MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/01/2013

Os muitos materiais misturados com precisão em NOSSO GRÃO MAIS FINO

brinde de passosnosso-grao-mais-fino (1)

“Como em turvas águas de enchente,

Me sinto a meio submergido

Entre destroços do presente

Dividido, subdividido,

Onde rola, enorme, o boi morto.

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Árvores da paisagem calma,

Convosco—altas, tão marginais!—

Fica a alma, a atônita alma,

Atônita para jamais,

Que o corpo, esse vai como boi morto.

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Boi morto, boi descomedido…” (Manuel Bandeira)

nosso-grao-mais-fino

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de janeiro de 2013, sem notas de rodapé ou trechos adicionais)

“Não consultes dicionário”, nos diz Bentinho a respeito do significado do seu apelido, D. Casmurro. Hoje em dia sabemos: o relato do protagonista do clássico de Machado de Assis tornou-se tão suspeito que devemos fazer justamente o contrário do aconselhado.

A consulta de dicionários acaba sendo também uma consequência da leitura de José Luiz Passos (vou utilizar um chavão —perdoe-me, leitor, pois se trata da mais pura verdade: ele é uma das maiores revelações literárias dos últimos anos), não que ele tenha nada de preciosista do idioma: em Nosso grão mais fino, o protagonista é um químico, cuja família acabou perdendo as terras de que era proprietária, e nas quais se produzia açúcar. Entre outras “esquisitices”, por assim dizer, ele nos impinge um irmão imaginário (Zelino), com quem manteve intensa, para além da infância. Suas reminiscências são pontuadas, alternando-se com estranhos diálogos com Ana Corama, a amada, que amiúde parecem mais  recitativos, onde cada um está isolado em si mesmo.

Lemos: “Como um químico deve misturar seus muitos materiais?” Acompanharemos os desencontros entre Vicente e Ana, filha do antigo dono do engenho  (que teria se matado, atirando-se de um zepelim durante uma travessia do Atlântico), “tomado” pela família dele.  Ele e o tio materno, de idade muito próxima, Gaetano (que será o marido dela) transformam-se nos descendentes derradeiros das duas linhagens, os Campelo e os Dueire.  Também veremos o termo “maranha” muito utilizado. No Aurélio: “porção de fibras ou fios enredados; crespidão, grenha; coisa intrincada, emaranhamento, enredo, complicação, teia; intriga, embrulhada, confusão; conluio, pacto; astúcia, esperteza; manha, velhacaria”. O talentoso autor pernambucano não deixa suas palavras ao acaso: o leitor de Nosso grão mais fino encontrará tudo isso: um narrador autoproclamado “caviloso” (portanto useiro e vezeiro de manha, astúcia); todo o emaranhamento dessas vidas ligadas —atávica ou passionalmente; sequer falta a conotação ligada a cabelos, uma vez que, anos depois do seu caso de amor, Vicente e Ana encetam uma jornada a Santo Antão, a propriedade perdida, e o clímax é um ritual em que ele cortará os cabelos dela, ali mesmo, no carro, quando desistem de ir até o fim da empreitada nostálgico-purgativa.

Vicente especializa-se em zimotecnia. No relato está explicado: o estudo da fermentação. No verbete dedicado a este último vocábulo, encontramos: “Transformação química provocada por um fermento vivo ou por um princípio extraído de fermento; efervescência gasosa; efervescência moral, agitação, comoção, ebulição.” O que pensar da presença de Ana Corama, efervescendo e agitando esse clã gorado, o que pensar de um trecho como: “Hoje estou sozinho, sei. Zelino pode ser que não tenha existido da maneira como falo dele, mas tudo que volta pela comoção, retorna com a força dum segredo turbado…”? Como já disse, um dos segredos da magia narrativa de Nosso grão mais fino está na perícia da escolha de palavras com profundo  impacto conotativo e associativo (experimente, leitor, pesquisar os significados de “mascavo”, termo aparentemente óbvio e literal, numa trama que envolve o fabrico de açúcar).[1]

Esse drama familiar portentoso (cujo cerne é, sobretudo, a questão da identidade pessoal), em sua concentração poética, apresenta tal fermentação, tal tensão em seu emaranhamento, que muitas vezes a sintaxe “normal” é quebrada (há várias inversões frasais, principalmente no desafiador começo do livro), as formulações roçam um lirismo desautomatizador da lógica da linguagem (“olho para ela e ela me ouve” ou ainda “Você tem nos olhos o mesmo baque de seu pai, Ana”); por isso, não é de surpreender que, na ebulição de todos esses ingredientes e fios enredados, a parte final do livro relate uma enchente destruidora em Recife (Vicente e Gaetano ali consomem os resquícios do patrimônio familiar e roem a solidão dos deixados para trás), a qual parece trazer tudo de roldão. De fato, contrariando uma afirmação de Ana Corama (admoestando Vicente, “seu contato com o mundo é por vapores”), “Deve-se amar sem metáforas”, ironicamente a catástrofe parece ser a corporificação literal de uma metáfora: uma vida de coisas submergidas, de afetos e fetiches afogados pelo Tempo.

