MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/05/2013

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector


   “Afiado como a extremidade de uma navalha é

o caminho, dizem os sábios, difícil de atravessar.”

“…que ilusão ou tristeza existe para aquele que vê unidade?…”   (Upanixade)

(uma versão do texto abaixo foi publicada como resenha em 20 de julho de 2010, em A TRIBUNA de Santos)

Fiquei muito irritado com a biografia escrita por Benjamin Moser que originalmente se chama Why this world e, que traduzida por José Geraldo Couto, vem fazendo sucesso com o título brasileiro de Clarice,.

Em primeiro lugar, nada contra o projeto de realçar as origens étnicas da autora, destacando sua identidade como judia.  A questão toda é como isso afeta a sua identidade como escritora na visão que emerge do trabalho de Moser e a qualidade da biografia em si mesma.

Na minha opinião, todo o lado estritamente biográfico já fora feito de forma muito melhor (inclusive o realce à sua condição judaica) por Teresa Cristina Montero Ferreira em Eu sou uma pergunta, e sobretudo por Nádia Battella Gotlib (especialmente do ponto de vista literário) em Uma vida que se conta. Não acho que Moser acrescenta muito ao leitor brasileiro, embora tenha que se levar em conta de que ele está biografando Clarice basicamente para o leitor estrangeiro . Só acho impressionante sua biografia fazer tanto sucesso por aqui, em detrimento das outras duas, e convenhamos que ele foi supemamente deselegante, nos agradecimentos, ao se referir à Nádia como “a maior autoridade no Brasil em Clarice Lispector”; o tom é de quem está dizendo o seguinte: “ela é a maior autoridade num país de segunda”, e nós, do primeiro mundo assumimos de agora em diante, muito obrigado, e adeus.

Por outro lado, há uma hipertrofia da “questão judaica” no livro. Há momentos em que ela literalmente atropela Clarice, e nós sentimos que estamos lendo uma vida vivida na Berlim nazista, ou que o anti-semitismo, que aparece em surtos episódicos no desenrolar temporal do livro, fosse uma questão essencial do nosso país. Há momentos até em que parece que o que ele gostaria mesmo era de biografar Elisa Lispector,  a irmã de Clarice que mais peremptoriamente manteve a identidade judaica, e cujas obras, tão superestimadas ao longo de Clarice,, a julgar pelos trechos selecionados pelo biógrafo, parecem muito fracas (tirando o aspecto catártico), cafonas, especialmente o texto sobre a irmã, Corpo a corpo, que é de uma ruindade constrangedora.

O que me irritou no livro de Moser pode ser esclarecido com uma espiada nas páginas  156 e 157, nas quais se fala do grupo de escritores homossexuais e católicos com os quais Clarice conviveu (Octávio de Faria, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, pelo qual ela foi apaixonada). Nelas, Moser aproxima homossexualidade e judaísmo:

“…buscavam ser salvos por meio da arte. Escrever era para eles um exercício mais espiritual do que intelectual.

     Era isso que Clarice Lispector, ´culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal´, tinha em comum com Lúcio Cardoso: A beleza era uma qualidade, não uma forma; um conteúdo, não uma organização, disse um escritor acerca da visão de mundo dos judeus pobres do Leste Europeu. Ao escrever que os judeus ficariam profundamente perplexos diante da idéia de que a estética e a moral são reinos distintos, ele também poderia muito bem estar falando da obra de Lúcio Cardoso e outros católicos homossexuais, cuja exaltada literatura era em grande parte uma missão urgente para salvar almas que eles temiam estar irrevogavelmente condenadas.

    Essa também era a meta de Clarice Lispector e de muitos outros escritores judeus, confrontados com o silêncio de um Deus que, a despeito de suas fervorosas orações, insistia em afastar-se deles. Ambos era rejeitados e ambos tinham sede da redenção que haviam perdido a esperança de encontrar.”

