MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/08/2016

PÁSSAROS DE PERDIÇÃO: “Liturgia do Fim”, de Marilia Arnaud

Liturgia do Fim - Livro Marilia Arnaud

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2016)

 

Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possí- vel, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais –, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações…

…que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

(Franz Kafka, Carta ao Pai)

 

Há um detalhe emblemático em LITURGIA DO FIM: em sua volta à fazenda natal, após trinta anos de afastamento (fora expulso), o protagonista Inácio rememora um presente do casamento dos pais, um conjunto de louça com motivo de pássaros, que o pai, homem brutal e tirânico, quebrará em mil cacos, guardados cuidadosamente pela mãe. É uma analogia com o íntimo do próprio Inácio, no reencontro com o pai, o outro único sobrevivente na numerosa família Boaventura: “Meu estômago escoiceava numa náusea de mil cacos de vidro”.

Nem construindo uma vida urbana, Inácio escapou de Perdição, o seu lugar de origem, e das estruturas elementares do parentesco: “Não compreenderei se lhe dissesse que durante todos os anos em que estive ao lado de Ieda e Isabel experimentei com frequência a sensação de que a vida, a vida real, a minha vida estava em outro lugar, como se ali, ao lado delas, eu fosse apenas um personagem investido de determinado papel, de certo modo conveniente, que me tinha sido oferecido sei lá por quem, porque eu não me lembrava de tê-lo escolhido, eu simplesmente aprendera as falas com relativa facilidade e, ao longo das temporadas, fora se tornando cada vez mais sofrível, até as falas e os atos restarem impraticáveis, até eu ter de me tirar de cena”.

Como uma ginasta que não comete erros, Marilia Arnaud, arma suas piruetas e saltos mortais em torno de uma coreografia de metáforas que vão se espiralando sem vacilo; muito pelo contrário, o leitor fica com a respiração suspensa entre a densidade do narrado e a linguagem grave e austera, contudo lindíssima, a qual só em conta paralelo em Francisco J. C. Dantas, autor da obra-prima, “Coivara da Memória”.

Já ouvi muitas vezes – e sempre achei uma bobagem – que é mais fácil um escritor masculino usar uma voz narrativa feminina, do que uma mulher fazer o contrário. Poderia citar diversos exemplos que contestariam esse preconceito.            Mas a leitura de LITURGIA DO FIM, basta.

Seu romance anterior, “Suíte de silêncios”, já revelava um enorme talento para a ginástica com as palavras e sua estreita relação com a dor de existir; porém, às vezes se deixava levar pelos estereótipos da famígerada “escrita feminina”.

Com LITURGIA DO FIM, na contracorrente de Inácio Boaventura, ela se libertou de todas as gaiolas. No panorama literário de 2016, merece incontestavelmente a medalha de ouro.

 

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TRECHO SELECIONADO:

“A camisa colocava-se ao meu corpo. Detive-me sob jabuticabeira para me secar um pouco, beber água e fumar um cigarro. As bolinhas pretas que recobriam o tronco e os galhos assemelhavam-se a um monstruoso enxame. Na trama negra do solo, insetos apascentavam-se de frutos maduros. A fumaça do cigarro não tornava menos fulgurantes as coisas ao meu redor. Um sabiá, de minhoca de bico, esvoaçava de um galho a outro, inquieto com a minha presença, os filhotes num pipilar aflito, resguardados no ninho algum lugar acima da minha cabeça. Metido entre a vegetação rasteira, um camaleão de pele verde mantinha um olho em minha direção, outro fixo na presa, um besouro de casco luzidio. Por toda parte abriam-se os cálices das onze-horas, e, num pedaço de chão, as delicadas nuvens desenhavam um céu de pétalas.

Fora de mim, vibrava em toda a plenitude um universo sólido, claro, reconhecível, do céu à terra a vastidão de um reino de beleza a resplandecer contra minha dor, mais insuficiente para remediá-la.

Num dos trechos mais íngremes da subida, em que a picada serpenteia entre um córrego e uma pedreira abandonada, a fachada da casa branquejou e um gavião enterrou-me o bico do peito, a mesma estocada de quando me virei para olhá-la naquela manhã que julguei ser a última em Perdição.

Depois de haver sido escorraçado por papai, estivera alguns dias escondido no grupo escolar abandonado, ideia de mamãe, que me levava comida e me pedia paciência e serenidade, pois logo, logo tudo iria se resolver da melhor forma. Eu não percebia como as coisas poderiam se arrumar com Joaquim Boaventura ofendido em sua honra de pai, desbancado em sua imagem de homem intocável e, além do mais, já me fazendo distante de Perdição.

Trancafiado dia e noite no quadrado de paredes emboloradas, ouvindo a suindara rasgar com seu grito a mortalha da noite, tão assustado quanto os ratos que cruzavam o chão de esteira onde eu dormia, debatia-me, como o autor de um crime indefensável, entre o desejo de morrer e o de me entregar. Qual a atitude menos indigna? De qualquer forma, estaria morto, porque se um pai, de quem um filho herda a vida, diz-lhe estás morto, não há por que duvidar, nem de quem se valer, sentença de condenação irrecorrível”.

