MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/08/2014

Milan Kundera e a insustentável forma de “A festa da insignificância”

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[O texto abaixo foi publicado originalmente no “Letras in.verso e re.verso”, em 06 de agosto de 2014,

VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/08/a-insustentavel-forma-de-festa-da.html]

 

I

O lançamento, com toda a pompa e circunstância[1], de A festa da insignificância, e o fato de que o novo romance de Milan Kundera já encabeça a lista dos mais vendidos (pelo menos no site da Livraria Cultura) se revestem de aspectos dignos de nota: há 30 anos, o autor tcheco era a bola da vez, como se diz, com A insustentável leveza do ser. Nem antes (apesar do seu prestígio) nem depois ele alcançaria tal repercussão. No Brasil, alguns títulos (obras anteriores) ainda se beneficiaram da “onda Kundera”; logo passou, mesmo porque certa ala dos nossos intelectuais associou o sucesso na lista dos mais vendidos à ideia de banalidade; para muitos, tratava-se de um escritor pretensamente sofisticado e profundo, mas com pouca substância, no fundo (em contrapartida, muitos leitores “comuns” compravam os livros e desistiam de ler, achando-os “difíceis”); para outros (é o meu caso), A insustentável leveza do ser representara a descoberta de um grande escritor[2].

Além disso, depois de passar a escrever diretamente em língua francesa, produzindo pequenos romances[3], é a primeira vez, já que A festa da insignificância é dividido em sete partes, embora curto como os três anteriores, que Kundera retorna à sua arquitetônica obsessiva, tal como caracterizada na célebre entrevista a Christian Salmon (da Paris Review): “Existem duas formas-arquétipos em seus romances: 1) a composição polifônica que une elementos heterogêneos em uma arquitetura fundada sobre o número sete; 2) a composição vaudevillesca, homogênea, teatral, que roça o inverossímil, e que se funda sobre o cinco”, sintetiza Salmon[4]. Kundera: “Sonho sempre com uma grande infidelidade inesperada. Mas até o momento não consegui escapar dessas duas formas.

   Então tentarei a seguir proceder a uma avaliação do novo romance-sensação (já em fase de gerar reações ambivalentes), roçando primeiramente a sua temática — afinal, os leitmotivs filosóficos sempre são um destaque, para admiração ou depreciação, na sua obra kunderiana —; e depois considerando essa volta à prisão, por assim dizer, das formas metronômicas, dentro da sua carreira como “escritor de língua francesa”.

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                                                  II

“A grande ideia de Schopenhauer, camaradas, é que o mundo é apenas representação e vontade. Isso quer dizer que por detrás do mundo tal como o vemos não existe nada de objetivo, nenhum Ding an Sich[5], e que, para fazer existir essa representação, para torná-la real, deve haver nela uma vontade: uma vontade enorme que a imponha (…) A questão é esta: existem tantas representações do mundo quanto pessoas sobre o planeta; isso cria inevitavelmente o caos; como pôr ordem nesse caos? A resposta é clara: impondo ao mundo inteiro uma única representação. E ela só pode ser imposta por uma única vontade, uma única imensa vontade, uma vontade acima de todas as vontades… E asseguro-lhes que sob o domínio de uma grande vontade as pessoas acabam acreditando em qualquer coisa.” [6]

     Quem está com a palavra no trecho acima é Stálin, evocado em A festa da insignificância a partir de anedotas colhidas nas memórias de um posterior dirigente supremo da União Soviética, Nikita Khruschóv, lidas por alguns dos personagens do romance. Elas nos remetem a uma época em que ainda não fora decretado o “fim da história” e em que havia Grandes Narrativas., como o marxismo — transformado (e o trecho sugere que deliberadamente) em uma impostura: o stalinismo.

É desconcertante (e provocante) a evocação da figura de Stálin porque o narrador envolve o ditador numa aura de gracejo (sim, Stálin graceja e chega a ser frívolo), enquanto em torno—e isso é o Terror—espalha uma mentalidade de mortal (ainda que risível) seriedade, um dos grandes temas kunderianos.

Num mundo de impostura, onde uma versão da realidade, uma representação, é escolhida como A Verdade, não há liberdade para a insignificância básica da existência (uma insignificância benigna): tudo é levado a sério. Daí o escândalo de Khruschóv e dos outros membros do Partido à volta de Stálin quando percebem que ele contou uma mentira. No mundo totalitário, a pequena comédia privada tem alto valor subversivo em contraposição à Grande Comédia da impostura universal.[7]

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                                   III

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente em toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil…”

    Agora quem está com a palavra é Ramon, um dos protagonistas (os outros são seus amigos Alain, Charles e Calibã, além de um ex-colega por quem nunca teve muita simpatia, D´Ardelo) de A festa da insignificância, numa Paris atual, pós “fim da história”, muito longe da representação única imposta pela vontade stalinista e numa Europa-Novo Milênio onde multidões entediadas fazem fila para uma exposição de obras de Chagall como poderiam estar fazendo qualquer outro investimento de tempo e de consumo (para fugir ao tédio e ao vazio, mas incorporando-os na própria ação, que sempre parece insatisfatória nessa “economia de desejos”).

Os leitores de A insustentável leveza do ser vão lembrar-se de que seus protagonistas, mesmo longe da opressão stalinista e de uma Praga ocupada pelos russos, sentiam um mal-estar indisfarçável na ultrademocrática Zurique. Dessa vez, Stálin recuando para o universo anedotário, vagueando pela capital francesa, o que ocupa os seres kunderianos, esses caracteres ficcionais que o narrador confessa amar (“Os quatro companheiros que lhes apresentei: Alain, Ramon, Charles e Calibã, eu os amo. Foi por simpatia com [sic] eles que um dia trouxe o livro de Khruschóv a fim de que todos se divertissem”)?

