MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/01/2014

DE CU PRA LUA: sabores e dissabores da obra de João Ubaldo Ribeiro

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“Diabo,  quem manda na pessoa é a pessoa –não  é a pessoa que manda na pessoa? Não, nem sempre, e por isso se diz  ´ninguém se faz´, pois ninguém se faz mesmo, já nasce com sua natureza.”

      Minha reação inicial diante de um título como O Albatroz azul, foi de desagrado (mesmo porque ele tem uma das capas mais feias dos últimos anos), mais ou menos como a que tive com O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende; este último, porém, apesar do título “pitoresco” e “folclórico”, revelou-se um dos melhores romances desta década. E o novo de João Ubaldo Ribeiro?

O protagonista é Tertuliano, macróbio morador da Ilha de Itaparica e filho de Juvenal Peixoto do Amaral Viana Botelho Gomes, deixado pelo pai, o português viúvo Nuno Miguel (que enriquecera no Brasil, todavia sempre se manteve saudoso da pátria), aos cuidados dos padrinhos. Após a morte do marido, a madrinha Ia Cencinha (cuja relação com Juvenal faria as delícias de um Freud: “E haveria a cerimônia em que ela se tornaria novamente madrinha dele, por assim dizer mãe duas vezes, e ele receberia o sacramento, seria um homem completo, um homem casado… No dia do casamento,  quem vai te dar teu banho sou eu, tua madrinha que te criou, desde menino que não te dou um banho e esse vai ser o último que vou poder te dar, porque depois de casado já não fica bem, já passam a deitar vistas maldosas, disse ela com o olhar fixo nele, e ele ficou um  momento sem saber o que dizer ou como se mexer”) permite ao afilhado que coabite alternadamente com as duas filhas, Catarina e Albina.

Nuno Miguel, à morte em Portugal, convoca o filho à sua presença, ou trazendo uma esposa legítima ou então preparado para um matrimônio acertado pelo pai. Ia Cencinha, com medo de perder o patrimônio do compadre, decide que Juvenal deve legalizar sua união com uma das filhas. A escolhida é a mais “ajuizada” e cordata, Catarina, em detrimento da rebelde e opiniática Albina, a mãe de Tertuliano. Acontece que Juvenal tem especial predileção por esse filho, e ele e a madrinha resolvem então que, a partir do casamento com Catarina e os trâmites com o pai moribundo, Tertuliano passará a ser filho da esposa legítima e não da verdadeira mãe.

Só que ele se recusa a ceder aos desejos do pai e acarreta uma cisão no arranjo que a madrinha criara (“Que família mais sólida podia existir?, se pergunta ela a certa altura). O resultado: a banda de Albina (que morre de desgosto) se torna pária, pobre e bastarda. E Tertuliano, mesmo respeitado e venerável, evita tocar no assunto. Até que sua uma das suas filhas, que sempre pariu meninas, está grávida novamente e ele recebe a inspiração de que dessa vez, contrariando os prognósticos até da experimentada parteira, virá um neto e que este terá um destino glorioso. Tanto que Tertuliano se azafama para lhe dar um nome de santo digno: Raymundo Penaforte. O vaticínio parece se cumprir quando, na hora do parto, o neto nasce de bunda, em plena lua cheia, fazendo valer o famoso dito dos nascidos de cu pra lua… Mas talvez o avô, que fora privado da vida que devera ter, tenha de pagar com a própria existência o destino do neto…

Como se vê, não falta engenho à trama de O Albatroz azul (e que personagem é Ia Cencinha!) e o estilo de João Ubaldo Ribeiro está tão afiado, que nos imerge até nas minudências (nada enfadonhas) da escolha do nome do neto de Tertuliano. Cada fio é amorosamente entretecido pelo dono de uma das melhores prosas da nossa literatura. Mesmo assim, como acontece amiúde na sua obra, a coisa desanda e o resultado decepciona.

Nas suas primeiras e memoráveis obras, como Sargento Getúlio (1971), Vila Real (1979)  Livro de Histórias (1981) havia um equilíbrio entre prosa e fabulação que nunca mais foi alcançado. Viva o Povo Brasileiro (1984) e O sorriso do lagarto (1989) são experiências ambiciosas, importantes, todavia  irregulares, com altos e baixos (mais os últimos que os primeiros, a meu ver).  Depois, parecia que ele havia capitulado à mistura exotismo-erotismo-esoterismo, à literatura sestrosa dos trópicos consumida pelo primeiro mundo, e equivalente às telenovelas regionais, no muito longo e muito fraco O feitiço da ilha do pavão (1997), e se tornado um escritor de segunda. A força parecia ter voltado (e de fato, a maior parte do livro é impressionante) com Diário do farol (2002). Nas últimas páginas, infelizmente, parece ter baixado a proverbial preguiça baiana, um ritmo à Dorival Caymmi e o final do romance se mostrava apressado, desinteressante, chocho.

