MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/07/2015

O BODE EXPIATÓRIO: a luz e a escuridão do Cristo de Kazantzákis

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«…e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro (…) imagine-se o escândalo se Pastor lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava dentro…»  (José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo)

«O velho rabino O conhecia, conhecia bem o Deus de Israel. Ele era impiedoso, tinha Suas próprias leis, Seu próprio decálogo, é verdade que Ele dava Sua palavra e a mantinha, mas não tinha pressa. Tinha Sua própria medida e mensurava o tempo, gerações e gerações sucediam-se e Sua palavra permanecia ociosa no ar, sem descer à terra. E quando finalmente descia, pobre, três vezes pobre do homem que Ele escolhia para lhe confiar Sua palavra! Quantas vezes, de uma extremidade a outra da Sagrada Escritura, os escolhidos de Deus foram mortos e Ele não fez nem um gesto para salvá-los?! Por quê? Por quê? Eles não fizeram a Sua vontade? Ou seria vontade Dele que todos os escolhidos fossem mortos? O rabino interrogava-se, mas não ousava levar seu pensamento mais longe. Deus é um abismo, refletia ele, um abismo, melhor não se aproximar! » (Nikos Kazantzákis, A Última Tentação)

Há questão de semanas, a imagem de uma transexual “crucificada” como destaque da Parada Gay 2015 em São Paulo foi mais uma onda dentro do tsunami retrógrado que estamos testemunhando na esteira das eleições passadas.

Por isso, é bem oportuno o lançamento, pela Grua Livros, de uma nova tradução (dessa vez, diretamente do grego) de A Última Tentação, de Nikos Kazantzákis (1883-1957)[1]. Desde a sua publicação original, dois anos antes da morte do grande escritor de Creta[2], essa transposição literária da vida de Cristo (no meu entender, a mais poderosa já feita—aliás, a única outra a chegar perto do seu impacto é a de José Saramago, em 1991[3]) vem sendo execrada, combatida, banida, colocada no Index de livros condenados pelo Vaticano, fenômeno que se repetiu quando, nos anos 1980, Martin Scorsese ousou realizar uma versão cinematográfica. O que me leva a concluir que certas pessoas “de bem” não se revoltam contra a crucificação, real ou metafórica, de outros indivíduos, todavia não conseguem engolir que se faça do sofrimento de Cristo uma referência a preconceitos e atrasos os quais vão de encontro aos mais básicos ensinamentos do mestre de Nazaré. Como diz, a certa altura, o Judas kazantzakiano: «E você…perverso, fanático e teimoso que contemplando a própria face molda um Deus perverso, fanático e teimoso, atira-se ao chão reverenciando-O porque Ele se assemelha a você».

No capítulo 17 (são 33 ao todo)[4], depois de ter sido batizado por João, Jesus vai para o deserto (onde sofrerá as famosas tentações, após as quais um derrotado Lúcifer diz: «Até logo, então, até logo, até um dia, em breve!», o que acontecerá na crucificação, quando surge o ensejo para a “última tentação”: uma vida como a de qualquer outro homem).  Lá, encontra a carcaça de um bode, não qualquer bode, e sim o proverbial (e aqui, bem literal) bode expiatório” que a população das aldeias enche com amuletos e que é escorraçado e apedrejado até morrer no deserto: «Meu irmão, você era inocente e puro, como todos os animais. Os homens, os covardes, descarregaram sobre você seus pecados e o mataram. Decomponha-se em paz, não guarde rancor, são homens, criaturas pobres e fracas, não têm valentia para pagar os próprios pecados e põem essa carga sobre um inocente…. Pague por eles, meu irmão, adeus! ».

Como se vê, aí já temos uma prefiguração do destino: boa parte de A Última Tentação é composta pelo duro aprendizado de Jesus como bode expiatório (pharmakos). É o pressentimento disso que faz com que ele se furte à sua “missão” durante 30 anos, chegando ao ponto de degradar-se fazendo cruzes para os romanos executarem seus compatriotas rebeldes.

