MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/07/2011

O centenário de McLuhan

(publicado em  A TRIBUNA de Santos em 26 de julho de 2011)

“O crítico tende a preferir hierarquicamente os valores de uma época precedente que foram erodidos pelos novos desenvolvimentos. O crítico é como o contador que calcula lucros e perdas”.

No dia 21de julho, o autor das palavras acima, Marshall McLuhan, completaria 100 anos. Falecido em 1980, está mais vivo que nunca: cunhou um termo que passou a fazer parte do nosso vocabulário (e imaginário): aldeia global, e pioneiramente analisou como as mídias e inovações tecnológicas interferem na criação, percepção e fruição da arte. Suas obras mais conhecidas, A Galáxia de Gutenberg, O Meio sãoas Massagens (trocadilho com sua própria máxima, também célebre: “o meio é a mensagem”), Guerra e Paz na Aldeia Global, nos anos 60, anteciparam fenômenos da nossa época, mas embora se tornasse uma celebridade, aparecendo até num filme emblemático da década de 70, Annie Hall (ou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), de Woody Allen, não era respeitado como pensador: por  exemplo, ao se referir a ele no seu aguerrido A Era dos Extremos, o historiador-mor do nosso tempo, Eric Hobsbawn o qualificou desdenhosamente como “guru”.

A citação que abre meu texto pertence a outro livro importante (menos conhecido): Do Clichê ao Arquétipo (1971)[1], e é bem característica do estilo mcluhasiano: provocativa, meio desmoralizante, e com um fundo de verdade inegável. Aliás, o volume é um registro contundente da originalidade do autor canadense, tão menosprezada pelo mundo acadêmico: é constituído por 29 textos aforismáticos, fragmentários, em que uma enxurrada de citações colide (é o único verbo que me ocorre) com opiniões e afirmações que não formam um conjunto sistemático, mas pipocam, pululam, dando ao conjunto o efeito de um pensamento em curto-circuito, em faíscas, muitas delas sensacionais, verdadeiramente “inflamáveis”.

Para McLuhan, somos estimulados o tempo todo por clichês “ambientais”, que são sondagens e ajustes das nossas percepções às técnicas do momento[2]. Portanto, a visão de clichê, aqui, é potencialmente positiva, no estágio tribalista em que estamos. O arquétipo seria a tentativa nostálgica de resgate dos clichês de um estágio já ultrapassado.

Esgueirando-se em meio a essa elétrica tensão entre clichê e arquétipo, o maravilhoso “guru” (que me desculpe o grande Hobsbawm) examina o teatro do absurdo (o livro abre com considerações sobre A Cantora Careca de Ionesco), as contribuições de Joyce e T.S. Eliot para um “método mítico” na literatura, as emoções, a dúvida, a consciência, os gêneros, o humor, a paródia (um ponto alto; diga-se de passagem, não são poucos os momentos em que ele inova todos esses temas com suas leituras surpreendentes), o olhar, o ouvir, o paradoxo, tendo como guia virgiliano nesse mundo dantesco das manifestações do mal estar da civilização, os versos de Yeats, nos quais  o poeta diz:

“Aquelas imagens poderosas, porque plenas

Na pura mente nascidas, mas de que geradas?

Um monte de lixo ou varredura das ruas,

Velhas chaleiras, velhas garrafas, lata amassada,

Ferro velho, velhos ossos, velhos trapos, a puta delirante

Guarda a caixa. E com minha escada desaparecida,

Devo deitar-me onde começam todas as escadas,

Na suja loja de quinquilharias do coração”. [3]

Joyce, Eliot e Yeats à parte, gosto mesmo é das anedotas mais próximas ao cotidiano, como a seguinte em que um aluno lê uma frase que redigiu para a professora (O menino voltou para casa com um clichê na cara), espantando-a. A explicação: “No dicionário clichê é definido como uma expressão esgotada”.


[1] Há uma antiga tradução de  Ivan Pedro de Martins publicada pela Record. O livro tem a colaboração de Wilfred Watson.

[2] “Todos os meios de comunicação são clichês que servem para o homem aumentar a extensão de sua ação, seus padrões de associação e sua consciência”,

[3] “A emoção como uma sonda-clichê desenterra muitos clichês antigos da loja de coisas usadas”.

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