MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/04/2014

Destaque do Blog: O PRIMEIRO HAMLET IN -QUARTO DE 1603

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 29 de abril de 2014)

Escrevendo sobre Hamlet, em Shakespeare: A invenção do humano, Harold Bloom discorreu longamente sobre uma hipotética versão original da peça, nunca encontrada, não obstante objeto de especulação tremenda, e que poderia ser ou não ser de autoria do próprio Shakespeare, cujos 450 anos de nascimento foram celebrados em 23 de abril.

Além desse obscuro Hamlet Zero[1], três versões da tragédia ocupam, nos últimos quatro séculos, especialistas e aficionados. Em geral, as edições que lemos misturam os textos dos chamados Segundo in-quarto (1605) e Primeiro Folio (1623), mais extensos do que o do Primeiro in-quarto (1603), este último só recentemente traduzido no Brasil, por José Roberto O´Shea (em edição da Hedra). Para que se tenha uma ideia da diferença, enquanto os dois outros, mais “autorizados” (mesmo sabendo que é impossível o estabelecimento de um Hamlet final de acordo com o que Shakespeare escreveu, já que não sobreviveram manuscritos), atingem cerca de quatro mil linhas (entre prosa e verso), o Primeiro Hamlet in quarto de 1603 apresenta apenas pouco mais de duas mil.

Ao longo de toda a acidentada formação do cânone shakespeariano, esse Primeiro Hamlet foi relegado ao status de edição espúria (bad quarto[2]), feita a partir da lembrança (supostamente com lacunas) de atores, das primeiras apresentações em 1600 ou 1601. Nas últimas décadas instaurou-se um processo de reabilitação, por ser mais “encenável”, com maior dinamismo da progressão dramática, pois em seu texto não constam “adiposidades retóricas”. Um exemplo: da primeira cena, quando os homens que montam guarda em Elsinore testemunham a aparição do fantasma do pai de Hamlet, não faz parte a fala de Horácio (e só aí são 14 linhas ausentes), comparando esse evento sobrenatural aos agourentos e pressagos acontecimentos que antecederam a morte de César na Roma Antiga.

Apesar dessas supressões, de pequenas mudanças na ordem dramática, dos nomes (Corambis, ao invés de Polônio; Gertred, ao invés de Gertrudes; “Cavalheiro Falastrão”, ao invés de Osric), e até nos famosos solilóquios de Hamlet (o mais famoso deles, nessa versão, começa assim: “Ser ou não ser—sim, eis aí o ponto”, e não o citadíssimo “eis a questão, além de aparecer no 2º. ato, e não no 3º.), a ação geral permanece a mesma, com o fantasma do pai revelando a Hamlet que o tio, agora rei, é seu assassino e usurpara o trono (a condição de herdeiro preterido é bem mais realçada nessa versão que no Segundo in-quarto e no Folio), exigindo uma vingança que será postergada (e, segundo Bloom, o misterioso Hamlet Zero era fruto da moda das “tragédias de vingança” na era elisabetana[3]).

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Mesmo aceitando que o Primeiro Hamlet é mais apropriado para adaptações cinematográficas e para os palcos, penso que a peça sai perdendo sem suas “adiposidades retóricas”. Talvez  causem impaciência e estranheza, mas para o apaixonado por Shakespeare faz falta, por exemplo, a já referida fala de Horácio: “Uma coisa perturba a minha mente/ No altíssimo e feliz torrão de Roma/Antes da queda do possante Júlio/Os túmulos mostraram-se agitados/ E as figuras estranhas dos defuntos/Gritavam e corriam pelas ruas/ Cometas chamejantes suavam fogo/ O Sol ficou convulso e a estrela túmida/Cuja força ergue o império de Netuno/Quase estava em desmaio num eclipse/Como iguais precursores de desgraças/ Como arautos precoces do destino/E prólogos de agouros pressentidos/ Terras e céus unidos advertiram/O nosso clima e os nossos conterrâneos.[4]

Na versão de 1603, temos o drama mais amarradinho e coeso, entretanto sentimos que ele perde boa parte do seu brilho, charme e apelo cognitivo. Um Shakespeare desidratado e desfibrado, inclusive no sangrento final, onde todos morrem com demasiada rapidez, sem impacto, e principalmente sem a belíssima troca de falas entre Hamlet e Horácio, com o já proverbial “o resto é silêncio”.

