MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/12/2012

O autor como personagem: O ÚLTIMO DICKENS, de Matthew Pearl

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“O Chefe me falou de um sonho que teve certa vez—explicou Tom.—Nele, recebia um manuscrito e lhe diziam que aquilo salvaria sua vida. Contudo, ao olhar para o papel, não conseguiu ler o que estava escrito.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de dezembro de 2012)

Há 19 anos, resenhei para esta mesma coluna A Verdade sobre o Caso D, de Fruttero & Lucentini, no qual um congresso de detetives famosos da ficção (Holmes, Poirot, Maigret etc) tentava desvendar o enigma de O Mistério de Edwin Drood, manuscrito interrompido com a morte abrupta de Charles Dickens, aos 58 anos, em 1870. A meu ver, o maior charme do romance paródico da dupla italiana estava na inclusão dos capítulos deixados pelo genial escritor vitoriano, os quais eu não conhecia. Era tão incrível, tão absorvente, que impedia que o leitor se interessasse minimamente por quaisquer brincadeiras pós-modernas ao seu redor. O que existia do relato, mesmo inacabado, fazia dele uma obra-prima, tal como mais tarde aconteceria com O primeiro homem, de Albert Camus.

“__ Aqui—disse o Dr. Steele.—Um furo no braço do Sr. Osgood. É a picada de uma seringa hipodérmica. Vê?

    O médico continuou a falar:

__ Alguém lhe aplicou uma dose alta de narcótico, senhor. É por isso que a droga demorou tanto tempo para sair de seu corpo.

   Rebecca sentiu que tremia. Osgood soergueu-se na cama. Olharam-se, espantados. Havia atravessado meio mundo, em parte como um esforço para deixar a tragédia de Daniel para trás, e acabaram se deparando com a mesma marca de injeção que havia nele. Tudo parecia fazer parte da mesma sinistra situação, embora o motivo ainda fosse um mistério (…)

__ Sr. Osgood, isso é igual ao que o senhor viu… no corpo de Daniel?—perguntou Rebecca em um sussurro, de modo que o médico não os ouvisse.—Não deve esconder nada de mim. Foi isso, não foi?

__ Sim—murmurou Osgood.

__ O que pode significar?

__ Que estamos enfrentando o mesmo adversário, desde a manhã em que Daniel morreu.

__ Mas quem?

__ Não sei.—Então, em parte  magoado e em parte triunfante, exclamou: — Não foi Daniel quem se injetou com ópio. Agora temos certeza disso. Ele foi envenenado, Srta. Sand, assim como eu!

__ Acredita nisso?

__ Só pode ser! Dickens não poderia ter escrito tal descoberta por coincidência! Isso muda tudo.  Precisamos  ter uma visão mais clara da situação de Daniel, dos bandidos, de Drood, Srta. Sand…”

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A Record lançou em 2012 a tradução de Alexandre Raposo para outro romance que se debruça sobre a possibilidade de se desvendar O mistério de Edwin Drood, e mesmo até descobrir uma possível continuação da história, supostamente já escrita: O Último Dickens [The Last Dickens, EUA, 2009].

É o terceiro romance de Matthew Pearl, prosseguindo a linha dos outros: histórias de suspense ligadas à própria literatura. Em O Clube Dante (2003),  um assassino utilizava passagens da Divina Comédia e quem investigava os crimes eram renomados escritores da Boston pós-Guerra de Secessão (o grande Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendell Holmes), cujo editor era J.T. Fields (também personagem de O Último Dickens); em A Sombra de Allan Poe (2006), um jovem advogado de Baltimore investigava o fim do criador das Histórias Extraordinárias, envolvendo-se até na sucessão do poder na França.

È preciso dizer que nenhum desses livros convenceu totalmente, apesar das premissas atraentes e de representarem uma leitura satisfatória, (enquanto distração). Teria Pearl realizado algo mais substancial em O Último Dickens que o tornasse finalmente o praticante-mor do gênero “mistério literário”?

