MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/12/2010

A mulher negra, o homem dourado e o malabarista de palavras

 

Em Ulisses, de James Joyce, há uma longa, famosa e pândega discussão, capitaneada por um dos protagonistas, Stephen Dedalus, na qual se afirma que Shakespeare foi corneado pela mulher, Anne Hathaway, com seu irmão Richard, e que instilou essa situação em algumas de suas maiores peças (Hamlet & Otelo, particularmente).

Em 1964, no quadringentésimo aniversário do nascimento de Shakespeare, Anthony Burgess (1917-1993)um joyceano convicto—publicou NADA COMO O SOL (Nothing like the sun), notável romance em que expande a hipótese e que agora sai no Brasil, traduzido por Paulo Reis para a Ediouro, a qual tenta vendê-lo como uma espécie de Shakespeare apaixonado em livro. Ora, ora. O público que gosta de filmes do Oscar que nasceram com vocação para a Sessão da Tarde dificilmente apreciará o passional Shakespeare de Burgess, embora o criador de Hamlet apareça inteiro para o leitor, mesmo que no mundo da ficção. Por mais “inventado” que seja o Shakespeare de NADA COMO O SOL ele parece mais real do que aquele que surge das biografias e o romance do autor de Laranja mecânica é o único a transmitir uma ideia do que poderia ter sido sua mente.

Nós o conhecemos a partir da sua adolescência em Stratford. Sua ambição: restaurar a dignidade da família, tornar-se um cavalheiro, sair do meio estreito onde vive. Durante anos ele é tolhido por causa do desastrado casamento a que foi obrigado com uma mulher mais velha, Anne Hathaway. Até que recebe um vaticínio misterioso de uma velha local (“O dado está lançado: uma mulher negra ou um homem dourado”), partindo com uma trupe de atores.

Em Londres, com seus sonetos e poemas longos, torna-se o favorito do conde de Southampton, Henry Wriothesly, dez anos mais novo do que ele, e com uma beleza tão letal quanto a do Tadzio de Morte em Veneza.

É o homem dourado, o grande amor masculino de sua vida, até que resolva assumir a carreira teatral (embora compre sua quota num teatro com dinheiro de Henry). A mulher negra (também imortalizada nos sonetos) é Fatimah, uma muçulmana que começa a ser sustentada por ele até que Henry a roube, contaminando-a com a sífilis (doença que consumirá Will em suas últimas décadas, segundo o romance), enquanto conspira contra a rainha Elizabeth.

A mulher negra e o homem dourado, “o estranho é que eles podem alimentar melhor ambas as minhas fomes, ao mostrar tais fomes tão claramente separadas e diferentes. Pois alma e corpo nunca podem ser alimentados juntos, por mais que falemos da unidade do amor. Pois o amor é uma só palavra, mas é muitas coisas… Com ela encontro o paraíso do animal que é o inferno do anjo; com ele, já afastada a fome do corpo, existe o mais desejável dos tipos do amor, ao qual Platão cantava hinos. E então meu demônio interior diz Ainda assim, tu admiras a beleza das formas dele, é um amor impuro. Sonho que estamos dançando gravemente uma pavana ou sarabanda, nós três, e nesses movimentos consigo reconciliar o animal e o anjo que há em mim. Gostaria de poder compartilhá-la com ele e compartilhá-lo, mas talvez somente um poeta possa pensar em termos tão altos, incompreensíveis tanto para a alma (que doa) quanto para o corpo (que toma)”.

Ao mesmo tempo, Shakespeare vai se transformando num burguês respeitável de Stratford, enviando dinheiro, comprando propriedades. Há a esperada cena do flagrante de adultério, entretanto, como se vê, NADA COMO O SOL vai muito além dela, ainda que sua repercussão na sensibilidade de Will (e até na sua relação com Henry) seja profunda. É uma visão vertical e alucinante da Inglaterra elizabetana e da mente do maior dos malabaristas da palavra, como ele muitas vezes se denomina. É plena de humor, de vitalidade, mesmo em seu crescente tom sombrio, e nada tem de um pueril romancezinho histórico. Poucos lançamentos deste ano serão tão interessantes.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de agosto de 2003)

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