MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/11/2010

A MELHOR IDADE DE RACHEL DE QUEIROZ

Introdução a três resenhas:

      Durante muito tempo, Rachel de Queiroz (nascida em 17 de novembro de 1910 e falecida em 04 de novembro de 2003) foi mais importante como tradutora para mim do que como autora dos próprios livros; destes, pouco me lembrava de João Miguel e Caminho de Pedras, ela era mais a autora de O Quinze e As Três Marias (além, é claro, de crônicas que nunca foram as minhas favoritas). Em compensação, são essenciais na minha história de leitor suas traduções de Dostoievski (especialmente  de Os Demônios e Os Irmãos Karamázov), hoje tão criticadas, mas que defenderei sempre; suas traduções de Galsworthy, da Crônica dos Forsythe (O proprietário e Irene), sua tradução de Mansfield Park, de Jane Austen, de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, sua tradução das Memórias de Tolstoi. No entanto, acho que além de Dostoievski, a tradução feita por Rachel de Queiroz (se bem me lembro, esta foi em colaboração com alguém) que mais me marcou foi a de O mágico de Lublin, de Isaac Bashevis Singer.

    Só com a leitura de Memorial de Maria Moura nos anos 90 é que comecei a ver a escritora Rachel de Queiroz, mais que a tradutora. E ainda assim, como logo em seguida tive o desprazer de ler a coletânea de crônicas As Terras Ásperas, continuei sempre com uma sensação de antipatia e distanciamento.

   Por conta do centenário de nascimento de Rachel, fiz uma seqüência de leitura de quatro livros: O Quinze, As Três Marias; Dôra, Doralina e O Galo de Ouro.

 

Dedico o texto abaixo à minha querida amiga CLÁUDIA

I.                  O MELHOR ROMANCE:  SEM ENJÔO NA VIAGEM

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, de forma mais condensada, em 16 de novembro de 2010)   

 

“…já levava muito gosto naquela vida da Companhia, a luz e os aplausos e os homens assobiando, e o dia trocado pela noite, e a gente hoje aqui amanhã além. Era uma aventura que não parava e eu sempre tinha sonhado com aventuras”.

                 (Rachel de Queiroz, Dôra, Doralina)

     João Fonseca da Nogueira, alter ego de Autran Dourado em algumas das suas histórias dizia que gostava de  ficar perto de velho, pois velho é quem sabe das coisas importantes.    Ou qualquer coisa bem parecida.

    A melhor coisa que aconteceu para Rachel de Queiroz enquanto escritora foi ter ficado velha. Sempre pensei que tivesse dado um salto de qualidade já octogenária, com Memorial de Maria Moura (1992), entretanto descobri nos últimos dias sua melhor obra, publicada aos 64 anos: Dôra, Doralina (1975), um quarto de século depois da sua última experiência no gênero (O galo de ouro, só publicado em livro em 1985).

    Nesse romance excelente, ela apresenta não só o fôlego narrativo e a vitalidade da história de Maria Moura, como também um universo mais rico, mais variado, e sobretudo uma narrativa em primeira pessoa que é um show à parte [1]. Chega a ser irônico que, ano após ano, Rachel de Queiroz venha mantendo a aura de nome importante na literatura brasileira mais pelo livro de estréia, O quinze (cujas qualidades inegáveis não o impedem de ser limitado, indicando mais um talento mediano) enquanto Dôra. Doralina é o ponto mais próximo a autora cearense que chegou de produzir ficção de primeira, vigorosa.

