MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/07/2012

Mailer e a estrada perdida: UM SONHO AMERICANO

   

  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 24 de novembro de 2007)

 A geração à qual pertencia Norman Mailer parece ter chegado ao auge do seu talento em meados dos anos 1960: Saul Bellow com Herzog, em 1964; Truman Capote, com A sangue frio, em 1966; William Styron e Gore Vidal, respectivamente com As confissões de Nat Turner e Washington D.C., em 1967. E Norman Mailer publicou em 1965 a obra-prima suprema do “grupo” (competitivos, eles detestariam ser arrolados assim), com a possível exceção de A sangue frio:  Um sonho americano, já competentemente traduzido no Brasil (por Waltensir Dutra), e que agora ganhou nova versão, dentro da série Pocket da L&PM, realizada pela responsável pelo Harry Potter brasileiro, Lya Wiler.

    Um sonho americano é narrado por Stephen Rojack, cujas raízes, “raízes de erva daninha” remontam a um “pai judeu, descendente de imigrantes” e a uma “mãe protestante, família de banqueiros da Nova Inglaterra, segunda geração” (em algum lugar ele falará da velha cepa protestante de uma nação enlouquecida”). Ele mata a esposa, durante uma luta, encena um suicídio (atirando-a no meio do trânsito de Nova Iorque) e apesar da suspeita da polícia consegue se safar. A narrativa se concentra na noite do crime e no dia seguinte, quando ele se confronta com o sogro, um magnata, no seu andar privativo no Hotel Waldorf.

   É-nos servido o grande coquetel americano: luxúria, poder, dinheiro, violência. Desse mesmo material são produzidos best sellers às pencas. Desse mesmo material, Scott Fitzgerald construiu sua magnífica obra elevando a mito a obsessão dos EUA com sucesso e fracasso: nomes de família antigos, referências prestigiosas (Harvard, Princeton), a vulgaridade tolerada (Hollywood; no romance de Mailer, a televisão), o esporte como heroísmo, e arrivistas que vencem com a força do dinheiro, mas que, como Gatsby, serão sempre mantidos do lado de fora. Mailer adicionou a aura heroica da Segunda Grande Guerra (Rojack é um ex-combatente condecorado) e o carisma e status aristocrático do clã Kennedy.

Daí o primeiro e emblemático parágrafo do livro:

Conheci Jack Kennedy em novembro de 1946. Éramos ambos heróis de guerra e havíamos sido eleitos recentemente para o Congresso. Saímos, certa noite, para um encontro duplo, que acabou sendo uma noite e tanto para mim. Possuí uma moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz.

    A moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz é justamente a esposa (católica) que ele assassina. E assim se inicia um relato sulfúrico, em que analogias se sucedem vertiginosamente, como acontece em nossos dias com o argentino Alan Pauls e seu O passado, romance que também cerca cada momento com uma imagem ou um símile.

   Só que Pauls parece “fechar” tudo harmoniosamente, numa formulação lapidar, enquanto Mailer sempre parece a um passo de desagregar sua narrativa, de destruí-la sem apelo, tal o revolutear dos seus leitmotivs, próximos da incoerência, tal o namoro com a frivolidade, a volubilidade e o exibicionismo.  Portanto, no sobrecarregado e abusivo texto de Um sonho americano, nem tudo é feliz, e às vezes pode ser detectado algo de inconsequente. E daí? O acúmulo desgastante acaba se justificando pela imposição da desordem da existência sobre o sonho americano de organizar a vida em trajetórias, bem ou mal sucedidas.

   Poucas vezes, também, uma obra de ficção mostrou como a consciência pode ser afetada por sons, luzes, cheiros: quando Rojack está embriagado, sentimos isso no próprio âmago do relato, é quase como um bafo que nos entorpecesse.

    E além do rastro fitzgeraldiano deixado pelo fabuloso início acima citado, Mailer amarrou o seu genial romance com a lição aprendida em Hemingway: diálogos precisos e maravilhosos fazem a narrativa avançar sem que percebamos, e a conduzem com vigor, da claustrofóbica jaula urbana da insanidade da nação, para a grande tentação (e esta palavra  não poderia ser mais adequada ao mundo de um escritor) do imaginário americano: on the road

06/04/2012

Mailer domando os quatro evangelhos ou os evangelhos domando Mailer?

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 1998)

“Deus me impressiona, mas não tenho fé”.

