MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/04/2014

Sobre os passeios de Noemi Jaffe pelos bosques da ficção: uma resenha quase alfabética e um impertinente esquema

Noemi Jaffealfabeto

“Que absurdo poder utilizar um mesmo verbo com várias preposições diferentes, assim possibilitando alterar seu significado. Como pode uma língua prestar-se a tamanha flexibilidade? Isso só pode querer dizer que, nessa língua, como parecia ser a tendência de todas as outras, as palavras não têm significado próprio, permitindo que outras se aproximem e transtornem seu conteúdo e, pior ainda, sua forma. Qual é a substância de uma língua como essa?” (Noemi Jaffe)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de abril de 2014)

Após frequentar a lista de finalistas nos mais prestigiados galardões literários, como o do Portugal-Telecom, A verdadeira história do alfabeto[1] venceu na semana passada o Prêmio Brasília na categoria conto.

Brincando com as 26 letras do nosso idioma, Noemi Jaffe cria pequenas narrativas sobre a origem de cada uma (além de verbetes em torno de vocábulos como “dádia”, “gabarra” ou “libuzia”, na segunda parte do livro[2]), num exercício raro no Brasil, e no qual Italo Calvino era um mestre supremo, é só lembrar dos clássicos O castelo dos destinos cruzados (1969) e As cidades invisíveis (1972) : uma moldura enciclopédica e quase rígida para o conjunto e, no seu interior, correndo soltas a imaginação e a fabulação.

Com o italiano (cujas propostas para o milênio –  sempre foram assaz comentadas, mas pouco praticadas por aqui), a talentosa autora paulista compartilha outro traço: a leveza que consegue imprimir ao seu texto, mesmo tratando-se de um amplo passeio pelas antinomias e concepções antitéticas com as quais a humanidade vem se debatendo desde o início dos tempos, tentando resolvê-las através do mito, da religião, da ciência e das artes (a geometria tem uma função muito especial na tessitura e colorido descritivo do livro).

De cada relato resulta uma letra, e também uma palavra a ela associada fortemente (por exemplo, “vidro” em relação ao V, ou “xadrez”, em relação ao X), num caleidoscópio de lugares e épocas.

E até mesmo “fora do tempo”: há o episódio no Éden, quando Adão nomeava os seres—e assim nasceram o G e o grilo (enquanto designação de um ser)—, ou aquele na pré-história, quando um antepassado nosso vê sua própria imagem refletida, adquirindo a noção de si e dos outros, “a primeira vez que um ser humano conseguiu compreender precariamente o lado de dentro e o de fora” (é a origem do E).

Faz-se o percurso desde a nomeação dos átomos (por Epicuro, em 341 A.C), que “já existiam desde toda a eternidade e o infinito dos infinitos, desde o momento causador do caos, mas ainda não havia uma letra para designá-los” (letra A) até a era triunfante da física quântica, quando um próton, molécula “dotada de introspecção”, perdida no “léxico do acaso”, compartilha sua perplexidade com o humano que a estuda: “Até hoje, milhões de outras partículas continuam girando em falso e gerando brechas, falhas e surpresas. Alguns homens as acompanham” (letra Z).

Graças à destreza intelectual de Noemi Jaffe, o leitor passa pela antiguidade (Caldeia, Fenícia, Grécia), pelo mundo bíblico (Jó), e depois, em pleno cristianismo, pela Itália das disputas teológicas, dos autores como Ariosto e Petrarca, pelos espaços do mercantilismo e do colonialismo, pelo império austro-húngaro.

Há as aventuras da intertextualidade, com letras surgidas a partir da leitura de obras como as de Luciano de Samosata (a história de Lúcio, transformado em burro, dando origem ao S e ao “sim”: “por contraste com a aridez reta e seca do não humano, o consentimento dos burros era complexo e sinuoso”), de Borges (duas letras, o L e U), de Nabokov (o X).

Isso não sobrecarrega de forma alguma A Verdade História do Alfabeto.

Jamais temos a sensação de pedantismo ou de gratuidade metalinguística, apesar da noção de jogo ser essencial ao projeto do livro.

