MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/08/2015

PINTURAS RUPESTRES: “Álbum de Família” e as estruturas elementares do parentesco

Tia Rute– EU CONHEÇO SEGREDOS DA FAMÍLIA! SEI por que Guilherme e Edmundo voltaram—SEI! Sei por que Nonô enlouqueceu —por que mandaram Glória para o colégio interno!

Guilherme– Fazes bem em humilhar mamãe. Ela precisa EXPIAR, porque desejou o amor, casou-se. E a mulher que amou uma vez—marido ou não—não deveria sair nunca do quarto. Deveria ficar lá, como num túmulo. Fosse ou não casada…

Edmundo– Mãe, ás vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer, você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então o amor e o ódio teriam de nascer entre nós…

Heloísa– Edmundo só podia amar e odiar pessoas da própria família. Não sabia amar, nem odiar, mais ninguém…

Jonas– A você, eu só devo a filha!

D.Senhorinha–  E eu a você—os filhos—homens (…) Não botei meus filhos no mundo para dar a outra mulher!

(uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 12 de agosto de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/08/nelson-rodrigues-contra-moral-e-os-bons.html)

Após o sucesso, em 1943, aos 31 anos, com a montagem clássica de Ziembinski de Vestido de NoivaNelson Rodrigues (1912-1980), no mesmo período em que produzia folhetins de galopante sucesso (Meu destino é pecar, Escravas do amor, Núpcias de fogo), sob o pseudônimo Suzana Flag, escolheu um caminho “suicida” no teatro, escrevendo quatro peças desafiadoras e radicais[1], das quais só uma não foi interditada pela censura (Doroteia). Das outras três (Álbum de família, Anjo Negro, Senhora dos Afogados), a que permaneceu censurada por mais tempo foi a primeira. Escrita em 1946, foi liberada apenas em 1965 (e montada apenas em 1967)!

Não era para menos, se atentarmos para a “moral” da época. Num horizonte dramatúrgico onde avultavam as comédias e dramalhões edificantes, e no qual Vestido de noiva já representava uma experiência audaciosa e revolucionária, uma peça em que todos os personagens são incestuosos, e abertamente, era uma dose forte demais!

Sejamos sinceros: dada a “moral”, sempre com aspas, renitente da classe média, ainda o eixo da nossa sociedade, até hoje Álbum de família causa espécie. Ou talvez não. Devido às peculiaridades do estilo de Nelson Rodrigues, e do tipo de atuação a que se está acostumado no Brasil, é muito difícil encontrar o “tom” para suas peças mais radicais, e dependendo de como sejam encenadas (ou adaptadas), elas se transformam num produto estranho decerto, bizarro até, mas não inquietante ou perturbador, porque se abeiram do cômico e do autoparódico, quando não chanchadesco (veja-se o caso da horrenda versão cinematográfica  de 1981,  realizada por Braz Chediak, um dos mais empenhados estupradores das obras rodriguianas nas telas;  outro deles, Neville d”Almeida).

Ao contrário da perfeição da estrutura e das deixas poéticas de Anjo negro & Senhora dos afogados, Nelson não foi muito feliz na concepção das “ligas” de Álbum de família, não obstante elas justificarem o título: é tosco o recurso das fotografias formais e hipócritas do clã familiar e a narração do speaker com informações de coluna social. Mas isso é um mero detalhe num texto no qual a ação dramática é despudoradamente alucinante: enquanto uma adolescente sofre as dores de um parto interminável e doloroso, ficamos sabendo que foi o patriarca da família respeitável, Jonas, quem a engravidou, deflorador que é de todas as mocinhas da região («Eu gosto de mulher novinha, novinha»).

Casado com D. Senhorinha, ele já não tem mais desejo algum pela mulher. Seu desejo é pela filha, Glória («Desde que Glória começou a crescer, deu-se uma coisa interessante: quando eu beijava uma mulher, fechava os olhos, via o rosto dela! »), e por não poder satisfazê-lo («Glória, não! Glória é a única—compreendem? —A ÚNICA que escapou! Glória é um anjo de estampa»—no entanto, o “anjo de estampa” é quem abre a ação no palco, numa cena de experimentação lésbica adolescente com uma colega de internato, que acarreta sua expulsão e volta ao lar, num momento crucial), abusa de todas as que estão ao seu dispor na região (senhor que é), com a conivência alcoviteira da cunhada, Rute, que odeia a irmã (por não se sentir desejada: «…toda mulher tem um homem que a deseja, nem que seja um crioulo, um crioulo suado. MENOS EU! »; Senhorinha replica: «E eu tenho a culpa? Se você não é mais bonita, eu que é sou culpada? »; e Rute: «Desde menina, tive inveja de sua beleza. Mas ser bonita assim é até imoralidade porque nenhum homem se aproxima de você, sem pensar em você PARA OUTRAS COISAS! ») e o serve de forma aviltante.