Que embrulhada, que mixórdia!  Infelizmente, Moser vem acrescentar mais um tijolo à construção de uma identidade de martirização que os gays vêm erigindo (e nisso se associando aos judeus) como bodes expiatórios da humanidade, e cuja face mais deletéria do ponto de vista artístico, é  valorização de determinados autores por serem gays; ao fim e ao cabo, sob o pretexto de libertação de preconceitos e estereótipos, os autores são amarrados a suas identidades étnicas e orientações sexuais, reduzindo-os e domesticando-os. É o que se tenta fazer, por exemplo, com Thomas Mann: não que alguém possa negar o seu homo-erotismo, mas extirpar toda a sua vida familiar, seu casamento por toda a vida, seus muitos filhos, é não considerar que independentemente dos atavismos, há uma liberdade humana de se inventar, de fazer da sexualidade o que se quiser, e como negar que Mann construiu para si uma vida heterossexual e que, como muitos, ele era fascinado mais pela beleza pessoal do que pela determinação do sexo?

E como negar que a vida de Clarice é um afastamento das suas origens judaicas, e que transformá-la numa escritora representante da mística judaica é um delírio, uma forçação de barra? Assim como Moser apresenta leituras da obra (muito fracas) tentando aproximá-la da mística judaica (e diminuindo bastante Clarice como escritora como efeito de suas análises), eu, por exemplo, usei com bastante proveito as reflexões sobre o sagrado de Octavio Paz na minha análise de A paixão segundo G.H., Benedito Nunes fez uma maciça aproximação da obra dela com a filosofia existencialista, de forma ainda hoje instigante, e, muito recentemente,  Dany Al-Behy Kanaan, em À escuta de Clarice Lispector, mostrou fontes tanto do Antigo Testamento, mais fortemente judaicas, quanto do Novo Testamento, mais especificamente cristãs, em sua obra, com exemplos convincentes.

Moser vincula a trama de A maçã no escuro à lenda judaica do Golem, esquecendo-se da epígrafe da própria autora, citando a fonte de sabedoria do hinduísmo, o Upanixade, que abre um escopo mais amplo (e, para mim, muito mais próximo ao pensamento clariceano): “Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.”

      No post

https://armonte.wordpress.com/2010/07/26/chaya-pinkhasovna-desvarios-em-torno-da-judia-clarice-lispector-primeira-parte/

eu cito e comento os disparates de Flávio R. Kothe a respeito da obra de Clarice.

Em suas leituras da obra, Moser não fica atrás. Além de comentar, sobre A paixão segundo G.H.,  que “não é, pelo menos no primeiro plano, literatura”, diz que podemos ver em Uma galinha, uma das obras-primas do conto clariceano, uma figuração do sofrimento da mãe dela, judia estuprada nos terríveis pogroms do Leste Europeu, e que provisoriamente foi salva, como a galinha da história, de perecer como milhões da sua espécie!!!!!

Guimarães Rosa, o outro grande escritor brasileiro do século XX, é citado apenas de passagem (talvez seja “normal” demais, sem nenhum distintivo indicativo de uma perseguição, sem poder aspirar a ser bode expiatório), quando, se Moser se interessasse genuinamente pela literatura brasileira , e numa obra destinada ao leitor estrangeiro, seria obrigatório, para dizer o mínimo um pequeno paralelo entre as duas carreiras, que começaram praticamente ao mesmo tempo.Ele só indica a admiração de Clarice por Rosa, mas nada fala do impacto de Grande Sertão: Veredas, e como isso definiu o período em que ela lançou suas obras. No entanto, afirma que Crônica de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso, é uma obra-prima. Ora,ora. Será que se Lúcio Cardoso não fosse um homossexual católico atormentado e amigo da judia atormentada Clarice Lispector, ele consideraria esse livro realmente uma obra-prima?