Kazantzákis escreveu uma história de Cristo sob o signo de Dostoievski e Nietzsche. De Dostoievski temos a ideia perturbadora de Deus como um tormento na vida do homem, espicaçando-o, testando seus limites e arrastando os demais nesse dilema (é o que acontece no livro com os discípulos, Madalena, as irmãs de Lázaro: Marta e Maria)[5]; de Nietzsche temos a superação do homem para um “além do homem”, como acesso a uma nova forma de existência, através de ensinamentos-relâmpagos que desestabilizam quem os recebe. É o Jesus-Zaratustra incendiário, varrendo os princípios da nossa vida, e que pouco tem a ver com o Jesus fraquinho de Frei Betto (no romance Entre Todos os Homens, 1995), tão politicamente correto[6].

De certa forma, temos uma arqueologia narrativa das raízes dos evangelhos, contrariando o princípio moderno de deixar de lado os estratos mais incômodos, para realçar seus aspectos mais “tolerantes”. O mesmo (guardadas as devidas proporções, é claro) aconteceu com A Paixão de Cristo (2004), praticamente o único filme até hoje a dar uma ideia do que foi realmente o sacrifício de Cristo pela humanidade, sem concessões e sem desvios[7]. Só que enquanto Mel Gibson nos torna espectadores aterrados, porém ainda assim meramente espectadores, passivos, de um evento portentoso e incognoscível, que nos supera e nos causa uma sensação de insignificância, o objetivo de Kazantzákis é fazer cada leitor assumir como sua a trajetória de Cristo, o seu processo de autoesclarecimento em meio a tantas ambiguidades e contradições: «Para fornecer um modelo supremo ao homem que combate, para mostrar que não é preciso temer o sofrimento, a tentação e a morte, pois tudo isso pode ser vencido e já foi vencido, é que esse livro foi escrito». Kazantzákis, é preciso dizer, como seus ilustres predecessores russos (além de Dostoievski, Tolstoi), não se furta a amalgamar fabulação, pregação, até mesmo doutrinação; ainda assim, faz-se o milagre e a literatura, no sentido mais forte da palavra, prevalece[8].

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Daí sua imensa profundidade filosófica, existencial e até teológica, sem falar na autoridade estética (de que temos tantas outras provas, como os magníficos romances O Cristo Recrucificado e Capitão Mihális, o autobiográfico Relatório ao Greco, o inclassificável Ascese, as amostras traduzidas da sua Odisseia). É por isso que a versão de Scorsese, de que eu gosto muito, e cujas maiores qualidades derivam do virtuosismo único do diretor, é relativamente insatisfatória e diluidora[9] porque deixou tanta coisa de lado, entre elas a inimitável atmosfera das aldeias nas quais Jesus viveu, perambulou e pregou, descritas por Kazantzákis com tal poder de evocação que não é à toa que a suprema tentação de Cristo acabe sendo seu apego telúrico: «Ele abaixou-se, pegou um punhado de terra e cheirou-a. O aroma penetrou até o fundo do seu ser… esfregou aquela terra no rosto, no pescoço, nos lábios. Segurava aquele solo na palma da mão e não queria se separar dele nunca».

   De fato, quando pensamos no quadro geopolítico que forma o contexto do aparecimento do Messias (a Judéia ocupada pelos romanos), mais do que a peregrinação do autor de O Pobre de Deus (belo romance sobre a vida de São Francisco) por essas mesmas plagas ressignificadas (como Terra Santa), evocada em Relatório ao Greco(publicado postumamente, em 1961, VER https://armonte.wordpress.com/2015/06/16/kazantzakis-o-olhar-cretense-e-o-abismo-de-deus-relatorio-ao-greco/),o que está em jogo aí é a alegoria do ambiente em que ele cresceu e se formou, a da opressão de Creta pelos turcos:

