MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (segunda e última parte)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 1995)

  O filme Assédio Sexual é baseado no romance Revelação (o extremamente sem graça título nacional para Disclosure, 1994, em tradução de Sônia Coutinho para a Rocco),  de Michael Crichton, que conta uma questão envolvendo o cargo de Diretor da Divisão de Seattle da DigiCom, companhia de alta tecnologia: Tom Sanders vai ao serviço, numa segunda-feira, acreditando que será promovido a esse posto, enquanto a sua empresa está sendo incorporada por uma editora, contudo descobre que Meredith Johnson, namorada de anos atrás (quando ainda não era casado, com dois filhos e sequer morava em Seattle) foi a indicada para ocupá-lo. Como está havendo problemas na linha de produção de drives de CD-ROM (responsabilidade de Sanders), ele se reúne com a nova “chefe”, que sem perda de tempo o ataca sexualmente. Meio dubiamente, tergiversando, Sanders resiste e se manda, para no dia seguinte descobrir que Meredith o acusa de assédio sexual.

    REVELAÇÃO narra, portanto, como Sanders procura provar ter sido ele o assediado, mas principalmente como ele vai percebendo que sua disputa com Meredith encobre uma conspiração maior,  envolvendo justamente a fusão de companhias e a linha de produção dos drives (alterada meses antes por Meredith e, por isso, com a qualidade comprometida). Para entreter o leitor com tal trama, Crichton repete o recurso que aperfeiçoou ao extremo num best seller anterior, Sol nascente (que resultou num filme inócuo, inexpressivo, de Philip Kaufman): tudo acontece em poucos dias,o que nos arrasta num clima claustrofóbico e aflitivo, quando se devoram centenas de páginas em poucas horas. O clímax, então (o confronto entre Sanders e Meredith numa reunião decisiva) mostra que Crichton seria um autor de telenovelas insuperável.

    Ele nos faz torcer por um “herói” que não passa de um homem medíocre,  sem maiores horizontes na vida do que ser um bem-sucedido acionista da sua empresa e derrotar sua chefe. É sua habilidade narrativa que dribla essa falta de estofo, de substância humana, e também sua capacidade de nos levar  a domínios inéditos e ambientações originais (como a cena no corredor de realidade virtual, onde várias personagens se encontram e descobrimos os objetivos de Meredith).

    Além de hábil, Crichton é um grande sacana: para mostrar como Sanders (e os machos em geral, por extensão) é oprimido pela nova situação da mulher (preparando, assim, o espírito do leitor a favor de Sanders contra Meredith,  a qual, aliás, é convenientemente incompetente), inicia REVELAÇÃO  mostrando como seu protagonista chega atrasado no serviço (num momento-chave) por ter de suprir a inabilidade da esposa em lidar com os filhos.

    A disposição maliciosa, quase indecorosamente machista de Crichton foi suavizada no filme (que alterou, com inteligência, a participação da esposa), que não chega a ser ruim. Seu problema é ser dirigido pelo anódino Barry Levinson. Depois de oscilar entre o razoável (Diner, Os rivais, Avalon) e o ruim (Rain Man), e de ter conseguido seus melhores resultados como empregado da inspiração alheia (nos belos O enigma da pirâmide e Bugsy), Levinson resolveu imitar o estilo soturno, conspiratório e muitas vezes confuso e amorfo de certos thrillers de Alan J. Pakula (estou me referindo a coisas como A trama, Amantes & Finanças ou O dossiê Pelicano, não a filmes mais rigorosos e expressivos como Klute ou Todos os homens do presidente).  O resultado: tudo parece antiquado, apesar da tecnologia de ponta.