Enquanto o parto se demora, volta a casa um dos filhos homens, Edmundo, expulso pelo pai. Os dois também se detestam («Você sempre teve ódio de mim—desde criança. Você sempre quis, sempre desejou minha morte»), são rivais no sentido mais edipiano da palavra, pois Edmundo ama a mãe («O céu, não depois da morte; o céu, antes do nascimento—foi teu útero»), e é correspondido. Ele propõe a ela a fuga das humilhações a que é submetida pelo desprezo e desfaçatez de Jonas (principalmente depois que ela teve um amante).

Mas ela ama igualmente um filho com problemas mentais, que vive em estado selvagem, nu, pelas terras da fazenda, Nonô (caracterizado na lista de personagens como “o possesso”):

«D. Senhorinha– Nunca terei coragem de deixar Nonô! Impossível! Não imagina como ele fica, sempre que me vê, de longe! É uma coisa!

Edmundo– Você vê muito Nonô? Olha para ele?

Senhorinha– Às vezes, quando saio. Ou, então, da janela!

Edmundo– Eu não queria que você visse, que olhasse para ele!Senhorinha– É meu filho!

Edmundo– Ele anda sem nada… E ele tem um corpo que impressiona até um homem—quanto mais uma mulher!

Senhorinha– Eu gosto que seja assim—BONITO! queimado de sol! Perdeu o juízo—mas a beleza do físico ninguém lhe tira. Nasceu com ele!

Edmundo– Você gosta mais de Nonô do que de mim! »    

Ao saber que a mãe teve um amante, Edmundo (que nunca tocara a esposa, Heloísa) lança várias vezes na cara dela uma imprecação ultrajante no universo rodriguiano: “Fêmea”.

Há ainda outro irmão e que também retorna no mesmo dia: Guilherme, cujo desejo se dirige à irmã (e tentou fugir dele seguindo carreira no seminário) e que vai tomar uma atitude extrema (castrar-se), obcecado pela PUREZA. Bem, acho que não devo nem preciso contar mais nada de Álbum de família, só adianto que há ainda muitos acontecimentos cabeludos espalhados nos seus três atos. Contudo, o rápido resumo das relações familiares, dos motes da ação dramática, e as citações já feitas, com certeza já deram ao meu leitor uma boa ideia do terreno onde estamos pisando. E é um terreno nu, calcinado, terra de ninguém: é o território da primordialidade, corporificado na figura de Nonô, que com seus lamentos irracionais representa bem o que a sexualidade e as pulsões primitivas fazem conosco apesar da casca civilizatória.

As pessoas que não gostam de Álbum de família (e, em geral, do teatro de Nelson Rodrigues, ou pelo menos dessa fase da sua obra teatral) afirmam que tudo é caricatural. Pelo contrário, penso que ele atingiu um registro (muito raro e muito feliz) quase de pintura rupestre, de inscrição econômica e despojada de traços essenciais das relações humanas, das estruturas elementares do parentesco.  No palco, estão seres genéricos, ainda que tenham nomes próprios, ainda que pertençam a uma certa casta social bem típica de nosso país, aí está o patriarcalismo judaico-cristã em sua forma mais indisfarçada e autoexplicativa. E, no entanto, por causa do texto rodriguiano, das falas exclamativas e exageradas, insolitamente lapidares, o efeito final não é alegórico nem abstrato, mas carnal, sanguíneo. É como se, de repente, para o leitor e/ou espectador um dente doesse fortemente, um membro latejasse. É o inconsciente mandando lembranças, o retorno do reprimido, o arcaico brilhando rupestremente nas dobras da couraça do nosso caráter racional e socialmente aceitável. Mais Lévi-Strauss do que Freud, todavia.    

Álbum de família é o cru, não o cozido.

(escrito em agosto de 2012, especialmente para o blog)

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NOTA

[1] Hoje rotuladas como míticas, denominação dada por Sábato Magaldi, organizador do Teatro Completo, em quatro volumes, em edições diversas pela Nova Fronteira.