«Essa foi a semente.  A partir dela, brotou, encheu-se de botões, floriu e deu frutos toda a árvore da minha vida. Não foi o medo ou a dor, nem tampouco a alegria ou as brincadeiras que despertaram meu coração; e sim o profundo desejo de liberdade. Libertar-me de quê? De quem? Lentamente, com o passar do tempo, fui subindo a pedregosa ladeira da liberdade; liberte-se, em primeiríssimo lugar, do turco, este é o primeiro degrau; depois, mais tarde, começou esta nova luta, liberte-se do seu turco interno—da ignorância, da maldade, da inveja, do medo, da preguiça, das fantásticas e mentirosas ideias; e, por fim, dos ídolos, de todos os ídolos, até dos mais amados e respeitados.

     Com o passar do tempo, à medida que eu crescia e minha mente se expandia, também a batalha se expandiu, desembocou de Creta e da Grécia explodiu em todos os tempos e lugares, apossou-se da história do homem; não eram mais Creta e Turquia que lutavam, eram o Bem e o Mal, a Luz e a Escuridão, Deus e o Diabo. Sempre a mesma eterna batalha, e sempre atrás do Bem, da Luz e de Deus, Creta; e sempre atrás do Mal, da Escuridão, do Diabo, a Turquia. E assim, simplesmente porque aconteceu de eu nascer cretense e em um momento tão crítico quando Creta lutava para se libertar, desde muito pequeno, senti que existe no mundo um bem mais precioso do que a própria vida, mais doce que a felicidade: a liberdade»[10]. Luz e escuridão que, no entanto, deixam o protagonista de A Última Tentação em eterno transe: «…Deus ou o Demônio? Quem pode distinguir? Eles trocam de fisionomia, ora Deus torna-se a escuridão total, ora o Demônio torna-se cheio de luz, e o espírito humano confunde-se».

Ao fim e ao cabo, para Cristo, o cordeiro que nasceu para ser abatido, o ciclo das estações e da vida, que regulam a tão-amada raiz telúrica da existência contingente precisa ceder ao rito sobrenatural da Páscoa, no seu significado mais agudo: «A Páscoa, meus fiéis companheiros, significa uma passagem, passagem das trevas para a luz, do cativeiro para a liberdade. Mas a Páscoa que celebramos nesta noite ainda vai adiante. Hoje a Páscoa representa a passagem da morte para a vida eterna».

O desalentador é que o bode expiatório ainda continua uma muleta para a humanidade: ela nunca executa a passagem, ela nunca muda.

[uma versão do texto acima foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 01 de julho de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/07/a-luz-e-escuridao-do-cristo-de.html]

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NOTAS

[1] Já houve uma tradução indireta, realizada por Waldéa Barcellos & Rose Nânie Pizzinga, e publicada pela Rocco (e, depois, pelo Círculo do Livro), com o título A Última Tentação de Cristo, possivelmente em função da versão cinematográfica de Martin Scorsese, lançada em 1988. No original, O Teleftéos Pirasmós.

É o terceiro livro de Kazantzákis lançado pela Grua, depois de Vida e Proezas de Aléxis Zorbás (antes, conhecido como Zorba, o grego) e Capitão Mihális- Liberdade ou Morte, este até então inédito. Vida e proezas de Al

[2]  A tradutora, Marisa Ribeiro Donatiello, em seu Posfácio, conta que o livro primeiramente foi lançado em Oslo, em 1951, já em tradução norueguesa.

[3] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/04/07/uma-humanidade-gritante-o-evangelho-segundo-jesus-cristo/

[4] Além de ser esse o tempo de vida de Jesus, lembremos que Kazantzákis escreveu uma versão moderna da Odisseia, com 33.333 versos.

[5] Tome-se como exemplo esta cena entre Jesus e Judas:

«__ O que está acontecendo com você? Por que se abateu? Quem o atormenta?

    O jovem esboçou um sorriso, fez menção de responder “Deus”, mas conteve-se.  Esse era o grande brado em seu íntimo e não queria deixá-lo escapar pela boca.

