MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/11/2010

O projeto mais ambicioso da “voz do século XIX”

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 25 de agosto de 1998)

Após a biografia de George Eliot, assunto na semana passada desta coluna [VER: https://armonte.wordpress.com/2013/10/14/tijolaco-biografico-pouco-ajuda-a-conhecer-george-eliot/], parece oportuno comentar também DANIEL DERONDA (1876), o projeto mais ambicioso da autora inglesa (para ela, seria sua obra-síntese), e que só no início deste ano apareceu em edição brasileira (pela Paz & Terra, em tradução de Marisis Aranha Camargo).

     Daniel Deronda entrelaça a história do personagem-título com a de Gwendolen Harleth. Ambos se conhecem num cassino, pouco tempo antes de Gwendolen saber que sua família está arruinada. Ela se salva da pobreza casando com Grandcourt, herdeiro do “padrinho” (e, para muita gente, pai verdadeiro) de Daniel, e o casamento é mais uma daquelas armadilhas que os autores do século XIX adoravam preparar para suas heroínas.

Se Casaubon, marido de Dorothea Brooke, a heroína de Middlemarch, era mais patético do que perverso, mesmo atormentando-a, Grandcourt é um dos maiores vilões psicológicos da literatura, antecipando um pouco Gilbert Osmond, de Retrato de uma senhora. É engraçado que Henry James tenha criticado tão duramente Daniel Deronda quando apenas quatro anos depois apresentaria uma trama tão similar, em que o marido sente prazer em tolher e aterrorizar a esposa.

Enquanto Gwendolen se debate entre as poucas opções reservadas à mulher de sua época (ao contrário das suas pueris suposições juvenis), mesmo que tocada pela “influência” de Daniel, este por sua vez vai ter de ajustar contas com seu passado misterioso.

Até salvar a judia Mirah do suicídio e começar a procurar os parentes dela (mãe e irmão) no bairro judeu, ele acreditava ser filho bastardo de sir Hugo Mallinger. Acaba descobrindo que também tem ascendência judaica, e da tentativa de ser um “cavalheiro” inglês, ele passa, por causa do seu amor por Mirah (e por causa do fascínio pela figura de Mordecai, o irmão dela) a “tornar-se um judeu” para servir sua raça.

Sempre atenta para a possibilidade de trazer o trágico e o mítico das literaturas clássicas para o mundo vitoriano, George Eliot faz da evolução pessoal de Daniel uma espécie de atualização da história de Moisés, o judeu que foi criado longe da sua raça, mas que o destino acabou encaminhando para ela no sentido de tornar-se um líder. É preciso que o leitor de hoje perceba como foi audaciosa a atitude da autora de O moinho sobre o rio em abordar o universo judaico, praticamente ignorado e desprezado na sua época.  E, como se vê, o homem tem, em Daniel Deronda, uma possibilidade de heroísmo e transcendência de si mesmo que são negadas à mulher.

Apesar da grandiosidade da concepção de Daniel Deronda e do teor enciclopédico que vai adquirindo, a partir da seção chamada Mordecai, e que o torna precursor do romance do nosso século, é preciso admitir, como tantos já fizeram antes, que há um desequilíbrio gritante entre as partes de Gwendolen e Daniel.  Até o final da seção chamada Gwendolen faz sua escolha, o livro é uma obra-prima perfeita e consumada. Depois, embora continue extraordinário e inusitado, mostra-se muito exagerado e atravancado ao narrar a amizade de Daniel e Mordecai e a conversão do primeiro ao judaísmo.

O grande problema, talvez, é que enquanto Gwendolen e Grandcourt são personagens incríveis, complexos, absorventes, Mordecai, Mirah e as mulheres da família Meyrik que a acolhem, são nobres demais, chegam às raias do insuportável de tanta boa vontade e bom caráter, além de serem “literários” demais, quase pomposos.

Acaba sendo um alívio quando Gwendolen volta à cena (para que o  leitor testemunhe a morte de seu marido, um ponto alto do romance), quando Daniel tem um terrível e cruel encontro com a mãe,  que nunca conhecera (outro ponto alto) ou quando reaparece na vida de Mirah e Mordecai seu pérfido e decaído pai (mais outro ponto alto).

Toda a sordidez, o egoísmo, a angústia e o sofrimento que um ser humano pode causar a outro garantem mais interesse e charme ao romance, por incrível que pareça, do que todo o projeto utópico e messiânico que George Eliot incute na “conversão” de Deronda à causa judaica, embora ela funcione como um contraste fascinante com a limitação do destino de Gwendolen.

Mesmo assim, com todo esse desequilíbrio, Daniel Deronda é um romance estupendo, lembrando os livros tumultuados, sobrecarregados e geniais que D.H. Lawrence viria a escrever (por exemplo, Mulheres apaixonadas) e que Doris Lessing vem escrevendo nas últimas décadas (por exemplo, Os filhos da violência).

Quando se lê no prefácio de O caderno dourado afirmações discutíveis de Lessing, tais como “George Eliot foi razoável na sua  pequena ousadia;  acho que ela pagou o preço de ser uma mulher vitoriana; ela precisava se mostrar uma boa mulher; mesmo quando não estava de acordo com as hipocrisias de sua época—há muita coisa que ela não entende porque é moralista”, só se pode crer que, assim como no caso de Henry James, trata-se da velha questão do discípulo renegando o mestre. E que mestre!

nota- o título deste post se deve à biografia de Frederick R. Karl, George Eliot, a voz de um século, publicada pela Record em 1998.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/11/22/mundo-imerso-no-mundo-a-maior-rival-de-tolstoi/


 

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