MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/03/2014

A poesia exilada e o centenário de Octavio Paz: O ARCO E A LIRA

968.03 OCTAVIO PAZ (1914-1998).  Mexican poet.

arco lira

(versões da resenha abaixo foram publicadas originalmente na revista METÁFORA 16, em 2013, e em A TRIBUNA de Santos, em 04 de março de 2014)

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. A primeira atitude do homem diante da linguagem foi de confiança.  O ritmo não apenas é o elemento mais antigo e permanente da linguagem como é bem possível que seja anterior à própria fala. O homem se derrama no ritmo, marca da sua temporalidade; o ritmo, por sua vez, se declara na imagem; e a imagem volta para o homem sempre que alguns lábios repetem o poema. Religião e poesia pretendem realizar de uma vez por todas essa possibilidade de Ser que somos. A revelação da nossa condição é, também, criação de nós mesmos. As palavras do poeta, justamente por serem palavras, são suas e são de outros. Por um lado, são históricas: pertencem a um povo e a um momento da fala desse povo: são datadas. Por outro, são anteriores a qualquer data: são um começo absoluto. A história da poesia moderna é a história de uma desmesura.

Pincei, no parágrafo anterior, afirmações definitivas, de sabor quase hipnótico, das aberturas dos capítulos que compõem o clássico O arco e a lira [El arco y la lira], recentemente relançado em nova tradução[1] (e assim como o livro que lhe é complementar, Os filhos do barro, ganhou uma bela coedição da CosacNaify com o Fondo de Cultura Económica), o que não poderia ser mais apropriado, uma vez que agora em março celebra-se o centenário de Octavio Paz[2], um dos maiores nomes da literatura latino-americana, apesar de controversas posturas políticas as quais cristalizaram para muitos a imagem de um homem de direita, ultraconservador. É célebre a farpa a ele dirigida por outro escritor mexicano exponencial, Juan Rulfo (autor de Pedro Páramo): Paz dizia que os intelectuais do continente dividiam-se entre “indignados” e “resignados”; Rulfo replicou: não, eles dividem-se entre “indignados” e “indignos”.

Divisões ideológicas à parte, tenho a convicção de que as declarações acima fornecem o espírito e a letra da Grande Narrativa (desconstrucionistas do pós-modernismo, atenção!) que o prêmio Nobel de 1990 nos conta: o dizer poético originalmente reproduzia a unidade do Real, ritmo e imagem permitindo a harmonização com a fala do mundo e a analogia entre coisas distintas e até contrárias, comungando de uma visão cíclica e não-linear do Tempo. Quem pensar em mito e sagrado, estará muito próximo do pensamento de Paz, apesar de ele enfatizar a diferença substancial do poético com relação à esfera religiosa.

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O homem ocidental alienou-se no processo histórico, perdido no tempo-sucessão, e cindiu-se em contrários (valorizando sobretudo a razão e a consciência). Não por acaso, a poesia começou a ceder espaço para a prosa, prática discursiva (e limitante, desse ponto de vista) da linguagem: “O mundo moderno perdeu sentido e o testemunho mais cru dessa falta de direção é o automatismo da associação de ideias, que não é governado por nenhum ritmo cósmico ou espiritual, mas pelo acaso”.

Por isso, a alta poesia moderna (que abrange o Romantismo, reflexão que ele desenvolverá de forma maravilhosa e esclarecedora em Os filhos do barro—diga-se de passagem que uma das seções mais brilhantes de O arco e a lira,  acrescentada posteriormente,  Signos em rotação é constantemente publicada em separado[3]) representa uma rebelião constante. Os maiores poemas são negação da própria época, degredo autodeclarado, nostalgia da linguagem “originária”: “O dilaceramento foi indizível e constante. As consequências desse exílio da poesia ficam a cada dia mais evidentes: o homem é um desterrado do fluir cósmico e de si mesmo” ; mesmo porque se encontram encalacrados nas malhas tipográficas, a forma-livro, forma passiva (e individualista), mutilando a poesia da sua vocação de fala e convocação comunitária, a exigir ouvintes atentos e troca de experiências.

Como outros memoráveis recortes abstratos (contudo poderosos) na história humana, O arco e a lira identifica e caracteriza muito bem a crise, proporcionando ao leitor um diagnóstico impecável, sem apontar claramente rumos. Paz oferece como contrapeso ao “exílio” ocidental a visão oriental, que permaneceu próxima das fontes da linguagem, e arrisca-se a alguns prognósticos. No entanto, talvez sua maior resposta às próprias questões foi o magnífico poema Blanco, escrito em 1966: “Sem dizer palavra/Escurece-me a fronte/Um pressentir de linguagem”.

Mas já no exercício do ensaio, como diz muito bem numa carta (escrita no ano da publicação original, 1956) outro grandíssimo autor centenário em 2014, Julio Cortázar, aparece a “tendência belíssima que você tem de sair disparando de repente e arrematar um parágrafo ou um capítulo com uma chuva de imagens imperiosamente necessárias.”

filhos do barronova fronteira barro


[1] Em tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. A versão anterior, de Olga Savary, foi publicada pela Nova Fronteira.