16/11/2012

O autor como personagem: A FOME DE NELSON

“Minha doença me revelou a minha mulher, e aliás me revelou a mim mesmo. Nunca fui de desconfianças, e sempre enchi Silvana de mimos, sem fazer uma crítica, um reparo, um senão. Quando as tosses começaram, o rosto dela assumiu uma expressão preocupada. Vivia torcendo um lencinho bordado nas mãos e estendendo-o para minhas mãos trêmulas. Tornou-se de forma geral mais atenciosa com tudo e com todos. Recebia as visitas com esmero e quase devoção: comprava flores, arrumava mil vezes os bibelôs sobre o aparador. Um dia, percebi um olhar diferente dela para um amigo meu, que nos visitava todas as segundas-feiras. Logo notei que nesses dias ela se arrumava de forma especial, sempre com um novo detalhe, como uma presilha nova ou uma sandália mais delicada. Seriam ciúmes de tuberculoso?—era o que me perguntava. Passei a responder com um resmungo ás perguntas que me fazia, e ela deixou de me olhar diretamente nos olhos, como costumava fazer, com seu rosto erguido e seu riso franco de outrora. Mas quando meu amigo chegava—e suas visitas eram cada vez mais frequentes—ela se desdobrava em sorrisos. Você sabe que a cara do marido pode influir no adultério; quanto mais uma tosse seca e insistente. Eu espionava-a quando ela pensava esta sozinha, e mais de uma vez a peguei cantando baixinho. Silvana saía todo fim de tarde, esquivando-se de mim. Meus amigos frequentavam então pouco a nossa casa; tenho certeza de que ela saía para encontrá-los em outros lugares—sabe-se lá em que antros. Via cenas horríveis: de boca vermelha e retorcida, ela me traía com meu irmão, meus amigos e até com um padre que conhecíamos. Eu estava magro, mas os braços e as pernas dela tinham se tornado diáfanos, quase transparentes. Finalmente mal nos olhávamos; e quanto tive de partir nos demos um vago adeus. O mais incrível de tudo é que eu, mesmo sem falar com ela, mesmo fingindo ignorá-la da maneira mais abjeta, a perdoava, desde o início, e ainda hoje a perdoo.”

“O tuberculoso é aquele que teima em viver depois de ter morrido”.

As duas citações acima foram extraídas de A fome de Nelson, romance de Adriana Armony publicado em 2005 pela Record. A autora carioca, então com 36 anos, vinha de uma tese de doutorado em que estudava Nelson Rodrigues como leitor de Dostoiévski. Logo, nada mais natural do que transformá-lo num personagem dostoievskiano.

O período da sua vida em que a família está na quase-miséria absoluta devido à sucessão de ocorrências trágicas (o assassinato do irmão, o galã da família, Roberto Rodrigues, por Sylvia Seraphim, a qual, na verdade, fora à redação do jornal que o pai dirigia para matar a ele, que acabou morrendo, de fato, pouco depois, e o declínio financeiro arrastou a todos), a aparência maltrapilha, a vida mental intensa e que muitas vezes não se ajusta à realidade circundante (candidato a escritor, escriba do jornal “O Globo”, frequenta meios literários, mas é como se fosse num clima de sonho: é apaixonado e alimenta projetos de casamento com uma linda bailarina, Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, com a qual mal troca alguma palavras[1]), as caminhadas sem fim (premido pela falta de dinheiro para a passagem) pelo Rio de Janeiro nos anos 30, do subúrbio até o centro, todos esses elementos são perfeitos para criar uma atmosfera digna do autor de Crime e Castigo. E a cereja do bolo: a tuberculose, que leva o jovem escritor “febril” para a sua Sibéria pessoal, o Sanatorinho, em Campos de Jordão (Raskólnikhov foi para a Sibéria, degredado, no final do romance mais famoso de Dostoievski, e o próprio autor russo viveu essa experiência-limite, como nos conta em Recordações da casa dos mortos).

Para servir de anteparo a essa ligação estreita entre os dois escritores (e, sejamos francos, também em função de cacoetes da pós-modernidade[2]), Adriana Armony molda um narrador que resolve contar sobre a vida de Nelson porque supostamente teria sido seu contemporâneo na estadia em Sanatorinho (embora não se aproximassem muito ali). Mais tarde, funcionário público aposentado, escreverá um relato obsessivo e que pode conter uma mistura do factual com o literário e o alucinatório (como nota argutamente o autor da orelha do livro, Ricardo Oiticica, essa confluência aproxima A fome de Nelson da experiência levada a cabo por Nelson em Vestido de Noiva e seus planos alternados)[3].

