MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/06/2012

Personagem à procura de um autor

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de dezembro de 2008)

Há 50 anos, Graham Greene publicou um romance maravilhoso ambientado na Cuba imediatamente anterior a Fidel Castro: Nosso Homem em Havana. Um trecho define bem a relação do protagonista, Wormold, com a capital cubana: nunca se acostumaram com a sua presença. A seus olhos, ele jamais se tornara um residente: seguia sendo um turista permanente, e, assim, lançavam-se em sua direção. Estavam certos de que, mais cedo ou mais tarde, como todos os demais, ele desejaria ver o Super-Homem em ação no bordel San Francisco”. O mítico Super-Homem, possuidor de um membro descomunal, também entra em ação no Chefão II (1974): os irmãos Corleone, Michael e Fredo, assistem a seu número numa cena-chave em que o novo chefe da família se conscientiza da traição do irmão mais velho.

Super-Homem e a atração do comércio sexual na Havana dos anos 50 reaparecem com vigor nos primeiros capítulos de Nosso GG em Havana (2004, em versão de Paulina Wacht e Ari Roitman), fazendo prever uma narrativa bem engendrada.  GG desembarca nesse paraíso tropical da desrepressão (embora um tanto úmido e quente), procura lugares com apresentações pornográficas e se envolve com o Super-Homem, o qual, após seu show viril, adota a identidade de Caridad, um travesti belíssimo que vai tirar a virgindade de mister Greene (e como todos os autores nos quais parece visível um certo culto fálico, Gutiérrez nos solta esta pérola, mesmo que banhada em distanciamento irônico: “Para GG foi a experiência mais forte da sua vida. Jamais imaginou que uma coisa tão extraordinária pudesse lhe acontecer”; alguém poderia me informar por que um ato banal como dar o rabo seria uma experiência extraordinária ou gloriosa?). Pois bem, ambos são presos, acusados de assassinato (encontra-se um cadáver no camarim de Super-Homem/Caridad).

Aí ficamos sabendo que o verdadeiro GG estava em Capri e que acabara de finalizar O Americano Tranqüilo (cuja ação transcorre na Indochina), citado algumas vezes e motivo de reflexões que percorrem Nosso GG em Havana. Ao saber do escândalo envolvendo seu nome, apesar dos conselhos do editor que quer aumentar a vendagem das suas obras e lhe recomenda que fique “na moita”, ele não hesita em ir a Cuba e investigar o caso, sendo abordado, pressionado e ameaçado pela inteligência americana, por espiões soviéticos, por uma milícia que liquida nazistas refugiados na América e, ao fim e ao cabo, por um gângster bastante persuasivo nas suas perorações e seus métodos.

Nas mãos de Greene, isso resultaria decerto numa ficção fascinante; nas mãos de Gutiérrez ela vai se transformando numa coisa morna e desalinhavada. Dá até para entender para onde se encaminha o entrecho, no sentido de mostrar que, no fundo, interesses e táticas soviéticos e americanos são idênticos (o que projeta uma longa sombra sobre o feito revolucionário na Ilha, ainda um dos resquícios do sentimentalismo de Esquerda). Quando GG é seqüestrado pelo gângster, ele descobre quem é que manda verdadeiramente em Cuba: é quem controla o business, e para quem todas as outras preocupações (ideológicas, inclusive) são insignificantes

O problema de Nosso GG em Havana é ficcional. Com traços rápidos, Gutiérrez conseguira captar, a princípio, a pobreza que havia por trás do suposto glamour que atiça os turistas, e além disso, polarizar as diferentes reações entre o suposto GG (sujeito pobre, fracassado, reprimido sexualmente) e o verdadeiro GG (a essa altura bem sucedido e famoso no mundo inteiro, só que angustiado, obcecado pelo sentimento de pecado, mesmo sendo dado às extravagâncias eróticas, ainda que heterossexuais). Dois britânicos quase da mesma idade, mas de status diferentes, deparando-se com um “paraíso sensual” (“era uma cidade pra se visitar, não para se viver nela… embarcara no grande assunto de Havana: as relações sexuais não eram apenas o principal comércio da cidade, mas a raison d´être da vida de um homem”, lemos em Nosso Homem em Havana), que também comporta violência policial, tortura; aliás, uma situação “globalizada”, por assim dizer, que o genial Graham Greene antecipou e captou muito bem em seus livros passados em diferentes lugares do mundo, e sempre com essa tônica: labirintos de escolhas sórdidas e velhacarias.

Ora, Gutiérrez deixa tudo isso de lado, e se dedica a nos entediar com os confrontos do impotente GG com a tal milícia que assassina os nazistas e com os que a espreitam. O pequeno romance, atravancado, fica parecendo aqueles filmes do gênero “noir”, nos quais nos dão um monte de elementos e nunca conseguimos estabelecer uma relação muito clara entre eles (por exemplo, a confusíssima trama de À Beira do Abismo, de Howard Hawks), embora seja muito mais pobre e tosco do ponto de vista do colorido narrativo e do charme.

O GG que se encanta com Super-Homem/Caridad mal aparece depois na história. O GG que persegue o fio da meada fica como um personagem à procura de um autor porque Gutiérrez tem pressa e quer terminar seu romance. Um vôo muito curto.

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