MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/09/2010

Cidadãos do Mundo: O novelo da origem e do cosmopolitismo

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de setembro de 2002)

Em PAISAGENS ORIGINAIS [ Paysages Originels, França, 1999, traduzido por Monica Stahel, edição Difel], Olivier Rolin reúne as cinco matérias que escreveu para “Le Monde” sobre Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, Henri Michaux e Yasunari Kawabata. O que há de comum entre eles? Nasceram no mesmo ano, 1899. E, combinando com rara eficácia jornalismo e análise literária, Rolin viajou para os locais onde eles passaram sua infância, descrevendo-os e ao mesmo tempo rastreando-os na obra de cada um, mas em nenhum momento de uma forma óbvia e primária. Ele de fato conhece a obra dos cinco, sendo capaz de fornecer informações biográficas e objetivas e fazer incursões pelos detalhes de um livro de uma forma sutil e orgânica.

O primeiro texto (talvez o melhor de todos), Lá no Michigan, aborda Oak Park, a paisagem original de Hemingwa e por ele tão odiada (assim como a mãe), e que acabou ganhando importância na sua obra por exclusão. Se o menino está no homem, e acreditamos que esteja, é uma delícia ler momentos como o segunte: “o que é Por quem os sinos dobram [romance de Hemingway sobre a Guerra Civil Espanhola]: as férias estonteantes e fatais de um grande pateta americano cujo prazer é aquecer seu rango numa fogueira de acampamento e dormir a céu aberto, no seu saco de dormir sobre um tapete de agulhas de pinheiro”; para Rolin, “o estranho nesse livro é justamente isso: a mistura de uma inteligência histórica, e de um fundo de inquietações primitivas, rústicas, ingênuas, que são as do adolescente do Michigan”. Ao mesmo tempo ironizando a psicanálise e utilizando-a, o autor de PAISAGENS ORIGINAIS construir uma pequena obra-prima na qual podemos perceber o “desenho do tapete de uma vida delineando-se desde o local de seu nascimento até a transfiguração realizada pelos livros.

Assim também ele cria as redes que “apanham”, por assim dizer, dois gênios literários avessos à especulação biográfica e às concepções freudianas, o russo Nabokov e o argentino Borges.

Em Essas coisas distantes, luminosas, queridas… conhecemos a paisagem de São Petersburgo, da qual Nabokov (que pertencia à aristocracia russa) foi desterrado para sempre, ao ponto de criar um dos imaginários geográficos mais bizarros da ficção (basta ler Ada ou Ardor ou Fogo Pálido). Para o fã nabokoviano, também é um prazer ver Rolin referir-se com frequência a um de seus melhores e, no entanto, menos conhecidos livros, A verdadeira vida de Sebastian Knight.

Quanto a Borges, o lado suburbano de Buenos Aires, com seus compadritos e marginais, que fascinava o autor de Ficções, é o contraponto  da sua educação anglófila e europeizada (aliás, ele viveu muitos anos da juventude na Europa). O que se destaca em O misterioso hábito de Buenos Aires é a desmistificação de um Borges a-histórico e “abstrato”: assim como alguns estudiosos brasileiros (Davi Arrigucci Jr, Júlio Pimentel), Rolin traça o perfil borgiano bastante ancorado às circunstâncias históricas e concretas: “Aos que têm de Borges apenas a imagem do cego erudito pode ser difícil imaginá-lo sob os traços do homem que anda furiosamente, incansavelmente, nos subúrbios noturnos, ávido de uma poesia plebeia, e no entanto é o homem que descrevem todos os testemunhos sobre sua juventude”.

PAISAGENS ORIGINAIS é um livro excelente. Entretanto, o leitor apreciará mais a perspicácia de Olivier Rolin se complementar a leitura com as histórias de Nick Adams, uma das quais intitulada justamente Lá no Michigan, no volume 1 dos Contos de Hemingway (ed. Bertrand) e com a leitura das autobiografias de Nabokov, A pessoa em questão (Companhia das Letras) e de Borges, Um ensaio autobiográfico (ed. Globo).

