MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/01/2011

Vulgo, Atwood

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de novembro de 1997)

      Os admiradores de Margaret Atwood, que a apreciam como um dos escritores mais originais da atualidade, talvez tenham ficado preocupados com a possibilidade de ela ter resvalado para a ficção mais convencional em Vulgo, Grace (Alias Grace, traduzido por Maria José Silveira e publicado pela Marco Zero[1]), sua versão para um crime ocorrido no Canadá em 1843: o assassinato de Thomas Kinnear e de sua governanta-amante, Nancy Montgomery, pelos criados James McDermott e Grace Marks, os quais tentaram fugir para os EUA; capturados, ele foi condenado à forca, ela à prisão perpétua (tinha dezesseis anos), embora negasse ter participado dos crimes.

Mas os admirados de Atwood e os que já andam cheios de histórias baseadas em fatos reais (como se isso fosse garantia de qualidade, a credibilidade factual) não têm motivos para preocupação ou alarme: Vulgo, Grace é puro Margaret Atwood. Como em obras anteriores (Surfacing- O lago sagrado; Madame Oráculo; Olho de gato), o leitor acompanha a formação de uma mulher e sua tentativa de orientar-se no labirinto de imagens culturais em que é lançada pela “condição” feminina, labirinto que nem o feminismo conseguiu destruir, só acrescentando mais galerias.

A ação principal de Vulgo, Grace se passa em 1859, quando o médico Simon Jordan, desejando especializar-se em doenças mentais, aceita o convite do comitê que deseja o perdão para Grace, e manterá colóquios diários com a famosa assassina, que serve como criada na casa do diretor da Penitenciária (a condição servil também é uma pena perpétua?).

O leitor tem a possibilidade de ouvir a versão da própria Grace, sua “voz”, por assim dizer, tal como William Styron fez com o famoso criminoso negro (ou líder revolucionário) Nat Turner no magnífico As confissões de Nat Turner, gerando as mesmas contradições estilísticas, uma vez que temos uma narrativa bem mais culta do que a personagem seria capaz de fazer. Perversamente, entretanto, Atwood mistura a essa versão de Grace as outras versões da história, outras vozes que se interpõem e que tentam situá-la ora como uma mulher demoníaca e mentirosa, ora como uma vítima das circunstâncias, ora como uma donzela que precisa de um herói para “desencantá-la” (mais uma vez Margaret Atwood utiliza estereótipos da ficção gótica—mulheres jovens em perigo, homens malvados, ambientes lúgubres—para mostrar como se falseia o conceito de feminilidade, e como as próprias mulheres tentam se adequar a essas projeções melodramáticas. Como a famosa Mulher do Tenente Francês, Grace inspira piedade e horror e é uma pitada de sol  ao hipócrita ambiente provinciano, principalmente por trazer sempre viva a marca importuna da sexualidade, devido á suposição de ter sido “usada” pelo pretenso cúmplice, McDermott.

E por falar em Mulher do Tenente Francês, a história de Grace Marks lembra o fascinante romance de John Fowles ao mostrar como um cavalheiro (Simon, no caso), que se pretende moderno e avançado, fica á beira de um ataque de nervos diante da mulher-enigma, que conta sua história com o fôlego de uma Sherazade, mas que revela muito pouco de si mesma: “apesar de não conseguir lembrar-se do assassinato, ela tem uma lembrança minuciosa dos detalhes que o cercavam, cada peça de roupa que lavou”. Será que Grace está brincando com ele: “Enquanto ela vai costurando, por fora calma como uma Madona, está o tempo todo exercendo sua obstinando resistência passiva contra ele”.

E Simon, afetado por Grace, acaba envolvido num casulo de sexualidade, num caso adúltero com sua senhoria, com o qual é formal e distante durante o dia, mas com quem se permite orgias e transgressões à noite (“esta noite ele vai bater nela, como ela já implorou que fizesse…”), como se levassem duas existências paralelas. Esse tipo de dicotomia já foi explorado com muita eficácia por Autran Dourado em seu Ópera dos Mortos, onde há um ritual similar entre os protagonistas (e há um antepassado ainda mais notável, se lembrarmos da relação Joe Christmas e Rose Burden em Luz em Agosto, de Faulkner).