Liturgia do Fim - Jornal

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16/02/2014

Percurso pelos afetos de Marilia Arnaud

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“Quero pensar assim também, que não vai morrer, que não me consola nada essa história de que algumas pessoas, e Mamãe estaria entre essas, quando morrem, vão para o céu, um lugar destinado aos puros de coração, onde não existe nenhum sofrimento, mas também de onde não é permitido retornar, de onde nunca ninguém escreveu uma carta, nem telefonou para falar de saudade. Um lugar que não pode ser encontrado em nenhum mapa, distante de chegar, impossível de sair. O infinito de Deus. Foi assim que aprendi. E como isso é cruel! Quero Mamãe junto de mim. Não quero esquecer seu olhar de fada. Não quero esquecer que sou um filho.” ( trecho de Nem as estrelas são para sempre)

“Tanto encantamento para dar no que deu. Lembro-me do dia em que lhe perguntei se amor acabava e você me respondeu rindo, certa da eternidade do seu, quando se parte, Ursinha, é porque não era cristal de verdade. Quando penso nas coisas que me contou sobre as noites de vocês dois, os beijos, as juras de paixão, os projetos para futuro, e o amor! Ah, Bel, o amor! Você me dizia assim: quando fazemos amor, Ursinha, penso que vou morrer. E nem precisava me explicar nada, pois a expressão fazer amor ficava ecoando em meus ouvidos, rendia horas em minha imaginação, soprava um braseiro no meu sangue. Então, Bel, quando penso nisso tudo, no que você teve e perdeu, aí entendo como é que o amor pode se transformar em noite escura, em bicho feroz, e atormentar e devorar as pessoas, como fez com você.” ( trecho de Cristal partido)

(O texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em fevereiro de 2014-Advertência ao leitor: com exceção da primeira, nas notas de rodapé, revela-se o final dos contos)

Foi através de um romance, Suíte de silêncios (2012)[1], que comecei a ler Marilia Arnaud. Após a leitura tardia da última reunião de contos publicada por ela até agora, O LIVRO DOS AFETOS, ainda que fique na maior expectativa quanto a uma futura produção romanesca da autora paraibana, torço para que não desista da arte da narrativa curta, tal a maturidade e o equilíbrio entre leveza e densidade alcançados nos nove textos da coletânea de 2005 (sua terceira).

O título não poderia ser mais preciso: trata-se de fato de uma enciclopédia ficcional de afetos, desde as relações familiares, que percorrem o espectro que vai do geracional (pais, filhos e irmãos) ao conjugal, até as eróticas extracurriculares—por por assim dizer—, na vigília e no sonho.

Marilia Arnaud trata do lastro afetivo concreto, atávico ou construído ao longo da existência, todavia como se O. Henry fosse “possuído” por Arthur Schnitzler, seus textos revelam ainda mais a sombra desses afetos, uma espécie de fantasmagoria afetiva que muitas vezes descostura e esgarça o tecido dos sentimentos urdidos ao nosso redor, o tecido do que aparentemente é a nossa realidade (com as relações efetivas que ela demanda).

Em Açucena, o último conto, o narrador nos fala do “sorvedouro de forças ocultas, passos em falso, respostas provisórias” a marcar seu amor por Açucena, ou melhor, as projeções e obsessões que a sombreiam: “Ciúmes daquilo que eu não sabia o que era, mas de que Açucena estava tão densamente impregnada, um sentimento maior, algo de que me sentia irremediavelmente excluído”.

Essa exclusão tem o seu peso atávico, daquilo que corrói o narrador desde a infância (“Não queria contar-lhe de um pai de quem nunca ouvira falar, de uma mulher que sumira sem deixar vestígios, e a quem eu, se quisesse, poderia chamar de mãe. Sim, fui à escola, joguei bola, fiz alguns amigos, conheci mulheres, mas nunca falei para Açucena das minhas dificuldades com tudo isso…”); e tem o peso do ciúme machista, da tentativa do macho de controlar a vida e os prazeres da “fêmea”, tornando-o “fraco, mesquinho e louco”: “Que fazer se a redenção vinha com o aconchego dos seus braços, com a visão do gozo boiando-lhe nos olhos? Mesmo daquilo passei a descrer. Das palavras e gestos que celebravam o seu desejo por mim”.

Nunca ouviremos Açucena. Apenas teremos o debruçar-se do narrador sobre sua presença e sua ausência, mais um “dos milhões de espectros que me habitam desde a infância”.

No texto não há uma única cena ou referência que justifique esse lento envenenar da relação pelo ciúme e pela desconfiança, e mesmo assim Açucena é eivada de um teor fantasmático antes mesmo do desfecho[2].

Mesmo nos textos em que há uma situação “extracurricular” explícita ou confessada, não se desatam os nós da incerteza, da dúvida, nem diminui a fantasmagoria.