__ Estou lutando—respondeu.

__ Com quem?

__ Não sei, estou lutando…»

[6] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/04/06/que-falta-fazem-os-camelos-voadores/

[7] Já desenvolvi esse paralelo em outra resenha. VER: https://armonte.wordpress.com/2012/04/07/o-bode-expiatorio/

[8] Bom lembrar, também, que desde a mais tenra infância, ele foi fascinado pela santidade (era um ávido leitor de vida de santos) e pelo heroísmo. Santo e herói, o ideal humano kazantzakiano.

[9] Mesmo assim, muito melhor do que a de Gibson, decerto. Mas o Cristo cinematográfico mais expressivo continua sendo o de Pasolini, O Evangelho Segundo São Mateus (1964).

[10] Utilizo a tradução direta do grego de Lucilia Soares Brandão, lançada há poucos meses pela ed. Cassará.

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16/06/2015

Kazantzákis, o olhar cretense e o abismo de Deus: “Relatório ao Greco”

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«… sempre me senti seduzido por essas três criaturas de Deus e me sentia em uma misteriosa unidade com elas; elas me pareciam ser o símbolo da travessia do meu espírito: a lagarta que se transforma em borboleta, o peixe-voador que pula da água lutando para ultrapassar sua natureza, e o bicho-da-seda que transforma suas entranhas em seda…»

«Sei bem que o que escrevo nunca será completo em termos de arte; como minha intenção é lutar para ultrapassar as fronteiras da arte, deturpo a essência da beleza, a harmonia […] escrevendo, não lutava para atingir a beleza, e sim a salvação… sou um homem e um “eu” que sofre e se angustia pedindo a salvação, para libertar-me de minha escuridão interna e transformar em luz os meus terríveis antepassados que rugem, e torná-los homens…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 16 de junho de 2015)

Além de A Dificuldade de Ser, de Jean Cocteau (VER: https://armonte.wordpress.com/2015/06/02/destaque-do-blog-a-dificuldade-de-ser-de-jean-cocteau/), outro clássico que subverte o gênero autobiográfico se destaca entre os lançamentos recentes: Relatório ao Greco[1], cuja edição (pela Cassará) viabilizou-se graças a um sistema de cooperativa[2]. Após a leitura dessa luminosa obra póstuma (1961) de Níkos Kazantzákis (1883-1957), não é difícil entender o interesse em investir num projeto como a sua tradução direta do grego, realizada por Lucilia Soares Brandão.

Curiosamente, embora não pudesse haver escritores mais antípodas do que  o cretense e Cocteau (este, vanguardista, multimídia, imiscuído nos meios culturais mais sofisticados; aquele, místico, ligado ao telúrico, aos elementos primordiais, anti-moderno[3]), ambos, na rememoração não-linear e sinuosa de suas vidas e realizações, apelaram a ancestrais da “raça”, do século XVI —no caso do francês, Montaigne; no de Kazantzákis, já a partir do título, o conterrâneo de ilha, Doménikos Theotokópoulos, que fez carreira como pintor na Espanha com a alcunha de El Greco. Outro traço que os aproxima, apesar dos contrastes, é o gosto por debruçar-se em mitos e lendas e dar-lhes novo sopro. O autor de A Dificuldade de Ser recriou, por exemplo, a história da bela e da fera, sem falar da sua obsessão com Orfeu. E aquele que, nos seus últimos anos, presta contas ao simbólico “avô” (como se refere ao Greco), transitou por uma nova Odisseia, pelo palácio que abrigava o labirinto e o minotauro (No Palácio do Rei Minos), e pelas trajetórias simbólicas de São Francisco (O Pobre de Deus) e Cristo (A Última Tentação)[4].