Ao final, entre hipóteses, fatos, sonhos e fugas, o que fica da primeira leitura de Vulgo, Grace é a perturbadora certeza de que somos guiados mais pelos nossos impulsos e compulsões do que pelo pouco que conhecemos de nós mesmos.

ATWOOD E O DELEITE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de outubro de 2004)

Negociando com os mortos (Negotiating with the dead, traduzido por Lya Wyler, e publicado pela Rocco). Não, caro leitor, não se trata de um novo best seller espírita de Zíbia Gasparetto, mas do livro que resultou  das seis conferências apresentadas em Cambridge por Margaret Atwood, autora de alguns dos melhores momentos da ficção contemporânea (especialmente Madame Oráculo, um dos meus livros prediletos) e que poderia muito bem ter sido o nome feminino agraciado com o Nobel de 2004, já que deixaram Iris Murdoch morrer e continuam injustiçando  Doris Lessing ano após ano.

Negociando com os mortos. Tudo o que se escreve tem como motivação o medo e a fascinação diante da mortalidade,  um desejo de empreender a arriscada viagem para os Infernos e dali trazer algo ou alguém ao regressar. Como protótipo da “negociação com os mortos” efetuada pela escritura basta lembrar da cena em que Ulisses atrai com sangue os espíritos falecidos na Odisséia. Esse é o ponto mais avançado na jornada empreendida pela grande escritora canadense. Como boa parte de sua obra ficcional, antes se aborda a complexa situação da mulher que escreve. Ela também investiga questões como a vocação, a relação do escritor com a identidade nacional, com a vida social, com o sucesso financeiro, com os seus predecessores, com o leitor.

O escritor: alguém que é e não, que tem importância em nossa vida através de páginas impressas: Há um epigrama que prendi no quadre de avisos do meu escritório. Querer conhecer um autor porque se gosta do trabalho dele é como querer conhecer um pato porque se gosta do seu patê.  Não é à toa que Margaret Atwood é uma mestra do humor negro.

Negociando com os mortos apresenta muitas, muitas citações. E longe de sobrecarregá-lo, isso contribui para o seu encanto: em primeiro lugar, pela admirável generosidade com que Atwood imanta para seu texto dezenas de obras de ficção e de poemas, compartilhando com a literatura do mundo inteiro seu testemunho sobre a arte de escrever; em segundo, justamente por ela não ser apenas uma escritora fantástica, mas também uma leitura fantástica, na melhor linha de Borges, Italo Calvino e Susan Sontag, acaba por transformar uma citação na coisa mais prazerosa do mundo, como se cada romance, conto ou poema citado fosse uma história a ser contada por uma Sherazade incansável. É com novos olhos, por exemplo, que leremos agora uma parte de 1984, de George Orwell.

Para dar uma idéia exata do que é ler Negociando com os mortos, pode-se recorrer ao final de uma conferência de Atwood (publicada como apêndice de um de seus melhores romances, A noiva ladra): O que eu espero que o leitor extraia disso tudo—e, na verdade, de qualquer livro que leia? Exatamente o que eu mesmo gosto de receber, e freqüentemente recebo, dos livros dos outros. Há uma palavra que sintetiza tudo, é uma qualidade sem a qual todas as outras qualidades, nos livros ou na vida, se tornam ocas. Ela assume muitas formas… O desejo por ela explica por que aqui somos todos leitores, por que vocês fazem o que fazem, e por que eu faço o que faço e por que minha vocação é também minha obsessão… A palavra é Deleite; e é isso que eu desejo a vocês enquanto leitores: Deleite, em todas as suas encarnações sob a forma de livro.


[1] Em 2008, apareceu uma nova tradução (pela Rocco, que vem publicando regularmente as obras de Atwood nos últimos anos), de Geni Hirata, que comentei numa resenha meio que glosada desta que se lê acima, em 16 de agosto daquele ano, em A TRIBUNA.

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