Não, ainda não foi dessa vez. O livro alterna três sequências narrativas. Em 1870, divide-se em duas frentes: as investigações efetuadas por James Ripley Osgood, editor de Dickens na América, sócio mais jovem do  Fields de O Clube Dante, para descobrir mais capítulos de Edwin Drood, permitindo que sua empresa enfrente a pirataria corrente (Dickens era o maior best seller da época); e as diligências, na Índia, de Frank, filho da celebridade  recém-falecida, a fim de desbaratar uma quadrilha de ladrões de cargas de ópio (comercializado pela Inglaterra, e cultivado às custas da agricultura local, pauperizando ainda mais os camponeses). E em 1867, narra a temporada de conferências levadas a cabo por Dickens nos EUA, cercada de peripécias dramáticas e momentosos fatos políticos (o processo de impeachment do então presidente Andrew Johnson), e filtrada para o leitor pelos olhos de um dos criados da comitiva dickensiniana: o irlandês Tom Branagan, que salvará o Chefe (como era chamado num círculo mais íntimo) de uma fã psicopata, a qual também fornecerá, mais tarde, a chave do mistério que cerca o derradeiro manuscrito.

Parece bastante rico e movimentado, não? Nem tanto assim. Pearl sempre abusa do número de páginas (já era um problema em A Sombra de Allan Poe), e nas primeiras 150 muito pouco acontece. Além disso, ele não consegue unir satisfatoriamente todos os fios da meada. Não há justificativa para os episódios na Índia, a viagem de Dickens pelos EUA, que poderia ser a melhor parte, é meio apagada e arrastada, mesmo com as apelações melodramáticas, e o vilão (facilmente identificável pelo leitor mais atento), que está na cola de Osgood e de sua funcionária (o interesse romântico do livro) Rebecca Sand, para eliminar quaisquer vestígios de uma “segunda parte” de O Mistério de Edwin Drood (cuja trama seria baseada em fatos reais), ao se explicar para o herói e à amada, no clímax, consegue ser tão inconvincente que beira a comicidade.

Mas para o leitor que se aflija muito com o fato de que, mesmo com essa correria toda, “o último Dickens” permaneça inconcluso, eu posso revelar o que seria quase um milagre e um presente de Papai Noel: o espírito do autor de tantas histórias natalinas memoráveis incorporou-se num certo Thomas P. James e ditou a continuação da história, como se pode ler na edição brasileira de O Mistério de Edwin Drood, agora relançada pelo Instituto Lachâtre (cujo chamado na capa, na edição anterior,  era “versão concluída pelo próprio autor”!!!???). O porquê de alguém, no Além, se preocupar com a continuação de um romance, isso sim é um mistério digno de investigação.

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ADENDO

Em tempo: há alguns probleminhas nem um pouco sobrenaturais no texto publicado pela Record. Na página 228, por exemplo, afirma-se: “O presidente  Andrew Johnson compareceu a todas as leituras em Washington e convidou Dickens e Dolby à Casa Branca no aniversário do romancista (…) Dickens convenceu-se de que Johnson se sairia bem…” Até aí tudo bem, apesar da literalidade das “leituras”. Mas logo a seguir se lê uma frase estranhíssima em sua formulação, um comentário de Dickens a respeito do presidente: “Esse é um homem que deveria ser morto para sair do caminho”; e na pág. 325, numa alusão à postura de um ator que encarnava Edwin Drood, morto num incêndio suspeito,  lemos: “Aquele Grunwald costumava dizer que ninguém que tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…” [na verdade, precisávamos aqui de um “não”: “ninguém que NÃO tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…”]

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TRECHOS SELECIONADOS    

“Ao recolher seus pertences no saguão do hotel, Osgood se pegou olhando para um espelho pela primeira vez desde que fora atacado. Ao ver seu reflexo, ergueu as mãos involuntariamente até o rosto e então as deixou escorregar até o pescoço, como se tentando manter a cabeça no lugar. Ele piscou. Quando desaparecera sua aparência infantil, aquela expressão inocente que ele sempre amaldiçoara e louvara? No lugar, havia o rosto pálido de um fantasma, quase cadavérico, com uma complexa teia de rugas de cansaço e sombras escuras ao redor de olhos fundos. Seu cabelo estava quebradiço e sem vida. Ou assumira uma máscara de morte prematura ou passara de uma tenra juventude para uma dura maturidade. Ele não conseguia distinguir. Mas havia um elemento encorajador em sua aparência. Ele não era mais inexpressivo ou passível de ser confundido  com outro jovem homem de negócios de Boston. Aquele era James R. Osgood, embora abatido. Não havia dúvidas quanto àquilo.”