No texto que abre o volume, Os dias revelados, a esposa revela ao marido (o relato é ardilosamente construído como uma espécie de confissão-desabafo, ela querendo que ele a ouça, enfim: “Fica tranquilo. Nada do que eu te disser hoje te fará sofrer mais do que sofreste.”) que teve um amante, uma relação degradante, com um sujeito maltrapilho, morador de periferia, envelhecido e que pouco ligava para ela (a qual chegava a ficar esperando horas na porta da casa dele a sua volta, geralmente vindo de algum boteco):

“Como num campo gravitacional, eu era tragada, arrastada, devorada pelo buraco negro, e mesmo quando te olhava, Eugênio, eu não te via, e estando junto a ti, em verdade eu estava lá, com ele, ou o esperando, diante da porta fechada, sentada nos degraus da entrada, exposta aos olhares hostis ou compassivos dos vizinhos, enquanto ele se embriagava em algum bar imundo, para depois, num acesso de fúria, atirar-se contra as paredes, socando-as até os dedos sangrarem. Então, eu o odiava e o amaldiçoava. Velho, bêbado, patético, como ousava deixar-me jogada ali, refém da sua indiferença e egoísmo? O que mais queria?”

Enquanto isso, o marido estava  ali, à mão: “Queria, sim, guardar-te em uma caixa confortável, tu, teu violino, tuas peças e partituras, o moto-perpétuo dos teus harmoniosos acordes, teu belo universo da música, o tempo necessário, a eternidade se preciso fosse, para viver com inteireza aquela história.”[3]

    Uma relação extraconjugal também é o cerne de A mulher do próximo, no qual o filho transa com a nova (e bem mais jovem) esposa do pai. Quando o conto começa, ela vem dar um ultimato à relação, recapitulada então por ele, assim como a sua formação enquanto homem, enquanto figura masculina, um dado muito importante no texto:

“Não havia sido uma criança bonita. E, como homem, não atraía os olhares femininos. Às vezes, ouvia pessoas comentarem que a ausência de beleza era algo irrelevante diante da firmeza de caráter. Porém, estava convicto de que, por não possuí-la, eu fora, de certa forma, negligenciado por minha família quando criança, principalmente por minha mãe, tornando-me um adolescente retraído e inseguro, habituado à solidão, ao sentimento de estar sempre à parte.

    Mais tarde, quando beirava os dezoito anos, a primeira mulher com quem me deitei, bela e experiente, acabou me convencendo, ao longo de muitas noites, de que eu era dono de braços fortes e rosto másculo e de que fazia sexo como se fosse pela última vez e com a única mulher existente na face da terra. Eu não  podia ser melhor do que era. A partir daí, deixei de considerar-me uma desgraça irremediável. Aceitei-me. Contudo, a sensação de desamparo e autocomiseração nunca me abandonou por completo.”[4]

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Considero A mulher do próximo o mais bem-realizado dos contos de O LIVRO DOS AFETOS a abordar situações adúlteras, não só pela qualidade do texto, de ponta a ponta, mas também por mostrar como um contista de qualidade pode nos fazer intuir um mundo de intrigas a mais, uma série de acenos dos bastidores, sem precisar ser explícito ou expositivo a respeito (e, paradoxalmente, isso também é um ótimo laboratório para um futuro romancista, que queira aproveitar essas intrigas deixadas em suspenso). Numa mera cena de despedida, toda uma vida de família é pressentida, além da existência do grande enganado (será mesmo?), o pai (“Não imaginava que tivesse virilidade para amá-la. Até a noite em que fui surpreendido pelos gemidos dois dois. Aquilo me transtornou. Enquanto eu perambulava pela casa, sem conseguir dormir ou fazer qualquer outra coisa, a vadia deitava-se com o pai, para logo na tarde seguinte deitar-se com o filho e deliciar-se com isso, com dois homens, numa mesma casa.”).

Essa qualidade se faz ainda mais presente naquele que considero o ponto alto da coletânea, Nem as estrelas são para sempre, cujo narrador é um menino ressentido com um pai brutal (o qual tem uma paixão pela irmã da esposa—o filho surpreende-o em declarações amorosas) que o rejeita devido à falta de virilidade ostensiva, e angustiado com a morte iminente da mãe pelo câncer. Todo o relato da dinâmica familiar, antes e após a doença se instalar na casa (tendo como consequência a vinda da tia, para cuidar da mãe) é agudo e preciso. Fica até difícil escolher alguma passagem específica, tão bom é o resultado[5] (se eu fizesse uma antologia do conto contemporâneo brasileiro, inclui-lo-ia sem hesitar).

Outros pontos altos de O LIVRO DOS AFETOS, e meus favoritos, junto com Nem as estrelas são para sempre: A noite de Alícia, O homem que veio do sonho e Cristal partido (especialmente este último).

A noite de Alícia é emblemático do aspecto fantasmático, de sombra do real, dos afetos dos quais se ocupa a autora.  O narrador visita Alícia, sua parente de segundo grau, uma visita formal e meio forçada (“Pergunta-me pela família, a nossa. Conto-lhe da doença do meu pai, dos casamentos e divórcios de primos que ela conheceu ainda adolescentes, de nascimentos e mortes… tenho a impressão de que me ouve com atenção, mas sem entusiasmo”), mas na verdade o que ocupa a sua mente é uma outra Alícia, quando ela tinha 19 anos (ele, 14—novamente em questão a formação de um homem[6]), que vira nua e a quem espreitava (assistindo inclusive a uma sessão de masturbação).

