MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/11/2013

QUITUTES DO CALDEIRÃO DO BRUXO

(RESENHA PUBLICADA ORIGINALMENTE EM ‘A TRIBUNA’ DE SANTOS, EM 31 DE OUTUBRO DE 1995)

Decepções sucessivas com os discutíveis (e alguns bem ruins) romances de Rubem Fonseca fazem o apreciador de seus contos hesitar, apesar da expectativa, em ler O buraco na parede.

Afortunadamente, lida a coletânea, percebe-se que seus oito contos não saíram do forninho micro-ondas de um best seller made in Brazil. O buraco na parede não é fast food. É quitute de caldeirão de bruxo, produto da alquimia interna de um contista que renovou a ficção nacional na década de 60, com obras como A coleira do cão, o qual pode ser lido em 1995 como se tivesse sido escrito hoje em dia. Seu retrato da realidade urbana brasileira continua desalentadoramente atual. Isso, sem falar da linguagem enxuta e contundente, um estilo que conheceu seu auge em Feliz ano novo (1975) em matéria de impacto e eficácia, e que agora corre nas águas mais mansas da maestria e da perícia técnica absoluta nos textos de O buraco na parede.

É difícil apontar qual o melhor deles. De imediato, três se destacam: O balão-fantasma, O anão e o conto-título, todos narrados em primeira pessoa (só dois textos no livro não o são).

Em O balão-fantasma aparece a figura emblemática do delegado diante do labirinto de criminalidade (e, em se tratando da Baixada Fluminense, realmente é um labirinto) e da desmoralização social, que aparece com freqüência no universo de Fonseca, só que o texto atinge um teor quase metafísico (além do tom lírico que perpassa toda a parte final do relato), pois ele tem de enfrentar uma seita de baloeiros com um fervor místico que o confunde e dribla a polícia e os vigilantes ecológicos, acrescentando-se à loucura geral da  nação ao lançar o maior balão do mundo. Uma obra-prima.

O anão é a história de um atropelamento e de um assassinato: um homem (o narrador, Zé) mata um anão chantagista e o coloca numa mala para poder continuar com a mulher que o atropelou. É ler para crer no encanto com que, implacável e impagavelmente, Fonseca constrói o arco que vai do atropelamento ao assassinato. Especialmente deliciosa é a descrição do relacionamento que se estabelece entre Zé e Sabrina, atendente do Miguel Couto, onde ele foi internado: “Sabrina não saía da minha casa. Trouxe uma mala com coisas, roupas, discos de Tim Maia. Comecei a ficar com raiva dela, raiva do Tim Maia…”

    O conto-título é a prova consumada de que Fonseca desperdiça seu incomparável talento em romances de segunda categoria. Em 20 páginas, ele consegue concatenar complexas situações e vários personagens: o narrador, dessa vez, é um jovem desocupado que mora num cubículo onde há o buraco. Através dele, espia sua amada, filha da senhoria. Esse buraco, que também é uma metáfora do que acontece quando temos acesso (mesmo involuntário) á intimidade das pessoas numa sociedade como a nossa, o leva, por tortuosos caminhos (que incluem uma libidinosa vizinha casada), à mais completa abjeção.

O leitor ainda tem o vaudeville sinistro e divertido de Idiotas que falam outra língua (o marido mata a esposa e reúne as duas amantes e mais o amante da esposa na cena do crime), o hiper-naturalista A carne e os ossos, o grotesco e cortante Orgulho, um daqueles contos rápidos nos quais Fonseca mostra mão de mestre. E tem ainda o caricato Artes e ofícios, e por fim Placebo, o mais problemático dos textos do livro: uma história esplêndida, aproveitando o significado da palavra placebo, extremamente bem-conduzida e cruel, porém infestada dos vícios que comprometem todos os romances e alguns contos do autor de O buraco na parede, por exemplo, a mania das brincadeiras eruditas. Em Placebo, o narrador está segurando uma caixa com um feto e diz para todos que é cerveja. O autor não resiste e, quando tem de inventar nomes para a suposta cerveja alemã, pespega-nos Weltschmerz e Weltanschauung, consagrados termos históricos e filosóficos. Compromete-se a verossimilhança psicológica do narrador e o texto artificializa-se.

Nem por isso o leitor deixa de ser arrastado pelo ritmo do conto, como acontece quase sempre com o contista Rubem Fonseca: seus quitutes diabólicos são devorados para se saber “aonde tudo vai dar”. Se depender das conclusões dos seus textos, porém, a perspectiva de “onde vai dar” a sociedade brasileira não é a de luz no fim do túnel, mas de um enorme buraco que vai se alastrando até derrubar o edifício.

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