   O filme peca, também, por ser pudico no tratamento da verdadeira várzea  de vulgaridade que são a linguagem sexual e as maledicências administrativas, que ficam claríssimas no romance e que talvez sejam o seu aspecto mais marcante. É até um desperdício porque suas duas estrelas, Michael Douglas e Demi Moore, os quais têm atrás de si alguns dos filmes mais desprezíveis já feitos (Atração fatal, Chuva negra, Instinto Selvagem, Ghost, Proposta indecente), poderiam ter encampado facilmente esse aspecto sórdido e baixo com mais impacto do que uma mera ceninha para chocar o público médio.

    Pois o que faz Michael Crichton ser um pouco mais do que um escritor oportunista e ardiloso é o fato de levantar questões incômodas sobre o comportamento do homem moderno (pelo menos, o homem moderno norte-americano). É evidente, igualmente, que ele quer ganhar muito dinheiro, e por isso embala-as em enredos calculistas e vertiginosos (do ponto-de-vista da leitura fácil). Tão vertiginosos, de fato, que nenhum filme até agora baseado neles (a não ser Jurassic Park porque transformaram totalmente a história) conseguiu recriar seu pique. E essa é mais uma razão para Crichton ser interessante: seus romances ainda não são meros veículos para adaptações cinematográficas. Valem por si mesmos, pense-se o que quiser sobre a moralidade, a ideologia ou a disposição mercenária do autor.

03/02/2012

O talento oportunista de Michael Crichton (primeira parte)

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 02 de novembro de 1993)

   Após Spielberg suavizar radicalmente o apocalipse genético de O parque dos dinossauros, outro livro, um pouco mais antigo, de Michael Crichton chega ao cinema: SOL NASCENTE (Rising Sun, 1982, em tradução de Aylide Soares Rodrigues para a Rocco), um sushi étnico que, nas telas, foi preparado por Philip Kaufman, que já fez um dos melhores filmes norte-americanos, Os eleitos, e a surpreendentemente bela adaptação de A insustentável leveza do ser.

    SOL NASCENTE é uma consumada combinação de oportunismo e talento. Conta a investigação de um assassinato cometido em Los Angeles, durante uma festa da Cia. Nakamoto, um dos gigantescos conglomerados japoneses que estão tomando de assalto a economia mundial, vencendo os EUA. Dentro da própria casa, como descobre o tenente Smith (o narrador), que tenta solucionar o caso o auxílio do capitão Connors, que não só fala fluentemente japonês como também tem uma relação toda especial com os japoneses e que no filme tem Sean Connery interpretando-o com a cara de… Sean Connery!

    O crime aparentemente prejudicava a imagem da Nakamoto e os homens da empresa usam todos os meios (pressão, suborno, difamação, manipulação de vídeos e eliminação) para arquivar o caso. Aos poucos, Smith & Connors descobrem que o crime, na verdade, foi executado para favorecer a Companhia, envolvida na compra de uma empresa americana de alta tecnologia.

    Crichton  tem a mania de narrar e ser didático ao  mesmo tempo, informando-nos sobre recursos tecnológicos utilizados pelos personagens e outros aspectos técnicos. Isso atrapalhava um tanto, a meu ver, O parque dos dinossauros, porém acaba assentando bem à trama de SOL NASCENTE, talvez porque o autor use o didatismo de forma mais enxuta e equilibrada, talvez porque seja um livro mais reflexivo, com pouca ação. Pois é o efeito das descobertas a respeito do crime sobre os personagens e seu comportamento para com os japoneses que importam na tessitura do romance. Que acaba sendo uma leitura absorvente porque o autor utiliza com mão de mestre um de seus recursos habituais, concentrar a ação em pouquíssimos e contados dias, o que dá um ar urgente, opressivo, à narrativa, e arrasta o leitor (além de conferir um efeito já de antemão cinematográfico, pois ele não é nada bobo).

 

   Seu ponto fraco continua sendo os personagens. Nenhum deles emociona ou interessa particularmente. Mas é uma grande cena aquele em que ele mostra a opressão da mídia e das pesquisas sobre o senador Morton, uma das chaves do mistério, porque era um amante da assassinada e um oponente da Nakamoto.