Basicamente, eles (e mais D´Ardelo) se dedicam a pequenas comédias íntimas e imposturas inofensivas (até certo ponto), que não se chocam com nenhuma vontade única e excludente. Talvez porque cada um deles seja manqué de alguma forma: por exemplo, Calibã é um ator (assim alcunhado por ter brilhado na pele do personagem shakespeariano) há anos desempregado (no esteio da cambaleante práxis do “estado de bem-estar” vive do seguro-desemprego), que auxilia, como garçom, Charles em coquetéis e festas. Para tanto, criou para si a persona de um paquistanês que não fala o francês, ele e Charles comunicando-se numa linguagem inventada com o fito de dar verossimilhança à farsa; D´Ardelo, por sua vez, aparece pela primeira vez no romance recebendo a informação de que seus exames não apontaram o câncer que ele temia; porém, ao encontrar Ramon (que, como já apontei, nunca teve muita simpatia por ele), seu colega aposentado, informa-o de que está com a doença. Nesse ponto, mais uma vez vemos a implicância de Kundera com um conceito derrisório de seriedade: “Fiquei comovido com a maneira como ele me contou… muito lacônica, quase pudica… sem demonstrar nenhum sofrimento, sem narcisismo algum. E de repente, pela primeira vez, senti por aquele cretino uma verdadeira simpatia… uma verdadeira simpatia…”, diz Ramon.

Já Alain, observando os corpos femininos, medita sobre o “umbigo” como nova zona erótica[8], substituindo coxas, bundas, peitos, e o significado disso para caracterizar nossa época, o que remete tanto às ásperas polarizações ideológicas em que se taxava alguém “alienado” como aquele preocupado “com o próprio umbigo” (o que justificaria sobremaneira essa parte do corpo como obscuro objeto de desejo numa fase histórica loucamente ensimesmada), quanto à própria biografia do personagem, abandonado pela mãe ao nascer (ela não queria ter filhos), e aí há toda uma distorção da mística do cordão umbilical, o amor materno, etc. Inconformado com esse abandono, Alain inventa diálogos com o retrato dela, e no decorrer da narrativa, a voz fictícia da mãe vai adquirindo força e acompanhando-o até fora dos limites do retrato.

   Portanto, os personagens de A festa da insignificância procuram, através desses pequenos logros ou imposturas, escapar da insignificância não benigna, isto é, do indiferenciamento e uniformidade que transforma toda a fruição da vida moderna numa fila enorme e entediada para uma exposição de Marc Chagall[9]. E escapar da inquietante evidência[10] da pluminha na festa (uma festa de verdade, não a metáfora do título) de aniversário de D´Ardelo (organizada por Charles, com Calibã como garçom, e à qual —a contragosto—comparece Ramon), que deixa siderados os convidados, tentando apanhá-la: “Ela erguia a mão com o indicador em riste para que a pluminha pudesse aterrissar nele. Mas a pluminha evitava o dedo e continuava sua errância…”

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IV

Espero, ao utilizar as expressões “insignificância benigna” e “insignificância não benigna”, ter sugerido a feição ambivalente e até prismática que o conceito de “insignificância” toma no romance de Kundera. A insignificância pode, por exemplo, ser benigna quando relativiza e solapa a seriedade como imposição totalitária; e pode ser não benigna quando o irrisório passa a ser um projeto contínuo e conspícuo de como empurrar as existências pela frente.

Penso que haverá quem considere que ele apenas arranhe superficial e frivolamente essas implicações (lembrando que Kundera sempre gostou de explorar conceitos já nos títulos que escolhe: “imortalidade”, “lentidão”, “ignorância”, “identidade”, e mesmo, de forma menos evidente, “esquecimento”, “leveza” etc). Acredito, porém, que o calcanhar de aquiles do livro está na questão da forma romanesca, naquelas duas formas-arquétipos já citadas e às quais retorno.

Escrevendo numa segunda língua, ratificada sua condição de “exílio” (e de autor que, essencialmente, é conhecido via tradução, pois seus originais estavam censurados no país de origem), tive a impressão, ao longo dos anos em que acompanhei o lançamento dos seus três romances em francês, de que aos poucos ele desatava os nós e recuperava seus dons. Recapitulando: começou meio duro, apesar do despojamento formal, com A lentidão; o seguinte, A identidade, já era mais equilibrado, e finalmente com A ignorância (para mim, o melhor Kundera pós-A insustentável leveza do ser) parecia ter sido encontrado o ponto certo, na história de dois exilados tchecos, Irena e Jozef, pressionados a voltar à pátria após a queda do regime comunista. No relato desse retorno, o próprio autor parecia ter reencontrado seu “laço secreto” com a fonte de seus dotes: “É a essa Praga  que ela é afeiçoada, não aquela suntuosa, do centro… Sonhadora, ela caminha;  durante alguns segundos entrevê Paris,  que, pela primeira vez, lhe parece hostil: geometria fria das avenidas… e em nenhum lugar um único toque dessa intimidade amável, um só sopro desse idílio que ela respira aqui; aliás, durante todo seu exílio foi esta imagem que ela guardou como emblema do país perdido… ela se sentia feliz em Paris, mais do que aqui, um laço secreto de beleza a ligava só a Praga[11].

A ignorância demarcava também um possível estilo tardio kunderiano, ao mesmo tempo reconhecível por seus temas e mais depurado, concentrado. Nesse sentido, A festa da insignificância me parece um tremendo retrocesso, uma volta diluída aos procedimentos anteriores à “fase francesa”, inclusive a opção infeliz por dividir uma narrativa tão curta em sete partes[12].