“__ E se isso quiser dizer que não há nada a ser descoberto?

__ Talvez estejamos apenas procurando nos lugares errados—disse Rebecca, corajosamente.

__ Sim—retrucou Tom, enfático. Então, bateu com a mão sobre a mesa.—Sim, Srta. Sand! Mas não é apenas isso. Não apenas o lugar errado, mas o tempo errado!

__ O que quer dizer, Sr. Branagan?—perguntou Rebecca.

__ Eu estava me lembrando quando estávamos nos EUA,  em um trem a caminho das leituras na Filadélfia, o Chefe começou a falar sobre Edgar Allan Poe com muita tristeza. Disse que, quando viu Poe na última vez que fora à Filadélfia, conversaram sobre Caleb Williams. Quem é o autor deste romance?

 __ William Godwin—disse Osgood.

__ Obrigado. O Sr. Dickens contou a Poe que Godwin havia escrito a última parte do livro e somente então começara a escrever a primeira parte. Poe disse que ele também escrevia histórias de mistério de trás  para a frente. E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério,começou pelo fim?” [aqui nesta passagem final, que aparece na pág. 299, há também um probleminha, pois a frase foi publicada do seguinte jeito: “E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério, não começou pelo fim?”, esse “não” evidentemente sobrando]

The Last Dickens cover from publisher

23/12/2012

O autor como personagem: O CLUBE DANTE

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Henry Wadsworth Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendel Holmes eram grandes estrelas da literatura em meados do século 19, nos EUA. Eram de Boston,  ligados à Harvard e tinham o mesmo e prestigiado editor, J.T. Fields.

A amizade fez com que Lowell e Holmes auxiliassem Longfellow na primeira tradução americana da Divina Comédia(o poema é quase desconhecido no país), e  justamente no momento em que ela se encaminha para o término, há uma onda de crimes, cujas características copiam detalhes de cantos do Inferno. Esse é o argumento básico de O Clube Dante, de Matthew Pearl. Já envolvidos com intrigas de membros da diretoria de Harvard, os quais não vêem com bons olhos a incorporação de Dante ao cânone universitário, graças ao fato de Holmes ser médico os membros do insólito clube  ficam sabendo da similaridade alcançada pelo criminoso e começam a imaginar que ele pode ser um erudito, profundo conhecedor da obra de Dante.

O que os intriga é a aleatoridade das punições: há um indiferente, um simoníaco e um fomentador de desavenças, que aparecem em cantos diversos (mais tarde, haverá traidores, mas já é outra história…). O quarteto (Longfellow, Holmes, Lowell, Fields) descobrirá que os crimes estão relacionados mesmo é com a Guerra de Secessão, que terminara e que, como se sabe, fraturou a identidade nacional  (“Todos os tempos foram separados em duas épocas:  antes da guerra e depois da guerra”), de um modo que lembra a dividida Florença, retratada de forma tão crítica por Dante. E descobrem que realmente foi a tradução de Longfellow que motivou os crimes, embora da forma mais inusitada possível. Nessa investigação, eles  ganham a colaboração de um dos primeiros policiais negros da cidade, Nicholas Rey, uma conseqüência progressista da guerra, que gera previsíveis tensões sociais, convenientemente incorporadas ao enredo.

Apesar do estilo meio laborioso, e às vezes meio pueril (frases do tipo “as narinas promeminentes do soldado agitaram-se de interesse”, alguém consgue imaginar a agitação de narinas interessadas?) adotado por Pearl em seu romance de estréia, ler Clube Dante  é uma experiência divertida. Quem é que, gostando de literatura, não acha empolgante ver mistérios criados por livros gerando crimes reais, ou então ver escritores correndo pra lá e pra cá em aventuras perigosas ? Esse era um dos encantos de O nome da rosa.

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Não há como negar que Pearl nos transmite muito bem o clima intelectual de Harvard e Boston. Particularmente bem sucedido  nas figuras do timorato e pusilânime, por vezes, Wendell Oliver Holmes, e do destemido e temperamental James Russell Lowell, a amizade entre ambos,  feita de embates  é o destaque do livro, sem dúvida. Por outro lado, quem sai perdendo no livro é Dante.  No que se refere ao uso do poema na trama, tudo é clichê e trivial. E, é lógico, mais uma vez se sacrificou  a estrutura tripartite, ignorando-se solenemente o Purgatório e o   Paraíso, e insistindo-se no Inferno. Que o assassino inculto fizesse isso, tudo bem, mas que chances foram desperdiçadas ao longo das discussões dos membros do clube no decorrer da narrativa! Quem pode esquecer, no romance de Umberto Eco, as apaixonantes discussões sobre Aristóteles (e esse, com certeza, era um dos encantos de O nome da rosa) ?