     O livro é dividido em três partes: na primeira, numa fazenda no interior do Ceará, Dôra descobre que sua dominadora mãe (chamada por todos de Senhora) mantém um romance com seu marido, Laurindo, o qual será assassinado por um protegido da moça, um ex-bandoleiro esquisito, Delmiro. Após a morte de Laurindo, conhecedora do segredo da mãe e não conseguindo enfrentá-la, Dôra vai para fortaleza e se incorpora a uma trupe teatral das mais mambembes (ela representará os papéis de “ingênua” na companhia, apesar dos avanços de alguns: “Bom, nisso tudo o que eu quero dizer é que antes de eu entrar na Companhia, tinha o meu corpo como se fosse uma coisa alheia que eu guardasse depositada, e só podia dar ao legítimo dono, e depois de dar a esse dono era só dele, não adiantava eu querer ou não, porque o meu corpo eu não tinha o direito de governar, eu vivia dentro dele mas o corpo não era meu. Já agora o corpo era meu, pra guardar ou pra dar, se eu quisesse ia, se não quisesse não ia, acabou-se”), com a qual excursiona pelo Norte e pelo Nordeste, sempre em situações precárias e incidentes deliciosos (o episódico é a seara de Rachel de Queiroz).

    Durante a Segunda Guerra, fazem uma viagem por Minas até o Rio, e é nesse momento     que Dôra conhece aquele que será seu grande amor, o contrabandista Asmodeu, mais conhecido como o Comandante (a essa altura da sua vida, ele dirige uma barca pelo rio São Francisco, antes de perder o posto devido a seu negócio paralelo).

    Através das trajetórias da narradora, do Comandante e do pessoal da trupe (especialmente o casal que a comanda, Carleto Brandini e Estrela) vamos descortinando nosso país dos anos 30 aos 50, e também o arco que a literatura brasileira vai fazendo no século XX, do poderoso romance regional nordestino dos anos 30 até o triunfo da ficção urbana, concentrada justamente no Rio de Janeiro, no qual se passa a maior parte do terço final de Dôra. Doralina. É como se fôssemos de José Lins do Rego para Rubem Fonseca, passando por alguns mineiros de permeio.

   Ao contrário das protagonistas da juventude de Rachel de Queiroz, Dõra é irresistível: trata-se de uma mulher machista, submissa ao seu homem, passiva, deixando mais as coisas acontecerem do que tendo participação ativa, sendo “levada pela vida”, por assim dizer  (ao contrário da autoritária mãe), e no entanto o sabor da sua “fala”, o colorido da sua peculiar voz narrativa são cativantes, assim como a voz e a fala de Holden Caulfield de O apanhador no campo de centeio ou da Romana de Alberto Moravia. Alguns exemplos: quando o Comandante é preso por suas atividades ilegais, “Corri a telefonar ao Chefe Conrado e foi uma demora enorme para ele atender, acho que lá por dentro aquele quartel do morro era um vaticano”; ou quando procuram casa no Rio: “Meu sonho era um apartamento, e bem alto, acima do décimo andar. Porque, pra mim, criada onde fui, morar em apartamento era o máximo, a própria essência de viver no Rio de Janeiro”.  Ou ainda o “negócio” do Comandante: “E, desse dia em diante, as coisas que ele começou a trazer para casa eram de muito maior valor,  cortes de linho, sedas de Hong Kong (até aquela data, nunca na minha vida eu tinha escutado falar em Hong Kong), ventarolas, um serviço de chá, tudo ajaponesado, que eu não sabia de onde vinha. E perfumes, e bebidas, na maioria argentinos. Era o tal negócio prometido pelo Chefe Conrado que já ia começando…”

   Não é à toa que, ao contrário de Maria Augusta de As Três Marias, ao sair em viagem de barco Dôra não enjoa a viagem toda. Ela tem muito a viver…

II- ROMANCE POPULAR

  O galo de ouro  (não confundir com o livro homônimo do grande escritor mexicano Juan Rulfo)  foi inicialmente publicado em 1950 seriado na revista O Cruzeiro. Rachel de Queiroz tinha lá seus 39,40 anos. A publicação em livro se deu em 1985. Creio que ela mexeu muito no texto (embora não tenha como fazer essa apuração), transformando-o, aos 75 anos,  num romance perfeito, seu maior livro ao lado de Dôra Doralina.

    Explicitamente exumado por nostalgia a uma vida mais idílica e menos urbana na Ilha do Governador (onde ela morou por muitos anos), O galo de ouro é um dos poucos (e um dos melhores) exemplos de um verdadeiro “romance popular”, ou seja, de um romance que se passa no meio do povo e convence totalmente.