Creio que até mesmo dentro do fetichismo das duas formas, teria sido preferível algo mais vaudevillesco, do tipo A valsa dos adeuses. Mesmo um romance “filosófico” (termo detestável), pelo próprio estatuto épico do gênero, precisa se espraiar em ação e conflitos para que suas ideias sejam encarnadas com mais vigor e mais verossimilhança. Da maneira como A festa da insignificância foi estruturado, houve um efeito de compressão sem adensamento. A forma sendo “séria” (ou “larga” ou “ampla”—tudo o que poder evocar o polifônico, isto é, os contrapontos narrativos e rítmicos em que ele sempre foi um mestre) e o conteúdo tendo a ressonância (e consequente impacto) de um piparote, a impressão é que temos é que o romance que lemos representa um descompasso entre ambos.

Kundera ama seus personagens, contudo não se deu ao trabalho de nos fazer amá-los também. E quem, como eu, tem pelo menos a Sabina de A insustentável leveza do ser em altíssima conta, entre as personagens da ficção das últimas décadas, acaba se sentindo um pouco logrado.

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NOTAS

[1] Capa dura, com uma imagem (de Dominique Corbasson) muito bem escolhida. Lamentável (e desnecessário) é a Companhia das Letras ter colocado um apelativo BEST SELLER INTERNACIONAL para chamar a atenção sobre o livro.

[2] Gosto muito de todos os livros de Kundera, no entanto para mim suas obras-primas são os romances A brincadeira e A valsa dos adeuses e a coletânea de contos Risíveis amores.

[3] A lentidão; A identidade; A ignorância.

[4] Exemplos da primeira maneira: O livro do riso e do esquecimento, A insustentável leveza do ser e, agora, o romance aqui em questão; exemplo da segunda: A valsa dos adeuses.

[5] A “coisa em si” por trás das representações, na concepção de Kant.

[6] Em todas as citações de A festa da insignificância [no original, “La fête de l´insignifiance”), valho-me da tradução da kunderiana-mor Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca (Companhia das Letras, 2014).

[7] Que seja Stálin quem pratique a pequena comédia da mentira, da impostura privada, inclusive como objeto de anedotas, é um achado delicioso.

Lembremos-nos de outro tcheco, o Kafka de O processo: “A mentira se converte em ordem universal”.

[8] Não custa lembrar que o don-juanismo, em seus esplendores e misérias, em sua glória e melancolia, é um dos motes recorrentes da obra de Kundera.

[9] Não posso deixar de apontar que essa imagem da fila revela um sentimento elitista e muito nostálgico da ideia de Europa-civilização (que também tem o seu quê de impostura) que me parece muito problemática, mas que não me proponho a desenvolver aqui, só deixo a indicação.

[10] Ou aceitá-la, como faz Ramon.

[11] Cito esse trecho de A ignorância utilizando a versão de Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca (Companhia das Letras, 2002).

[12] Ricardo Lísias parece ter matado a charada, ou seja, a perplexidade (que pode ser traduzida como insatisfação) que a leitura de A festa da insignificância causa no sentido da falta de ressonância formal para aquilo que se propõe: “O livro me deixou perplexo: tem tudo dos melhores romances de Kundera, mas em proporções reduzidas. As personagens são apresentadas de forma ligeira e seus conflitos também são rasos. Os diálogos são um tanto frívolos e o livro vai aos poucos se desfazendo, sem que eu tivesse conseguido entender se isso faz parte da construção de uma espécie de discurso do insignificante (nós que sempre buscamos significantes…) ou se o livro não deu certo mesmo.
Dizendo de outro jeito: não consegui saber se o autor, para mostrar um grupo social insignificante, fez um livro com tudo mais ou menos insignificante, ou se sou eu que estou procurando qualidades demais em um livro menor de um grande autor. De um jeito ou de outro, um autor como Milan Kundera merece no mínimo essa dúvida.”

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07/03/2012

LEITURAS EM ESPELHO: “Cartas a um jovem escritor” e “A cortina”

  

  Dois grandes escritores, Milan Kundera e Mario Vargas Llosa, tiveram suas reflexões sobre o ato de escrever publicadas no Brasil em 2006: A cortina e Cartas a um jovem escritor. Ambos acabam de ser preteridos, mais uma vez, pelo comitê que atribui o Nobel. O vencedor foi Orhan Pamuk que, a julgar apenas por um livro,O castelo branco—o qual me desanimou de conhecer outros do autor turco—, comprova  a preferência do prêmio literário mais famoso pelo “quase”, raramente pelo pleno (uma exceção notável foi Harold Pinter, ano passado).

    Cartas a um jovem escritor nos remete, a partir do título, ao clássico Cartas a um jovem poeta, de Rilke, o grande poeta do século 20 ao lado de T.S. Eliot e Fernando Pessoa. Não é a primeira vez que Vargas Llosa escreve sobre  ficção. Um dos seus mais belos livros, A orgia perpétua, é um estudo sobre Madame Bovary, e ninguém escreveu nada melhor sobre Flaubert. Em Contra vento e maré há análises brilhantes sobre Camus, Sartre e Simone de Beauvoir. No recente A verdade das mentiras ele aplica o método que preconiza no seu livro epistolar: usar exemplos concretos, mostrar que uma teoria da ficção só vale mesmo no exercício da exemplificação.

   E é nesse exercício que comprovamos a generosidade do escritor peruano.  Ele se revela um grande leitor dos seus próprios pares latino-americanos: Cortazar, Garcia Márquez, Juan Carlos Onetti, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, entre outros, dos quais utiliza exemplos não só com destreza, mas também com um respeito e interesse pelo universo autoral alheio que por si só já vale como lição para qualquer jovem escritor ou leitor.

Os bons romances, os de peso, não parecem contar uma história, mas nos fazer vivê-la, compartilhá-la, graças à persuasão de que se acham dotados”.