Lapidar e afiado, o estilo de também não deixa que o tom descambe para o monocórdio, talvez o maior perigo da empreitada.

Mas é claro que sempre algum texto se destaca, mesmo num conjunto singularmente harmônico.

Notável, por exemplo, é aquele que trata da origem do Q.

Outro ponto alto é o conto de Baltazar, lutando pelo reino português nas Ilhas Molucas, no começo do século XVIII, contra os holandeses, e que na verdade é Maria Úrsula D´Abreu Lencastre, travestida de soldado.

Perdido (a) em dúvidas hamletianas, sintetiza bem os muitos personagens perplexos diante do terreno escorregadio das palavras (um deles diz: “sempre me isolara das outras pessoas porque todas pareciam saber exatamente como dominar códigos aparentemente tão fáceis e eu mal conseguia articular três palavras. Todas me soavam tão decisivas. Como alguém podia dizer Bom Dia impunemente?”).

Quase cedendo à covardia, ele-ela consegue tomar uma fortaleza e ganhar fama.

Resisto a citar outros (a origem do R, ligado a Manuel Bandeira e sua fecunda solidão, por exemplo), igualmente inspirados.

Seria tarefa interminável.

Tomara tenha iscado o interesse do meu leitor por esse livro singular.

Um dos mais originais surgidos nos últimos anos.

Vou terminar esta minha resenha sem conseguir (além das embaraçosas K, W e Y, o primeira delas proporcionando, inclusive, um dos textos mais significativos de A Verdadeira História do Alfabeto, associado à palavra “kadish” e sua intraduzibilidade) imaginar frases iniciadas com X e Z, depois de tentar seguir o exemplo de Noemi Jaffe: falta-me a sua vigorosa e enxuta criatividade.

alfabeto 1- OK

ANEXO

ESQUEMA PSEUDOCRONOLÓGICO E PSEUDOORGANIZADOR DE A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ALFABETO (com algumas anotações soltas de leitura pseudosérias/objetivas)

recorrências: a descrição geométrica da “formação” das letras, exemplos poéticos de palavras começadas com cada letra (e, na maioria dos casos, a invenção da letra corresponde à invenção de uma palavra[3], e sempre com adesão aos processos de pensamento dos personagens)

-acaso, jogo, geometria, ciências, engenhos, artes, religiões.

Então, uma possível sequência temporal da invenção das 26 letras do alfabeto seria:

O “fora do tempo”, mito indígena da criação da humanidade, muito calcado no matriarcado (a “avó da humanidade”)

“O mundo, nessa época, já estava parcialmente criado; mas faltava a humanidade, que seria tarefa específica dos trovões. Para isso, era preciso também inventar o sol e a lua, as florestas e os bichos, para que a humanidade pudesse se aquecer, se alimentar e reproduzir”

G letra auspiciosa”, criada “fora do tempo”, no espaço do Éden (Gênesis), o mundo ainda por nomear, depois de criado (tarefa adâmica).

Adão e o grilo

“Alguns seres ora não manifestavam prontamente a natureza de seu nome, ora resistiam ao nome que Adão lhes designava”

E pré-história, nenhuma localização temporal precisa, porém o espaço é onde é a “atual França”

Homem das cavernas, consciência de si, do outro, e do que é exterior, descoberta do ritmo e da imagem (reflexo)

“a primeira vez que um ser humano conseguiu compreender precariamente a distinção entre o lado de dentro e o de fora

H Antiguidade remota, abeirando-se do mítico, sem localização temporal. Mas bem localizada espacialmente (Caldeia, Babilônia, margens do Eufrates). Uma das raras narrações em primeira pessoa.

Astronomia, Dilúvio.

“Afinal, as águas se movimentavam geniosamente de acordo com sua imprevisível atividade pelos céus, e as letras daquela nova escrita em forma de cunha teimavam em reagir sempre de forma diferente ao que o escriba previa”

V Antiguidade remota, por volta de 2.000 a.C, quando soldados fenícios acampavam à beira do rio Belus (Palestina).

o rio (e a experiência humana) remetendo aos conceitos de Heráclito

Positivo. Negativo. Civilização x Barbárie. Invenção de artefato revolucionário (no caso, o vidro).

