MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/05/2011

O coelho na cartola de Tournier

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de maio de 1998)

Se muita gente considera Michel Tournier o maior escritor francês vivo, não é com ELEAZAR ou A fonte e a sarça (ELÉAZAR ou La source et le buisson, França-1996, em tradução de Mônica Cristina Corrêa),cuja tradução agora é lançada pela Bertrand, que ele poderá pleitear o título.

ELEAZAR  conta s história de um pastor protestante na católica Irlanda: após cometer um assassinato, ele e a família emigram para a América. Por causa da atração pela palavra “Califórnia” (a qual, para Eleazar, evoca Canaã, a Terra Prometida), eles, que desembarcaram na Virginia, atravessarão os Estados Unidos, o que, em 1845, equivalia a enfrentar índios e quadrilhas.

Por causa de seus credos religiosos, Eleazar separa-se da caravana na qual se engajara e resolve embrenhar-se no deserto. Obcecado pela figura bíblica de Moisés e emaranhando-se em analogias ele imagina-se cumprindo o mesmo destino do libertador dos hebreus: “Ele não era um louco que se tomava por Moisés. Mas sua história pessoal estava poderosamente construída, modelada e dotada de significação pelo brilho do destino do Profeta… Assim, sua condição híbrida de protestante em país católico ficava esclarecida pelo estatuto equívoco de Moisés, criança hebréia salva e recolhida por uma princesa egípcia…”

O subtítulo, A fonte e a sarça, representaria a encruzilhada que todo homem de fé deve enfrentar: seguir o caminho de Deus (a sarça) ou o dos homens (a fonte): “Moisés estava dilacerado entre Jeová e o povo hebreu, entre a sarça ardente e a fonte de água viva, entre o sagrado e o profano”.

Por esses trechos de uma chinfrinzice atroz se pode ver que, apesar da pretensão de releitura do episódio bíblico, o livro de Tournier não conseguirá fazer o leitor chegar à Terra Prometida da Literatura. O pobre coitado acaba perdido no deserto. Sem maná.

Enquanto Eleazar e sua família estão na Irlanda, e mesmo durante a travessia do oceano, o estilo é muitas vezes melodramático e há a insuportável Cora, filha do protagonista, mas ELEAZAR parece que não vai fazer tão feio ao lado das obras mais antigas de Tournier (embora eu não seja muito fã delas, preciso confessar): Sexta-feira ou Os limbos do Pacífico ou Gaspar, Melchior e Baltazar, a primeira das quais lhe valeu seu prestígio atual.

O livro segura as pontas até mesmo quando começa a travessia dos EUA, via caravana. Porém, quando a família vaga sozinha no deserto, tudo desanda. Parece que Tounier rascunhou suas idéias e o texto foi copidescado por Paulo Coelho. ELEAZAR  é a prova de que nosso mago realmente faz um sucesso estrondoso na França, tendo alcançado até o vilarejo de Choisel, onde Tournier vive há 40 anos. Pois, sem essa hipótese, como entender o ridículo diálogo entre Eleazar e Serpente de Bronze, o chefe índio que aparece no livro, como apareceria num episódio de Arquivbs X, com seus homens e diz coisas do tipo: “A serpente pode ser venenosa ou contristora. Se for venenosa, mata com um beijo. Se for contristora, mata com um abraço. A primeira é apenas uma boca; a segunda, um braço. Mas sempre mata com um gesto de amor… a vocação da serpente é a inversão maligna”!!!??? Talvez com preguiça de escrever um texto para ser interpretado pelos leitores, Tournier escreveu-o com os próprios personagens já interpretando a si mesmo, suas motivações e seus símbolos. O tempo hoje em dia é valioso, o negócio é poupar trabalho a quem lê.

Pior ainda é a inclusão de José, jovem bandido piegas, na família. Evidentemente, ele será o Josué de Eleazar-Moisés, e fará com que ela entre na Terra Prometida. Antes, porém, ele tem de passar por uma hilariante cena com a personagem que, desde o início, estava fadada a afundar o livro: antes de se juntar à família, ele pensa em assaltá-la com seus comparsas. Há um cão que acompanha a família, Bluet, o qual inexplicavelmente segue José nas suas incursões pelo deserto para tramar com seus companheiro. Cora (que o autor deste artigo imagina como uma mistura das igualmente intragáveis meninas de O piano & Entrevista com o vampiro) diz a José: “Eu sei quem você é, Bluet me contou tudo”!!!??? Isso é o que se pode chamar de comunicação com os bichos! Nem as personagens de Isabel Allende chegaram a tanto. Talvez Cora seja uma mini-Brida?

Coelhices à parte, o fato é que ELEAZAR é uma parábola pobre. Será que este fiasco do autor francês mais respeitado da atualidade não espelha a triste decadência da literatura francesa?


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