Considero o livro muito bem realizado. Se há um senão a fazer é o fato de a autora não nos dar mais, de não ter feito um relato mais longo.

Eu sei, eu sei que o sintético é bom, que menos é mais (e também que o mais das vezes a reclamação é oposta: de que um livro poderia ser menor, sem prejuízo), e o próprio Nelson Rodrigues, excessivo como era, chegou aos píncaros da sua realização artística no “nada falta, nada sobra” de Senhora dos afogados (1947).

Entretanto, Adriana Armony coloca tantas coisas, misturando até focos narrativos distintos (como o da irmã de três anos de Nelson, num determinado momento) num texto tão curtinho, que ela mesma parece eloquentemente ressaltar que poderia ter percorrido outros caminhos dentro do texto e feito um romance maior.

Não acho justo que isso fique como uma sombra prejudicando o efeito geral de A fome de Nelson, apenas sublinho que não faltaria material para ela expandir seus paralelos dostoievskianos e que esse lado fuliginoso da biografia rodriguiana é propício para uma obra de fôlego maior.

Gostei especialmente da parte de Sanatorinho, da convivência com outros “mortos sem morte” (um dos quais é o que narra a história da epígrafe), e sobretudo, do relato da criação de um primeiro “espetáculo” rodriguiano dentro daquela instituição como forma de mostrar a passagem do candidato a romancista-epígono de Dostoievski para um autor teatral com sua voz única, além do fato de que aqueles “solteiros” forçados se movimentarem no polo psíquico dos abandonados, dos traídos que perdoam, dos ressentidos, dos impotentes, dos nostálgicos mesmo do desprezo e indiferença da mulher, ou seja o polo em que se movimentarão tantos personagens do futuro dramaturgo, cronista e folhetinista.

Ao fim e ao cabo, esse curto e eficaz A fome de Nelson nos dá fome de Nelson, de mergulhar novamente no seu universo de tuberculoso que viveu depois de ter morrido.


[1] As cenas no “salão parisiense” de Eros lembram similares em Memórias do Subsolo ou O Duplo, com o protagonista sempre em “estado de vexame”.

[2] Daí que o relato comece com um tom paródico (apropriando-se do início de Memórias do Subsolo):

“Sou um homem doente, um homem desagradável, creio que sofro do fígado… É mais pura verdade; e no entanto alguém já escreveu isto, e me espreita das páginas de um livro com sua barba espessa e olhos que ´perscrutam a alma´ (…) surge-me inadvertidamente essa palavra antiga, alada, que se estende como um lençol perfumado sobre o meu corpo cansado. Quem hoje perscruta a alma de alguém? Ou antes: quem hoje tem alma? É uma palavra tão fora de moda quanto ´polainas´, por exemplo…”

[3] “… aqui me confundo, não sei mais quem é este, se ele ou outro, ou se fui eu, com minha febre de tuberculoso, em meu delírio de desenganado, que misturei tudo, pois o que ocorreu provavelmente foi algo inteiramente diverso, a tosse seca de Nelson simplesmente se repetiu até consultarem um médico, que pediu que ele repetisse 33, mas não disse que a melhor coisa a fazer era tocar um tango argentino; e era Dostoievski que tinha ataques epilépticos precedidos de uma iluminação que o cegava, uma sensação aguda de prazer que se espraiava em doces e terríveis convulsões; além do quê, toda essa história de crime soa talvez um tanto forçada; a verdade é que, descoberta a tuberculose, Nelson foi mandado para uma casa de recuperação, onde conheceu homens esquálidos e fascinantes, ´mortos sem morte´ que viriam mais tarde povoar sua imaginação; foi lá que eu o conheci e, a meu modo, o amei”.

25/08/2012

ETERNOS RETORNOS DE NELSON RODRIGUES (“A Falecida” e a guerra conjugal)

(escrito especialmente para o blog,  23 de agosto 2012)

Zulmira: Foi um altíssimo negócio essa cartomante. Agora eu sei de tudo. Essas dores nas costas… Olha: hoje eu passei o dia inteiro com o nariz entupido…

Tuninho: Gripe!

Zulmira: Gripe aonde? Macumba!

Tuninho: Sossega!

Zulmira: Sim, senhor! Alguma macumba que essa cara me fez! Aposto!

Tuninho: Mas a mulher é protestante!