   É um encanto supremo acompanhar as aventuras da Macabéa de A hora da estrela, de Clarice Lispector, mas não se trata de um romance popular, no sentido que evoco aqui. É um encanto acompanhar a voz peculiar de Dôra  em Dôra, Doralina, e a narrativa é mais criativa, mais evidentemente “literária”. Mas o que conquista o leitor no romance-folhetim (segundo classificação da própria autora cearense) é a quase invisibilidade do literário, seus truques de transparência. Em nenhum de seus livros a “sabedoria épica”, acompanhar cada personagem sem tomar partido de nenhum, em todas as contingências da vida, foi tão forte.

    A trama acompanha Mariano. A princípio, garçom, ele se envolve com Percília, vão viver juntos, têm uma filha (Gina) e aí a companheira, que freqüenta uma tenda espírita e fez amizade com uma moradora da Ilha do Governador, dona Loura, tenta convencer o marido a se mudarem para lá, levantarem uma casinha e sair da casa de cômodos onde se espremem com diversas outras famílias.

   Após uma primeira visita à Ilha, o casal é atropelado por um automóvel: Percília morre, Mariano fica meses internado e quando sai está com um braço inutilizado. Não dá mais para garçom. Começa a trabalhar no jogo do bicho. Enquanto isso, comadre Loura toma conta de Gina e o próprio Mariano se instala na casa dela e de seu companheiro, José Galego, após uma prisão (causada por problemas com os “secretas” da polícia que extorquem os bicheiros), Mariano fica de molho por algum tempo e resolve levar adiante o plano de erguer ali na Ilha uma morada. Mesmo porque começa a se interessar por uma doidivanas local, Nazaré, que apesar da vigilância da mãe, é louca por bailes, cinemas, a vida na cidade, e que além de envolver-se com Mariano, tem um namorado metido a malandro, um ex-pivete, Zezé, candidato a cafetão.

    Como se vê, cruzam-se muitas linhas caras à população brasileira nesse enredo: o jogo do bicho, a inclinação pelo espiritismo em suas diversas formas, um pé na respeitabilidade e na honestidade, outro pé na contravenção e na informalidade… Mas Rachel de Queiroz vai além. Ao mostrar o relacionamento (depois eles acabam se casando) de Mariano com Nazaré, ela nos desenha dois personagens inesquecíveis, e incrivelmente autênticos nos mínimos detalhes (a seqüência narrativa que começa com Zezé dando de presente um anel roubado para Nazaré e que terminará na morte do malandrinho, devido a uma trampa armada por Mariano e policiais conhecidos, é particularmente memorável, inclusive pelo apego de Nazaré ao anel que faz com que ela minta, afronte os tiras, faça o diabo…).

     Se em 1950, O galo de ouro já era assim, eu fico assombrado de não ter tido a menor repercussão, e fico assombrado mais ainda com a modéstia da autora, que não cogitou de publicá-lo, sendo ele tão melhor que seus quatro romances anteriores. Como não acredito em milagres nem em modéstia de escritor, é por isso que prefiro acreditar (a não ser que venha prova em contrário) de que foi na demão de 1985 que o livro ganhou a forma atual, absolutamente inesquecível. Trata-se de um texto tão irretocável que não consigo nem citar parte alguma, pois ele é ação narrativa pura, uma tessitura inconsútil. A experiência  de ler O galo de ouro é a de ler o tipo de romance que apaixona Vargas Llosa, nas suas próprias palavras:

“Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas idéias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história.”

 

III- MOURÍADA

Resenha publicada em 31 de maio de 1994, com o título “Maria Moura resgata a subversão feminina”, em A TRIBUNA de Santos, na época da exibição da minissérie da Globo.

   Pega-se para ler MEMORIAL DE MARIA MOURA com má vontade e pé atrás. Sem contar as posições políticas de Rachel de Queiroz durante a ditadura, sua obra (iniciada em 1930, com O quinze) sempre foi mais para mediana. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, foi eleita para a Academia Brasileira de Múmias (aliás, foi a primeira mulher).