Realidade. Imagem.

“Encostou de leve a ponta dos dedos sobre a chapa e ela já estava morna. Ergueu-a lentamente e observou que era dura e se sustentava transparente e sólida diante do seu corpo. Através dela, viu os homens dormindo, o rio correndo mando, a lua mais branca do que a olhos nus. Era como se o mundo ficasse melhor, mais bonito e também ele transparente; como se o mundo se transformasse numa imagem”

P Antiguidade mítica- Antigo Testamento, história de Jó e do “deus incaracterístico

Moral da fábula: somos feitos da mesma matéria do mundo: Pó.

“Soube, naquele instante, que ele também, puro Jó, era feito daquela própria matéria, como fora Adão antes dele, e o mesmo Abraão, seu parente distante, de quem se falava em todas as aldeias, e também seus filhos e filhas, agora já mortos. Soube que ele mesmo era terra, como quem dele viera antes e viria depois”

A Antiguidade bem localizada espaço-temporalmente (Grécia, 341 a.C.)

Physis.

Epicuro- teoria atomística- “em função da constatação sobre o desejo que os átomos sentiam uns pelos que Epicuro descobriu a letra A”

S Aproveitamento intertextual do personagem Lúcio (transformado em burro, um “burro abarrotado de emoções) de Luciano de Samosata (o paradigma da “sátira menipéia”), obra do século II d.C, e por sua vez também uma operação intertextual, com a obra de Apuleio.

O Sim vs. o Não. Recusa e consentimento.

“Compreender que, por contraste com a aridez reta e seca donão humano, o consentimento dos burros era complexo e sinuoso, carregado de possibilidades

M Um anacronismo (proposital?): a superposição da figura de Boécio, do século VI, com a do papa Nicolau III, do século XIII.

Gramática, Teologia, Atributos do ser.

“Os dois já tinham passado quatro noites inteiras redigindo aquela carta, perdendo toda a tinta e os papéis que nem possuíam, penhorando tudo o que podiam e criando todos os problemas possíveis com usurários, estalajadeiros e religiosos”

J século XIV, relativamente localizado no tempo (Petrarca, concluindo uma obra: um soneto) e no espaço (Pádua)

Vida onírica, criação de idioma, filiação/competição entre autores

O que o atormentava era preciso, não diluído na fraqueza do agora. Era a fonte imediata de lágrimas noturnas. A palavra estava certa. Mas não havia nenhuma boa tradução para ela (…) formar uma nova letra, que se chamaria J, em homenagem àquela palavra que Petrarca acabava de criar, a palavra , que daria conta de dizer o que o poeta sentia. O que lhe doía era já”

F século XVI, relativamente localizado no tempo (momento em que Ariosto conclui seu “Orlando Furioso”) e no espaço (Ferrara, Itália).

Com o pressentimento do Quixote, a questão da filiação entre os textos literários (os epítetos para os heróis como “topoi” clássico, por exemplo)

“Orlando tinha enfim um epíteto, Ariosto, uma obra e um livro”

cobrinha alfabeto

C século XVII bem localizado espaço-temporalmente (Jacarta, “Índias Orientais”, 1611)

Mentalidade dos holandeses (marinheiros) da Reforma, Mercantilismo

Monstro- cobra

“Noventa dias no mar, sem conhecer o destino de chegada, enfrentando tempestades que certamente poriam fim à vida de tantos pobres coitados, ladrões, condenados, estupradores honestos, e tudo isso sem poder fornicar, beber um único gole de gim”

T Não especificado no texto, mas certamente início do século XVIII (reinado de D. João V), quando Maria Úrsula d´Abreu e Lencastro, travestida como o soldado Baltazar, lutou contra os holandeses nas Ilhas Molucas (tomando a fortaleza de Amboina)

Exemplo da recorrente “donzela guerreira”, do travestimento feminino para assumir um destino “masculino”. Ser outro em si mesmo. Duplicidade. Outridade.

Covardia e coragem. Certeza e dúvida. Fato e lenda (versão).