Ser escritor parece constituir uma certa derrota para Kazantzákis, uma espécie de vida menor. Crescendo numa época de jugo de Creta pelos turcos, contra o qual seu pai foi um dos líderes rebeldes (fornecendo a atmosfera de romances como O Cristo Recrucificado e Capitão Mihális), nunca se sentiu talhado para a ação (embora relate um marcante episódio em que ajudou a resgatar milhares de gregos no Cáucaso). Como primeiro “letrado” da família, deveria lançar-se numa carreira política, essa era a expectativa geral (pois um lema atravessa o livro: “nunca envergonhar Creta”). Só que desde a infância, a santidade exerceu um fascínio irresistível sobre sua imaginação: «Não nasci puro; luto para sê-lo. Para mim, a virtude não é um fruto de minha natureza, é o fruto de minha luta».

Dessa forma, boa porção da sua mocidade (e do seu Relatório) foi orientada por viagens de peregrinação, ao Monte Athos (cheio de mosteiros e eremitérios ortodoxos), pela Itália são-franciscana, a Jerusalém, ao Monte Sinai, numa torturada dialética entre o cristo crucificado e a ressurreição, sempre lutando com concepções brutais e conflituosas de Deus e com a imagem da “ascensão” (isto é, de uma possível transcendência[5]): «Avô, o nosso centro, que seduziu o mundo visível em seu giro e luta para suspendê-lo ao mais alto grau da coragem e da responsabilidade, é o seguinte: nossa luta com Deus. Que Deus? O selvagem cume do espírito do homem que estamos sempre atingindo e que está sempre saltando e subindo ainda mais alto[…] subida, abismo e solidão».

Alguns desvios de peso (o mergulho, em Paris, na obra de Nietzsche, essa  negação do cristianismo desfibrador do destino humano[6]; depois na concepção budista do nirvana; e ainda o entusiasmo pela Revolução Russa e por Lênin—Kazantzákis chegou a viajar para Moscou) não descaracterizam substancialmente os pilares dessa existência: essa procura do que está atrás do “rosto de Deus” (e Cristo como arquétipo do confronto entre o humano e o divino), mesmo que seja caos e abismo; e—despontando em momentos decisivos—aquilo que o criador de Zorba[7] denomina “olhar cretense”, primeiramente uma apologia da encruzilhada que a Grécia representou na civilização, harmonizando e unificando instinto e razão, forças primordiais e simbólicas, depois um reencontro com aquele que representa a plenitude do homem grego, Odisseu (com traços zorbescos)[8]: «eu já tinha me prendido no papel e na tinta; quando conheci Zorba já era tarde demais, já não existia salvação para mim, já tinha me tornado um incorrigível escrevinhador». Não por acaso, a recriação, em 33.333 versos iâmbicos de 17 sílabas não rimadas, divididos em 24 livros (um para cada letra do alfabeto grego), da Odisseia (1938) foi a obra que o consolidou como um dos maiores autores do século passado, antes mesmo de seus extraordinários romances[9].

Cretense ou cristão, o olhar de Relatório ao Greco, também marcado pela dificuldade de ser, opta pela “fé desesperançada”: «talvez não a mais verdadeira, e sim a mais corajosa; e a esperança metafísica, uma isca que um homem verdadeiro não aceita morder».

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TRECHO SELECIONADO

«O Palácio, meio em ruínas, meio renovado, depois de milhares de anos, brilhava e se alegrava de novo, ao sol de Creta. Nesse Palácio, não se vê o equilíbrio, a arquitetura geométrica da Grécia; aqui impera a imaginação, a alegria, a livre brincadeira da força criadora do homem. Esse Palácio cresceu e se espraiou com o passar do tempo, como um organismo vivo, como uma árvore; não foi construído de uma só vez seguindo um projeto firme, estudado; era completado brincando e se harmonizava com as renovadas necessidades do tempo. Aqui a severa e inflexível lógica não guiou o homem; a mente era útil, era o empregado, não o patrão; o patrão era outro. Que nome lhe damos? […]

   Paramos diante de uma coluna quadrada de gipsita brilhante sobre a qual estava gravado o símbolo sagrado, o machado de duas faces. O abade juntou suas mãos, dobrou um pouco os joelhos e movimentou os lábios como se estivesse rezando. Surpreendi-me:

__ O senhor está rezando?

__Mas é lógico que estou rezando, meu jovem amigo. Cada raça e cada época dá a seu Deus a sua própria máscara. Mas atrás da máscara de cada época e de cada raça, encontra-se sempre o próprio Deus.

