MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/06/2013

Destaque do Blog: O MOTIVO, de Javier Cercas

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Em 1987, Javier Cercas publicou seu primeiro livro, reunindo cinco relatos. No começo do século, já famoso e prestigiado, depois de Soldados de Salamina (2001), ele republicou apenas o texto-título, El móvil [que comento na tradução de Bárbara Guimarães, O MOTIVO, publicada em 2005 pela Editora Francis], descartando os demais.

Para o autor espanhol, o pequeno romance (referido com aquele sempre problemático termo: “nouvelle”), seria o cerne da sua obra, o seu ovo da serpente: “Não sei se o relato que dava título àquele livro, e que apresento aqui, é melhor que os demais; sei que é o único no qual me reconheço, não sem algum incômodo, e que, mesmo considerando que talvez um escritor acabe se arrependendo do primeiro livro que publica, ainda não me arrependi dele…”[1]

Nesse cerne estaria, claro, a problematização do ato de escrever frente à “vida”, mais tarde ampliada por Cercas para uma maneira criativa e desassossegada de abordar temas e fatos históricos desentranhando, tirando-a dos bastidores, por assim dizer, a intervenção narrativa que os faz transitar da realidade para a literatura, e vice-versa.

Há algum tempo, num comentário sobre Procura do Romance, de Julián Fuks (aqui no blog:  https://armonte.wordpress.com/2012/09/23/procura-do-romance-de-julian-fuks-o-50-tons-de-cinza-da-metaficcao/) deixei transparecer minha irritação com a pretensão de “descobrir a roda” em certa fixação contemporânea na metaficção, no texto autorreferente que morde o próprio rabo num “mise en abîme” infinito e, ao fim e ao cabo, pueril, como se vê no seguinte trecho do referido livro de Fuks: “… situar seu inonimado protagonista e entregá-lo a seu habitual solilóquio de devaneios meditados à exaustão, quiçá esse sujeito—se escritor—cogitando a possibilidade de situar seu respectivo protagonista nas mesmas condições e entregá-lo a outros—ou os mesmos—devaneios meditados à exaustão…”

Em O MOTIVO, conta-se como o escritor Álvaro quer escrever um romance sobre um escritor que escreve um romance. Sendo assim, que diferença poderia haver entre o texto de Cercas e o de Fuks (e de milhares de outros escritores que utilizaram, utilizam e utilizarão o mesmo recurso)? Sim, a pergunta é necessária porque já adianto que achei o texto do autor de Anatomia de um instante absolutamente brilhante. Como o opaco (mesmo em tons fúcsias) de um pode ser o brilhante de outro?

O texto é estupendo, mas vou me concentrar em seus elementos narrativos, e não propriamente estilísticos, para tentar determinar esse diferencial tão gritante de O MOTIVO, mesmo no veio mais-que-gasto da metanarrativa.

Para começar, fica evidente que o ainda muito jovem Cercas (nascido em 1962, ele tinha cerca de 24 ou 25 anos ao publicar seu livro de estreia) não compactua serenamente com a atitude monomaníaca de Álvaro, (auto)centrada no fervor pela literatura “contra” a vida (fervor em nome do qual se evoca a figura do mártir literário por excelência, Flaubert); diga-se de passagem, me assombra que um analista perspicaz como Francisco Rico (no posfácio que escreveu para o reaparecimento de El móvil), afirme que “a paixão literária de Álvaro se apresenta de início de forma claramente simpática” (para mais tarde, ser desmascarada). É justamente o contrário, já no primeiro capítulo a monomania beirando o grotesco e a monstruosidade deixam o leitor com as antenas ligadas, na sintonia em que ficaria com um protagonista como aqueles de O colecionador, O perfume e quejandos. Como achar simpático um sujeito que “Acreditava que a literatura é uma amante exclusivista. Ou a servia com entrega e devoção absolutas ou ela o abandonaria à sua própria sorte”?