   A modéstia impediu Vargas Llosa de incluir entre os exemplos do poder de persuasão dos “romances de peso” os de sua própria autoria, uma lista impressionante, a partir de A cidade e os cachorros (também conhecido no Brasil por um título melhor: Batismo de fogo): A casa verde, Os filhotes, Conversa na catedral (provavelmente sua obra-prima), Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, Elogio à madrasta, Quem matou Palomino Molero?, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto).

   Mesmo um livro mais fraco como A festa do bode ainda assim dá ao leitor a impressão de um fôlego narrativo dificilmente igualável por qualquer outro escritor contemporâneo. Ou seja, ele preenche completamente seus próprios requisitos para a arte da ficção, essa verdade da mentira, conforme escreve na sétima das 11 cartas: “Em todo romance existe um ponto de vista espacial, um ponto de vista temporal e um ponto de vista de nível de realidade e ainda que não seja muito aparente os três são essencialmente autônomos, distintos entre si, e da maneira como se harmonizam e combinam resulta aquela ocorrência interna que é o poder de persuasão de um romance. Essa capacidade de nos persuadir da sua ‘verdade’, ‘autenticidade’ e ‘sinceridade’ nunca decorre da semelhança ou identificação do romance com o mundo real em que nós, leitores, vivemos. Decorre exclusivamente da sua própria existência, feita de palavras e da organização do espaço, tempo e nível de realidade que ele abriga. Se as palavras  e a estrutura de um romance forem eficazes e apropriadas à história que o autor pretende tornar persuasiva, isso significa que seu texto possui um ajuste tão perfeito, uma fusão tão cabal do tema, estilo e pontos de vista, que o leitor, ao lê-lo, ficará de tal forma sugestionado e absorvido pela história que se esquecerá completamente da maneira como ela é contada, envolvido pela sensação de que aquele romance carece de técnica e de forma, de que se trata da própria vida se manifestando através de personagens, cenários e acontecimentos que nada menos são do que a realidade encarnada, a vida lida. Este é o grande triunfo da técnica do romancista: conquistar a invisibilidade, ser tão eficaz na construção da história que dotou de colorido, dramaticidade, sutileza, beleza e poder de sugestão, que nenhum leitor se aperceba sequer de sua existência, pois sob o feitiço de tamanha perícia, ele não tem a sensação de estar lendo, mas vivendo uma ficção…”

(resenha publicada com ligeiras modificações em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2006)

   Além de Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa, outro passeio pelo bosque da ficção foi publicado em 2006: A Cortina, no qual Milan Kundera depura e amplifica as idéias sobre a função do romance no mundo moderno que já expusera no indispensável A arte do romance (1986). Neste, o romance era uma herança vinda de Cervantes; em A Cortina, recua-se até Rabelais, mas é ainda o autor do Quixote quem inaugura a inquietude básica e provocativa do gênero: desvendar a prosa do mundo, destruir a ilusão lírica e instaurar o ser humano na maturidade existencial:

“Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro andante  em toda a nudez cômica de sua prosa. Assim como a mulher se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, o mundo, quando corre em nossa direção no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado.  E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta de quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que é pré-interpretado como digno de revolta. Pois foi rasgando essa cortina da pré-interpretação que Cervantes colocou em movimento essa arte nova; seu gesto destruidor se reflete e prolonga em cada romance digno desse nome, é a marca de identidade da arte do romance.”

  Como se vê, em Kundera a estética não se aparta da existência. Não é à toa que ele já afirmou que o romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Também não é à toa que ele se aproxime da Filosofia. E assim como Vargas Llosa ele utiliza ampla e generosamente o método da exemplificação, valendo-se de seus mestres (Hermann Broch, Robert Musil, os quais eu li por causa dele, na esteira da leitura dos seus livros, Kafka, Cervantes, Sterne, Diderot, Flaubert, Tolstói) e de seus contemporâneos (entre outros, Ernesto Sabato, Carlos Fuentes, Salman Rushdie), sempre de forma admirativa e lúcida, duas coisas que às vezes são excludentes, mas não quando entra em jogo uma inteligência como a do grande escritor tcheco.

Temos, mais uma vez, um livro em sete partes, como acontecia tanto em A arte do romance quanto na maioria das obras de Kundera. Ele mesmo já esclareceu o assunto, ao contar para Christian Salmon, da Paris-Review que o sete e o cinco são seus números “arquitetônicos”. O sete para os textos com digressões e discussões filosóficas; o cinco para textos que brincam com a estrutura ligeira do vaudeville. Salmon assim sintetizou: “Existem duas formas-arquétipos em seus romances: 1) a composição polifônica que une elementos heterogêneos em uma arquitetura fundada sobre o número sete; 2) a composição vaudevillesca, homogênea, teatral, que roça o inverossímil,e que se funda sobre o cinco”. Kundera: “Sonho sempre com uma grande infidelidade inesperada. Mas até o momento não consegui escapar dessas duas formas .

    A verdade é que, agora obrigado a escrever em francês, se não conseguiu a grande infidelidade inesperada, ele pelo menos tornou sua prosa mais maleável, mais despojada, menos “arquitetônica” (em aparência) nos seus três curtíssimos romances mais recentes (A Lentidão, A Identidade, A Ignorância). No entanto, a essa obsessão devemos além de A valsa dos adeuses e a fascinante coletânea de (sete,é claro) contos Risíveis Amores, alguns dos melhores romances da segunda metade do século XX: A Brincadeira; A vida está em outra parte; A Imortalidade, sem falar no inusitado O Livro do Riso e do Esquecimento e do famoso e às vezes tão injustiçado A insustentável leveza do ser, o qual, entre outros méritos, tem uma das personagens mais inesquecíveis e emocionantes da ficção contemporânea: Sabina (tão bem traduzida no cinema por Lena Olin), aquela que se recusa a aceitar o kitsch que assola o mundo. Todos eles ajudando o leitor a rasgar a cortina pré-fabricada do mundo maquiado, quer no totalitarismo soviético quer na totalitária liberdade capitalista de se comprar o que se pode.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 21 de outubro de 2006)   

24/01/2012

Uma obra-prima de Milan Kundera: RISÍVEIS AMORES

I

É de um bom gosto louvável o tratamento dado pela Companhia das Letras aos livros de Milan Kundera, não só pela excelente escolha das capas, as quais utilizam xilogravuras e litografias muito belas de Lasar Segall, mas também por não se limitar simplesmente a republicar os textos das edições anteriores (pela Nova Fronteira).