O mesmo efeito se observa em O albatroz azul. Preparação magnífica, cada capítulo um esmero, num estilo que nos faz pensar que, como Raymundo Penaforte, Ubaldo nasceu de bunda pra lua, ungido para a literatura como poucos. De repente, ele se cansa, termina abruptamente o livro, e ficamos pensando no destino truncado de Tertuliano. E a forçadíssima e pobre metáfora do albatroz azul parece um (Paulo) coelho tirado de uma cartola de onde se esperava que saíssem coisas mais interessantes.

Será que João Ubaldo Ribeiro nunca mais vai se interessar em escrever um livro até o fim e nos dar um romance “completo”?  

(a resenha acima foi  publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2009)

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JOÃO, O BALDO

   Existe um tipo de best seller brasileiro para exportação,cuja fórmula foi fornecida pela obra de Jorge Amado e que repousa na ambientação histórica e regionalista (a modernidade urbana não deve fazer parte dos nosso universo, a não ser em forma de favela e banditismo), e na qual a libido aflora mais forte do que o poder e a religião.

João Ubaldo Ribeiro, em O feitiço da Ilha do Pavão nos dá um típico representante dessa literatura made for gringo, destinada a aliviar o tédio de países nórdicos, germânicos ou saxões,  com paisagens exuberantes, costumes exóticos e tipos femininos calientes. A ostra e o vento.

    O feitiço da Ilha do Pavão mostra uma ilha na costa da Bahia, de difícil aceso, e que por isso mesmo consegue se manter mais ou menos ao largo do poder da Coroa Portuguesa (a ambientação é colonial) e do clero, cultivando as maiores virtudes do Novo Mundo: a miscigenação das raças, o sincretismo religioso e a liberalidade de costumes. Há um vilão, o chefe de armas da principal vila da ilha, Borges Lustosa, contudo o homem mais poderoso, o Capitão Cavalo, é democrático e imparcial, o próprio homem “cordial”, “se recusando a meter-se em questões que considerava dependentes da vontade dos envolvidos, ou seja, para ele a maior parte das coisas da vida”.

Apesar da ambição e das intrigas de Borges Lustosa, o principal contratempo da história acaba sendo a impossibilidade do filho do Capitão Cavalo, Iô Pepeu, de realizar seu desejo físico pela negra Crescência, uma vez que esta se recusa a dizer certas palavras sem as quais o membro do mancebo não levanta.

Vicissitudes sexuais à parte (a ostra ficará ao vento, enfim, eis o grande suspense), há um trunfo esotérico na concepção da Ilha do Pavão (já pensou, leitor, no frisson lá fora: exotismo, erotismo e esoterismo num mesmo livro?): o Capitão Cavalo descobre uma esfera que consegue  deter o tempo e controlar o futuro. E a ilha se torna “enfeitiçada”, uma rival da Avalon de Marion Zimmer Bradley. Como todos se lembram, as brumas de Avalon nada mais eram do que o estado ambíguo do santuário druida: ele ao mesmo tempo está e não está no mundo, podendo ser visto ou não.

Graças ao Capitão Cavalo e seus amigos, acontece o mesmo com a Ilha do Pavão, a qual, assim, mantém-se a salvo das mazelas européias. E o leitor pode se deitar numa rede e espreguiçar-se gostosamente, pois tudo está bom quando acaba bem. Eta, bem bom… Nada de inquietações, só um pouquinho de agitação que é bom como tempero, mas que tudo fique mesmo na chanchada e no deboche. Que os gringos não pensem que sob os céus brasileiros haja desassossego metafísico ou dúvidas existenciais. Nada disso, basta que haja mulher pelada e o resto é silêncio.

O desperdício de O feitiço da Ilha do Pavão está no fato de que o domínio lingüístico que João Ubaldo Ribeiro demonstra da sintaxe colonial faz o leitor sonhar, a princípio, com algo como um Memorial do Convento brasileiro. Só que Saramago não se limitou apenas a utilizar um linguajar de época saboroso. O feitiço da sua linguagem  parece que condensou a essência de uma época.

Embora nem de longe irregular e cansativo como Viva o povo brasileiro (1984), o romance da Nova República  tancredista (e que, já que estamos na terra da chanchada e do deboche, acabou sarneysista), o novo romance de João, o Baldo da ficção brasileira, vem comprovar que a fórmula Xica da Silva, a receita Mandacaru, pode funcionar na televisão. Em livro, avultam a gratuidade e o apelo fácil.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  15 de janeiro de 1998)

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