   Na época, eu era muito jovem, não entendi […] depois de muitos anos, meu cérebro pode comportar e frutificar aquelas palavras; atrás de todos os símbolos religiosos também eu distingo o irremovível, o eterno rosto de Deus e, mais tarde ainda, quando a minha mente se alargou ainda mais, quando meu coração ficou ainda mais ousado, começou a distinguir o que tinha atrás do rosto do próprio Deus, uma terrível escuridão desabitada, o caos…»

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NOTAS

[1] “Αναφορά στον Γκρέκο”, no original. A Artenova publicou, nos anos 1970, uma tradução indireta de Clarice Lispector, com o título Testamento para El Greco, a qual, eu—como muitas outras pessoas que conheço—li e achei bonito (malgrado certos aspectos retrógrados e chauvinistas me desagradassem), conquanto “torturado”, porém sem um impacto maior, como tive com outras obras do autor, e principalmente longe do impacto existencial que ele teve sobre a existência de Hilda Hilst. Veja-se o seguinte depoimento da autora de A obscena Senhora D:

«Quando eu estava com 33 anos, um querido amigo que morreu, Carlos Maria de Araújo, poeta português, me deu um livro de [Nikos] Kazantzákis: “Carta a El Greco”. Eu o li e fiquei deslumbrada. Era um homem que ficava lutando a vida toda até terminar de uma maneira maravilhosa, escrevendo um poema de 33 mil versos, “A nova odisseia”, onde lutava com a carne e com o espírito o tempo todo. Ele desejava ao mesmo tempo esse trânsito daqui pra lá. Era o que eu queria: o trânsito com o divino. E também o trânsito com o homem e todas as maravilhas da vida, o gozo físico, a beleza física do outro. Era um consumismo meu, absolutamente terrível, porque ofendia muito as pessoas. Eu me impressionei tanto com a caminhada desse homem admirável, que resolvi ir morar num sítio. Achei que, longe e de certa forma me enfiando também (porque eu era uma mulher muito interessante), durante um certo tempo bem longo, eu pudesse trabalhar, escrever. E foi maravilhoso. Foi justamente nesse lugar, nesse sítio, que eu, longe de todas aquelas invasões e das minhas próprias vontades e da minha gula diante da vida, pude escrever o que escrevi. Acho que é verdade que qualquer pessoa que deseje realmente fazer um bom trabalho tem que ficar isolada, tem que tomar um distanciamento. É mais ou menos uma vocação. Você sente que aquele momento é o momento e que não há muito tempo. Às vezes, as pessoas dizem: “Eu vou quando estiver mais velhinho, ou mais velhinha. Ou quando eu estiver pior. Aí eu começo”. Mas acontece que não dá tempo. Então, aos 33 anos, fui para esse sítio onde moro até hoje, e me entreguei a um novo trabalho».

[2] São 55 os listados, entre eles o saudoso poeta Donizete Galvão.

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[3] «Não consigo me lembrar de meus vizinhos sem chorar e rir ao mesmo tempo. Naquela época, os homens não entravam, às dezenas, na mesma embalagem, cada um deles era um mundo à parte, tinham as suas estranhezas, às vezes riam uns dos outros, outras vezes falavam, fechavam-se dentro de casa, mantinham seus mais preciosos desejos escondidos por vergonha ou por medo, e esses desejos cresciam dentro deles e os sufocavam, mas não falavam sobre eles, e suas vidas adquiriam uma severidade trágica. Além disso, havia a pobreza e, como se não bastasse, o orgulho de que ninguém viesse a saber de sua condição, e se alimentavam com pão, azeitona e mostarda para não saírem de casa com suas roupas remendadas…»

[4] Outro fator em comum é o autocentramento quase canceroso, seja lá como ele se manifeste em ambos; atrelado a ele (ou consequência dele, melhor dizendo), uma certa “reordenação” dos fatos, um mito pessoal.