É o caso da coletânea de sete contos Risíveis Amores (cuja esplêndida capa talvez seja superada apenas pela utilizada em A Identidade) e que está longe de ser apenas uma reedição da tradução que foi presença durante semanas na lista de mais vendidos em 1985-86, quando Kundera virou moda no Brasil.

Para começar, o texto traduzido pela mesma Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca se baseia numa edição francesa de 1986, revista e considerada definitiva pelo próprio autor. Por isso, traz inúmeras pequenas mudanças. Quem leu (para dar um exemplo), em 1985, o final do quarto ato de “O Simpósio” , encontrava ali, no momento em que a amante do chefe se oferece ao subordinado: “Que fez o dr. Havel? Ah! Que pergunta”, e agora encontra: “Que fez o dr. Havel? O que ele poderia fazer!”

Além disso, a ordem dos textos foi alterada. Antes era “O pomo de ouro do eterno desejo” que iniciava a ronda dos risíveis amores e agora é o melhor deles, “Ninguém vai rir”; o título “O dr. Havel dez anos depois” foi alterado significativamente para “O dr. Havel vinte anos depois”; a idade do protagonista de “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos”, visivelmente errada em 1985, se ficarmos atentos à cronologia da história, foi corrigida na nova versão.

Por fim, incluiu-se um prefácio brilhante e esclarecedor de François Ricard (O livro de contos do colecionador). Portanto, o grande escritor checo (ou boêmio, como ele prefere) teve mais sorte do que Thomas Mann, na sua nova visitação às livrarias brasileiras (as reedições de Mann estão repletas de erros persistentes). Por enquanto, o leitor brasileiro pode ler, além de Risíveis Amores e A Identidade (o único inédito) os já clássicos A brincadeira e A insustentável leveza do ser.

II

Risíveis Amores é uma obra-prima. Não há um conto que destoe na fantástica unidade tutelada pelo mágico numero sete. A preferência por um ou outro é questão de gosto pessoal.

O meu favorito (colocá-lo-ia sem pestanejar numa antologia pessoal dos melhores contos que já li) é “Ninguém vai rir”. Nele encontramos o típico protagonista kunderiano: tentando levar a vida como “brincadeira” (entendida como exercício da liberdade), ele esbarra na armadilha de uma “seriedade” (sempre entre aspas), organizada como encarceramento do indivíduo.

Procurado por um estudioso medíocre para redigir um parecer sobre um trabalho de escasso valor, o anti-herói da história titubeia e tenta se livrar do encargo fazendo corpo mole. Ao ver que o estudioso não desiste, ele se irrita e inventa uma desculpa maldosa (o estudioso teria tentado seduzir sua namorada, que vive clandestinamente com ele –e aqui é precisa lembrar do clima em que se passam as histórias do livro, todo permeado pela dominação comunista da Tchecoslováquia). O estudioso se revolta, exige reparação, ele e sua esposa passam a perseguir a namorada e a vida se torna um inferno. No final, nosso herói perde a namorada, o emprego e a moradia por causa de uma brincadeira. É a vitória da seriedade entre aspas, no fundo irrisória e pouco séria.

Igualmente extraordinárias e caras ao autor deste artigo são “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos” (não por seu título, bem entendido) e “O jogo da carona”, ambos mostrando a perícia com que o autor de A vida está em outra parte (na verdade, A vida está alhures) lida com confrontos amorosos. No primeiro, há o reencontro de um casal (ela, mais velha) quinze anos depois da única experiência sexual que tiveram. Assim como ela (agora com 55) erguera um monumento fúnebre ao marido que é destruído porque o prazo da concessão expirara, o rapa (agora com 35) erguera um monumento ao mistério que dela ficou, e do único encontro entre eles; frustrado com sua existência atual, tenta resgatar na mulher à sua frente a imagem passada, e ela reluta, justamente com medo de destruir o tal monumento solene que ele guardou do que ela foi, na memória. Em “O jogo da carona”, o casal de namorados que viaja e que resolve brincar de desconhecidos (ela, representando o papel de caronista que seduz o motorista), acaba engolfado pela dubiedade das imagens interpostas: o que eram antes do jogo e o que passam a representar, ou ser; e aqui vale lembrar o destino do muito posterior casal de A Identidade).

Também há um jogo fascinante entre representar, ser, brincadeira, leveza, peso, gratuidade e irreversibilidade no último conto, “Eduardo e Deus”. Eduardo finge que crê em Deus para seduzir uma moça e depois se vê enredado em situações que o levam cada vez mais a ser aquilo que utilizava como representação.

E como esquecer dos contos vaudevillescos e voltados para o paradoxos do donjuanismo, também típicos do autor do magnífico A valsa dos adeuses, que são “O pomo de ouro do eterno desejo” e a parelha (porque neles aparece o mesmo personagem) “O simpósio” e “O dr. Havel vinte anos depois”. Como todos os outros, são espirituosos, engraçados e muito tristes. Lúdicos e lúcidos.

III

Haveria mil citações a fazer. Qual escolher? Qual delas poderia dar uma dica da exatidão mágica do estilo kunderiano?