    Parece, entretanto, que 80 anos de vida serviram para alguma coisa. Cega como cidadã, ela mostra como narradora, em MARIA MOURA, a vidência de um Homero ao relatar como três trajetórias paralelas se unem na Casa Forte da Serra dos Padres: a da personagem-título, a de sua prima Marialva, e a do padre José Maria.

     Rachel de Queiroz não apenas narra com um fôlego até então insuspeito, que faz com que nos sentemos pensando em ler dez páginas e acabemos lendo duzentas, para usar o velho chavão, como também utiliza habilmente um repertório literário que resgata temas caros ao século XIX (no qual é ambientada a trama, ainda no Império). Temos um pouco do mundo de José de Alencar (aliás, antepassado da autora cearense), o de O sertanejo & O guarani (a casa-fortaleza); o mundo da Luzia-Homem de Domingos Olímpio; o mundo do Seminarista e do Padre Amaro.

    É por isso que, se há clichês, e os há, eles não incomodam em nada. Toda história de ação meio folhetim, seja uma novela de cavalaria, faroeste ou thriller, manifesta suas convenções como marcas de identidade. Note-se também que Maria Moura se inscreve numa linha de subversão feminina, das “donzelas guerreiras” (ligadas à figura paterna) que assumem a linhagem e o destino masculino, como a Luzia de Domingos Olímpio, a Guidinha do Poço, e mais recentemente a Diadoriam, de Grande sertão: veredas.

    As “donzela guerreiras” do século passado eram vencidas muitas vezs pelo seu “lado feminino”. Maria Moura, contudo, mesmo enredada na sua paixão pelo jagunço Cirino consegue dar a volta por coma e ainda mandar executar o amante traiçoeiro, sem precisar cair nos braços da outra ponta do triângulo, Duarte.

    Como nos poemas homéricos, não há “dramaticidade”, no sentido que atribuímos geralmente à palavra. Tudo é narrado de forma equânime e tudo flui sem tensão. Pode-se observar essa característica com relação aos primos de Maria Moura, Tonho e Irineu, que brigam com ela pelas terras do Limoeiro e depois desaparecem da narrativa, quando se esperaria (numa história mais “dramática” e concentrada) algum tipo de revanche, em prol do “suspense”. MEMORIAL DE MARIA MOURA é um romance de aventuras e tende ao infinito, como deixa claro o final em aberto. Só a história do padre/beato Romano apresenta certa dramaticidade, mais esta serve mais como contraponto à evolução de Maria Moura, como a de Marialva: três pessoas que “ganham o mundo” para cumprir diferentes sinas.

    Ao contrário de outros ficcionistas nordestinos, Rachel de Queiroz carrega muito pouco na religiosidade. Há fé, mas a vida pragmática predomina, e muito mais importante é a “posse da terra”, como revela Marialva: “A verdade é que todo aquele povo, tal como os meus irmãos e a minha cunhada, só davam valor à terra, sobre tudo neste mundo. E não só os fazendeiros, mas os padres, as beatas, os comerciantes,  o pessoal da rua e do mato; pra eles só vale a terra, acima de qualquer outro bem… Por causa de um corredor de terra de uma braça de largura, numa extrema,  todos são capazes de matar, de morrer e de mandar matar”.

 

  


[1] “E então deu-se, quando eu andava pelos meus quatorze anos, apareceu na Soledade um homem, um estranho, por nome Raimundo Delmiro.

    Aliás tinha outro nome, contudo esse ele só me disse mais tarde e bem no ouvido e eu jurei nunca repetir a ninguém—jurei e cumpri. O seu nome segundo era Lua Nova, mas isso já fica sendo um caso dentro do outro e terá de vir depois”.

“Do outro lado da parede uma folhinha com figura de mulher nua. Cem anos que viva não esqueço. Pior do que os quartos de pensão onde a gente às vezes se hospedava. Cem anos? Mil anos que eu viva não esqueço”.

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