“No meio de todas aquelas palavras, sentiu-se perdido como se estivesse morando numa floresta de letras. Nada mais tinha sentido próprio, era como se as palavras dançassem na sua frente e o tentassem para agir, ou para manter-se oculto”

B séc. XVIII bem localizado espaço-temporalmente (Leipzig, 1725)

Bach e a recusa de uma nota, ainda não-nomeada, em soar

“intervenção pitagórica das esferas cósmicas em meio à devoção das notas cristãs”

I século XIX bem localizado espaço-temporalmente (Viena, 1857)

Império, minoria linguística (húngara), assimilação por uma cultura metropolitana dominante. Fascínio por certas línguas “estranhas”.

“Era ela a amada agonizante, que a ele cabia agora resgatar de volta à Hungria, mesmo, e mais ainda, porque no exílio. Na linha reta de sua pupila, Károly divisou uma letra ainda inexistente no alfabeto húngaro e soube imediatamente que com aquela letra ele inventaria seu nome, bem como uma nova palavra, que o húngaro forneceria ao mundo para sempre”

L apesar de não-especificado, tem de ser na 2ª. metade do século XIX, na Argentina dos pampas, dos gaúchos, dos compadritos.

Intertextualidade direta com “O morto”, de Jorge Luis Borges.

“Formou com elas uma linha reta na vertical e, num ângulo de noventa graus à direita, na parte inferior, outra linha horizontal. Pensou que a linha vertical era como o tempo, que vinha desde a sombra de Otálora e seu desafio cego à tristeza sem fim dos pampas e ia até o futuro, quando aquele escritor, também cego, escreveria aquelas linhas. A linha horizontal era a própria planície, o pampa, que se estendia do vazio onde Manoel se encontrava agora até os lugares onde havia cavalos e cavaleiros sentados a esmo”

U Outro exercício de intertextualidade com Borges, dessa vez com “Ulrica”, personagem nórdica (norueguesa). Outra rara narrativa em primeira pessoa.

Regra. Jogo. Destino. Acaso (Vida e Morte)

“sempre me isolara das outras pessoas porque todos pareciam saber exatamente como dominar códigos aparentemente tão fáceis e eu mal conseguia articular três palavras. Todas me soavam tão decisivas. Como alguém poderia dizer bom dia impunemente?

K não especificado no texto, mas pelas indicações (Picasso com 14 anos), final do século XIX (1895), na Espanha.Um dos textos mais próximos do conceito do conto tradicional, sem aquele ligeiro esquematismo que perpassa outros relatos do volume.

Pintura. Química. Cabala/talmudismo. Palavra, imagem, geometria.

“no texto que Gérard pronunciava naquela língua que o menino não entendia mas que soava como se fossem os desenhos que ele via. Alguma coisa entre o possível e o impossível, entre o fora e o dentro, o azul que não se via e que ele sabia que poderia criar”

D século XX bem localizado espaço-temporalmente (Índia, 1922)

Pesquisador inglês, Colonialismo x Homo Ludens

“num dos dados que possuía em casa, amontoados ao acaso, como cabe fazer com os dados”

X intertextualidade com “A defesa Luzhin”, de Nabokov, escrito em 1930 (em russo) e depois retrabalhado em inglês (1964).

Xadrez. Jogo. Acaso. Regras. Beleza. Estratégia. Liberdade. Loucura. Ou seja, o circuito de antinomias e duplas antitéticas da existência disposto no tabuleiro.

“Luzhin era russo. Suas jogadas podiam não ser tão belas, mas seria difícil prevê-las, por mais feias que fossem. Como decifrar os caminhos de seu cérebro, que se perdiam pelos desvãos dos cálculos, pela matemática que mais criava o futuro do que se submetia a ele?”