O que vem à tona é a desnorteante qualidade desse romance de estreia.

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ANEXO- TRECHO SELECIONADO: escolhi a passagem abaixo porque o heroizinho (de uma história infantil concebida por Ana Corama) chama-se Jurandir, nome do narrador-protagonista da segunda experiência de José Luiz Passos no gênero, O sonâmbulo amador:

“A história continua entre o menino e a passarinha. Meu heroizinho não tem o exagero de mãos coloridas, nem jardina ou maneja uma atiradeira, mas olha o céu dia e noite. Enxerga seus gigantes (…) Medo da mata ele tem, mas corre mais que o vento e faz pou! quando rompe a barreira do som (…) Esse estrondo assusta os pássaros (…) De noite então ele olha e seus olhos são dois luzeiros. Depois, não. Depois a lavandeira, a passarinha duma perna só, porque perdeu seu ninho, essa ave de quem meu herói havia caçoado, imitando sua perneta, enfim, ela lhe roga a má-fé. Diz a ele que fique mal. Que seja outra coisa. A praga de penas pegou. Meu heroizinho, virado em coruja caolha, vê agora o avesso do dia. Transmudado em ser noturno, vagabundeia pela madrugada e, quando fala, em vez de falar, pia. Dá medo a quem antes andava com ele na folga da brincadeira. Esse menino, por voar à noite, vê quem era e quem é, vê sua família à mesa. De cima das telhas, vigia sua própria coisa. Choram por ele, por sentirem sua falta. Mas o herói, temendo ser esquecido, virar estrela, decide enfrentar o mau-encanto e, com isso firme na cabecinha de coruja, parte numa jornada. Sua viagem é o meu livro, Magda. Já tenho, mesmo que você não me acredite, um final para a sorte desse herói que se esvai na procura de voltar a ser o que era antes. Anote, mulher, a coruja dum olho só voa rasante dia e noite, até que encontra quem buscava, e com raiva morde e rouba a última perna da lavandeira, a sacizinha do ar, ela agora nuela, despatada, não pode pousar, voa sempre. Eis a falta louca que meu heroizinho lhe impôs. É a pena do alerta perene. Agora cada qual, convertido no que não quer, sofre o que o outro lhe fez (…) Você pode pensar, Magda, porque vejo seu espanto,  que há crueldade demais. Mas não. A lavandeira, passarinha agoureira, era ave desde o começo transformada. Quando meu herói a beija, querendo ser seu pequeno Judas, ela volta a ser pessoa de sangue. Pou! (…) Pensando que a traía, ele a salva (…) Quando Magda voltar, vou lhe dizer que a lavandeira, passarinha mensageira, após o beijo volta a ser Marianha [maranha?], a prima perdida do menino Jurandir, meu herói. Há entre ele muito amor. Ela beija aquele moço e os dois, abraçados, agora Jurandir sem ser a coruja caolha, Marianha não mais a passarinha palerma, eles rolam na grama recém-cortada, os corpos salpicados de forragem verdosa pelas coxas, pelos braços, nos rostos e, um para o outro, dizem o que sabem, correm na carruagem cheia de cabelos esvoaçantes que eles catam das bocas, se desculpam e chegam afinal a um caminho de volta para casa. Vão se casar, é claro. Direi a Magda, não vou mais deixar que Vicente me atrapalhe com sua latomia de insistir no que é baldado. De agora em diante, o futuro…”

osman


[1] Todas as considerações acima, e mais a figura de Ana Corama, me trouxeram à mente o universo do grande escritor Osman Lins, cujo estilo (por exemplo, o de Avalovara, seu livro mais ambicioso) algumas vezes foi taxado de afetado. Certamente, há um quê de quase pernóstico na voz narrativa (de Vicente) nas primeiras páginas, mas assim como em Osman, tudo—até a suposta afetação—é funcional e necessário ao mundo ali evocado. Muito diferente do preciosismo subliterário de uma Nélida Piñon, por exemplo, modelo acabado de estilo fake.

LEIA AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/07/05/um-romance-admiravel-de-jose-luiz-passos-o-sonambulo-amador/

 

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