Zulmira: Protestante, diz você! Mas duvido! Fingimento, máscara. Vou-te dizer o seguinte: Glorinha tem parte com o Demônio! Tão cínica que diz apenas o seguinte—vê se pode—que a mulher que beija de boca aberta é uma sem-vergonha. Pode ser o marido, pode ser o raio que o parta mas é uma sem-vergonha…

(…)

Zulmira: (…) A mulher de maiô está nua. Compreendeu: Nua no meio da rua, nua no meio dos homens!

(…)

Tuninho: Mas como?—perguntei eu à minha mulher—você tem nojo de seu marido? Zulmira rasgou o jogo; e disse assim mesmo: Tuninho, se você me beijar na boca, eu vomito, Tuninho, vomito!”

PRIMEIRO ATO

Tuninho: (…) Vai ser uma tragédia em trinta e cinco atos!

(…)

Zulmira: Eu vou morrer… Sei que vou morrer. Já não sou mais deste mundo.

Zulmira: Eu sou a morta, que pode ser despida…

Oromar: Estou com uma pena danada do Tuninho… A mulher morre na véspera do Vasco x Fluminense…

Nelson Rodrigues foi outra descoberta que fiz graças à série da Abril Cultural Literatura Comentada. Mais ou menos nessa época (início dos anos 1980, quando ele acabara de morrer, aos 68 anos), a Globo exibiu na série Aplauso uma adaptação de Vestido de Noiva, estrelada por uma então empenhada  Suzana Vieira (ou seja, estamos muito longe da celebridade global que parece mais interessada atualmente em aparecer nas fofocas de revistas como a Caras e no folclore humorístico a respeito da sexualidade das mulheres mais velhas1).

Nem sei dizer se a adaptação era boa, o que interessa é que veio a calhar como descoberta do universo rodriguiano, função que jamais seria cumprida pela sequência de versões cinematográficas indigestas lançadas pouco antes ou pouco depois: A dama do lotação; Bonitinha, mas ordinária; Engraçadinha (alguém caiu no equívoco de achar que Lucélia Santos era a atriz certa para o autor); Álbum de família; Os sete gatinhos (o Beijo no asfalto de Bruno Barreto era o mais comedido daquela safra toda, porém frio e sem vida, e mais uma vez se caía no erro de transformar o exagero expressionista de Nelson Rodrigues em caricatura histriônica, na composição de Tarcísio Meira). Neville d’Almeida e Braz Chediak (malgrado o filme de Haroldo Marinho Barbosa a partir da história de Engraçadinha ser igualmente um horror) passaram a ser um anátema para mim, e pareciam incompatíveis Nelson Rodrigues e o cinema. Ainda não conhecia filmes mais antigos, bem melhores, caso de A falecida, de Leon Hirszman, e Toda nudez será castigada e O casamento, de Jabor. Mas tive a sorte de ver nos palcos que o seu texto podia ser representado sem ridículo, com o espetáculo de Antunes Filho, Nelson 2 Rodrigues.

Em resumo, passei os anos 1980 admirando intensamente algumas peças do autor de Vestido de Noiva (particularmente esta, definida por Sábato Magaldi como “psicológica”, assim como Valsa número 6), e as peças denominadas míticas; nunca fui especialmente fã das “tragédias cariocas”, com as exceções de A falecida e Beijo no asfalto ). Tal era o contorno de Nelson Rodrigues para mim naquela década.

Nos anos seguintes, começaram a ser republicadas sistematicamente obras de gêneros diversos, e então veio o enfado quanto ao mundo rodriguiano. Acho que foi a hipertrofia de títulos; porém, mais ainda, foi a hipertrofia da figura de Nelson, aquela babação de ovo como se ele fosse um oráculo ao qual recorriam todos aqueles luminares da cultura carioca voltada para o próprio umbigo e para uma faixa limitadíssima de praia e areia. Um pouco também como o que acontecia com Borges (em outro sentido, claro), que parecia nunca ter dito uma bobagem ou soltado uma blague na vida, tudo o que dizia parecia ser justo, lapidar, oracular. E no final das contas ele fora um homem desagradável (como não o conheci pessoalmente, como seus discípulos, só posso me basear nos seus depoimentos gravados ou transcritos), irritante e rançoso!

Muito desse enfado com a indústria Nelson Rodrigues ainda persiste. Acho um porre o (provinciano) culto que lhe dedicam os machos da espécie-formato (reduzido) praias cariocas. Nunca vi uma mulher que lhe fizesse loas.

