconquistar seu amor do passado, a nebulosa Daisy Buchanan, a qual não consegue se desligar da vida acomodada e esnobe que leva com o marido (enquanto este a engana descaradamente com a mulher de um mecânico).

O narrador é Nick Carraway (que na sofrível versão de Jack Clayton era vivido pelo grande Sam Waterston, a melhor coisa do filme, eclipsando totalmente o casal de astros, Robert Redford e Mia Farrow), cujo envolvimento com o sonho romântico de Gatsby em torno de Daisy nos permite ver como os famosos valores americanos, sempre fortemente arraigados no provincianismo e no puritanismo, são dissolvidos na passagem do Oeste (origem dos personagens do livro) para o Leste.

O enredo se concentra em Nova York e arredores, no contraste entre o brilho da cidade grande e o vale de cinzas (uma região degradada e deprimente que todos têm de atravessar para alcançá-la de Long Island), o qual, em última instância, é sempre onde tudo ganha sua medida final.

Azar Nafisi, em sua defesa do livro no “julgamento”, diz¨”A cidade, como Daisy, tem nela mesma uma promessa, uma miragem que quando é atingida se torna degradada e corrompida. A cidade é o elo entre o sonho de Gatsby e o sonho americano. O sonho não diz respeito apenas ao dinheiro, não se trata de uma análise sobre a América como  um país materialista, mas como um país idealista, que transformou o dinheiro num meio de recuperar o sonho. Não existe nada grosseiro aqui, ou o grosseiro é tão misturado ao sonho que se torna muito difícil diferenciar os dois. No final, todos os melhores ideais e todas as mais sórdidas realidades acabam juntos.”

E, lógico, há a beleza incomparável do estilo de Fitzgerald (além do soberbo e inaparente exercício narrativo) que faz uma história de desilusão romântica terminar como visão de um sonho civilizatório ambíguo (quando Nick observa o Estreito de Long Island, após o melancólico funeral de Gatsby, assistido por quase ninguém, ele que era anfitrião de festas nababescas e com incontáveis convidados), de uma forma quase tão poderosa quanto o que Conrad mostrou ao descrever o Tamisa no início de O coração das trevas.

O grande Gatsby é uma obra-prima desesperada e pungente. Nick fica contente de ter feitor a Gatsby um único elogio (“você vale mais do que eles todos juntos”) porque o “reprovava do começo ao fim”. É essa a empatia que todo grande romance cria e que é tão bem descrita por Azar Nafisi, ecoando Harold Bloom: “Não podemos experimentar tudo o que os outros vivenciaram,mas podemos compreender mesmo os indivíduos mais monstruosos. Um bom romance é aquele que mostra a complexidade dos indivíduos e que cria espaço suficiente para que todos eles tenham uma voz; desse modo, um romance é chamado de democrático, não porque defenda a democracia, mas porque ele é assim, por sua natureza. A empatia está no âmago da questão, no âmago de Gatsby, como no de tantos outros romances; o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e sofrimentos de outras pessoas. Não enxergar esses problemas e sofrimentos significa negar sua existência.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de dezembro de 2004)

 VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lendo-azar-nafisi-na-baixada-santista/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

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