MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/03/2012

Onde os fracos não têm vez

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“Era o que havia de melhor: um mundo de heróis másculos, nutridos, movendo-se muito além do seu. Servia a um deles –não era natural que todas as mulheres o quisessem, o amassem? uma até o comparara a Tab Hunter. Esmagado, ainda não nascera,  não merecera um olhar feminino. Era gordo, fugia às aulas de Educação Física para não ter as pernas curtas e roliças ridicularizadas, para que não lhe apontassem a barriga, e os doces lhe comiam os dentes.  Não importava; vingava-se com as idas ao cinema, copiando os gibis a lápis de cor, espiando Olavo com seus halteres.”

(“O recado”, em Nó de Sombras, de  Chico Lopes)

No filme Laura, de Otto Preminger, o herói, um detetive da polícia, se apaixona (é o que pensamos) por uma mulher morta, a fascinante Laura do título, cuja imagem o obceca. Com o desenvolvimento da trama, porém, essa “área de sombra”, por assim dizer, é iluminada pela constatação sadia: ele não amava uma morta, pois no final das contas, Laura continuava viva e o heroísmo do detetive saía fortalecido.

E se, no entanto, o herói não fosse confirmado por nada? E se o seu desejo, o seu anelo, o seu afã mesmo, permanecessem fantasmáticos e patéticos, e ainda por cima ancorados numa fraqueza interior, numa auto-imagem de insuficiência e vácuo, um “nó de sombras” que jamais se iluminasse?  E mais, e se houvesse no mundo uma figura que fosse o lembrete sempre vivo de toda essa desvirilização, desse nó, dessa falta de competência para aspirar a um lugar definido neste mundo ainda tão patriarcal, em que o “macho” da espécie ainda não definhou completamente, apesar dos “pós-tudo” tão insistentemente alardeados?

A citação que abre este texto, retirada do último dos dez contos de Nó de Sombras (2000), coletânea que marca a estréia literária de Chico Lopes, deixa ver de imediato as cartas do meu jogo de interpretação e análise: através de sutis variações, temos o mesmo tema insistentemente retomado; tanto que uma primeira leitura dá a impressão errônea de samba de uma nota só, de monocordia, o que só uma segunda leitura, mais atenta, provará ser errônea: pois não temos tantos heróis insones, que andam para lá e para cá pela cidadezinha onde moram, apartados de todos, mas sem possibilidade de escapatória, presos numa rede provinciana e sufocante (e muitas vezes imbuídos de uma sensação de pesadelo, ampliado pelo uso do álcool, último recurso desses lúcidos desesperados), “à espera da morte sob um sol maravilhoso, numa cidade a mais salutar possível”, e no entanto, apesar da alternativa lógica, “Para que ficar? Mais um cigarro, era voltar para casa tomando outros quarteirões, mas os desvios sempre sem atrativos,  desesperadamente iguais, meu Deus, há tantos anos tinha pensado em ir embora da cidade, mas ficara demais, ficara tanto que outro mundo, outros hábitos, eram impensáveis...”

O  que aperta ainda mais esse nó dos protagonistas de Chico Lopes é a existência de uma “assombração fechada”, o “meu não”, o “meu nojo”, como diz o narrador de Um corpo no rio sobre o amigo viril e bruto, Nuno, que ele se sente obrigado a matar, para afirmar o pouco de si, só para no final, beber como ele (quando antes, nada bebia) e parecer com ele, na decadência, no declínio.