Enquanto que para ela, é apenas uma visita de obrigação, uma cerimônia maçadora, para ele é uma tentativa proustiana meio gorada[7] (o que nos dá uma pista do que foi a vida dele dos 14 anos até agora), de rememoração de certos ritos de passagem e de uma educação sentimental pessoal (e, mais uma vez, temos uma ação nos bastidores, que nunca será totalmente esclarecida: os motivos da estadia de Alícia na casa dele).

Tanto O homem que veio do sonho e Cristal partido abordam crimes ligados a sexo: no primeiro, único caso de narração em terceira pessoa no conjunto, o mundo dos sonhos, das pulsões transformadas em imagens de perigo e abuso, vai infiltrando-se na realidade com grande habilidade e senso de “atmosfera” (como quando, acordada, a jovem Dalila vê no jardim da sua casa o seu abusador na esfera onírica: “…lá estava ele, a uma distância mínima, desertor do seu sonho, usurpador da sua realidade e espaço, erguendo para ela a cara medonha, tragando-a com o mesmo olhar de areia movediça”[8]); no segundo, a narradora, Ursinha (um apelido infantilizador) é amiga (e pelo visto, apaixonada por ela) da empregada da sua casa, Belmira (são indícios que a narrativa semeia e deixa para a imaginação do leitor), que se envolve com um homem que ela terminará por assassinar, antes de desaparecer. O relato é feito depois que a narradora descobre o crime, deixando ali no local um bilhete comprometedor para a amiga (um esquecimento dos mais ambíguos: “Estou sozinho, eu e o nosso segredo, e nem sei até quando conseguirei guardá-lo, porque o bilhete, me perdoe, Bel, acho que esqueci o maldito lá na casa de Antonio, não sei exatamente onde, mas, no momento do desespero, acabei largando o envelope no meio daquela bagunça toda e só me dei conta de que o havia perdido quando já estava na rua…”; “Sei que se estivesse no meu lugar e fosse eu quem tivesse escrito o bilhete, você voltaria lá para pegá-lo. Sinto muito, Bel, mas me falta coragem. É tudo tão monstruoso! Penso que irão encontrá-lo e a culpa vai ser toda minha…”).  É um conto excelente, digno dos melhores momentos da grande Lygia Fagundes Telles.

Assim, Dalila e Ursinha, antes mesmo de viverem experiências mais adultas e percorrer o mundo de afetos, conhecem o seu avesso sombrio e destruidor. E espero que a essa altura do meu percurso pelo universo de Marilia Arnaud, já se tenha dado conta de quão necessária é uma nova edição de O LIVRO DOS AFETOS, pois a da 7Letras (dentro daquela interessante Coleção Rocinante) encontra-se atualmente esgotada.

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[2]  Numa atitude, cara á cultura machista brasileira, o narrador prefere matar Açucena a ser abandonado por ela. E a tessitura pessoal da vida da mulher (Açucena faz poesias) é referida de modo cruel e desprezivo: “Açucena iria compor seus versos no silêncio do plâncton, liquens, nácares”.

[3] É preciso dizer que a despeito da progressão dramática do conto ser impecável, os dois últimos parágrafos decepcionam e esvaziam um pouco do seu efeito. Parte-se para uma abstração “poética” e cheia de imagens mal resolvidas que pouco têm a ver com a crueza (e crueldade calculada, penso eu) da confissão:

“É verdade que me agarrei a este homem com todo o desespero e a esperança de uma náufraga. Não, não me salvei, se é isto que queres saber. Meu barco tem o casco rebentado e, vez em quando, aderna sob a influência de instáveis e misteriosas correntes subterrâneas, mas a tempestade se foi e, junto a ti, estou tateando uma certa ordem para tantas e turbulentas emoções, buscando uma reconciliação com o nosso frágil universo. Frágil e despedaçado, sim. Todavia, e tu hás de concordar comigo, real, possível.

   E agora que são passados todos esses anos, Eugênio, o que te revelo me parece tão irreal quanto uma dessas histórias que vemos no cinema. Ou que vivemos em sonho. Um sonho obscuro  e opressivo, quase um pesadelo. Um tempo impreciso, pontuado apenas pelo sussurro de Deus, um lugar indefinido jamais alcançado pela luz do sol, torres e catedrais em ruínas, despojos, cadáveres farejados por assombrosos animais, pântanos, mangues, rios de águas vermelhas, e eles dois, sobreviventes de uma fera chamada vida, condenados, num perverso sortilégio, a dançar infinitamente o ilusório e noturno tango dos amantes.”

Tirante o trecho por mim grifado em itálico, e que nos remete justamente à atmosfera das histórias de Schnitzler (em que um dos polos de uma relação tenta fazer entender o outro suas fantasias e reptos, o que nunca dá certo, na verdade), esse final do texto pouco tem a ver com a qualidade das páginas precedentes e, por esse motivo, como um conto geralmente é construído para um efeito final, Os dias revelados, não ficou entre os melhores de O LIVRO DOS AFETOS.

Outro texto que também trata de uma aventura extraconjugal muito calcada na fantasia, e que é muito bom até que o final estrague todo o efeito, é A Passageira.