[2] Que morreu em 1998.

[3] Inclusive aqui no Brasil, pela Perspectiva. Foi o primeiro texto de Paz que li em livro. Antes, como era leitor do Estado de S.Paulo, apesar do pé atrás ideológico que sempre mantive com esse jornal, li muita coisa de (e sobre) Paz ali.

artigotexto da revista

27/07/2010

A BARATA-MONÓLITO: “A Paixão segundo G.H.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de novembro de 1998)

A Rocco vem reeditando as obras da nossa mais cultuada  escritora. Além disso, a Scipione está lançando os volumes da Archivos, coleção planejada internacionalmente para oferecer edições críticas de obras representativas. Uma delas é justamente A Paixão Segundo G.H., que Clarice Lispector publicou em 1964 (os outros títulos brasileiros publicados são, por enquanto,  Macunaíma, de Mário de Andrade, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e, vai se saber por que, uma obra tão infeiror à ambição representativa da coleção como é o caso de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso).

A Paixão Segundo G.H. é um texto que parece ter sido escrito para dar vida, numa amalgamação impressionante de experiência e linguagem, ao que Octavio Paz descreve tão bem em O arco e a lira: a experiência do sagrado:

“A experiência do sagrado é uma experiência repulsiva. Ou melhor, convulsiva. É um pôr para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto…. implica uma ruptura do tempo e deo espaço: a terra se abre, o tempo se parte; pela ferida ou abertura, vemos o outro lado do ser”.

A abertura da narradora G.H. para o outro lado do ser é o quarto de empregada do seu apartamento, que ela resolve arrumar numa certa manhã. Lá encontra uma barata (e a esmaga com a porta do guarda-roupa, expondo justamente as “entranhas”, literais e metafóricas) e esse encontro é a sua “paixão”, a desagregação e aniquilação da vida alienada, “humanizada demais”, rumo à identificação com a Vida, “pré-humana”. Ou seja, o Inominável, que dá nojo, causa náusea, é o Inferno.

Essa experiência, contada sob a forma cristã da confissão penitente (e é por isso que, quando G.H. coloca a barata na boca, para prová-la, lembramos do ato de comungar), é “demoníaca”, no sentido das palavras de Paz. Ou, nas palavras de G.H., ao falar do neutro, do insosso, do inexpressivo que é o estado bruto do ser:

“Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver a coragem de largar os sentimento, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio — o demoníaco é antes do humano”.

Há uma assimilação muito forte entre o sagrado e o imundo (a barata é chamada, entre outras coisas, de “amostra de calmo horror vivo”), nessa narrativa onde se tenta, justamente com um estilo “tateante”, interrogativo (e onde talvez a obra clariceana atinja seu ápice), mostrar “a verdade que não se quer”. Pois a verdade é o horror de ter que admitir que o Ser passa pelo nosso não-Ser, essa é a metamorfose de G.H, “de mim em mim mesma”, ali, presa no quartinho de empregada com uma barata que é um portal para o cosmo tanto quanto o monólito de 2001-Uma odisséia no espaço o era para os astronautas da história.

Para atingir esse estado é preciso perder tudo: a identidade, as extensões que nós criamos no mundo para registrar nossa identidade e que nos tornam objetos de nós mesmos (construções, cômodos, artefatos, sentimentos, conceitos). Para então abismar, ou, como se lê, em O arco e a lira, estupefar-se:

“a estupefação ante o sobrenatural não se manifesta como terror ou temor, como alegria ou amor, mas como horror. No horror estão incluídos o terror –o cair para trás– e a fascinação que nos leva a nos fundirmos com a Presença. O horror nos paralisa. E não porque a Presença seja por si mesma ameaçadora, mas porque sua visão é ao mesmo tempo insuportável e fascinante. E essa Presença é horrível porque nela tudo se exteriorizou. É um rosto no qual afloram todas as profundidades, uma Presença que mostra o verso e o reverso do ser… E a essa repulsa segue-se o movimento contrário — não podemos tirar os olhos da Presença, nos inclinamos para o fundo do precipício. Repulsa e fascinação. E depois a vertigem: cair, perder-se, ser um com o Outro. Esvaziar-se. Não ser nada– ser tudo: ser”.

É justamente na crucificação de G.H. em torno da barata-portal-para-o-cosmo que temos a confirmação mais poética, mais avassaladora literariamente, das afirmações do genial poeta e pensador mexicano: ‘Cada vez mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida… Eu havia prendido defronte de mim o imundo do mundo — e desencantara a coisa viva”.

Embora seja meio absurdo desentranhar desse texto lindíssimo passagens isoladas, pois elas darão conta de apenas um momento de um processo,de uma travessia, que têm de ser vividos pelo leito. E vivendo essa processo, essa travessia, ainda se descobre uma das obras-primas da literatura deste século. É uma recompensa e tanto, mesmo que não se saia ileso. Aliás, sair ileso é não ter lido o livro.

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