MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/12/2015

“A vida que às vezes nem parece ter sido a sua”: os rumos da ficção de Michel Laub

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2015]

A Maçã Envenenada é a segunda parte de uma trilogia (iniciada com o excelente Diário da Queda, 2011[1]) sobre “os efeitos individuais de catástrofes históricas”, nas palavras do próprio Michel Laub, um autor fiel aos seus temas: no novo romance, assim como no anterior, ou em Longe da Água (2004), a narração evolui em volutas retomando  um ponto fortuito da juventude, que se revestiu, na dinâmica da trajetória de vida, como signo de desvio, de “queda”, cristalizando a irrevogabilidade do acaso e prefigurando um destino: são as passagens que «em quarenta anos de vida analisada» permanecem numa zona de sombras. Agregam-se a esse instante inflexivo as amizades e lealdades escorregadias e a reflexão geracional.

A Maçã Envenenada evoca, já pelo título (refere-se a um verso da canção Drain You), o lendário Nirvana, e aquela concepção romântica que a morte precoce de um artista carrega, de não conseguir lidar com a realidade corrompida[2]. Ao rememorar o suicídio de Kurt Cobain, revive também o namoro tumultuado com a intensa e destrutiva Valéria, à época do show do cantor e sua banda aqui no Brasil (a ida ao show é um elemento narrativo da maior importância, muito bem trabalhado). O gancho para esse recuo aos anos 1990 é a entrevista com uma sobrevivente daquele memorável genocídio em Ruanda, cuja vontade de viver mesmo tendo passado por horrores funciona como a sombra desse drama afinal tão burguês.

Equacionando Cobain, o primeiro amor, a sobrevivência, o talentoso autor gaúcho nos oferece suas “canções de inocência e experiência” contra um pano de fundo basicamente irônico, quando não cínico como foi o da geração sobre a qual se debruça. Quando canta a inocência, ou algo muito parecido com ela, apesar da contenção e parcimônia do narrador, o relato é incisivo. Faz falta um aprofundamento da “experiência” e a questão no seu bojo: «Uma pergunta que também era: por que eu não consigo agir de outro modo? ».

De fato, sempre elogiada por inserir na narrativa um veio ensaístico, esse é o ponto onde, conforme amadurece e requinta sua fabulação, a prosa laubiana se mostra mais frágil. Raramente sai da zona de conforto, da moldura que adotou como base, eximindo-se de aprofundar os temas perturbadores e dramáticos que suas histórias nos oferecem, contentando-se com afirmações genéricas e alusivas, o que me parece estranho numa obra onde as questões morais são importantes. Por exemplo, ao falar da sobrevivente de Ruanda: «Adianta esta mulher ter passado por uma experiência tão radical, Valéria, se ao término tudo o que ela faz é dar uma lição aguada de breguice…»[3]. Como ele não vai muito adiante na reflexão, fica parecendo a opinião fútil de alguém comodamente refestelado na sua melancolia pós-moderna. O que é injusto, claro, pois duvido que Laub seja tão superficial. O que ele, como autor, não pode, ou não deveria, é continuar mantendo a mesma parcimônia de seus personagens e suas meias-vidas («essa sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequências porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua»).

Quarenta anos de vida analisada já dão matéria para cantar também a pós-inocência. Tomara que a sua ficção se arroje nessa direção.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/24/as-cancoes-da-inocencia-e-da-experiencia-de-michel-laub-a-maca-envenenada/

laub

NOTAS

[1] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/08/auschwitz-alzheimer-alcoolismo-amizade-e-quebrando-o-circulo-natalidade-diario-da-queda-de-michel-laub/

[2] «como ele incorporou o espírito de uma época esmagada pelo fim das utopias».

[3] Por exemplo, parar para pensar que, depois de uma experiência tão radical, talvez não tenha muita importância para Immaculée Ilibagiza expressar-se através de um discurso mais “refinado” e afinado com padrões estéticos “exigentes”. Talvez esses padrões sejam muito pequenos, acanhados, para ela, e tanto faz que os cultuadores dos padrões não bregas, a ouçam e lidem com ela com um respeito condescendente e envergonhado.

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