Nenhum trecho mostra tão significativamente que uma versão enxuta não é exatamente a melhor opção quanto a resposta de Hamlet ao aceitar o desafio (traiçoeiro) de Laertes (o qual, mancomunado com o rei, deseja vingar as morte do pai e da irmã). No Primeiro in-quarto, ela me parece de fato um exercício truncado de memória de algum participante da peça: “… se o perigo for agora, não virá depois. Existe especial providência na queda de um pássaro”;compare-se com a versão usual: “Nós desafiamos o augúrio. Há uma providência especial na queda de um pardal. Se tiver de ser agora, não está para vir; se estiver para vir, não será agora; e se não for agora, mesmo assim virá. O estar pronto é tudo…”[5]

Portanto, a leitura do Primeiro Hamlet sempre será assombrada pelas ausências, pelos recursos poéticos que até podem embaraçar a linearidade cênica, mas que fazem com que a mais famosa obra de Shakespeare seja, nas palavras de mestre Bloom, “a mais selvagem das peças, em que tudo pode acontecer, e onde as expectativas são provocadas, em grande parte a fim de serem frustradas”[6].

Shakespeare Quartos Project

NOTAS

[1] Ou Ur-Hamlet.

[2] Na avaliação de Bárbara Heliodora: “(…) já em 1603 foi pirateado, como se diz, por um ator que fazia pequenos papéis, o que resultou na publicação do notório bad quarto, uma aberração muito mais curta do que a obra de Shakespeare, com trechos sem nexo e incluindo não só frases e falas de outros autores como também descrições de algumas piadas posteriormente publicadas como da autoria do ator Talerton…” (cf. “Introdução à 2ª. edição de Hamlet”,  Nova Aguilar, 2009)

[3] “Temos conhecimento da existência de um Hamlet anterior, revisto e superado pela peça de Shakespeare, mas não dispomos da referida obra e tampouco sabemos quem a escreveu.  A maioria dos estudiosos acredita que o autor da referida peça tenha sido Thomas Kyd, que escreveu A tragédia espanhola, arquétipo da ´peça de vingança´. Entretanto, no meu entendimento, Peter Alexander estava certo quando deduziu que o próprio Shakespeare teria escrito Ur-Hamlet, o que teria ocorrido até 1589, início de sua carreira de dramaturgo (…) a hipótese de Alexander sugere a possibilidade de Hamlet (peça que, em sua forma final, oferece ao público um novo Shakespeare) ter passado por uma gestação de mais de uma década.” (cf. A invenção do humano)

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[4] Utilizo a celebrada tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (em edição da Objetiva, 2004). – No Teatro Completo- Tragédias e Comédias Sombrias (Nova Aguilar, 2009), aparece creditado também nessa mesma tradução de Hamlet o nome de Bárbara Heliodora (filha de Anna Amélia).

Algumas outras traduções do referido trecho:

– de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes:

“Minúscula partícula que basta para perturbar os olhos do entendimento! Na época mais gloriosa e florescente de Roma, pouco antes da queda do poderosíssimo Júlio,  os túmulos ficaram vazios e os defuntos, envoltos nas mortalhas, vagavam pelas ruas de Roma, fazendo alarido e soltando sons confusos; também foram vistas estrelas com caudas de fogo; orvalhos de sangue, desastres no sol e o astro úmido, a cuja influência está sujeito o império de Netuno, padeceu de um eclipse, como se o dia do Juízo Final tivesse chegado. Estes mesmos sinais precursores de trágicos acontecimentos, anunciadores de catástrofes e mensageiros dos fados, o céu e a terra manifestaram juntos a nossos climas e a nossos compatriotas.” (em edição da Aguilar, 1969)

– de Millôr Fernandes:

“Um grão de pó que perturba a visão do nosso espírito/ No tempo em que Roma era só louros e palmas/ Pouco antes da queda do poderoso Júlio/As tumbas foram abandonas pelos mortos/Que, enrolados em suas mortalhas/ Guinchavam e gemiam pelas ruas romanas/Viram-se estrelas com caudas de fogo/ Orvalhos de sangue, desastres nos astros/ E a lua aquosa, cuja influência domina o mar, império de Netuno/ Definhou num eclipse, como se houvesse soado o Juízo Final/Esses mesmos sinais, mensageiros de fatos sinistros/ Arautos de desgraças que hão de vir/ Prólogo de catástrofes que se formam/Surgiram ao mesmo tempo no céu e na terra/ E foram vistos em várias regiões/Com espanto e terror de nossos compatriotas.” (em edição da Peixoto Neto, 2004)