Foi a televisão que salvou tudo novamente. Por incrível que pareça, enquanto no palco e nas telas Nelson Rodrigues, Antunes Filho à parte, virava uma coisa risível, uma mistura de David Lynch com Miguel Falabella, de Eugene O´Neill com Jorge Fernando ou Guel Arraes, os seriados globais me faziam descobrir as preciosidades rodriguianas além da dramaturgia, seus folhetins inclassificáveis e apaixonantes, Meu destino é pecar & Asfalto selvagem, e principalmente as histórias-crônicas cariocas de A vida como ela é, impecavelmente transpostas para a tevê (e bem interpretadas).

E, é claro, cada releitura do seu teatro, confirmava: não importa a hagiografia de uma determinada subcultura e geração, mais que a figura de Nelson Rodrigues importa o mundo que ele criou para os palcos.

SEGUNDO ATO

Tuninho: Sabe por que a tal da Glorinha é o maior pudor do Rio de Janeiro? e por que toma banho de camisola? e não vai á praia? e tem nojo do amor? sabe?

Zulmira: Fala, criatura!

Tuninho: Porque teve câncer e tiveram de extirpar um seio…”

Havia uma edição do Círculo do Livro que eu adorava, pois continha Álbum de família, A falecida e Vestido de noiva; ou seja, era quase um “portable” Nelson Rodrigues, com o melhor do melhor do seu teatro (só faltou Senhora dos afogados, que nunca foi tão famosa quanto as outras2).

A falecida3 poderia ser uma crônica de A vida como ela é. O que impressiona na peça é a economia de meios cênicos (as deixas, aliás, são insistentes a respeito4), de personagens, e sobretudo da ação dramática.

Como nas peças “míticas”, tudo é muito concentrado, de tal forma que se chega quase a um casal carioca genérico, embora se chamem Zulmira e Tuninho (mas a mãe dela é chamada de Dona Fulana). E a peça mostra radicalmente a solidão desse casal, com os universos afetivos e os investimentos libidinais isolados de cada um, a fêmea e o macho (e novamente, aqui muita gente poderia tachar a ação dramática e a caracterização dos protagonistas de caricaturais e simplistas). É a “guerra conjugal” no palco, com força igual à dos contos de Dalton Trevisan5.

O mundo dela é o da procura das cartomantes, das rivalidades femininas, das vizinhas, do adultério, da obsessão com as mazelas do corpo (e a preocupação com o próprio enterro, com a escolha do melhor caixão); o dele é o futebol, o bilhar, as apostas, a afirmação enquanto macho (que sofrerá um rude golpe com a descoberta das traições da esposa, e por isso a vingança final, quando—de posse do dinheiro da chantagem que ela mesma lhe proporcionou, antes de morrer6—compra o caixão mais fuleiro para enterrá-la). E, pairando sobre eles, o mundo da contravenção, do jogo do bicho.

Enfim, admire-se (como eu) ou não (os que acham tudo caricato) é um microcosmo de uma determinada feição do Rio de Janeiro tornada quase paradigmática,por causa das figuras elevadas ao imaginário como o proverbial bicheiro, e símbolos populares como o estádio do Maracanã.

Uma coisa que eu adoro nas falas da peça é o uso e abuso de expressões populares: “estou desempregado e outros bichos. Quer dizer, na última lona”; “Até aí morreu o Neves”; “ia lavar a égua”; “Estou crente que aquela besta vai descobrir coisas do arco-da-velha no meu pulmão”; “Entra de sola, que mulher gosta é disso”; “tudo isso é batata ou golpe?”; “Será o benedito?”; “Agora é tarde e Inês é morta”; “Está na hora da onça beber água”, “É mesmo da fuzarca”

NOTAS

1 Naqueles tempos pré-históricos, ela também estrelou uma das raras telenovelas das quais guardo uma lembrança muito forte: A sucessora.

2 Ela se tornou uma referência maior, creio eu, de 2008 para cá, por causa das montagens recentes.

3 No exemplar do Círculo, a data é 1954, mas na biografia O anjo pornográfico, de Ruy Castro, consta 1953 (inclusive da primeira montagem, com Sônia Oiticica como Zulmira, e Sérgio Cardoso como Tuninho.

4 Por exemplo:

Os personagens é que, por vezes, segundo a necessidade de cada situação, trazem e levam cadeiras, mesinhas, travesseiros que são indicações sintéticas dos múltiplos ambientes”.

5 Similar ao mundo de Trevisan há até os fetiches corporais entre homem e mulher. Como quando Tuninho diz a Zulmira: “Vem espremer o cravo grande das costas”. Ou quando o bicheiro Pimental conta sua primeira relação com Zulmira, num banheiro, da qual saiu “sujo de batom até a alma”.

