MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2011

FÉRIAS COM DURRELL (primeira parte): MONSIEUR ou O Príncipe das Trevas

                 a meus saudosos Páris, Sofi, Lolita e Donguinha, o Quarteto de

                              Alexandria da Messia Assu

quincôncio  ou quincuncegrupo de cinco, formando quatro um quadrado e ficando um no centro.  (do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 1998)

“Bem, relanceando os olhos pelas curvas do futuro, vi alguma coisa como um quincunce de romances dispostos numa boa ordem clássica. Cinco romances Q escritos num estilo quincuncial altamente elíptico, inventado para isso. Embora ligados entre si como ecos, não seriam postos lado a lado numa ordem ou série, como dominós—mas simplesmente pertenceriam ao mesmo grupo sanguíneo para os quais o seu desconjuntado Monsieur estipularia tão-somente uma nebulosa de temas a serem reelaborados nos outros…”

(de Livia ou Enterrado Vivo)

[templo de Angkor Vat]: “As torres de cinco cones formam um quincunce, e seus flancos estão escavados de nichos…”

(de Monsieur ou O Príncipe das Trevas)

 

INTRÓITO

A primeira leitura que fiz, ao mudar para a rua Messia Assu, onde residi por dezoito anos, foi a de O quinteto de Avignon (1974-1985), de Lawrence Durrell (1912-1990). Agora que me instalei em outro lugar, numa casa na avenida Marechal Deodoro,  estou me ocupando novamente—como “leitura inaugural” e como rito propiciatório—com o “quinconce” durrelliano, me valendo da mesma tradução de Waltensir Dutra, publicada pela Estação Liberdade entre 1989 e 1992 e que batizou meu período de vida no meu saudoso apartamento

No ano da minha mudança para a Messia Assu (1992), eu já lera os dois primeiros volumes, Monsieur ou O Príncipe das Trevas (na tradução portuguesa do grande Daniel Gonçalves, o mesmo de O quarteto de Alexandria), e Livia. Este, apesar de traduzido competentemente por Margarida Vasconcellos Dias (lida por mim, numa série publicada pela Abril Cultural nos anos 80), apresenta uma série de erros, a começar pelo subtítulo, Enterrada viva (de fato, é Enterrado vivo, referindo-se explicitamente ao escritor Blanford), e outros detalhes menores, como transformar a lésbica Trash num homem. Tais deslizes se deram porque Margarida Vasconcellos Dias só deve, possivelmente, ter lido o volume que estava traduzindo, e se Durrell oferece várias armadilhas aos seus tradutores mais constantes, como o próprio e brilhante Daniel Gonçalves (que desabafou: ”Durrell pretende algures que o autor tem o direito de escrever até aquilo que ele próprio não sabe o que quer dizer, mas abusa desse direito criando extremas dificuldades ao tradutor que, nessas circunstâncias, encontra-se impossibilitado de concretizar o dever de fidelidade ao pensamento—confuso, impreciso, inexistente—do autor”), imagine se a pessoa tiver conhecimento mais limitado da sua obra e do seu estilo intrincado e (auto)alusivo.

 

AS MANHAS DA NÉVOA 

O PRIMEIRO VOLUME, MONSIEUR OU O PRÍNCIPE DAS TREVAS:

“Que espécie de Deus,  pergunta-se o gnóstico, poderia ter organizado as coisas tal como estão—este mundo de morte e dissolução que pretexta ter um Salvador e uma fonte do Bem na sua base? (…) Um mundo no qual somos o alimento uns dos outros, a presa uns dos outros”.

O trecho acima é de “Macabru”, a segunda das cinco partes que compõem Monsieur ou O Príncipe das Trevas (1974). Trata-se de uma das diversas exposições do líder de uma seita gnóstica (Macabru é um oásis localizado no deserto egípcio), Akkad, sobre o fato de que o controle do universo foi usurpado por um demiurgo espúrio, no lugar do verdadeiro deus. Outra passagem da mesma seção caracteriza esse estado de coisas de maneira bem clara:

“__ Quanto mais conhecemos sobre o homem, menos podemos tolerar a situação humana submetida ao Príncipe.