– de Carlos Alberto Nunes:

“O olho da inteligência um argueiro o turva/ Na época mais gloriosa da alta Roma/pouco antes de cair o grande Júlio/ saíram dos sepulcros os cadáveres/ em seus lençóis, gemendo pelas ruas/ Depois, chuviscou sangue, apareceram/ manchas no Sol, cometas; e o úmido astro/ que tem força no reino de Netuno/do eclipse padeceu no fim das coisas/Idênticos sinais de cruéis eventos/precursores que são sempre dos Fados/e prólogo de agouros iminentes/enviaram juntamente o céu e a terra/por sobre o nosso clima e nosso povo.” (em edição da Agir, 2008)

– de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

“Eis um argueiro a incomodar o olho da mente/No Estado glorioso e triunfal de Roma/pouco antes de tombar o poderoso Júlio/ viram-se os mortos, em lençol, deixar as tumbas/ e guinchando engrolar nas ruas da cidade/Estrelas patentearam-se de cauda em fogo/sangrento o orvalho, o sol com aspectos desastrosos/ e o úmido astro, a cuja influência está sujeito/ o império de Netuno, adoeceu de eclipse/ quase que igual ao que há vir no Juízo Extremo/E idênticos precurso de terríveis fatos/tais como mensageiros precedendo os fados/ e prólogo do que, sinistro, se aproxima/o firmamento e a terra juntos revelaram/aqui, ao nosso clima e aos nosso compatrícios.” (em edição do Círculo do Livro, 1982)

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[5] Em outras versões:

“… desafio os augúrios; existe uma providência especial na queda de um pardal. Se for agora, não está para vir; se não está para vir, é esta a hora; e se esta é a hora, virá de qualquer modo. Tudo é estar prevenido…” (F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes)

“… desafio os augúrios. Existe uma previdência especial até na queda de um pássaro. Se é agora, não vai ser depois; se não for depois, será agora; se não for agora, será a qualquer hora. Estar preparado é tudo…” (Millôr Fernandes)

“…desafio os presságios. Há uma especial Providência na queda de um pardal. Se tem de ser já, não será depois; se não for depois, é que vai ser agora; se não for agora, é que poderá ser mais tarde. O principal é estarmos preparados…” (Carlos Alberto Nunes)

“…desdenhamos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia—estar pronto é tudo…” (Péricles Eugênio da Silva Ramos)

[6] Cf. Hamlet, poema ilimitado (em tradução de Jose Roberto O´Shea), publicado pela Objetiva juntamente com a tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça.

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02/04/2012

três comentários sobre REI LEAR

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 O leitor brasileiro encontra diversas traduções de Rei Lear ao seu dispor. Neste comentário, o destaque ficará com a de Aíla de Oliveira Gomes não só por sua qualidade como também por ser apresentada numa edição bilíngüe. Ainda assim, é indispensável conhecer as versões de Millôr Fernandes (L&PM) e Bárbara Heliodora (Lacerda), entre as mais modernas. Há ainda versões mais antigas e tradicionais: a de Carlos Alberto Nunes (Ediouro) e a (em prosa) de Oscar Mendes e F.C. de Almeida Cunha Medeiros (Aguilar). Cinematograficamente, apesar da notável e austera versão de Peter Brook,  sempre vem à mente de imediato a transposição da trama para o Japão feita por Kurosawa no avassalador Ran, talvez o maior filme do último quarto do século XX.

    “Thou should’st not have been old till thou hadst been wise/ Não devias ter ficado velho antes de teres ficado sábio” diz o Bobo a Lear no final do primeiro ato quando este começa a perceber que foi ludibriado pela bajulação de duas de suas três filhas, Goneril e  Regan, no momento de sua prematura decisão de antecipar a herança delas e dividir o seu reino, quando também escorraçou e deserdou Cordélia, a única filha a se recusar a tal mistificação. A verdade, porém, é que Lear está tão imbuído de sua grandeza e tão auto-iludido que é fácil enganá-lo. Terá de passar por um duro aprendizado antes de reencontrar (no quarto ato) sua filha pródiga e mesmo assim será uma curta redenção.