E Rodrigues sempre está atento ao sensacionalismo (espetacularização do cotidiano), como levará ao limite extremo em Beijo no asfalto. A filha do bicheiro (amante de Zulmira) é atropelada:

Funcionário: (…) a garota saiu do colégio, atravessou a rua e foi esmagada entre um bonde e um ônibus. Sanduíche autêntico!

Timbira: Morreu:

Funcionário: Se morreu?! Está feito uma papa! Sabe o que é papa? papinha?

6 “Assim que eu morrer, pega um táxi, vai à casa dele, ao escritório, seja lá onde for, e diz o seguinte: que eu morri. Mas que, antes de morrer, pedi que ele me pagasse um enterro de quarenta mil cruzeiros… Ele te dará dinheiro… E não diz que é meu marido…”

A obra maior de Nelson Rodrigues: SENHORA DOS AFOGADOS

Paulo: (…)nós temos a loucura  na carne, a loucura e a morte…

Misael: Um Drummond não pode amar nem a própria esposa. Desejá-la, não; ter filhos… A cama  é triste para os Drummond…

D.Eduarda: Meu próprio marido me possuiu sem me acariciar…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de agosto de 2012, sem as notas de rodapé)

Pensando em como homenagear o centenário de Nelson Rodrigues (nascido em 23 de agosto de 1912), e levando em conta a multiplicidade de sua produção —romances folhetinescos, crônicas, memórias[1] —, apesar de uma certa superestimação tão ao gosto da autocentrada cultura carioca (embora ele fosse de origem pernambucana), logo percebi que seria tarefa vã dar conta de todos os aspectos.

Mesmo na área em que sua contribuição revela-se mais essencial (pois ainda é nosso maior dramaturgo), como abordar 17 peças, boa parte delas extremamente marcante, com um expressivo número de adaptações para o cinema (a maioria, horrorosa) e para a televisão? Afinal, com a sua segunda obra para o palco, Vestido de noiva (1943), ele se valeu de um experimentalismo formal que até hoje impressiona e coloca a peça entre os grandes momentos do alto modernismo (tanto que é praxe comparar seu impacto sobre o nosso teatro com o de Cidadão Kane no cinema comercial norte-americano)

E Vestido de noiva só era o início do percurso. Em uma sequência inacreditável (de 1946 a 1949), escreveu as quatro peças alucinadas e alucinantes, hoje arroladas como míticas (no segundo volume do Teatro Completo, organizado por Sábato Magaldi), que representam o lado mais radical do seu teatro: Álbum de família, Anjo negro, Senhora dos afogados e Doroteia.

A mais poética delas, possivelmente a sua obra-prima suprema, Senhora dos afogados, também é a mais comentada em anos recentes, pois os dois encenadores de maior renome do país, José Celso Martinez Correa e o grande Antunes Filho, resolveram montá-la quase que ao mesmo tempo, em 2008. O trabalho de Antunes é admirável e rigoroso, o de Martinez Correa não veria nem amarrado, pois sempre tive uma aversão incontornável pelo seu dionisismo institucionalizado (creio que até financiado por verbas públicas; assim, é fácil ser orgíaco).

Quando a peça começa, os Drummond (uma família de três séculos, com mulheres que se gabam da fidelidade conjugal: “nunca houve um adultério” por parte de uma esposa do clã[2]: “Pudor têm todas as mulheres da família”) choram a morte por afogamento de Clarinha. Ao mesmo tempo, prostitutas do cais interrompem suas atividades para lamentar o 19º. ano de impunidade do assassinato de uma das suas.Acontece que o assassino é Misael Drummond, pai de Clarinha: ele matara a “mulher da vida” com quem tivera um caso porque ela insistia em experimentar o leito conjugal antes da esposa (era o dia do seu casamento).