Nele, o narrador iria se encontrar com a esposa, Una, para o tradicional jantar “em algum bom restaurante”. Em meio ao trânsito, uma desconhecida entra no seu carro, cobrando dele que, desta vez, fique com ela para sempre. Embaraçado com a situação, e acabrunhado com a possibilidade de um mal entendido com Una, nem por isso o narrador deixa de observar atentamente a mulher. O magistral no texto é a mudança de registro: primeiro, ela não lhe é nada atraente, mas conforme vai se deixando levar pela situação, a passageira vai lhe despertando cada vez mais o desejo, e de repente, é como se ele não tivesse uma vida anterior para voltar, e sim uma existência alternativa com aquela desconhecida.

E aí então, após chegar a um ponto sensacional do texto (“A mulher veio limpar-me e acomodar-me na cama onde havíamos feito o bebê, num tempo que eu nunca imaginara ter existido. Ela sorria, e como ficava bonita quando sorria. Seus traços suavizavam-se. Quis falar-lhe disso, da sua beleza, que acabara de me ser revelada, mas antes que pudesse fazê-lo, antes mesmo que pudesse amá-la, adormeci.”), a autora entorna o caldo e nos dá uma banal frase final, para mim, uma sentença aniquiladora: “Quando acordei, Una dormia ao meu lado.”!!!!???

E ainda outro texto problemático, nessa mesma linha sobre adultério: Girassóis no inferno. Boa parte dele é sensacional: o marido da narradora, Arturo, morre (enfarte), num lugar ermo, durante um encontro amoroso com uma desconhecida. A esposa fica obcecada não só com o lugar do encontro fatal (“Tardes inteiras, eu imóvel, deitada à sobra da figueira, única árvore num raio de quilômetros, onde ele estacionara o carro àquela manhã de verão, para estar fora do alcance de olhos alheios. Ali ele amara a mulher que eu não sabia quem era…”) como também—e sobretudo—com  a identidade da amante (“Todos os dias, dormindo ou acordada, sonhava com a mulher em cujos braços Arturo estivera pouco antes de partir”. A única pista é um conjunto de poemas estranhos, herméticos, desafiadores.

Na verdade, o leitor logo desconfia que não se trata de uma mulher. E, de fato, após levar os poemas para um especialista, ela recebe a visita de um rapaz, autor dos poemas e o verdadeiro amante do marido. Não que a realização do conto resida nessa “surpresa”, mas não só ela não é nenhuma surpresa (a não ser para os muito incautos), como também é encenada de modo pouco sutil. O maior problema, no entanto, é que depois da aparição do rapaz e a “surpresa”, a autora parece não saber muito bem como terminar a história. Não dá para o leitor se contentar com a fuga do rapaz e essas frases banais:

“Num ímpeto, levantei-me e corri atrás dele, mas acabei voltando antes de tomar o elevador. Aquilo não se fazia mais necessário. Estava tudo acabado e eu acordava de um longo pesadelo.

  Sobre a mesa, enxerguei a pasta onde guardara os poemas, cujo autor se fora sem que eu tivesse a oportunidade de lhe dizer como a incompreensão de seus versos havia me assombrado.”

   Portanto, os três textos (Os anos revelados, A passageira, Girassóis no inferno) deixam a desejar, (lógico que dentro da formulação tradicional do conto como criação de um “efeito”) justamente pelo final, que os enfraquece consideravelmente.

 [4] Ao contrário dos outros contos adulterinos citados, o final de A mulher do próximo é perfeito: “Num esforço, ergui-me e fui embora, com a sensação de que ela me seguia com o olhar. No final da alameda, voltei-me e, para minha surpresa e frustração, Ana Laura mantinha-se na mesma posição em que a deixei, sentada, a cabeça baixa, o olhar fixo nos próprios sapatos.”

[5] Eu adoro o final: “Esse porquê, da paixão secreta de meu pai por Tia Corina, é tão grande e perigoso quanto o da doença de Mamãe. E parece que quando não se tem a quem perguntar, onde buscar a resposta, o porquê vai inchando e apodrecendo dentro da gente, feito comida estragada. E esmo que tivesse coragem de matar meu pai, pois eu poderia, se quisesse, acabar com ele de alguma forma, sem que a gente tivesse de ficar frente a frente, bastando, para isso, descobrir em qual canto desta casa Mamãe guarda veneno para ratos, ainda assim, se eu o matasse, continuaria com todas as interrogações latejando dentro do meu peito, ainda assim, não poderia remendar as asas machucadas da borboleta, nem fazê-la voltar a voar.”

[6] “Nessa época, ainda não conhecia as mulheres. Tudo o que sabia a respeito delas me era contado pelos primos mais velhos. Bolinavam as namoradas e pagavam para deitar com umas mulheres que faziam ponto no centro da cidade. Putas. Bastava essa palavra, pronunciada por qualquer um deles, para me pôr os nervos à flor da pele. Então, dizia para mim mesmo que logo iria chegar a minha vez. Sabia, mais ou menos, como deveria agir, embora intuísse que as coisas nunca se passavam exatamente do jeito que a gente imagina. Os primos, fanfarrões e cheios de si, viviam me perguntando o que eu esperava para estar com uma delas. Não sabia. E eles se divertiam em zombar daquela minha fraqueza…”

