MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/10/2015

“Afogado no grande mar da informação”: a era da suspeita em NÚMERO ZERO, de Umberto Eco

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«__ Para você são suficientes todas essas coincidências?

__Mas não será essa sua tendência a ver conspiração por todo lado que faz você colocar tudo no mesmo saco?

__ Eu? Eu não, são autos judiciários que podem ser encontrados por quem souber procurar nos arquivos, mas deu-se um jeito para que eles escapulissem do público entre uma notícia e outra».

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de outubro de 2015]

«Quando se entra num estado de suspeita não se deixa de lado mais indício algum». Essa frase do inesquecível O Pêndulo de Foucault (1988) poderia estar presente no mais recente Umberto Eco, Número Zero, grande sucesso de vendagem deste ano, no qual ele revisita—de forma mais enxuta—a atmosfera paranoica do seu segundo romance[1].

Ao invés de tramoias seculares ou pseudomísticas, remontando aos templários, a narrativa—localizada na Milão de 1992—concentra-se na esfera do jornalismo e da sua linguagem. Colonna, o protagonista, aceita a proposta de participar da criação de um veículo de imprensa “de laboratório”, por assim dizer, composto apenas por números zeros. A exploração das notícias passadas, sobretudo as ilações tiradas a partir delas, serviriam como arma, como instrumento de pressão e chantagem, para o investidor, o Comendador Vimercate, agindo por meio do cínico Simei. A certa altura das reuniões de pauta, ele afirma que «os jornais ensinam como se deve pensar». Questionado por Maia, uma das redatoras («Mas os jornais seguem as tendências ou as criam? »), responde: «As duas coisas, senhorita Fresia. As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham…».[2]

Um dos colaboradores da empreitada, Braggadocio, aproxima-se de Colonna, confidenciando a ele uma acalentada teoria da conspiração: Mussolini não teria sido de fato executado após a vitória dos Aliados, e vários eventos políticos aparentemente desconectados formariam um mosaico da tentativa subterrânea de colocar o fascismo de novo no poder. Como acontecia em Pêndulo de Foucault, a exposição dessa enciclopédia de suspeitas e indícios é tão hiperbólica que ganha contornos bizarros e burlescos. Para contrabalançar esse tétrico (ao mesmo tempo divertido) umbral a uma realidade-impostura, temos Maia Fresia, a redatora que questionou Simei. Envolvendo-se com ela, Colonna será devolvido ao mundo do senso comum, com uma pontinha de excentricidade, para garantir o charme.

Embora eu não tenha entendido muito bem que progressão Eco queria exatamente imprimir ao seu livro, pois considero Número Zero um texto truncado, concluído de forma frustrante, o charme de Maia certamente é um de seus achados (aliás, por causa disso gostei tanto do capítulo 13, onde ela imagina uma seção de anúncios pessoais peculiar, que permite ler as entrelinhas dos dados pessoais auto-publicitários).

Outro achado (e uma promessa e tanto, afinal não cumprida) é que Braggadacio, para além das pistas e sinais de uma vasta conspiração, a qual desvela toda a desmoralização e corrupção da chamada “vida pública” (tão parecidas na Itália e no Brasil!), tem um tal apego a certa porção do passado (única estável e real de uma existência fantasmática), mesmo com ingredientes escusos, que acaba por aproximar o autor de O Nome da Rosa—nesse sentido tão próximo de seu compatriota Leonardo Sciascia—do universo do Nobel 2014, Patrick Modiano, cujos personagens também tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente: «meu pai me acostumou a não acreditar nas notícias. Vivemos na mentira e, se você sabe que estão lhe mentindo, precisa viver desconfiado.  Eu desconfio, desconfio sempre. A única coisa verdadeira da qual posso dar testemunho é essa Milão de tantas décadas atrás»[3].

Em 207 páginas, 192 nos acenam com a soma de todos os dons de Eco; para, depois, mostrarem-se, se puder me valer de um dos clichês que ele deliciosamente reitera ao longo do romance (parodiando o mau jornalismo), “tempestade em copo d’água”. O furacão prometido torna-se mera tempestade tropical.

TRECHO SELECIONADO

«A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Ocorre o fato X, você não pode deixar de falar dele, mas cria problemas para gente demais, então no mesmo número você põe umas manchetes de arrepiar o cabelo, mãe degola os quatro filhos, a nossa poupança talvez vire pó, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio e assim por diante, a sua notícia se afoga no grande mar da informação».

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/12/30/tratado-sobre-a-tolice-humana-o-pendulo-de-foucault-de-umberto-eco/

[2] Mas o relato de Colonna mostra também a limitação do alcance dessa dialética manipuladora, basta reparar no erro de previsão de  Simei com relação aos celulares, no nono capítulo.

[3] Todas as citações são da tradução de Ivone Benedetti (editora Record).

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