Antes mesmo de saber que a sua filha morrera, Misael—num banquete em sua homenagem—vê o fantasma da prostituta morta lhe aparecer, e foge da cerimônia: “Ela tornou o banquete maldito… Todos sentiram que havia uma morta entre os convidados. Eduarda, quando essa mulher apareceu, houve no banquete um cheiro de mar…”

   Enquanto isso as duas Drummond sobreviventes (há uma terceira, a avó, que ficara louca ao testemunhar o crime do filho), Eduarda e Moema, mãe e filha, se digladiam em torno da questão do pudor e da honra da mulher, núcleo do universo burguês tradicional tão bem caracterizado na obra rodriguiana, hostilizando-se devido a um ódio primordial. Moema, que gostaria de viver sozinha com o pai (e por isso matou as irmãs), urde um plano de forma a fazer com que a mãe o traia com o próprio noivo, um ex-marinheiro que na verdade queria seduzi-la para se vingar do pai (de ambos, já que ele é o fruto dos amores de Misael com a prostituta assassinada)…

Estamos aqui, já pelas ligações incestuosas entre os personagens, e pela obsessão com os polos da respeitabilidade e da transgressão, no cerne das pulsões arcaicas, no primordial, nos confins do lógico, do racional, do consciente. Todas as amarras foram rompidas, e os personagens se movem num tempo verdadeiramente mítico, que só pode ser o do inconsciente. Não é a toa que a peça se aproxima das tragédias gregas, em que os clãs familiares se entredevoram num inferno de culpas e desmedidas. Evocando a mãe assassinada, o Noivo diz (respondendo à afirmação da Vizinha de que ela devia ser linda): “Muito. E não sei há quantos anos não envelhece nada; não envelhecerá nunca. A mesma idade sempre—nem um minuto a mais, nem um minuto a menos…” E ainda: “Os outros podem morrer. Tudo mais pode morrer. Menos minha mãe” (evidentemente o fato de ela já estar morta não tem a menor importância na economia psíquica do personagem).

Mas isso ainda é dizer pouco, uma vez que nunca Nelson Rodrigues, nem mesmo em Vestido de noiva e Anjo negro, nem nas posteriores A falecida (1953) e Beijo no asfalto (1960), escreveu ou escreveria não apenas falas da mais absoluta beleza e precisão, nada faltando, nada sobrando, como também  “deixas” de um lirismo único, que no teatro contemporâneo só se encontra talvez num Eugene O´Neill (“Só estão em cena os espectrais vizinhos. Cochicham entre si. É ainda a casa dos Drummond, sempre a casa dos Drummond”; outros exemplos: “Em cena, também os vizinhos. São figuras espectrais. Um farol remoto cria, na família, a obsessão da sombra e da luz. Há também um personagem invisível: o mar próximo e profético, que parece estar sempre chamando os Drummond, sobretudo as suas mulheres”).[3]

É lógico que as revelações bombásticas de crimes e disposições incestuosas beirariam o cômico não fosse a genialidade do autor de Toda nudez será castigada (1965), que domou o excesso com a perícia cirúrgica do seu texto. Todas as vezes que o li , não conseguia imaginar como seria no palco, que tom poderia ser adotado para não ficar como nas ridículas versões de cinema (especialmente a de Álbum de família, escrita na mesma toada), as quais resvalavam para o chanchadesco. Foi preciso esperar por Antunes Filho para constatar que sim, era possível, e que o Nelson Rodrigues de Senhora dos afogados é um ponto-limite no dizer teatral e na forma cênica.

Em tempo:  a peça foi interditada pela censura em 1948, liberada apenas em 1953. Na estreia (montagem dirigida por Bibi Ferreira), um ano depois,  houve vaias, e a estreante Nathalia Thimberg, aterrada com o tumulto, testemunhou o autor enfrentando a plateia. Nelson Rodrigues, longe do tom das homenagens do seu centenário, era tido então como tarado e degenerado. [4}

[3


[1]  Considero deliciosos (num sentido perverso) Meu destino é pecar & Asfalto selvagem, e acho o melhor Nelson Rodrigues, depois das peças, o de A vida como ela é. A isso se resume meu conhecimento da sua obra, pois não tenho muita paciência para o lado, tão exaltado pela turma de Ruy Castro, Arnaldo Jabor & Cia, de polemista e paladino das frases politicamente incorretas. Isso é coisa de província.

[2]Misael:  E eu que pensei que nossa família fosse casta.(…) Se tua mãe foi infiel, as outras mulheres da família também…

Moema: Mas minha mãe era uma estrangeira… Não tinha o rosto dura das Drummond (…) Nossos espelhos a estranhavam….

[3] Nas sua bela introdução ao volume das peças míticas, Sábato Magaldi desenvolve uma minuciosa aproximação de Senhora dos afogados com a obra-prima de O´Neill, Electra Enlutada, afirmando ser a peça de Nelson uma espécie de extrapolação ou paráfrase da peça do autor norte-americano.

[4] Devo essas informações à biografia de Ruy Castro, O anjo pornográfico.

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