Com o prazer e a admiração renovados agora em sua nova edição, Risíveis Amores, emoldurado por Lasar Segall, é a redescoberta necessária de um dos escritores maiores das últimas décadas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de março de 2001)

31/10/2010

O FIM DA LINHA PARA A AVENTURA?

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/um-terrivel-obstaculo-o-centenario-de-sob-os-olhos-do-ocidente-de-joseph-conrad/

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https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

Num ensaio sobre os caminhos e os descaminhos do romance ao longo de sua história (A herança depreciada de Cervantes, em A arte do romance), Milan Kundera se pergunta sobre o que aconteceu com “a aventura, este primeiro grande tema do romance?”.

    Na alta ficção, a aventura tornou-se a obra de Joseph Conrad, na qual  se equaciona com dilemas morais, como é o caso do inesquecível capitão Whalley, protagonista de O fim das forças, que faz parte da iniciativa da editora Revan de divulgar as histórias conradianas em versões de Julieta Cupertino, e que poderia ser traduzido como O fim da linha (um título mais preciso para The end of the tether), tanto para Whally quanto para a aventura. Mas quem teve a idéia da concepção visual dos livros de Conrad na Revan, que parece destinada a atrair atavicamente o leitor juvenil que ainda existe em nós?

Em O fim das forças, Whalley (que comanda navios no Oriente) perdeu quase todo seu capital na falência de um bairro, embora achasse que, ainda assim, teria uma aposentadoria tranqüila, com uma modesta embarcação de sua propriedade.

Ivy, sua filha, fez péssimo casamento e necessita de dinheiro, e o pai é obrigado a vender seu barco e e se tornar comandante, investindo seu dinheiro como sócio, do precário vapor Sofala. Aliás, a narrativa se inicia já nos apresentando oWhalley três anos depois, em meio à rota comercial do Sofala, e ele está perto do final do contrato, o que lhe permitirá recuperar o capital investido.

Isso o indispõe com o proprietário do navio, Massy, homem histérico, ressentido e viciado numa loteria do Oriente, que acredita que Whalley quer largar o comando e resgatar seu capital só por mesquinharia (ele nem suspeita que o digno capitão tenha apenas esse dinheiro que empatou por três anos, e que lhe é sagrado, não é “dele” e sim da filha), e começa a maquinar um meio de afundar criminosamente o vapor, por causa do seguro.

Já seria demais um livro com dois personagens extraordinários, como Whalley e Massy. O fim das forças oferece ainda mais dois: o Sr  Van Wyk—proprietário ao longo da rota do Sofala que se afeiçoa a Whalley, numa daquelas comoventes amizades cavalheirescas e “pisando em ovos”, tão características dos livros de Conrad—e o imediato Sterne, um ambicioso de mira curta (quer comandar o Sofala), descobridor do segredo do comandante, que Massy sequer percebeu, em seu rancor: Whalley está praticamente cego e só consegue levar o vapor em frente graças ao seu fiel ajudante malaio.

Além do clima conspiratório e desmoralizador em que se movem os três tripulantes do Sofala (envolvendo Van Wyk), é na cegueira progressiva que Whalley tem de esconder que se destila toda a tragédia da aventura, na feição que adquiriu com o insuperável escritor polonês cuja obra pertence à literatura inglesa: Whalley é o protótipo do herói, nobre e cavalheiresco: “honrosamente conhecido por toda uma geração de donos de navios e comerciantes, em todos os portos, desde Bombaim até onde o Leste se une ao Oeste sobre as costas das duas Américas. Sua fama foi registrada, sem muito destaque, mas com bastante clareza, nos mapas do Almirantado”.

Tendo de manter a farsa para resgatar o capital que deseja legar à filha, ele se projeta do heróico para o trágico, pois acaba se destruindo internamente no que tinha de mais autêntico, no que o fazia ser ele mesmo, embora se mantenha por fora todo o aparato de dignidade inabalável, para exasperação de Massy e admiração de Van Wyk. Por isso, a saída é o suicídio, isto é, perecer com o vapor quando afunda: “…por causa de Ivy, ele havia resistido, a caminhar dentro da sua escuridão até ficar à beira de um crime. Deus não ouvira suas preces. A luz havia desaparecido, o refluir do mundo; sequer um bruxuleio, era uma vastidão escura. Mas era indecoroso que um Whalley, que havia resistido tanto, continuasse a viver. Ele devia pagar o preço”.

E assim ele cumpre o mau augúrio que marca a noite em que está para decidir seu engajamento no Sofala: ’…e o tempo todo uma sombra caminhava junto com ele, enviesada à sua esquerda—o que, no Oriente, é presságio do Mal”.

(resenha publicada originalmente em 13 de novembro de 2001, em “A Tribuna” de Santos)

07/05/2010

MILAN KUNDERA- LÚDICO E LÚCIDO

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APROVEITANDO UMA NOVA EDIÇÃO (mas vejam a diferença de capa) DE A IDENTIDADE,  em 2009:

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Além do texto em si, A Identidade causa interesse por confirmar dois movimentos que parecem irreversíveis na obra mais recente de Milan Kundera: em primeiro lugar, ele está se acomodando naquela seleta categoria dos que se servem de uma outra língua para escrever ficção de primeira linha (embora Joseph Conrad fosse polonês e tenha escrito seus livros em inglês, os casos mais parecidos com o de Kundera são os de Beckett e Nabokov, que escreveram textos em sua língua natal e depois adotaram outra língua), sendo A Identidade sua segunda novela em francês; além disso, ele cada vez mais inclina-se a títulos curtos, que tomam como base algum conceito geral (seus trabalhos anteriores intitulavam-se A Imortalidade e A Lentidão). Não se pode esquecer, também, que ele está lançando livros mais curtos. Significaria que está às voltas com outro idioma e isso travaria seu fôlego? Ou então está adotando uma perspectiva mais essencialista, já a partir do título?