      São palavras que Judas dirige a Jesus num dos capítulos mais belos de O Ebamgelho segundo o Filho,  de Norman Mailer. Um capítulo estratégico, que divide a narrativa em duas. No capítulo seguinte, Jesus realiza seu maior milagre (a ressurreição de Lázaro) e chegará a Jerusalém para cumprir seu destino.

      É o próprio Cristo quem narra O Evangelho segundo o Filho. Acompanhamos a mesma história de sempre, pórém há um sutil debate do narrador com os que contaram e recontaram sua vida (Marcos, Mateus, Lucas, João). Além disso, o Jesus de Mailer está sempre em dúvida se as palavras que diz são inspirados pelo Senhor ou por Satã, se realmente ele está “inspirado” por ser Filho de Deus, se está ouvindo realmente o que deve dizer. Muitas vezes o que diz contraria diretamente suas emoções do momento. Depois de tudo consumado, Jesus acaba não conseguindo discernir ou avaliar qual o papel exato que desempenhou na história do mundo. Cosntata que esse mesmo mundo não melhorou em nada com seu sacrifício, não tem certeza sequer de que cumpriu sua missão, não sabe se Satã (que ganha um relevo especial nesse Evangelho peculiar) ganhou o jogo. Isso acaba dando à história um tom mais verossímil, mais próximo da relatividade das coisas que acontecem no reino deste mundo (e, na minha opinião, desperta mais simpatia): “Deus e Mâmon ainda disputam os corações dos homens e mulheres. Ainda assim, como a contenda permanece tão igual, não se pode dizer quem triunfou –o Senhor ou Satã. Continuo à direita de Deus, tentando cada vez ser mais sábio e pensando em muitos com amor… Meu Pai, porém, não me fala com freqüência… Suas guerras contra o Demônio tornam-se mais acirradas. Grandes batalhas têm sido perdidas. No último século deste segundo milênio sucederam-se holocaustos, conflagrações e pragas piores do que quaisquer outros já ocorridos. A grande maioria segue acreditando que Deus obteve uma grande vitória através de mim… nenhum outro profeta jamais teve tantos discípulos, tão prontos a morrer em seu nome”.

      Temia-se que o imprevisível Mailer pudesse criar uma história de Jesus irreverente e caricata, nos moldes de Joseph Heller ou do Gore Vidal de Ao vivo do Calvário; ou que cedesse ao ímpeto caudaloso e informe de algumas de suas obras  mais recentes (como Noites Antigas), ele que é um autor basicamente  barroco e incandescente, e que está comemorando 50 anos de produção literária (estreou em 1948 com o fabuloso Os nus e os mortos).

     Nada disso aconteceu. Fundindo os diversos textos evangélicos e usando seu tremendo sendo de poeta da prosa, Mailer nos dá o romance mais sóbrio e elegante já escrito sobre Jesus Cristo. Quase que se poderia usar a palavra “puro” para descrever um texto que flui com uma naturalidade incrível. Nem parece o autor que gosta de projetos ciclópicos, enormes e “impuros” (e sempre interessantes, quando não admiráveis), como os já citados Os nus e os mortos & Noites antigas (1983), além de A canção do carrasco  (1979) e O fantasma da prostituta (1991), isso sem falar nas obras-primas mais curtas como Um sonho americano (1965) e Os exércitos da noite (1969), cujo virtuosismo extravagante nada têm a ver com a simplicidade fluente de O Evangelho segundo o Filho.

       De qualquer forma, com relação à literatura, Jesus não pode se queixar. Pelo menos três dos maiores escritores do século,sem contar as versões cinematográficas antológicas de Pasolini e Scorsese, criaram grandes “evangelhos”: Nikos Kazantzakis, José Saramago, e agora Mailer com seu pequeno grande livro. Obras assim desafiam até mesmo quem não tem fé, operando o milagre de suspender a descrença e até fazer acreditar que a água pode se tornar vinho: “Diante de nós estavam depositados seis grandes jarros de pedra, todos com água, e, numa mesa ao lado, cachos de uvas vermelhas, uma das quais comi bem devagar, pensando intensamente no Espírito que residia dentro da fruta. Em verdade, pude sentir um anjo perto de mim. No mesmo momento, a água dos jarros se transformou em vinho. Eu não vi, mas sabia que tinha acontecido, apenas  em virtude do paladar de uma uva e graças à presença do anjo. Ah, eu nunca me sentira tão perto do reino de Deus e crente de sua inesgotável beleza. Meu Pai não era somente o Deus da ira, mas podia oferecer uma ternura tão delicada quanto a que existe num suave toque de mão. Ao mesmo tempo, experimentei uma tristeza imensa, ante a visão de um banquete de que nunca participaria.”

    

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