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  24 de setembro de 2002)

Na seção anterior comentei três ensaios jornalísticos de PAISAGENS ORIGINAIS, de Olivier Rolin, os quais abordavam escritores bastante conhecidos: Hemingway, Nabokov e Borges (e estes dois últimos, como já dei mostra várias vezes, estão entre meus preferidos).

Só para retomar o fio da meada:  PAISAGENS ORIGINAIS é um projeto jornalístico-literário que toma como traço comum de cinco escritores o nascimento no mesmo ano, 1899. Partindo disso, seu autor foi em  busca dos lugares onde passaram a infância, para mostrar sua repercussão nas obras futuras, ao se tornarem “paisagens originais” ou originárias.

Faltaram duas crônicas, Começo sem fim de minha vida obscura e Um homem completamente atormentado, a respeito de dois autores de pouca repercussão no Brasil, o belga Henri Michaux e o japonês Yasunari Kawabata. O próprio autor que escreve  só leu do cultuado Michaux fragmentos esparsos nos suplementos da vida, e de |Kawabata alguns livros (O país das neves, Nuvens de pássaros brancos, Kyoto, Beleza e Tristeza), insuficientes para uma avaliação global de sua longa carreira literária.

Por esse motivo, para o leitor brasileiro, Começo sem fim de minha vida obscura é o texto que parece mais confuso e mal-resolvido do volume, tentando apreender os início de uma vida “tão incrivelmente livre, tão essencialmente, obstinadamente evadida” como a de Michaux. É uma imagem extremamente negativa da Bélgica que emerge das citações feitas por Rolin: trata-se de um “país triste e superpovoado”, de uma “raça infecta que pende, que se arrasta, que escorre”. Fugindo dessa anti-vida, Michaux se engaja como marinheiro. A paisagem se alarga, apesar da persistência de uma visão ácida e desencantada sobre o vasto mundo.

Um homem completamente atormentado é o melhor do livro, depois de Lá no Michigan (sobre Hemingway), e dá valiosas pistas para compreender a fusão de delicadeza impressionista e perversidade que vemos em Kawabata. E ajuda ainda a compreender a cruel caricatura que Yukio Mishima fez dele na figura de Shunsuke Hinoki, protagonista de Cores Proibidas (Companhia das Letras), outro lançamento indispensável deste ano, assim como o de Rolin: “Ele que será tão obcecado pela beleza, tão apaixonado pelo vigor animal da juventude, sua própria infância se desenrola sob o império insistente da doença e da morte… a experiência da feiúra e da degradação dos corpos”. Todos os que lhe são próximos (pai, mãe, irmã, avós) morrem nos seus primeiros anos: “Há em Kawabata uma presença insistente do cadáver, e do tornar-se cadáver”.

A morbidez e o sadismo jazem na meada do novelo neurótico entretecido pela contraposição obsessiva de duas cores: o vermelho e o branco: “Seria interminável assinalar todos os encontros de borboletas vermelhas e folhas de bordo, todos os reflexos de quimonos escarlates sobre a neve, os jogos de sangue e a pele cor da lua”.

É atrás do início do novelo que, após Tóquio, Olivier Rolin vai para Shuku No Sho, a cidadezinha dos avós paternos de Kawabata. Ele também visita seu contraponto, a peninsula de Izu, lugar que serve de palco para uma certa “reconciliação com o mundo” para esse mestre da angústia, o qual, assim como Hemingway, se suicidou.

PAISAGENS ORIGINAIS não termina com essa reconstituição dos lugares de formação de Yasunari Kawabata. Há um texto final que homenageia ULISSES, de James Joyce, tomado como matriz literária para os cinco escritores, tão diversos entre si: “erguendo sua torre de Babel sobre as planuras provincianas de Dublin, a obra-prima de Joyce no fim das contas inaugura para a literatura do século uma espécie de dever do cosmopolitismo”. Representa o ápice da perspectiva que fundamenta o notável livro de Olivier Rolin: “As paisagens originais são os espaços sentimentais pelos quais estamos ligados ao mundo”, mas “nenhuma obra digna desse nome se deixa encerrar num determinismo territorial”.

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