[7] “Oferece-me um café e eu agradeço. Não tenho mais o que esperar. Aliás, continuo sem saber o que esperava antes de chegar aqui, se é que eu esperava alguma coisa. Na desordem da fantasia, Alícia nunca me faltou. Como realidade, sei agora que não me basta…”

[8] Assim como em Os anos revelados, o desejo se mistura à repugnância, a uma espécie de negação da higiene, do asseio, dos atributos exteriores de desejabilidade, tais como domesticados pela repressão civilizatória:

“Cheirava mal, a axilas suadas, a dias de andança à toa. Cheirava à miséria e solidão. Meu estômago dava saltos…” (Os anos revelados)

“O homem abraçou-a num supetão e apertou-a contra seu corpo, esfregando, na sua, a cara ossuda de barba rala. Estremeceu com o fedor que se desprendia dele…” (O homem que veio do sonho)

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29/10/2012

ELEGIA DE DUÍNA: “Suíte de Silêncios”, de Marilia Arnaud

“É preciso penar, pai?

   Sim, para que as notas soassem limpas e afinadas, as pausas fossem executadas no tempo correto e o timbre repercutisse densamente, sim, Duína, não basta querer, é preciso atenção, disciplina, constância.

   Seria preciso uma existência inteira? Pois eu seguiria em frente e a minha falta de talento seria compensada com prática e persistência.

   Que engano! Enquanto a música corria nas artérias do meu pai, livre e obstinada como a vida, em mim esteve sempre limitada a uma tentativa frustrada de aproximação da verdade, de purgação de feridas, de busca de afeto e equilíbrio, de aceitação de mim mesma —a música como uma possível resolução para meu desassossego, para a minha angústia incessante feita de equívocos, indefinições e esperas; a música como crença, pois sendo tão grande e indecifrável quanto Deus, fazia-se,  porém, mais próxima e menos inefável nos reconhecíveis olhos desesperançados do meu pai…”

“Por que em mim as coisas não terminam?”

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, sem notas de rodapé ou anexos, em 28 de agosto de 2012)

Atualmente, a ficção  “intimista” é estigmatizada como um exercício anacrônico e menor da literatura (de maneira diferente, é claro, mas igualmente depreciativa,  a ficção calcada no enredo também foi posta num limbo desqualificador). Decretadas a morte do sujeito e a desconfiança com relação a qualquer foco narrativo (marcas de uma verdadeira literatura “exigente”), como aceitar um discurso ficcional com base na reles psicologia individual, tateando por entre as experiências formativas de um “real” (que, está decretado também, sempre terá de vir entre aspas), muitas vezes ancorado no (cruz credo, vade retro) autobiográfico?

Pois eu, como leitor (porventura anacrônico ou não-exigente), fico contente de ver autores talentosos resistindo a essa risível redução do ficcional a experiências metalinguísticas e/ou a uma desconsideração pelo real e pelo autobiográfico (pois se a vida individual não tem importância, por que nos apaixonamos por personagens de ficção?). É o caso de Chico Lopes (Nó de sombras, Dobras da noite, Hóspedes do vento, O estranho no corredor), de Nilton Resende (Diabolô) e de Marilia Arnaud, de cujo romance de estreia, publicado pela Rocco, Suíte de silêncios retirei os trechos que abrem este texto.

Suíte de silêncios propõe ao leitor uma equação (talvez fosse melhor dizer partitura, para ficar no universo em que se movimenta a protagonista) ao mesmo tempo simples, elegante e dolorosa: confrontada com um diagnóstico de câncer (ou seja, com uma doença que costuma—em suas formas mais severas—“selar” um destino; a certa altura, lemos sobre a “inutilidade de todos os procedimentos frente à obscura tenacidade das células —ah, a exatidão da morte!”), ela vai para a cidade natal do amante que a abandonou, forjando um discurso dirigido ao ausente, em que vêm à tona as coisas não-terminadas, não “seladas”, da sua existência, entre elas a relação entre ambos, o abandono da mãe quando ela tinha nove anos e a devastação emocional e a incomunicabilidade que acarretou na família (“Papai é um homem gentil e reservado. Sei que deseja me dizer coisas boas, mas dentro dele mora um anjo de silêncio, e o que gostaria de falar acaba sempre boiando em seus olhos”), a relação abusiva com o professor de violino quando era adolescente (narrada sem a menor melodramatização), a inadaptação ao mundo e às outras pessoas, a frustração com a carreira musical…

Apesar da feição ora angustiante ora patética que essas incompletudes da existência adquirem na voz de Duína Torrealba,  há um elemento estranhamente  (mesmo porque Suíte de silêncios passa longe de ser um romance otimista) reconfortante nesse diálogo interminado e interminável com o amante: não parece que a vida possa ter um fim, chegar a uma conclusão, há sempre o que dizer…

E é ao recapitular seu percurso formativo, sem linearidade, como que obedecendo a uma modulação musical diáfana e no entanto muito  determinada, que percebemos a qualidade intimista do livro da escritora paraibana: a vida é repassada em seus aspectos banais (pois mesmo que individualizadas ao extremo, ao ponto do solipsismo, são experiências que qualquer pessoa poderia viver) através de formulações precisas  e maduras que só a apreensão literária de primeira água pode proporcionar, quando ancorada numa vivência autêntica. No anexo abaixo, transcrevo alguns exemplos da capacidade de Marilia Arnaud de dar ao leitor o que Lily Briscoe (em Ao farol, de Virginia Woolf) sentiu ao terminar seu quadro: “Qual o sentido da vida?—isso era tudo — uma pergunta simples, das que tendem a aguilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando a sra. Ramsay dizendo Para aqui, vida!, a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente… isso era da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma…”[1].