E ninguém se surpreende, mais adiante, ao vê-lo procurar pessoas de cuja convivência abdicara (para servir sua amante exclusivista), que essa reaproximação seja tão somente meio para um fim longamente planejado: “…recordou que, em seu segundo encontro, a porteira havia lhe falado sobre o gosto do velho Montero pelo xadrez (…) Nunca havia se interessado por xadrez e mal conhecia as suas regras, mas naquela mesma manhã foi à livraria mais próxima e adquiriu dois manuais (…) Adquiriu um certo domínio teórico, porém lhe faltava a prática. Marcou encontros com amigos cujo convívio tinha abandonado havia muito tempo. Eles aceitaram de bom grande, porque o xadrez não lhes pareceu mais que uma desculpa para retomar uma amizade interrompida sem nenhum motivo.

Álvaro chegava aos encontros levando uma maleta contendo notas, livros com anotações, folhas em branco, lapiseiras e canetas. Apesar do esforço dos amigos, mal se conversava ou bebia durante as partidas; tampouco podiam escutar música, pois Álvaro assegurava que isso influía negativamente em seu grau de concentração…”[2]

 Por que Álvaro precisa se aproximar do senhor Montero? Porque ele está escrevendo um romance, cujo protagonista (um escritor ambicioso) está escrevendo um romance (ambicioso): “Esse romance dentro do romance conta a história de um jovem casal sufocado por dificuldades econômicas que destroem a sua convivência e minam a sua felicidade; depois de muito vacilar, o casal decide assassinar um senhor antipático que vive, de forma extremamente austera, no mesmo edifício que eles. Além do escritor desse romance, o romance de Álvaro tem três outras personagens: um jovem casal que trabalha de manhã até a noite para manter, a duras penas, o seu lar, e um senhor que vive modestamente no último andar do mesmo edifício ocupado pelo casal e pelo romancista.” O escritor do romance de Álvaro um dia encontra o casal no elevador e eles levam consigo um objeto comprido e misterioso envolto em papel pardo. Por conta disso, ele resolve que o casal do seu romance matará com um machado o velho vizinho. Após terminar o manuscrito, fica sabendo que a porteira descobriu o cadáver do idoso, que havia sido assassinado a machadadas: “Assustado, o romancista, que conhece a identidade dos assassinos, sente-se culpado pelo crime deles porque, de forma confusa, intui que foi o seu romance que os induziu a cometê-lo”.Só que, embora obsedado pelo exercício da literatura, ele não consegue levar o romance adiante pois lhe falta a inspiração para insuflar vida a seus personagens. Resolve, então, espreitar os demais  moradores do seu edifício (não vou dizer como, para não estragar a diversão), selecionando um casal (os Casares) e um velho (o já referido senhor Montero). E é nas maquinações de Álvaro para extrair deles (inclusive interferindo nas suas existências) a seiva para seus caracteres, e nas relações que se estabelecem entre o autor e seus modelos que Javier Cercas se mostra um grande ficcionista, um praticante tão entusiasta da literatura enquanto “comédia humana”  quanto da metalinguagem voltada para uma autofágica discussão dos seus recursos e estratégias frente ao real.

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Para induzir os Casares ao clima de impasse do casal de seu romance, a insatisfação com a situação econômica e os atos extremos gerados pelo desespero, Álvaro chega a prejudicar o marido (atuando como seu advogado informal), cuja demissão da empresa onde trabalhava poderia ser revertida. Aqui, a procura do romance não se faz em abstrato ou no vazio, há movimento, há relações de força, há perversidades, há jogos sociais, e há também aquilo que move os cotidianos: as relações familiares, o emprego; enfim, o que dá uma (aparente e frágil que seja) concretude aos nossos dias (nesse sentido, acho pertinente a aproximação que sempre se faz entre Cercas e Paul Auster, outro mestre da metanarrativa que no entanto nunca descuida da “comédia humana”).