    Um medonho ato de duplicidade tinha invertido a ordem racional do universo—era isso o que ele queria dizer, como depois percebi. O intruso, que tinha substituído o monarca original, lançara a confusão no funcionamento da lei cósmica. Desde que ele, o Príncipe Negro, chegara, tudo teve de ser reordenado, reaprendido, reformulado, toda a realidade, portanto (…) Só muito mais tarde compreendi o que ele queria dizer—aceitar essa crença era permanecer fiel ao desespero fundamental da realidade, compreender de forma final e total que não havia esperança, a não ser que o deus usurpador fosse destronado, e não parecia haver meios de consegui-lo.”

Assim como Ezra Pound, Durrell vê a usura como o resultado último dessa usurpação. O trecho seguinte já é de outra seção, “Sutcliffe: os documentos venezianos”:

“Ocorreu uma mudança radical de ênfase, tão marcada quanto qualquer momento histórico, como Copérnico ou a queda de Constantinopla,que transferiu o equilíbrio do domínio do espírito para o da matéria. Indícios disso podem ser identificados nas velhas mitologias. Todo o eixo da sensibilidade humana foi modificado—como se em algum lugar, longe da vista, uma calota polar Sr tivesse derretido. A vegetação antiga deu lugar à nossa nova vegetação de aço, florescendo em bronze, depois ferro, depois aço—um progressivo endurecimento das artérias. A tábua das essências foi substituída pela tábua dos elementos. A Pedra Filosofal, o Santo Graal da consciência antiga, deu lugar aos valores usurpantes da barra de ouro—a nova regente da alma.  Agora o escravo, considerando-se livre, passou a medir sua potência pela moeda, pelo valor do capital, o elemento totalmente saturnino de sua natureza. Nasceu a obscura e doce auréola da usura. E a liberdade, que é simplesmente a capacidade de despender—seu protótipo, o orgasmo—foi acorrentada na mente, e mais tarde no corpo. A faculdade de acumulação, a usura, embutiu-se no próprio saco de esperma do homem, que começou a fundar culturas baseadas em repressões-chaves—a faculdade de armazenar, de reter, de acumular (…) a dualidade tornou-se a chave não só do pensamento filosófico, como da própria linguagem, cujo tijolo básico, a palavra, encerra dicotomia central. Com tudo mudando de escala  e relação dessa forma, a morte tornou-se obrigatória, mandatória, em lugar de ser uma escolha, arbitrária, e sob escolha da psique…”

     Se alguém que tenha o hábito de ler meus textos, ou que me conheça,  sabendo o quanto sou cético e nada místico, surpreender-se com essas citações, que roçam o gênero de explicação da natureza das coisas de um Dan Brown ou de um Paulo Coelho, de uma maneira um pouco (mas só um pouco) mais sofisticada, está no seu direito. Realmente, há lados no “quincunce” de Durrell que me incomodam muito, e um deles é a mixórdia que se faz ali das seitas gnósticas com os templários e os ciganos (além de banqueiros internacionais), sem falar de uma mística que se entrelaça com erotismo e perversões, uma atração pelo lesbianismo, que é um disfarce da misoginia, enfim, uma nebulosa de temas que às vezes nada mais é do que um nevoeiro (como ele mesmo, ou um de seus heróis, diz: as “manhas da névoa”)., um tanto mistificatório.

Durrell seria um charlatão? Jamais. Há até uma aura cabotina no conjunto do Quinteto de Avignon, se formos muito implicantes, contudo eu acredito que ele é um caso parecido com os de Hilda Hilst, Norman Mailer ou mesmo D.H. Lawrence[1], por exemplo: todos eles grandes escritores, mas todos com mania de instilar em seus textos preleções e plataformas ideológicas mal assimiladas e mal digeridas, que ganham uma exposição confusa e  demagógica e que acabam desequilibrando a qualidade geral. É por isso que tanta gente séria desconfia e não gosta desses autores citados. E é por isso que tanta gente que, no fundo, nem gosta tanto assim de literatura, acaba fã deles: porque eles parecem ter uma “visão sistemática”, um diagnóstico do mundo e das causas dos seus males!

