MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/11/2010

“Mundo imerso no mundo”: A maior rival de Tolstói

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Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 02 de julho de 1998

Já tive a oportunidade de citar nesta minha coluna [de “A Tribuna”] a bela definição de romance feita por Osman Lins: “mundo imerso no mundo”. Mesmo que Guerra e Paz, de Tolstói, trate de um período específico, o das guerras napoleônicas,  mesmo que A montanha mágica, de Thomas Mann, retrate o cotidiano de um sanatório alguns anos antes da guerra de 1914, mesmo que Ulisses, de James Joyce, retrate apenas um dia na vida de moradores de Dublin, a impressão que se tem é de que eles e alguns outros poucos romances contêm a vida inteira.

É uma experiência desse tipo que o leitor tem com MIDDLEMARCH (1871-72, de George Eliot[1],  finalmente traduzido no Brasil (um admirável feito de Leonardo Fróes), num dos eventos literários desta década.

A grande escritora inglesa parece ter sido a coisa mais próxima de Tolstói que a ficção já produziu, pois ao retratar três anos (1829-1832) da pequena e corriqueira cidade de Middlemarch e seus arredores, ela aborda todos os grandes temas: o conflito entre tradição e progresso, o amor, o casamento, a maternidade, o conflito de gerações, a realização profissional, a perspectiva da morte… Curiosamente, na mesma época em que Eliot terminava Middlemarch, Tolstói começava a escrever Anna Karênina, que apresenta várias similaridades.

O impacto de Middlemarch é tal que, nas três semanas em que fiquei mergulhado na sua leitura, parecia que os habitantes da cidade eram tão reais quanto as pessoas à minha volta, e era com muita má vontade que eu largava o romance para tratar de outras coisas. Leituras assim a gente experimenta pouquíssimas vezes na vida, leituras em que a gente vive o livro quase fisicamente, mais do que meramente ler.Nem mesmo a alta qualidade de outras obras da Eliot, como O moinho sobre o rio ou Daniel Deronda, me preparara para esse “mundo imerso no mundo”.

Uma multidão de personagens aparece em Middlemarch, contudo o leitor fica ávido de saber especialmente o que vai acontecer com Dorothea Brooke e Tertius Lydgate, embora não haja envolvimento romântico entre eles (o mesmo acontece com o “casal” de Daniel Deronda,  o personagem-título e Gwendolen Harleth).

Por causa de sua ardente espiritualidade e necessidade de conhecimento, Dorothea casa-se (desastrosamente) com o clérigo Casaubon, o qual a mantém num estado de revoltante submissão e tortura psicológica, tentando perpetuar tal situação até mesmo após sua morte, quando coloca em seu testamento a interdição de que ela se case com Will Ladislaw (justamente o homem que ela ama e que foi privado de duas heranças, como ficamos sabendo ao longo do complicado enredo).

Lydgate, por sua vez, é o médico com métodos modernos que incomoda seus colegas provincianos ao seu instalar em Middlemarch. Seu erro é similar ao de Dorothea: projetar suas fantasias numa pessoa e casar com ela.  E seu matrimônio com a frívola Rosamond (que por pouco não se torna a Emma Bovary da literatura inglesa) o leva a abdicar de seus altos sonhos profissionais e reformadores e envolver-se num escândalo que remonta ao passado do  homem mais rico da região, o senhor Bulstrode, escândalo que envolve Ladislaw e  aproxima o casal Lydgate de Dorothea (há, inclusive, uma cena entre as duas que é um dos maiores momentos da história da ficção).

Pois um dos temas dominantes da obra-prima de George Eliot é a impossibilidade do heroísmo, isto é, a necessidade de ideais mais elevados, moldar uma vida nos dias atuais (se era uma impossibilidade no tempo dela, imagine hoje), tendo de atuar de maneira mais difusa e resignada: “Pois não há criatura cuja vida interior seja tão forte para não ser grandemente determinada pelo que está fora dela”. Para usar uma imagem do próprio Lydgate, é preciso tentar manter-se um ser vivo dentro da concha que se cria para a sociedade.

Essa concepção poderia levar a um determinismo que limitaria o escopo do livro, não fosse George Eliot um gênio narrativo e uma incrível criadora de personagens, diálogos, situações (é por isso que é tão difícil colher uma citação em Middlemarch). Até no quesito “enredo folhetinesco” ela se mostra extraordinária, com uma trama de mil meandros e cheia de surpresas. Mesmo quando ela se afasta de Dorothea e Lydgate, os personagens que dominam a cena por algum tempo, como Fred Vincy e seus familiares, os quais ficam na expectativa do testamento de um velho tirano moribundo, garantem o interesse.

É espantoso como as grandes autoras inglesas do século XIX (Jane Austen, Mary Shelley, Emily e Charlotte Brönte) diferem umas da outras. O que distingue George Eliot é sua vontade de pensar sobre tudo, de refletir minuciosamente sobre os sentimentos, as instituições e o lado imponderável  e indizível da vida, o que faz do seu estilo uma experiência quase impossível para o leitor atual apressado, e torna a sua obra duplamente difícil de se popularizar, ao contrário das outras escritoras citadas.  E olhe que Middlemarch está longe do estilo intrincado  que ela ousou em Daniel Deronda e que faz dele uma espécie de preâmbulo para várias experiências da mais alta literatura do século seguinte consideradas herméticas e inacessíveis.

Se o leitor tiver paciência e persistência (e puder desembolsar cinqüenta pilas, preço que a Record absurdamente colocou no livro) certamente descobrirá por si mesmo que Middlemarch é um livro supremo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/o-projeto-mais-ambicioso-da-voz-do-seculo-xix/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/14/tijolaco-biografico-pouco-ajuda-a-conhecer-george-eliot/


[1] Na verdade, Mary Ann Evans

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