    Assim como a história de Laertes reflete a de Hamlet (ambos procuram vingança pelo assassinato do respectivo pai e, em certa medida fracassam e se mostram aquém da tarefa), a tragédia de Lear também tem um espelho: o destino do cortesão Gloster (no original, Gloucester), enganado pelo filho bastardo, Edmund (um dos inesquecíveis criminosos shakesperianos, na linha de Iago e Macbeth) e que passa a perseguir o filho legítimo, Edgar, o qual tem de se disfarçar como mendigo (uma degradação que espelha a de Lear, quando este ficar vagando como um velho louco): Tom, o Maluco, pobre Tom (Poor Turlygod! Poor Tom! That’s something yet; Edgar I nothing am”: “Ser Tom é algo; ser Edgar é nada.”).

    Gloster será torturado numa cena tenebrosa, onde Regan e o marido lhe arrancam os olhos, incitados por Edmund, quando  começam a conspirar para obter o poder (e o bastardo, que dá o mote da trama –“The younger rises when the old doth fall”: “Caiam os velhos, que os jovens vão crescer” ainda colocará irmã contra irmã ao seduzir ambas). Cego, enxergará a verdade: “Ó Edgar, filho meu querido, que foste objeto das iras de teu iludido pai; se eu vivesse p’ra ver-te pelo tato, era como ter olhos outra vez e será conduzido, sem saber,  pelo filho disfarçado de louco, dando ensejo à famosa máxima: “É a maldição dos tempos quando é o demente que conduz o cego”. Pois Rei Lear, mostrando esse apocalíptico desencontro de gerações, alude constantemente a um crepúsculo da humanidade, um momento em que tudo é virado do avesso e o mundo é this great stage of fools”: “este grande palco de loucos“.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de março de 2005)

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“Gloucester: E quem és, meu senhor ?

Edgar: Um homem muito pobre, tornado submisso aos golpes do destino: que por artes de dores vividas e sofridas se tornou sensível à compaixão.” (Ato IV, cena VI)

Continuando o comentário a respeito de Rei Lear nada mais natural do que abordar a maneira poderosa com que Shakespeare mostra o aprendizado pelo sofrimento dos seus dois personagens centrais (Lear e Edgar), seguindo um dos fundamentos da mentalidade cristã.

    O trecho citado acima é  da tradução de Millôr Fernandes. A de Aíla de Oliveira Gomes (utilizada na seção anterior) é ótima, poética, porém um tanto “dura”. Millôr consegue um milagre de maleabilidade e precisão, sem sacrificar os efeitos do texto na maior parte das vezes, apesar de parecer não ter dado muito atenção à tensão estabelecida no uso alternado da prosa e do verso pelos personagens. É uma versão para os palcos e, sem desmerecer nenhuma das outras cinco que eu li (embora pairem  dúvidas sobre a de Pietro Nassetti, pela Martin Claret), fará muito bem quem entrar em contato com ela primeiramente.

    Pois bem, Edgar é o personagem mais visivelmente cristão de Rei Lear, e não é a toa que ele “herda” o reino no final (como um dos poucos sobreviventes da trama), contrastado com Lear, cuja autoridade se associa de forma pagã à própria natureza mesmo quando despojado do seu poder (na cena da tempestade parece que é ele quem a está convocando).

    Perseguido  e privado de sua herança e de seus direitos de homem nobre pelo pai (Gloucester), o qual se deixou enganar pelas intrigas do filho bastardo (Edmund), Edgar só começa a crescer como personagem quando resolve assumir a mais humilde e humilhada condição: disfarça-se como o Pobre Tom, o mendigo louco com quem um escorraçado (pelas filhas em favor das quais antecipou sua herança e partilha do reino) Lear compartilhará a noite da tempestade, percebendo todos os erros da Pompa  e da Vaidade e dando início à sua insânia curativa: “O homem é apenas isto ? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à ovelha, nem seu odor ao almiscareiro. Ah! Aqui estamos nós, tão adulterados. Tu não, tu és a própria coisa. O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal, como tu, nu e bifurcado.”   Portanto, Tom vem como um emissário dos miseráveis e só emergirá como vencedor e triunfador (de forma muito relativa, devido à desoladora seqüência de mortes do quinto ato), resgatando sua condição, usurpada pelo meio-irmão, só depois de um exercício de despojamento e desnudamento, que também será de fortalecimento.

    Talvez nada mais nessa peça inexcedível seja tão emocionante quanto a dedicação com que ele guiará seu pai (a quem arrancaram os olhos), sem se dar a conhecer, sempre bancando o mendigo e o louco. Shakespeare  descarta qualquer pieguice ao fazer com que a cena de reconciliação entre ambos seja narrada e não presenciada pelo leitor/espectador.