No caso específico de Durrell, me parece (só tenho a leitura dos seus livros para apoiar essa minha afirmação) que sua recusa do mundo ocidental, do apequenamento da humanidade, do seu aburguesamento, principalmente no pós-segunda guerra, o fez se voltar cada vez mais para uma idealização do aristocrático, de um elitismo muito enraizado na cultura mediterrânea ancestral, nos valores remotos de um tipo feudal ou pelo menos a visão romântica do feudal, numa aversão à mudança, esta tomada no sentido capitalista e moderno, quase equivalendo à degeneração. Daí, a sua opção, o seu pendor (que encontra eco num estilo assaz grandioso, diga-se de passagem) pelo romanesco. A ambientação é sempre em lugares grandiosos, uma vez que têm um peso evocativo (Alexandria, o Nilo, Avignon, Veneza, Viena…; aliás, uma das acusações que podemos fazer a ele, como a outros escritores europeus ou norte-americanos europeizados, é transformar os lugares do mundo em quintal das casas dos problemas individuais dos seus personagens, como se todos os espaços estivessem disponíveis para que eles chafurdem nas suas emoções, obsessões e aberrações) enorme.

Como Durrell é um narrador magistral, um sujeito que sabe contar uma história, esses ambientes e essa grandiloqüência são feitos sob medida para seu talento. Mas ele não quer só contar, ele tem um lado “pensador”, e aí que as coisas se complicam. O romanesco Durrell é um dos maiores autores que eu conheço, o lado reflexivo, epigramático e aforismático de Durrell já é algo que roça o indigesto e, hélas, o charlatanesco!

Não há, porém, como operar uma separação explícita e inequívoca entre essas duas características, ou seja, obter um Durrell “puro”, sem mácula. E é por esse motivo que ele é um dos autores que me mantêm enleado, deslumbrando-me e irritando-me quase na mesma medida. Eu pensava em aparar as arestas desta vez, entretanto é claro que isso não está acontecendo.

Como emerge o romanesco em Monsieur ou O Príncipe das Trevas (no que ele tem de ranço reacionário e no que tem de apaixonante enquanto um mundo ficcional poderoso)?

O médico ligado ao serviço diplomático britânico, Bruce Drexel, que está próximo da aposentadoria, é chamado a Avignon por causa da morte de seu companheiro amoroso de anos, o aristocrata Piers de Nogaret (descendente daquele nobre que atraiçoou os templários, na repressão ordenada por Felipe, o Belo, no início do século XIV), o qual a duras penas mantinha o que restou de uma vasta propriedade feudal (um castelo arruinado, Verfeuille), nas proximidades da cidade onde o papado se instalou durante aquele século em que os templários foram destruídos, trabalhando como diplomata. A vida de Bruce e Piers foi singular devido ao triângulo amoroso que formaram com a irmã de Piers, Sylvie, com a qual ambos também mantiveram relações erótico-amorosas, e com a qual Bruce chegou a se casar (no momento da morte de Piers, ela está internada num manicômio):

“Essa paixão a três tinha-me fascinado durante toda uma vida e haverá de me acompanhar para além do túmulo. Eu sabia que tinha encontrado meus onlie begetters, os meus únicos criadores. Eu estava revivendo a trama e a contra-trama dos sonetos de Shakespeare na minha própria vida. Eu tinha encontrado o macho-fêmea da minha paixão. Quem poderia querer mais?”

Piers suicidou-se. Pode ter sido um acidente ou ainda um assassinato. Acontece que ele fora o único dos três, quando na juventude, no Egito, se aproximaram da seita gnóstica de Akkad, a de fato se tornar um “iniciado”. E os membros da seita assumem o compromisso de, no momento em que receberem uma misteriosa “quitação”, se deixarem matar por outro membro, após terem o tempo de deixar seus negócios em ordem. Para eles, o suicídio comum é proibido. Ele praticam um tipo de suicídio superior (essa idéia não é lá muito original, basta lembrar da obra-prima de Robert Louis Stevenson, O clube dos suicidas), impulsionado pela concepção gnóstico do mundo: “Compreendi que a recusa gnóstica a aceitar o estado de coisas constituía uma forma particular de coragem sem vanglória, um desespero sem mácula”. Afinal, o próprio Akkad, definia-se da seguinte maneira: “Na verdade, sou menos um banqueiro do que um estudioso da malevolência cósmica.” Por esse motivo, durante anos Piers montava uma “mapa da morte”, cuja forma lembrava uma cobra (a iniciação gnóstica tem a ver com esse animal) e que inventariava o avanço das “execuções gnósticas”.

Ao voltar a Avignon, Bruce—que é o narrador nesse passo do romance—relembra como a relação a três foi decisiva em sua vida, e evoca um natal passado no castelo de Verfeille, que é um dos momentos mais belos da ficção contemporânea. Na segunda parte, ele evoca a juventude do trio, e suas aventuras no Egito, onde conhecem Akkad, vão a Macabru e Piers tem sua iniciação. Depois, os três viajam pelo Nilo, outro grande momento narrativo.