Talvez se possa ter uma visão mais clara a respeito dessa questão num próximo livro. Por enquanto, A Identidade fascina e faz sonhar ao lançar inquietação não exatamente quanto à identidade pessoal, mas as “identidades” por aliança que constituímos ao longo das nossas vidas: os amores, as amizades. O protagonista do livro, Jean-Marc, visita no hospital um antigo amigo e fica incomodado porque ele pede a toda hora que se lembre de eventos antigos. Daí pensa: “eis aí a verdadeira e única razão de ser da amizade: fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente”.

Jean-Marc trata interiormente a amizade com tanto descaso, quase desdém, porque criou uma espécie de “reino em separado”, de aliança contra o mundo, com sua mulher, Chantal. A ironia de A Identidade é que, a partir da pequena viagem de Jean-Marc em visita ao tal amigo, a sua identidade e a de Chantal enquanto casal começará a se deteriorar. Essa deterioração vai operar-se através de procedimentos tipicamente kunderianos: a princípio, Jean-Marc e Chantal tomam consciência dos seus desacertos consigo mesmos e um com o outro por meio de pequenas fórmulas filosóficas, aquelas mesmas que irritam tantos críticos e leitores de Kundera, até mesmo os que gostam muito de sua obra (como é o meu caso); depois, a trama encaminha-se para um qüiproquó vaudevillesco (não fosse ele autor do genial A valsa dos adeuses e dos contos notáveis de Risíveis amores), quando Jean-Marc resolve mostrar à esposa que ela continua atraente (apesar dos temores dela de não o ser mais), escrevendo-lhe cartas anônimas, como se fossem de um outro.

O problema é que Chantal começa a ver possibilidades romanescas em tipos masculinos das redondezas (até num mendigo). Jean-Marc sente ciúme das suas primeiras cartas e aí o enredo corre o perigo de esborrachar-se na frivolidade ou numa atmosfera sub-Alberto Moravia. Felizmente, a imersão do casal num pesadelo que o desloca até da sua referência espacial (vão para Londres), perdendo-se completamente um do outro, no sentido mais amplo da palavra, projeta o livro numa outra dimensão, que transfigura o clima vaudevillesco anterior numa necessária preparação. Pois Jean-Marc e Chantal começam a viver numa espécie de baile de máscaras, mudando rapidamente de papéis. A questão é: eles já não viviam determinadas (e limitadas) máscaras antes? E por que seriam confortáveis então e não se sentem mais assim nos papéis que surgem, nas novas máscaras, dentro da “pérfida fantasia” que os arrastou,como quer o narrador?  Se, como Jean-Marc pensou diante do amigo, a relação de amizade é apenas um espelho de um momento já perdido, qualquer relação afetiva duradoura, que tenha “existência” e “identidade”, não poderia ter o mesmo objetivo, ancorado no ilusório?

E, em Londres, solapados os momentos que “identificam” o casal Jean-Marc/Chantal, ela perde a memória do marido, já que ele não pode ser espelho presente de momentos passados: “Nesse momento de angústia extrema, aparece diante de seus olhos a imagem de um homem que luta contra a multidão para chegar até ela. Alguém lhe torce o braço atrás das costas. Ela não vê seu rosto, apenas seu corpo curvado. Meu Deus, gostaria de se lembrar um pouco mais exatamente dele, recordar seus traços, mas não consegue, sabe apenas que é o homem que a ama e isso é a única coisa que importa agora.”

    Portanto, apesar da nova língua, o grande autor tcheco prossegue com esses personagens que sempre alimentam um mal estar diante do mundo, quer seja o mundo totalitário de uma ditadura, quer seja o mundo da democracia, dominado pelo kitsch (quem não se lembra do trio Tomas-Teresa-Sabina, de A insustentável leveza do ser, os quais se sentiam desconfortáveis na ocupada Praga e na livre Zurique?). Ainda bem que o sucesso (pois ele teve sua época de “best seller”) não o privou da sua “identidade” como escritor, isto é, das suas obsessões. Seu texto continua fluindo leve enquanto trata das insustentáveis coisas que sustentam nossa vida diária com o peso da sua irrealidade.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de dezembro de 1998, quando da primeira edição de A Identidade, o primeiro dos livros de Kundera a ser publicado pela Companhia das Letras, e agora, em 2009, reeditado na série “Companhia de Bolso”; anteriormente, seus livros foram editados pela Nova Fronteira)

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A LENTIDÃO

a lentidão

É prudente deixar correr algum tempo sobre o lançamento de um livro de Milan Kundera. Como se exaltou o seu A Insustentável Leveza do Ser no momento da publicação no Brasil! Como Kundera foi alçado às alturas! O livro fez sucesso (merecido). E o vento virou. Começou a haver uma atitude de desprezo com relação ao autor tcheco. E depois um quase silêncio…

O leitor que atravessar essas brumas de avalon da má vontade e dos modismos descobrirá em A Lentidão, seu mais recente texto, uma deliciosa diatribe contra o mundo contemporâneo, a partir da reflexão sobre o valor da velocidade para nós, a partir da ida do casal Kundera a um castelo-hotel: “A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem”.

O pernoite no castelo contrasta nossos valores e nosso uso do tempo com os do século XVIII. Há um congresso de entomologistas, no qual interferem o exibicionismo político, o culto ao sucesso e o sentimentalismo que servem de pasto, todos eles, para a mídia: “Nossa estada no castelo coincidiu com a época em que, durante semanas, todos os dias, mostravam crianças de um país africano com um nome já esquecido (…como guardar todos esses nomes!), devastado pela guerra civil e pela fome”.