Se a autora de Suíte de silêncios tem estofo para oferecer alto nível de intimismo na maior parte do livro, no embate de Duína com seu passado sofrido e nunca “acabado”, mesmo que congelado num “destino”, infelizmente há o outro lado da moeda, e nesse sentido a invocação de Virginia Woolf é ainda mais proposital, uma vez que a partir da genial escritora inglesa começou a ser postulada uma coisa abominável chamada “escrita feminina”, cuja vinculação com o intimismo gera confusão e equívocos literários.

De saída, quero deixar claro meu horror aos “estudos de gênero” e quejandos, no sentido sexualizado do termo, masculino, feminino, hetero ou homo. O fato é que Virginia Woolf escreve como Virginia Woolf, Clarice Lispector como Clarice Lispector, e Marguerite Duras como Marguerite Duras, e não porque aderiram a uma “escrita feminina”.

Marilia Arnaud adota um vezo no seu discurso (dirigido a um “você”, o amante) que pode ser encontrado em alguns textos de Duras e em Água viva, de Clarice. Isso de forma alguma os torna textos-irmãos e nem qualifica a autora de Suíte de silêncios à altura daquelas autoras. Muito pelo contrário. Apesar da equação (ou partitura) apontada no início, o uso do “você” acaba em muitas páginas sendo mais um defeito do que um acerto na tessitura do romance: em muitas páginas fracas, Marilia adota o pior da “escrita feminina” ao enveredar (não somente, mas principalmente, em outras passagens infelizes, há um tom de auto-ajuda ou, ainda, um tom lamentoso decididamente cafona) por um irritante erotismo-clichê, que lembra não as grandes autoras citadas, mas autoras de naipe mais modesto e discutível, como Olga Savary, em seus piores momentos, e Nélida Piñon, que há exatamente 40 anos escreveu um livro-referência em termos de relação equívoca e desfocada entre “intimismo feminino” e “erotismo”: A casa da paixão (1972). Se em certos momentos, Marilia Arnaud é bem feliz ao evocar para nós João Antonio, em outros, ela podia ter podado seu texto sem dó nem piedade (essa oscilação aparece no anexo).

Portanto, a romancista estreante demonstra acertos ao dar ao vivido as fórmulas exatas que ele precisa para existir no verbo feito carne, assim nos dando a “voz” autêntica e inconfundível (ainda que cheia de dissonâncias) de Duína,  e erros quando tenta transformar a carne e o sofrimento em malabarismo verbal, criando ruídos de comunicação entre nós e essa voz.

A grande promessa para o gênero (literário) que Suíte de silêncios representa é que os acertos superam com larga vantagem os erros.

ANEXO

Como disse acima, Suíte de silêncios oscila entre páginas repletas de “paixão medida” e outras que escorregam para o mau-gosto e para o “pinõnesco”.

Por isso, fiz uma pequena antologia de momentos de que gostei (que estarão em negrito) e outros (que estarão em itálico) que, francamente…

O leitor há de notar que às vezes nas boas passagens há umas passagens um tanto chavão, mas que se incorporam bem à partitura como um todo. Pois não é a originalidade da experiência ou da formulação que está em jogo, mas o seu poder de nos convencer. Não há nada de novo, mas o discurso  pode ter a característica de  traduzir o “cintilar enceguecedor de dunas sob o sol”, ao invés de tentar poetizar de maneira brega “o brilho candente e enceguecedor do irresoluto amor”. Enceguecedor por enceguecedor, prefiro o primeiro caso.

“Custava-me retornar para casa depois das aulas, dedos indicador e médio cruzados, olhos bem cerrados, sob buzinas estridentes e xingamentos de motoristas, esbarrando em postes, paredes e pessoas, sufocada de calor e esperança, na fantasia que encontraria minha mãe no terraço, balançando-se na cadeira de palhinha, Pedrinho no colo e Leila deitada aos seus, aguardando por mim, desde que eu conseguisse chegar lá sem abrir os olhos uma unia vez, se não fosse atropelada por nenhum automóvel, e, chegando mais uma vez constatar que não, ela não voltara, não ainda, e me sentar à mesa e comer sem nenhuma fome debaixo de um silêncio difícil, partido apenas pela fala estridente de Pedrinho ou por um ganido de Leila, e novamente estar de frente à cadeira vazia e inútil, triste como sabem ser as coisas que um dia foram usadas por quem amamos”.

“Ao mesmo tempo em que comecei a suspeitar de que seu retorno estava fora do alcance do meu desejo, por maior que fosse esse desejo, um pensamento, de início breve e sem consistência, foi tomando forma e ganhando espaço em minha mente, até que, constante e inequívoco como um objeto sólido, espedaçou minha confiança íntima, impondo-me a desconcertante certeza de que minha mãe nunca mais voltaria para nós, porque simplesmente não queria voltar, porque assim escolhera.