Não me estendendo muito sobre o Egito, embora houvesse pano para manga se o fizesse, quero enfatizar como Avignon, o castelo dos irmãos de Nogaret e a Provença são caracterizados no livro:

“Avignon, tão pequena, asfixiante e provinciana, estava no meu sangue.”

“A ordem das coisas era ancestral, tradicional, a história era o presente, e não passava pela cabeça de ninguém qualquer alteração das coisas, mas simplesmente a afirmação do lugar tradicional que ocupavam na vida e na natureza. Seria o mesmo que tentar mudar o curso dos planetas.”

“Compreende-se até que ponto realmente a Provença é velha e ensimesmada e intacta, e quão pouco faz parte da França. É antes uma nação mediterrânea à parte—talvez a impressão seja transmitida pelo fato de ter ela uma atitude desavergonhadamente pagã, e de ser produto de uma cultura de oliveiras (…) os habitantes sorriem, praticam uma cortesia fora de moda e parecem não ter pressa nunca. Têm todo o tempo do mundo, porque o tempo provençal não é o tempo do relógio  que regula nossa vida no norte.”

“A Provença é particularmente rica em mitos e símbolos, e não gosta  de ser interrogada pelos protocérebros ociosos dos modernos hominídeos (…) Tudo aquilo era parte da imagem provençal, a história de uma terra que desde épocas remotas se entregava ao sonho, à fabulação, ao fantástico, com a firme convicção de que as histórias não deviam ter fim.”

Se ficasse nessas duas primeiras partes, “Outremer”[2] e “Macabru”, a não ser por certos filigranas, Monsieur ou O Príncipe das Trevas seria um romance estranhamente antiquado, porém poderoso como “conto”, como “fábula”. Só que já de saída, Bruce nos informa que eles foram transformados em personagens pelo amigo escritor, Robin Sutcliffe, e aí nós não sabemos se estamos acompanhando o trio Bruce-Sylvie-Piers de fato, ou os personagens de Sutcliffe.

Aí começam as encruzilhadas quincunciais da narrativa: Sutcliffe pertencia a outro triângulo amoroso, era casado com a irmã de Bruce, Pia, mas esta mantinha um caso com Trash (de passagem, como a personagem é negra, é interessante notar as tiradas racistas que Durrell é capaz de destilar: “Ninguém gosta de ser homossexual, como ninguém gosta de ser negro ou judeu” ou ainda: “E como Trash era adorável, com sua profunda voz de violino resinado e sua pele que cheirava a melão almiscarado, seu sotaque levemente afetado do extremo sul; uma preguiçosa e sensual toreadora do ato amoroso, maravilhosamente couraçada contra idéias tais como a psicanálise ou o Amor Romântico, pelo fato de adormecer quando se pronunciava uma palavra de mais de uma sílaba”; é claro que a amante negra teria que ser sensual e iletrada; e que bobagem constante é essa aproximação do homossexualismo etnias).

Em Veneza, Sutcliffe, já abandonado por Pia, mas antes do período de loucura e degradação, tenta escrever um novo romance, sem encontrar a “forma certa”. Na cidade, está o seu rival, o bem-sucedido Bloshford, que ele odeia, despreza e inveja (o único escritor britânico que tolera é Pursewarden, que era personagem de O Quarteto de Alexandria). Lá, ele conhece Sabine, outra das mulheres sinuosas, traiçoeiras e perigosas (no caso dela, está contaminada pela sífilis) que povoam o mundo de Durrell. Ele é filha do banqueiro (ufa, dois banqueiros poderosos num mesmo livro é meio too much) com o shakesperiano nome de Banquo. No entanto, apesar da grana (eles moram em outra propriedade maravilhosa da Provença, perto de Verfeuille), ela gosta é de cair no mundo com os ciganos praticando putaria e cartomancia. A cronologia é muito enrodilhada, de forma que já conhecíamos outras fases de Sutcliffe e Sabine antes desse encontro dos dois.