O espantoso em Nó de Sombras é a maneira crua como Chico Lopes descortina essa “coisa aberrante e esquiva” que condiciona a (de) formação do homem-macho: poucas vezes li essa problemática da afirmação masculina do mundo de modo tão transparente, sem que fosse pelo espelho do homoerotismo. Por isso, já vou desatravancar o caminho e dizer que não é por essa pista que entenderemos os homens complexados e mutilados desses contos, ainda que a presença do pênis, no sentido de exibição, de poder, de intimidação, de recalque, de umbigo do mundo, ser quase tão evidente e avolumada quanto num texto de Jean Genet. Mas é que a camaradagem masculina, e até o desejo pelas mulheres e até mesmo a temível solidão, passa por essa “medição de tamanho”, por mais estranho que pareça, por essa competição a olho nu, por essa visibilidade do espaço fálico que se ocupa no mundo. Não é à toa que o relato em Um corpo no rio começa com Nuno, o viril, obrigando o narrador a abaixar as calças e mostrar o “seu”, numa humilhação que será a tônica dessa “camaradagem”. Não é à toa que nesse mesmo conto, o revólver (instrumento do suicídio do pai, tentação para o suicídio do narrador) é sexualizado, de uma forma que lembra a coerção da presença viril desse camarada tão odiado, presença que o desviriliza, que o violenta psicologicamente: “Temia um pouco tocar naquilo, de repente. Ia ser contagiado pela impressão de que parecia inchado, palpitante”.

    Esse conflito é levado às últimas conseqüências em Nos fundos:  o protagonista acolhe um mendigo maltrapilho em casa, já pressentindo nele um poder sobre si, que  o subjugará, fará com que se permita ser explorado, humilhado e provocado zombeteiramente, até que, num ato final de rendição, ele se deixe castrar pelo intruso a quem conferiu tanto poder.

Em contrapartida, é a visão do pai progressivamente se desvirilizando (“numa manhã apareceu-nos à mesa do café sem o bigode…quem era esse cinqüentão pueril?…Parecia um aposentado precoce com suas chinelas, seu pijama, o sono fácil, o gosto por comer muito e deixar-se engordar”), em A fresta, além da incomunicabilidade tácita estabelecida entre eles, como acontece com as demais relações pai-filho nesses textos, que fará com que o narrador se resolva a ir embora de casa, mas primeiro “medindo-se” com o pai. Vale a pena transcrever a reveladora passagem:

“O quintal.  Não o esperava encontrar tarde da noite ali. Lá na frente, a sombra alta, cabeça voltada para o quintal dos novos vizinhos, acreditava-se à vontade, longe de todos,  protegido pela hora avançada.  À minha aproximação,  surpreendeu-se –estava urinando e, envergonhado,  a noite muito clara,  devolveu o sexo à braguilha, trêmulo… eu tinha visto o bastante para emocionar-me,  sentir-me unido a ele e também um pouco humilhado.  Decidi também urinar e empinei-me.  Teve que olhar, avaliar, coçando a cabeça, embaraçado. Quando guardei o meu,  concedeu-me um sorriso de aprovação: eu não tinha por que me sentir diminuído. Olhamos ambos para a janela que fôra a de Alzira:

__Pai—eu disse.

__O que é, rapaz?—pôs a mão no meu ombro timidamente.

__ Eu vou-me embora daqui.”

A fresta é um dos três belos textos que encerram a coletânea (os outros são O clarão e O recado, os meus favoritos). Todos os três, ao contrário dos demais, se voltam para ritos de passagem, e se concentram no final da infância e na adolescência, no limiar da vida adulta. Mas a vida adulta tal como aparece nos contos anteriores lança uma sombra sobre as perspectivas que esses três relatos abrem, e é bastante significativo que A fresta se inicie com uma sobreposição de tempos, e a perspectiva do presente não parece nada animadora: “…isso é agora ou então? Tenho dormido pouco e minhas idéias andam assim duvidosas entre um tempo e outro, e não conto com ninguém  para conversar, dissipar irrealidades…” Estamos num círculo ao que parece totalmente fechado, o ir-se embora do final não garante nada, assim como a irônica paz doméstica que se segue a um período de atribulações (justamente o da formação do narrador), em O clarão: o irmão do pai, o protótipo do sujeito desvirilizado e desprezado desses contos todos, vai morar na casa, e, apesar da condescendência do irmão, que o protege, vai definhando, odiado pela cunhada, que aproveita sua presença para extravasar ressentimentos e coopta o filho para o seu lado, contra o poder do pai. No final, ela “vence”: o cunhado morre, o marido a deixa em paz, arriado por um luto misteriosamente intenso pelo irmão falecido, que era justamente o seu oposto, só que o filho está pronto para repetir a sina do tio…E se tornar um desses homens-fantasmas, o velho de Parque dos cães; o  narrador de O quarto e a rua; o narrador de Um corpo no rio; o protagonista que se dispõe a ser castrado, de Nos fundos; o protagonista que não quer ter medo, que quer enfrentar o seu nó de sombra, de Do outro lado (o meu terceiro favorito do livro); o viúvo de Uma das mil noites.