Além disso, e é algo que contamina até a apelativa capa colocada pela editora Francis [com a tradução de Maria José Silveira, não se entende muito bem a insistência de Pearl nas moscas varejeiras, que deveriam  fazer parte apenas do primeiro crime, mas ganham uma amplificação forçada e até de mau-gosto no  início do romance, e depois reaparecem aqui e ali sem ter o que fazer, após a morte do juiz culpado de indiferença, a ponto de fazer a Grande Negação.

Talvez ao  pesquisar para o livro, Pearl tenha fica muito impressionado com a existência dessas moscas. No terceiro mundo, ela não nos causam qualquer espécie.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 26 de novembro de 2005)] 

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O autor como personagem de si mesmo e dos outros: Edgar Allan Poe

 

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Nos 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o leitor pode encontrar duas obras sobre ele: a biografia-almanaque O Livro Completo de Edgar Allan Poe e o romance A Sombra de Allan Poe[1].

A biografia escrita por Shelley Costa Bloomfield é muito  prejudicada pelo bizarro aparato que cerca o texto principal. O livro se assemelha àquelas páginas da internet nas quais vão se abrindo janelas e janelas. O que parece evidente, no entanto, é a falta de confiança na inteligência do leitor, infantilizado por uma divisão idiota em subtítulos e janelas explicativas (pífias e cheias de informações banais) que fica mais chocante ainda porque o trabalho de Bloomfield, discutível na medida em que se deixou editar desse jeito, é bastante sólido: ela nos dá uma boa medida de como Allan Poe foi precursor de Fernando Pessoa em imaginar vidas alternativas à sua deprimente condição de pobreza, estendendo a literatura até os seus dados biográficos, incessantemente recriando sua ascendência e até seu nome.

Já o romance de Matthew Pearl mostra mais uma vez, após O Clube Dante, o domínio que ele tem do século XIX. A narrativa é feita por Quentin Hobson Clark, jovem advogado de Baltimore que, ao saber que seu ídolo literário morreu em sua cidade e foi enterrado de forma tão indigente, resolve investigar os fatos que cercam esse triste fim, como num relato policial. Ao fazer isso, perde sua posição social, sua noiva e até é preso, acusado de tentativa de homicídio, escapando da prisão de uma forma bem romanesca, durante uma enchente.

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Antes de ficar nessa situação que o irmana à vida terrível que Poe levou, ele vai a Paris em busca da pessoa que supostamente teria inspirado os dons de dedução e raciocínio do mítico detetive dos contos de Poe, Auguste Dupin. E aí Pearl tem o maior achado de seu texto porque aparecem em Baltimore dois candidatos que rivalizam para ser o protótipo de Dupin e dar a solução ao caso: o Barão Dupin, um charlatão, especialista em disfarces, intimidação e penetração no submundo, que conta com uma ladra assassina, Bonjour, para as suas ações, e o melancólico e aparentemente inerte (em termos de ação) Duponte, o qual se instala na casa de Clark e cuja principal ocupação é ler jornais.

As implicações da morte de Poe, segundo o relato de Clark, envolveriam até os problemas políticos da França e os parentes “americanos” de Napoleão.

A Sombra de Allan Poe tem seu calcanhar-de-aquiles no narrador: raras vezes se viu um protagonista tão tolo e bocó quanto esse Quentin Hobson Clark. Além disso, assim como na sua obra anterior, Pearl mostra que não aprendeu a grande lição de Edgar Allan Poe: a criação de uma narrativa enxuta, no tempo certo, em que o efeito é construído pela ausência de lengalenga. Umas cento e cinqüenta páginas a menos e o romance seria outro e melhor. E, por favor, outro herói, menos indigno do mestre.

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2009


[1]  O primeiro, lançado pela Madras, com tradução de Soraya Borges de Freitas; o segundo, cujo título original é The Poe Shadow (EUA, 2006), traduzido por Maria Inês Duque Estrada (Ediouro).

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