[5] Muito fortemente associada à metamorfose física, a transmutação que ele admira nos três seres da natureza da epígrafe deste meu texto: a lagarta, o peixe-espada e o bicho-da-seda.

[6] Na capital francesa, onde estudou na Sorbonne, Kazantzákis teve aulas com Bergson, a quem muito admirou e sempre incluiu entre os grandes homens na sua trajetória (aliado a Homero,  Buda, Lênin, Cristo, São Francisco, Nietzsche e Zorba: «Bergson trouxe alívio para algumas insolúveis perguntas filosóficas que me torturavam na juventude. Nietzsche me enriqueceu com novas angústias…». E isso se tratando de um indivíduo de uma atrasada aldeia cretense, imobilizada no tempo, cuja adolescência foi convulsionada ao tomar conhecimento, através de um professor mais “esclarecido, de que a Terra não era o centro do universo e que o homem era uma espécie na escava da evolução, “feridas” que demoraram muito tempo para cicatrizar.

[7] Protagonista do mais famoso livro de Kazantzákis, Vida e Proezas de Aléxis Zorbás (tal como publicado pela Grua, e 2011), mais conhecido pelo título da bela adaptação cinematográfica de Cacoyannis, Zorba, o grego (1964).

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[8] « Era isso o que eu estava procurando, era isso o que eu queria, tenho que encher os olhos de Odisseu com esse Olhar Cretense […] Minha juventude foi cheia de angústias, pesadelos e perguntas; minha idade adulta, cheia de respostas pobres e falta de coragem; eu olhava as estrelas, olhava os homens, olhava as ideias, que caos! […] Todos os caminhos da mente levavam ao abismo; pânico e esperança, os dois polos onde perambulavam no ar minha juventude e minha vida adulta. Mas agora, na velhice, fico tranquilamente de pé diante do abismo, sem medo; já não fujo, já não me desvalorizo mais. Não eu, o Odisseu que esculpo; crio-o para olhar o abismo com calma e, criando, luto para que ele se pareça comigo. Crio a mim também. Confio a esse Odisseu todas as minhas ânsias; ele é o molde que escavo para dele sair o futuro homem […] Ele é o Arquétipo; é grande a responsabilidade do criador; abre caminhos que podem seduzir o futuro e fazê-lo tomar uma decisão».

[9] Não existe tradução brasileira integral do poema, mas o trabalho de Carolina Dônega Bernardes, A Odisseis de Nikos Kazantzákis- Epopeia moderna do heroísmo trágico, publicado pela Cassará em 2012, traz várias amostras; entre elas uma espécie de “novo decálogo” (ao longo do RELATÓRIO, o autor nos fala da necessidade interior que sentia dessa reinvenção do decálogo):

«Deus geme, faz palpitar eu coração e me grita: Socorro!

Deus salta das tumbas, não o pode conter a terra!

Deus sufoca nos seres vivos, com ira os chuta e marcha!

Todos os seres vivos, à esquerda e à direita, são seus apoios fiéis!

Ama já ao pobre ser humano, pois ele é você, filho meu!

Ama já os animais e as plantas, pois isso era você, e agora

na inflamada batalha o seguem como fiéis servidores e companheiros.

Ama toda a terra, água e pó e pedras;

Sobre eles me sustento para não cair, e não tenho outro corcel!

Renegue todas as alegrias, as riquezas, as vitórias a cada dia!

A virtude maior da terra não é chegar a ser livre,

mas sim, vigilante e implacável e indestrutivelmente querer a liberdade.

E apanha a última rocha e grava uma esbelta seta

Com um bico sedento, que se lança ao alto, rumo ao sol» (Do Canto XV, v. 1161-1174)

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