Embora tenha um dos fantasmas da masculinidade, o conto Parque dos cães  cria um efeito mais multifacetado, ao contrastar “o velho das roupas azuis” com outros passageiros de um mesmo ônibus (um fanático religioso, que já deixa entrever todos os problemas de “medição” e “tamanho”, que são tanto um índice de sensação de insuficiência na vida quanto marcas de pulsão sexual; uma mulher que parece egressa das peças de Tennessee Williams, e um estuprador): A gaveta é o que se afasta mais dessa reiteração angustiante, mas também tem uma figura masculina equívoca, no sentido de que sua exibição de virilidade, presença masculina segura e certeira no mundo, seduzindo mulheres incautas, adquire um toque ironicamente sobrenatural, pois se trata de um recorte de revista (aliás, o sobrenatural também roça o final de Do outro lado; diga-se de passagem, Chico Lopes capricha bastante nos seus finais, mesmo contos de que gostei menos, como o já citado Parque dos cães e Uma das mil noites, se valorizam bastante com o efeito final; só há um que me insatisfaz quase que totalmente, O quarto e as ruas, pois eu tenho a impressão, nele todo, como em passagens isoladas de outros, que não só estou lendo uma temática já vista em autores mais antigos como João Alphonsus, Rosário Fusco, o primeiro Érico Veríssimo, como também a linguagem parece ser a daquela época, em que a introspecção e o intimismo tingiram a prosa do Modernismo).

E O recado, embora não destoe da temática geral, uma vez que mostra mais um candidato à desvirilização e à condição fantasmática, o menino gordo e fraco que é criado pelo irmão mais velho, um galã local, e que é encarregado de dar um recado a uma suposta amante, uma espécie de Malena (aquela do filme do Tornatore), desejada por todos, tem um final, que mistura angústia e promessa, uma sensação quase opressiva com uma espécie de vastificação do mundo interior. A mulher a quem o menino dá o recado, fica revoltada com a defecção do irmão gostosão e a certa altura beija o portador do recado frustrante:

“…ela o enlaçou pela nuca e tomou-lhe a boca.  Então, aquilo era um beijo: crueza de cuspe, de sabor de bebida,  dentes, carne, carne, carne, lábios rachados, avidez de sumidouro e mais rancor. Essa boca, que o aniquilava,  demorou a desgrudar-se. Depois ela o empurrou—Agora pode ir…

    A subida dos bambuzais , na volta, talvez duas da madrugada, foi lenta. O desejo lhe doía nos rins,  mas a lembrança na boca lhe parecia uma fonte infinita de asco.  Não tinha um lenço para limpar, limpar, talvez arrancar, os lábios.  Tinha de suportar ir até a linha de luz da cidade, carregando o encanto e o nojo. Ela também o incumbira.”

Num mundo de “atestados de insignificância”,  de ruína ontológica”,  de vácuos que imploram”, de um vácuo que ganisse”, esse momento pode ser um dos “fundamentos da sombra” mas se parece também com uma porta aberta para a vida, para suas possibilidades. O nó de sombras e a linha de luz da cidade.

(escrito em 14 de junho de 2010 especialmente para o blog)

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