E, entretanto, todos eles são criações do escritor Aubrey Blanford, como ficamos sabendo na quinta seção, “Jantar no Quartila´s”, também ambientada em Veneza, e onde ficamos sabendo que o que líamos era uma das versões do romance Monsieur do renomado autor, inválido de guerra, que após terminá-la, enviou-a à Duquesa de Tu (Constance), irmã de Livia (com as duas, ele viveu mais um dos triângulos durrellianos, e Livia é escorregadia e traiçoeira como Pia e Sabine). Enquanto ele se prepara para discutir a versão enviada à antiga amante e grande amiga, ele insere trechos cortados em que reaparecem os personagens que já conhecíamos. Um momento pungente e revelador dessa  seção, é quando sabemos, após a troca de confidências entre ele e Constance, que ele está no Quartila´s falando para o vazio: “Já era tarde quando Blanford pagou a conta e disse boa-noite à duquesa: cansados, os garçons o cercaram. Tinham, com o tempo, passado a respeitar aquele distinto inglês idoso que vinha com tanta freqüência passar a noite falando em sussurros para um canto vazio—pois algum tempo já tinha transcorrido desde que o nome da duquesa aparecera no mapa estelar da morte”.

Os leitores podem achar que essa permutabilidade de escritores tem um efeito deletério sobre o romance, transformando-o numa coisa descarnada e fantasmagórica. É certo que há pelo menos um aspecto irritante nesse troca-troca de “diretor de cena”, “quem responde pelo fictício” (Durrell? Blanford? Sutcliffe? e afinal há também os narradores, como Bruce): o fato de que tanto Blanford quanto Sutcliffe, que serão os responsáveis principais pela “organização do material”, tem sua vida sexual hipertrofiada e são figuras grotescas, escatológicas.

Mas tirando esse aspecto, eu acho que essa permutabilidade de “autores” é um ganho para o livro: se estamos numa realidade que é contrafação, cuja base é uma usurpação, não sabemos quem é nosso Criador, não sabemos quem é nosso Demiurgo, e portanto a questão da autoria não pode ser resolvida, e portanto é bem pertinente se colocar em questão quem é o autor de um relato:  “Salvar um princípio geral de uma massa de evidências conflitantes pode ser tanto ciência como poesia”. Talvez seja feito de uma maneira exasperante e desgastante, porém é um bom princípio para uma realidade-nevoeiro, um universo usurpado. As manhas da névoa, de fato.[3]

“E eu!, pensou Blanford? Sou possivelmente a invenção de alguém como o velho D—o diabo de um modo geral?”

“…todos esses problemas angustiantes continuariam sem solução, enterrados no poeirento futuro ou nos palimpsestos em decomposição do passado.”

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Trivia- Não deixa de ser engraçado, já que se enfatizou tanto a ascendência búlgara de nossa nova presidente, que a palavra búlgaro aparece no livro de Durrell, como termo pejorativo, desde o tempo dos Templários, significando sodomita.

(escrito  especialmente para o blog, em janeiro de 2011)


[1] Outros exemplos: alguns Cortázar, alguns Kundera…

[2]Havia ainda algumas cartas de Piers para ela, escritas no papel que ele utilizava e que ostentava a legenda Outremer (eu tinha notado no dedo de Sylvie o sinete de Piers, com a mesma palavra enigmática. Ele se referia sempre a si mesmo, ironicamente, como o último dos templários e a expressão indicava não só o laço familiar, pois era na verdade um de Nogaret, mas também o orgulho templário no compromisso ultramarino da Ordem. Pois essa romântica ida ao Oriente Médio foi uma experiência emocionante—quase histórica. Sentia estar voltando ás raízes da grande traição, às raízes de toda a dissidência anticristã. Piers era um adorador do Deus templário. Acreditava no usurpador do trono, o Príncipe das Trevas.”

[3] Como não estou analisando TODOS os aspectos de Monsieur ou O Príncipe das Trevas, estou apenas fazendo uma leitura de férias, deixo apenas indicado um de seus lados ao mesmo tempo mais engraçados e mais irritantes: a relação com a psicanálise, pois Sutcliffe vai se haver com o próprio Freud, no livro Dr. Joy, em tradução, Dr. Alegria (que é o significado do nome Freud):

“O velho Alegria investiu-me de um pessimismo e uma monotonia caracteristicamente judaicos. Estamos tratando com um mercado em baixa, nossos pobres e pequenos investimentos se tornam, a cada ano, menos valiosos. Sinto-me tentado a lançar-me na retórica do mercado de títulos que descreve as ações com metáforas.”

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