   O livro põe em xeque questões como soberania nacional, xenofobia, corrupção, decadência cultural e econômica, o futuro do mundo (visto como uma vasto mercado global em guerra), assuntos que nos tocam de perto, mesmo na periferia do império. Como lemos no texto, “todo mundo na América se concentra nas coisas sem importância. Como a situação com o Japão. Se você vender o país para o Japão, eles serão os donos, quer o povo queira ou não. E quem é o dono de uma coisa faz o que quer com ela.”

  Opinião do personagem que narra ou do autor?

02/02/2012

O que terá acontecido a Baby Sauro?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de junho de 1993)

  Já se conhece o argumento de O parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1990, em tradução de Celso Nogueira para Best Seller) devido ao filme se Steven Spielberg: a manipulação do DNA, fundamento genético da existência, permite a um empresário povoar uma ilha com seres pré-históricos. O resultado combina King Kong (primitivo versus civilizado) & Frankenstein (ambição desmedida da ciência) e é igualmente trágico.

    Michael Crichton já escreveu dois pequenos clássicos da ficção científica (O enigma de Andrômeda & O homem terminal) para chegar, em O parque dos dinossauros, apresentando em poucas páginas todo um leque de geografias e personagens, muitos dos quais não reaparecerão na história. Complicação inútil, muito comum em best sellers construídos tal como Crichton construiu o seu.

   Um pequeno senão. Mais insidioso e encorpado como um brontossauro é o exibicionismo didático. Não é defeito uma ficção ter fundamento científico, contudo é enfadonho quando o autor inventa trechos inteiros de cenas para que os personagens possam explicar ao leitor teorias, hipóteses e terminologias, o que soa falso porque atravanca o ritmo narrativo. Há até um daqueles geniozinhos (um guri de 12 anos) típicos do imaginário norte-americano. A ciência, aqui, é uma prima-dona empostada, chegada à canastrice. Não dá folga nem ao agonizante Ian Malcolm, que estrebucha filosofando sobre os rumos da pesquisa científica.

    O mérito “ético”, por assim dizer, é chamar a atenção da disneylandização do lazer: mais e mais o aparato tecnológico, o espetáculo aparente, substituem as emoções reais, a imaginação, a riqueza dos seres vivos.

   A narrativa, após os primeiros passos tartamudeantes, adquire velocidade impressionante, a partir do enguiço dos veículos dos visitantes em plena selva jurássica. O leitor passa a se sentir um predador, querendo saber o que vai acontecer, quem vai morrer em seguida, o que compensa a falta de um personagem de relevo, do qual se diga: podem morrer todos os outros, mas esse tem de se salvar, como a de Sigourney Weaver no primeiro Alien.

   A cena mais espetacular é o ataque do Tiranossauro, porém a de maior voltagem de emoção é a dos memoráveis Velociraptores, os psicopatas jurássicos, principalmente no Refeitório. Aliás, se é de dar inveja a Bret Easton Ellis e a Thomas Harris o detalhamento de mutilações e devorações (tem até um bebê devorado), Crichton se compraz no sadismo com as crianças. É verdade que elas não são das mais encantadoras (a menina, então, era capaz de causar indigestão se acabasse como aperitivo dos dinos), só que dá pena ver como são quase massacradas, sofrem mordidas, pancadas, fraturas, passam fome, são ignoradas pelas equipes de resgate, e ainda ficam encontrando pedaços de gente pelo livro afora.

    O parque dos dinossauros termina com um cataclismo, Crichton distribuindo uma justiça que soa meio ingênua, dado o cinismo desnudado ao longo do romance inteiro.

   Como não sei ainda o que restará das melhores qualidades do livro, apesar dos seus inúmeros aspectos discutíveis e apelativos, em meio às computações gráficas hollywoodianas, é bom ressaltar a inesquecível (de dar nó na garganta) cena final dos terríveis e maravilhosos Velociraptores, as criações de maior força dessa engenharia ficcional calculista, ambiciosa e competente.

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