MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/07/2013

OS MOUROS E A FORMA NOVELESCA

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de junho de 2005, em função dos 400 anos do primeiro volume de Dom Quixote)

Quando se lê com atenção O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha fica impossível não se constatar que, há 400 anos, o mundo árabe já assombrava, como hoje, o Ocidente e fazia parte do seu imaginário, obrigando-o também a lidar com  seu mal estar (e sua má fé) diante de uma alteridade tão evidente. Sancho Pança sempre se refere aos defeitos e destemperos dos mouros e na constelação de monstros e no bestiário do romance as alusões a eles são constantes também; há até uma das novelas intercaladas à narrativa principal (a história do Cativo,  ocupando três longos capítulos) que evoca a vida de Cervantes,  prisioneiro-refém em Argel durante muitos anos.

As novelas dentro do romance são outro aspecto fascinante. Ao colocar na boca de certos personagens (o cura da aldeia de D. Quixote, em sua conversa com um cônego, quando traz de volta para casa, enjaulado, o fidalgo lunático, o qual crê estar enfeitiçado) sua severa condenação à prática ficcional das novelas de cavalaria e ao teatro de seu tempo, Cervantes está propondo uma outra prática de ambos, de que ele seria o representante (já que não se furta a citar o próprio nome em seu texto, ou insinuá-lo).

Salvador Dalí (1904 - 1989)

O ponto central da argumentação está na inverossimilhança, no exagero, no fato de que as novelas de cavalaria não têm estrutura discernível (portanto, uma condenação formal), enquanto que o teatro da época está infestado de lances inconvincentes destinados a embasbacar o público crédulo. Certamente há aí intenção polêmica e vingativa com relação a inimigos literários, notadamente Lope de Veja, o autor de Fuenteovejuna. No prefácio ao 2º volume, essa atitude se reafirmara, pois contra-atacando, ele também ataca detratores e rivais.

Qual seria o procedimento em contrário ? Este apresentará uma contradição  instigante e produtiva: criticando a irrealidade e a falta de forma, Cervantes não pode se escusar de ver a trama de uma forma teatral (e fundamentalmente vaudevillesca, tanto nas partes, como na novela do Curioso Impertinente quanto no todo do livro), fazendo com que todos os seus personagens, que vem de todos os lugares e esferas sociais possíveis, se encontrem, quase que se acotovelando (é isso mesmo, chega a faltar espaço), por assim dizer, na humilde estalagem que a D. Quixote parece um castelo encantado. Tirando isso, e também as convenções que de tão visíveis se tornam risíveis e até ingênuas (toda heroína é a mais bela mulher do mundo, só que ele reúne quatro delas num mesmo local; todos infalivelmente sempre choram juntos quando cada personagem toma a palavra e conta as suas desventuras), o que vemos é um tipo peculiar de texto impondo-se: a novela sentimental, onde um fundo aventuroso não impede a interiorização, a discussão às vezes profunda dos sentimentos (o que tardiamente redundará no mundo de um Proust, para citar o ponto extremo a que se esse caminho levou).

Ficamos com a impressão de que as aventuras trapalhonas de D. Quixote e Sancho Pança são apenas a moldura desse que é o verdadeiro cerne, o miolo da obra (embora não seja o que tenha ficado de mais marcante para a posteridade; quem é que lembra da história do Curioso Impertinente ou do Cativo, enquanto todos citam os moinhos de vento, ou  Dulcinéia, até sem ter lido o romance).

Enfim, o que está supostamente apenas intercalado à aventura principal é o que Cervantes gostaria que estivesse sendo lido e representado (sendo ele o principal autor, é claro) em seu tempo, uma vez que as fascinantes e amalucadas andanças do Cavaleiro da Triste Figura e seu criado representam a liquidação de um gênero anterior.

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