E, quando faz um dos seus infelizes panoramas históricos, e comenta a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil (e seu livro de circunstância, Furacão sobre Cuba), sua caracterização é digna de Flávio R. Kothe: “O  livro trai uma tamanha ignorância de conceitos básicos de economia, história e política que é difícil imaginar que seu autor fosse mundialmente visto como um intelectual peso-pesado, ou mesmo que apenas fosse levado a sério. Mas era o livro do momento, do homem do momento, sobre o assunto do momento…” É difícil de imaginar que ele não considere um minuto que Sartre não era apenas o “homem do momento” , autor do livro do momento, como se fosse um sucesso fortuito  e passageiro, mas que também acabara de lançar Crítica da Razão Dialética,que não pode ser o mais consensual dos seus livros, mas é um marco histórico, e, de qualquer forma, era o autor de A náusea, Huis Clos, O ser e o nada. A idade da razão, As moscas, entre tantos títulos que podem ser lembrados. A explicação para tamanho desprezo está numa passagem anterior: “Os textos que ele publicava no France-Soir são o que se poderia esperar de alguém que nunca deixou de aderir a uma má idéia esquerdista, emitindo justificativas para tudo, das ações mais extremistas na Argélia ao assassinato de atletas israelenses na Olimpíada de Munique”. Ah, tudo se baseia nessa última informação. O pecado de Sartre: seus comentários ao assassinato dos atletas israelenses (de fato, uma monstruosidade). Isso já o desqualifica de vez. Assim como a ditadura brasileira ficará satanizada nessa biografia tão tendenciosa mais pela sua aproximação com os países árabes, durante a crise do petróleo dos anos 70, do que por qualquer outro detalhe.

Enfim, o que emerge é uma Clarice recortada às tesouradas, feita para os moldes moserianos.

Compre o peixe quem quiser.

29/07/2010

A fisionomia plena de Clarice

I

Ao escrever sobre a vida de Clarice Lispector (1920-1977), Nádia Battella Gotlib (uma biógrafa  quase tão bela quanto a sua biografada) optou por um caminho incomum e difícil, renunciando a uma espécie de “objetividade” qu parece ser a enganosa lei das biografias. Além disso, fez um trabalho de análise literária, normalmente abafado, para dizer o mínimo, nesse tipo de projeto, com raras e honrosas exceções.

Deve ter sido um risco calculado, e ela agora está pagando o preço: boa parte das reações iniciais foi negativa, não por culpa do livro, que é ótimo, mas da crítica, que está ficando cada vez mais apressada e superficial.

Clarice- uma vida que se conta não é impecável, há falhas e lacunas: por exemplo, no tocante à recepção dos textos da biografada. Praticamente ela só trata do assunto quando do lançamento de Perto do coração selvagem. Todavia, Nádia acertou na mosca ao privilegiar como princípio estruturador a visão (ou seja, as versões) que a própria Clarice apresentava de si mesma, da sua vida, da sua infância, principalmente através das crônicas que escreveu por necessidade financeira (e que em sua quase totalidade foram publicadas no póstumo A descoberta do mundo, um livro pelo qual até então eu não tinha maior interesse, e que se revelou um tesouro graças à biografia). O enredo que é extraído desse material (e sua confrontação com os fatos)  já é um feito por si e uma demonstração cabal do conhecimento da obra/vida. Nenhum dos dois pólos (texto/fato) é tomado como elemento definitivo ou absoluto. Pode-se dizer que Nádia elegeu como lema as sábias palavras do grande amor de Clarice, Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, aingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”.

Nem por isso o leitor fica sabendo menos sobre os fatos: as raízes judaicas, a infância pobre no Recife, a mudança para o Rio, o trabalho como jornalista, o casamento e a vida no exterior devido à carreira diplomática do marido, a separação…

Encaminhando-se para a década de 70, o livro vai se fechando cada vez mais em Clarice Lispector e na sua obra (os elementos exteriores vão se rarefazendo), ficando mais denso ao mostrar esses anos em que ela própria se fecha mais, talcez por causa do envelhecimento, das seqüelas de um acidente nefasto, da solidão, da ameaça da pobreza. E isso mostra a sabedoria com que Nádia escreveu Uma vida que se conta e seu conhecimento ímpar da obra de Clarice, que atingira a essa altura uma tensão quase insuportável (após Água viva) e estava sempre a um passo de chegar ao seu limite, o limite do dizer, a uma desintegração e desestruturação totais, esvaziando-se por conta de sua própria lógica interna desgastante (e meio suicida).