W Intertextualidade com “Macunaíma” (por sua vez, com uma relação intertextual com o livro etnológico de Koch-Grünberg), de 1928, entrelaçando selva e espaço urbano industrializado (São Paulo)

Folclore. Mito. Ficção. Literatura. Processo histórico (aculturação)

A imposição do Nome como princípio da realidade x princípio do prazer

“Macunaíma e seu povo, o povo que não carecia de nome porque se sentia completo em sua existência”

R Ambientação temporal inespecificada, mas certamente meados do século XX, no Rio de Janeiro (Santa Teresa), tendo como personagem Manuel Bandeira (alusões à sua infância no Recife, o Capibaribe)

o rio- fluir e correr

Mais conceitual, por assim dizer, do que narrativo

“Também era bom estar triste e só. Era uma forma de cumprimentar um destino que sempre fora o seu. Estar só na noite e na paisagem vazias, era para ele o mesmo que para os outros era ter uma família, uma casa cheia, barulhos”.

six-memos-millenium

N ambientação evidentemente contemporânea (dicção narrativa mais próxima do conto tradicional também), todavia nenhuma preocupação em uma ambientação espaço-temporal.

Personalidades antípodas e complementares, bem apropriado num livro de antinomias e rumos antitéticos:

“Clara era mais esperta, Lúcia sabia, mas tinha certeza de que, na sua lentidão, alguma coisa a salvava. Sabia que alguma coisa ela conhecia melhor do que Clara, apesar de sua lerdeza; podia sentir que havia um conhecimento que estava depois ou antes das coisas mas que era diferente”

Q ambientação contemporânea inespecificada

Filologia, Linguística, origem das línguas (no caso, a basca)

Acaso- Jogo- Ciência- Mistério

“Criou com essa forma a letra Q e a palavra quase, que é quase parecida com ia porque também possui o ditongo crescente, que vai do fechado para o aberto e porque a letra Q, que lhe dá início, indica também sua imperfeição. A letra Q é quase um O, sem jamais sê-lo”

Y ambientado numa China contemporânea.

Medicina chinesa (acupuntura). Harmonia. Correspondências. Corpo. Jogo de opostos. Encruzilhadas (mimetizadas pela letra)

“O avesso do avesso é o direito, embora não exista o direito integral, pois o corpo como a natureza, encontra a unidade no movimento, não no repouso; na mudança, não na permanência”

Z voltando ao átomo que motivou a letra A. O protagonista é um próton, “molécula dotada de introspecção, perdida num quase austeriano “léxico do acaso.

Física quântica. Realidade primordial, cósmica. Onde o “humano” se situa, aí?

“Até hoje, milhões de outras partículas continuam girando em falso e gerando brechas, falhas e surpresas. Alguns homens as acompanham”

ALFABETO MAIÚSCULO

NOTAS

[1] O título completo é A verdadeira história do alfabeto (e alguns verbetes de um dicionário)

[2] Sobre “Libuzia” lemos:

lentidão, loucura, janela. Foi catalogada no Tratado Holandês de Psiquiatria, em 1736, uma doença rara que acomete somente pessoas com mais de 75 anos, do sexo masculino e que tenham vivido solitárias por mais de trinta anos. São pessoas que passam, inevitavelmente, muito tempo dentro de suas casas, sentadas em frente às janelas, e, por essa razão, perdem a mobilidade normal e acabam arrastando-se lentamente ou para ir à cozinha ou para voltar à rua. Dificilmente saem às ruas, e depois de algum tempo, acreditam que tudo o que acontece está se passando por trás de uma janela. Assim, perdem a noção de distância, de tato e do próprio tempo, relacionando-se com tudo indiretamente…”

[3] Essas palavras podem designar nomes, artefatos, seres, qualidades, fenômenos e elementos naturais, conceitos ou até mesmo serem “palavras-intervalares” ou demonstrações do “intraduzível” (como “quase” e “ talvez” e de “kadish”). De A até E não há uma palavra específica relacionada à invenção da letra (embora o A surja a partir do átomo, claro), mas a partir de F encontramos:

F (furioso); G (grilo); H (hemisfério); I (Írisz); J- já; K (kadish); L (laço); M (modo); N (nuvem); O (ovo); P (pó); Q (quase); R (rio); S (sim); T (talvez); U (uivo, o “chamado dos lobos”); V (vidro); W (wapixana); X (xadrez); Y (yang/yin); Z (zinco)

resenha noemi jaffe

 

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