Fã do aspecto lúdico da literatura, aproximando-se muito, por causa disso, de Salman Rushdie, Kundera cria uma cadeia de qüiproquós sexuais envolvendo entomologistas, políticos, intelectuais e jornalistas, dentro do espírito daquela forma convencionalmente chamada de vaudeville (na verdade, quase sempre uma “comédia de erros”), bastante praticada no século XVIII, a qual já fora exercitada por ele num de seus dois melhores romances, A valsa dos adeuses (o outro, em minha opinião, é A brincadeira, contudo vale a pena ler seus outros trabalhos, são todos muito bons).

Novidade em A Lentidão é a estrutura, mais despojada do que a dos anteriores, em sua maioria escritos em sete partes e cheios de “leitmotivs” filosóficos. A aparentemente desconjuntada maneira de propor vários fios no começo do livro mostra-se intencional porque todos eles amarram-se no fim, quando um sedutor do século XX encontra um sedutor do século XVIII, encontro que condensa todos os temas.

Nesse exercício de leveza e maestria desagrada um pouco a inclusão do autor e de sua mulher como personagens, talvez justificada se pensarmos que Kundera não quer se isentar da sua diatribe. Ele quer mostrar o ridículo e o risível com compassividade e envolvimento, porém as passagens em que o casal aparece são as mais apagadas do romance.

Não importa. A Lentidão tem tantas coisas a mais que, assim como os livros anteriores, os defeitos pertencem a um conjunto poderoso e (por que não?) harmonioso como um texto de Voltaire: “Nada mais? Coisa alguma? Nada?  Numa súbita iluminação todo o seu passado aparece-lhe, não como uma aventura sublime, rica em acontecimentos dramáticos e sublimes, mas como a parte minúscula de uma barafunda de acontecimentos confusos que atravessaram o planeta em tamanha velocidade que é impossível distinguir seus traços, a tal ponto que talvez Berck tenha razão de tomá-lo por um húngaro ou um polonês, porque quem sabe se ele não é mesmo húngaro ou polonês, talvez turco, russo ou até mesmo uma criança agonizante na Somália?”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de dezembro de 1995)

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a ignorância 

                                                          A IGNORÂNCIA

Apesar das qualidades de A Lentidão e A Identidade, é com sua terceira novela escrita diretamente em francês, A Ignorância, que Milan Kundera reencontra plenamente o melhor da sua forma, agora que se encontra duplamente exilado, como cidadão e como escritor.

O exílio e as ambigüidades da nostalgia da pátria natal são temas de A Ignorância, um dos pontos altos da sua obra (e certamente sua maior realização desde A Insustentável leveza do ser, em 1983), onde ele executa com maestria a mágica de sobrepor ao enredo considerações filosóficas e existenciais, sem que o estilo perca o despojamento e a precisão que aperfeiçoou ao longo dos últimos anos, talvez em função da nova língua.

Mais uma vez, temos um mundo cheio de estranhos, isto é, os personagens experimentam desencontros e equívocos em situações que, para o sentimentalismo comum,  seriam claras e inequívocas: Irena e Josef, exilados tchecos que construíram suas vidas na França e na Dinamarca, são pressionados a “voltar à Pátria” após o fim do regime comunista, e percebem que nada mais têm a ver com as pessoas que reencontram, que suas vidas “verdadeiras” estão em outras partes.  Portanto, é um olhar estrangeiro que lançam sobre o país, assolado pela reconstrução (ou expropriação) capitalista, pela globalização e pela uniformização  crescente de tudo e de todos. Esse desconforto existencial é peculiar ao universo kunderiano e nos remete à emblemática Sabina de A insustentável leveza do ser, a qual entenderia perfeitamente o sentimento que se apossa de Josef ao deixar Irena no quarto de hotel, onde fizeram amor: “…ele nada sabia dela, mas uma coisa parecia clara: ela estava apaixonada por ele, pronta para ficar com ele, para deixar tudo, para recomeçar tudo… Ele tinha uma oportunidade, certamente a última, de ser útil, de ajudar alguém e, no meio daquela multidão de estrangeiros que povoa o planeta, encontrar uma irmã.”

Mais uma vez, entramos no planeta da inexperiência, onde tudo é fortuito e irrevogável e a soma dos anos acaba despida de consistência e identidade, traída pela memória ou pela nostalgia, ou por ambas. Carrega-se um “peso sem peso” no cômputo das coisas, por assim dizer. É esse o sentido de um belo diálogo de Irena com uma antiga amiga, Milada (ex-namoradinha de Josef; até tentou o suicídio por sua causa).Irena diz que casou para fugir da opressão representada pela mãe: “E, desde então, tudo estava decidido de uma vez por todas. Foi nesse momento que cometi um erro, um erro difícil de definir, imperceptível, mas que foi o ponto de partida de toda a minha vida e que nunca consegui reparar”. Milada acrescenta, explicando em parte o título do livro: “Um erro irreparável cometido na idade da ignorância. É a idade em que casamos, em que temos nosso primeiro filho, em que escolhemos nossa profissão. Um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas, mas será tarde demais, pois toda a vida será a vida decidida numa época em que não sabíamos nada.”

Enfim, exilado na língua francesa, após alguns tateios e vacilos, com A Ignorância, Kundera reencontra seu tom, seu universo, seu laço secreto com a beleza, como Irena reencontra a “sua” Praga, que não é a Praga-clichê dos turistas e dos leitores e curiosos de Kafka: “É a essa Praga  que ela é afeiçoada, não aquela suntuosa, do centro… Sonhadora, ela caminha;  durante alguns segundos entrevê Paris,  que, pela primeira vez, lhe parece hostil: geometria fria das avenidas… e em nenhum lugar um único toque dessa intimidade amável, um só sopro desse idílio que ela respira aqui; aliás, durante todo seu exílio foi esta imagem que ela guardou como emblema do país perdido… ela se sentia feliz em Paris, mais do que aqui, um laço secreto de beleza a ligava só a Praga”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  21 de maio de 2002)

 

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