Muitas vezes, críticos sérios (como João Luiz Lafetá) têm demonstrado reservas quanto a Clarice (ou então têm mantido certo respeito distanciado), por conta do verdadeiro objeto de culto que ela se tornou nas mãos de inúmeros leitores que a tomam por uma espécie de Maria Bethânia, ou pior ainda, de Barbra Streisand ou Liza Minelli da literatura.

A autora de A paixão segundo G.H. já foi estudada com grande acuidade por um crítico do porte de Benedito Nunes. Mas Uma vida que se conta é uma envolvente prova de que ela, junto a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos  e Dalton Trevisan, fez a melhor obra em prosa no Brasil pós-Modernismo. Também demonstra que ela era habilidosa, para não dizer genial, no “contar”, algo que ainda não se pensara muito como uma das suas qualidades centrais. Ter inventado a sua vida, “contando-a” em suas crônicas, foi uma das suas grandes realizações. Ela mesma deu combustível para que nos interessemos por uma biografia sua.

Em tempo: o projeto gráfico do livro de Nádia Battella Gotlib pela Ática é um dos melhores dos últimos aos, um prazer de se ter e ler.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 1995)

II

Na arguta biografia que escreveu sobre Clarice Lispector (1920-1977), Uma vida que se conta, Nádia Battella Gotlib cita as seguintes palavras de Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas como o seu segredo, que é o que importa”. Naquele momento (1995), ela revolucionava a imagem da autora, privilegiando no conjunto da obra as crônicas (reunidas hoje em Para não esquecer & A descoberta do mundo, além de certos textos fundamentais que fazem parte de Felicidade Clandestina), que a princípio não pareciam ter maior importância, mas que lidas da maneira certa compunham uma intensa e coerente narrativa autobiográfica, servindo como canto paralelo (e complementar) às intensas pesquisas existenciais e de linguagem de suas obras-primas efetivamente ficcionais como Perto do coração selvagem, O lustre, A paixão segundo G.H. ou Água viva, para ficarmos nos “relatos” cujos protagonistas são mulheres.

Pelo menos para mim Uma vida que se conta foi um marco. Pois bem, após reeditar toda a obra clariceana, a Rocco despejou no mercado uma série de livros apócrifos; entre eles, um de fotografias, “enfeitado” por breves citações: Aprendendo a viver, que parece os lançamentos da editora Sextante com fotos de bichos do tipo Um dia daqueles, que todo mundo acha tão adoráveis.

E agora Nádia Gotlib lança Clarice Fotobiografia. Qual a diferença?  Sem contar a dedicação obsessiva da biógrafa, a qual, de esforço em esforço, fez realmente o impossível para registrar até o distante local de nascimento de Clarice (Tchechelnik, na Ucrânia), o livro é uma viagem colossal pelos fatos biográficos, pelos objetivos literários, pelas obras publicadas, pela correspondência, pelo casamento, pela pobreza, pelo envelhecimento, até mesmo pela solidão e pela angústia. E até pelo além, no sentido de que não pára no ano da morte da “ucrano-pernambucana”, na feliz colocação do mestre da crônica no Brasil, Rubem Braga, o qual continua, mais feliz ainda, dizendo que ela é (e o verbo no presente vai por conta do ano em que escreveu, 1965), na verdade, uma grande escritora carioca, “na boa e nobre linhagem de Machado de Assis” (e aliás, todas essas linhas se cruzaram e cristalizaram brilhantemente em outra suprema realização, A hora da estrela, não por acaso a odisséia patética e vertiginosa de uma nordestina perdida pelo Rio, e a última obra que publicou em vida).

É lógico que esse apaixonante caleidoscópio de imagens ganha muito se lido em conjunto com Uma vida que se conta. O que Nádia Battella Gotlib continua a provar, no entanto, é sua fidelidade à mesma intenção luciocardosiana de jamais esclarecer, jamais perder de vista o que importa (o segredo), mas contornando-o, sugerindo seu enigma através da fisionomia mais plena.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 05 de julho de 2008)

 

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