Pena que se eu levasse adiante um levantamento dessa, digamos, invasão do real naquilo que seria uma “procura do romance”, estragaria de maneira considerável e desconsiderada o prazer do leitor (pois há esse fator envolvido também). Em certa medida O MOTIVO é um romance de suspense, e merece ser saboreado como tal. De todo modo, me limito a dizer que, enquanto seu romancista “Ambiciona construir um perfeito mecanismo de relojoaria; nada deve ser entregue à sorte” e tem de se haver com os recuos, desvios, arestas e “sujidades” (“…se a presença de modelos reais para as personagens em certo sentido facilitava o seu trabalho e lhe proporcionava um ponto de apoio sobre o qual a sua imaginação podia se deter ou toma um novo impulso, em outro introduzia novas variáveis que necessariamente alterariam o curso do relato”) aderidas ao mecanismo ambicionado mas nunca realmente levado a efeito[3], o Autor consegue engendrar um à perfeição, uma beleza. Nada foi entregue à sorte, porém nada ficou rígido, engessado ou arrumadinho. Ficou tudo literatura, e da melhor. [4]

(escrito especialmente para o blog, em junho de 2013)

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[1] Em contrapartida, justificando a supressão dos demais: “pareceram derivativos, frutos de certas leituras e experiências pobremente assimiladas, bem como de uma ridícula vaidade de demonstrar que eu era escritor, fato que costuma autorizar todo tipo de abusos exibicionistas entre pessoas na casa dos 20 anos…”

[2] Entre outras ações calculadas de Álvaro, ele chega a transar com a porteira, a quem considera repugnante, para coletar informações sobre seus vizinhos (o que dá azo a um parágrafo maravilhoso: “… não houve necessidade de trâmites. Resignado, Álvaro cumpriu a sua incumbência co entusiasmo fingido em um catre enorme e antigo, com uma cabeceira de madeira da qual pendia um crucifixo que, em plena euforia adúltera e por causa das sacudidas próprias de tais atividades, desprendeu-se da escápula que o sustinha e caiu sobre a cabeça dele, que se absteve de fazer qualquer comentário e preferiu não pensar em nada”).

E há outras, que não convém contar, evidentemente.

[3] E num sentido muito mais perturbador e desassossegante do que o do trecho a seguir: “O romance avançava com segurança, embora se desviasse em parte do esquema predeterminado nos rascunhos e no projeto inicial. Mas Álvaro permitia que ele fluísse livremente neste instável e difícil equilíbrio entre a estirada instantânea que determinadas situações e personagens impõem e o necessário rigor do plano geral”.

Num outro passo, leremos: “…releu tudo o que havia escrito até então. Chegou à conclusão de que aquela primeira redação estava repleta de erros na escolha do tom, do ponto de vista da visão que oferecia das personagens; a própria trama, enfim, estava equivocada (…) sendo preciso escrever o romance novamente desde o princípio…”

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[4] E sem que Cercas fique preso ao que já chamei de “visgo da literatura” que acomete seus contemporâneos na língua espanhola, os também notáveis Roberto Bolaño (que, em termos de carreira profissional, podemos considerar um autor espanhol) e Enrique Vila-Matas, cujas obras em alguma medida foram prejudicadas, a meu ver,  pela rarefação da “comédia humana” em função da hipertrofia da metaficção e autorreferencialidade.

Sobre isso ver no blog:

https://armonte.wordpress.com/2012/07/08/estrela-cadente-roberto-bolano-o-visgo-da-literatura-e-o-desgaste-da-aura-de-um-autor/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/08/sob-o-signo-de-bauman-ficcoes-da-modernidade-liquida-a-pista-de-gelo-e-o-cadaver-da-poesia/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/suicidios-exemplares-vila-matas-e-a-boa-e-velha-arte-de-contar-estorias/

https://armonte.wordpress.com/2013/06/29/a-pele-largada-de-vila-matas/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/todos-os-caminhos-levam-a-dublin/

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