    Também um traço cristão, e bastante incômodo, é a condenação da sexualidade que se põe na boca tanto de Edgar quanto do Bobo e de Lear, e que está no âmago da própria trama da peça (cujo início é a discussão, entre Gloucester e Kent, da bastardia de Edmund), já que tudo acontece em razão do adultério e o vilão se proclama “filho da natureza”. Lear diz que suas mãos cheiram a mortalidade” porque na parte de baixo do ser humano é tudo uso do demônio. Ali está o inferno, a treva, o poço sulfuroso- queimando, ardendo, fedendo, consumindo. Que asco! Asco!”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de março de 2005)

 

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Seria impossível finalizar o comentário sobre  Rei Lear sem aproveitar para, tardiamente, é verdade, fazer justiça ao esforço de anos (e ainda um “work in progress”) da nossa mais famosa crítica teatral, Barbara Heliodora, de apresentar versões íntegras, precisas e modernas de todas as obras de Shakespeare, seguindo os passos de Carlos Alberto Nunes e da dupla Oscar Mendes/Cunha Medeiros.

    Na verdade, sua tradução de Rei Lear não chega a ser tão primorosa como a de Aíla de Oliveira Gomes  nem tão brilhante e dinâmica quanto a de Millôr Fernandes, mesmo assim é eficaz e útil.

    Aliás, Barbara Heliodora tem sido sempre útil ao leitor brasileiro do autor de Hamlet, e não apenas por seu trabalho como tradutora. No livro Falando de Shakespeare encontramos um indispensável ensaio sobre Rei Lear, no qual vemos como o título da peça expressa um ponto fundamental, já que a abdicação de Lear, nos moldes em que é feita (abdica mas continua rei), é inadmissível cosmologicamente: “antes dos tempos modernos da monarquia constitucional, o rei reinava e governava, e ninguém poderia reter o título sem desempenhar plenamente as funções a ele ligadas. Em Rei Lear, após a abdicação, no vácuo deixado pelo rei, uma constelação de forças passa a ter brilho muito maior do que poderia acontecer se o monarca cumprisse adequadamente sua função de sol: ele deveria ser não só o astro mais brilhante do sistema, mas também a fonte da força de gravitação que o mantém em funcionamento harmônico (…) mesmo que o mal não esteja nele, ele é responsável pela tragédia, na medida em que, abdicando, deixa, como rei, de represar e manter sob controle o mal que, privado da ordem natural do Estado, aflora, explode, expande-se”.

    Daí a atmosfera de “mundo virado pelo avesso” (que assume proporções bem mais catastróficas do que imaginava Gloucester ao dizer para Edmund: “Embora conhecimento da natureza possa dar estas ou aquelas causas racionais, mesmo assim a natureza se vê açoitada pelas conseqüências: o amo esfria, os amigos brigam, os irmãos se separam. Nas cidades, motins; nos países, discórdias; nos palácios, traições; e quebradas as ligações entre o filho e o pai. Esse meu vilão se enquadra nessas previsões: é um filho contra o pai; o Rei se afasta do caminho da natureza: é um pai contra filha. Já vivemos o melhor de nosso tempo. Maquinações, fraqueza interior, traição, toda espécie de desordens nos levam inquietos para a cova”) e a sensação, conforme avança a ação e todas as personagens convergem para o campo de batalha, de que chegamos aos confins do universo, em Rei Lear. Kurosawa captou isso com a imagem final fortíssima e eloqüente do cego à beira do precipício, em Ran, sua adaptação da peça.

    E a grande ironia da peça é que a pergunta de Lear às filhas , logo no início, Qual das três vai dizer que mais nos ama”, que causa a ruptura entre ele e Cordélia, será respondida amplamente por ela no final, quando numa dessas situações de inversão, o pai vira filho, o velho vira criança o que dá ensejo a um trecho lindo e patético quanto este (ambos foram capturados por Edmund): “Não, não, não, não; vamos para a prisão / Pra cantar, como aves em gaiolas; / Quando pedires bênção, me ajoelho / E peço o teu perdão; vamos viver / Orar, cantar, contar histórias, rir  / Das borboletas douradas, e ouvir / Novas da Corte; e saber dos tolos / Quem perde ou ganha, quem ‘stá dentro ou fora ; / E observar o mistério das coisas / Quais espias de Deus; sobrevivendo / Na prisão a partidos e importâncias / Que variam com a lua.”

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de abril de 2005)  

 

 

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