MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/12/2011

O “tudo o que é sólido desmancha no ar” turguenieviano: PAIS E FILHOS

 

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/09/o-tudo-que-e-solido-desmancha-no-ar-dostoievskiano-os-demonios/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  12 de março de 2005)

Em Os Demônios, de Dostoievski , um dos personagens mais detestáveis é o escritor Karmazínov, com sua mania de cortejar os jovens terroristas que tumultuam a província onde se passa a história para se manter “na moda”. Nele, Dostoiévski projetou suas diferenças com Ivan Turgueniêv, a quem caricaturiza cruelmente. Em certo sentido também, Os Demônios polemiza com a obra mais famosa de seu rival, Pais e Filhos (mais um daqueles títulos antitéticos russos, como Guerra e Paz e Crime e Castigo), de 1861.

Por sorte, Pais e Filhos ganhou também uma recente tradução no Brasil, possibilitando ao leitor a comparação entre os dois.  Nesse romance, cunhou-se o termo niilista (de nihil, nada em latim) para designar o homem que nega tudo, como Bazárov, o protagonista.   O pai do seu amigo-discípulo, Arkádi, pergunta: “Quer dizer que essa palavra se refere ao homem que em nada crê ou nada reconhece?. E seu irmão (que se tornará ferrenho adversário de Bazárov) acrescenta: “Pode dizer: o homem que nada respeita”. Arkádi, por sua vez, o defende: “Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico…O niilista é o homem que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior respeito que mereça…”

O próprio Bazárov, defendendo o princípio da utilidade e da praticidade, diz: “Um bom químico é vinte vezes mais útil que qualquer poeta”.

Um dos mestres do “enredo abafado”, isto é, aquele em que pouca coisa acontece, em que todo o encanto da leitura se deve às nuances e sutilezas, e adotando o princípio dinâmico do diálogo contínuo, Turgueniêv coloca o plebeu e dissolvente Bazárov no meio de uma família de fidalgos decadentes com mentalidade de outra geração. Isso nos proporciona um ótimo embate de idéias e também um retrato quase impressionista da vida rural na Rússia do século XIX, com a obsessão do romancista russo (ainda que ocidentalista, como era o autor de Ássia) de “encontrar o povo”(no caso, representado pela figura do mujique e toda a polêmica da sua libertação da condição servil).

Mais tarde, Pais e Filhos desenvolve um enredo romântico através do amor masoquista de Bazárov pela viúva Odíntsova. E apesar de ter desencadeado debates vários em sua época, na ponta dos quais está a vibrante refutação de Os Demônios ao espírito de negação e desconhecimento da realidade russa dos Bazárov (um precursor do destrutivo Piotr Stiepánovitch do romance de Dostoiévski, pois seu amigo Arkádi assim apresenta a geração niilista, replicando ao tio que diz: Os senhores agem? Pretendem agir?…. Sim, agir, destruir. Destroém sem saber para quê ?”: “Destruímos, porque somos uma força… somos uma força que age livremente”), o aspecto mais marcante do livro é aquela melancolia resignada que predomina nos textos turguenievianos que o autor deste artigo já leu e que se encontra bem sintetizada num trecho do capítulo que conta a vida pregressa do tio de Arkádi, Páviel Pietróvitch: “…entrava naquela idade crepuscular e agitada, de insatisfação e esperanças mortas, idade em que se sente que a mocidade passou e a velhice não chegou ainda”. Parece que Turgueniêv já nasceu nessa idade.

            

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