   Então, arregalei os olhos, e tal uma borboleta noturna, espaventada com o alumbramento do mundo à minha volta, dei de cara com um tanto de gente e de coisas para serem vistas.”

”Dentre todas as coisas que existem no mundo, chuva e música são as que mais gosto.

  Da chuva, gosto desde quando no céu as nuvens vão enegrecendo e se amontoando e descendo, descendo, a ponto de quase tocarem a ponta do farol, e um vento nervoso começa a assobiar e a assanhar as fruteiras de papai, as flores de vó Quela, e a enfunar as roupas nos varais, os vestidos das mulheres que passam nas calçadas, e um perfume intenso de terra e mato vai se espalhando pelo mundo, até o momento em que as gotas d´água começam a tamborilar nas vidraças das janelas (…)

   Música me abre um rasgão no meio do peito. Papai me deu a música; mamãe, a saudade. Pai e mãe fazem doer; aprendi a gostar da dor.”

“Você acredita na alardeada inocência das crianças? Não se iluda, meu bem, só há inocência nos bebês (…) Por trás da lembrança mais devastadora da minha infância, daquela que lançou uma sombra sobre o meu coração, fazendo com que ele nunca mais batesse no mesmo tom, escondem-se uma criança e algumas palavras. No rastro dessas, vieram outras, crianças e palavras, com pequenas variações, e olhares enviesados, silêncios e reticências.

    Atrás disso tudo, e no centro de todas essas recordações, esconde-se a minha mãe, a que estava em toda parte e em lugar nenhum.

   Sim, foram elas as crianças, que me puseram frente a frente com a perversidade em sua forma mais espontânea, mais absoluta. Mataram dentro de mim uma coisa sem nome…”

“E assim foi, e foi tanto e mais, que todo o meu dia, as horas brancas e as negras, a música e os sonhos, as palavras e o silêncio, as pessoas e as coisas, a cidade e o quarto, tudo passou a ser você e o seu sorriso inteiro, e o seu olhar de anil, e seus braços de calor e claridade, e seu sexo de sol, você, você, você…

   Sim, eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez, que o corpo adorado pode ser o corpo para sempre perdido (…)

   Enxergava em você algo dos homens do deserto que eu não sabia precisar, e que soprava uma tempestade de areia quente em meu sangue (…) Meu Tuaregue de impossíveis olhos azuis, o que é isto, de tanta força e encantamento, senão amor? Haverá outra palavra que traduza este cintilar enceguecedor de dunas sob o sol?”

“Alguma coisa nova estava para me ser revelada. Sim, alguma coisa estava para acontecer e invadir minha vida. E bastava espiar o professor Ramon para sentir a tal coisa vindo em minha direção (…) passado o assombro das primeiras vezes, segui em frente sem que me queixar, mais aplicada nesse aprendizado do que no da música, e até com mais habilidade, como se já tivesse jogado muitas vezes antes de conhecer o professor Ramon, em algum tempo impossível de ser lembrado, como se esse saber estivesse gravado em minha carne, e fizesse parte de mim, do meu eu mais oculto e mais significante (…) Agora, não há como voltar atrás. E mesmo que houvesse, seria de todo inútil, pois o que está feito não pode ser desfeito. Então, faço simplesmente o que o professor Ramon espera que eu faça. A cada aula, em meio às cordas mudas e partituras desnecessárias, avançamos mais um pouco, sempre mais um pouco…”

“Fui encontrá-las, todas lacradas, no cofre do meu pai, como se fossem colares, brincos, anéis, broches, tiaras, joias de uma morte, mantidas ali há mais de vinte anos, para o olhar de posse e secreta saudade do amante (…) Não me recordava da caligrafia infantil, as letras diminutas, inclinadas para a direita, uma atropelando o espaço da outra, como se tivessem urgência em se fazer palavras.

   As datas dos selos confirmavam o que vó Quela me dissera, que as cartas haviam começado a chegar aproximadamente quatro meses após a partida de minha mãe, e que somente se interromperam com a sua morte, anunciada por telegrama, não se sabia por quem.

   Então, à sua maneira, minha mãe lutara para não ser esquecida.

   Das profundezas do tempo, nos envelopes cerrados, as palavras rangiam, presas da longa espera, e urravam, vermelhas, negras, inchadas de significados.

   Finalmente, a verdade.

   Mas o que é a verdade, quando se trata de pessoas? (…)

   Não, ainda que tentada, não cheguei a erguer a pedra que meu pai colocara sobre a sua desgraça. Não me cabia a coragem, ou o desespero, para descerrar aquele silêncio, tecido fio a fio em sua humilhação e em minha derrotada espera.”

“Como Pedro ousava se esquecer do inesquecível? Oh, meu irmão, por que será que os que se foram nos dominam mais do que os que seguem ao nosso lado? Por que temos que carregar esses cadáveres em nossas costas? Por que seguimos buscando as chaves dos quartos proibidos, tentando decifrar os hieróglifos gravados nas suas paredes intemporais?—Como podia fingir que não fora apanhado pela mão do abandono, aquela que cravara suas unhas em nossa infância e a empurrara por um despenhadeiro, inscrevendo em nossas almas sua marca de desolação? (…) Não se escolhe viver essas experiências, são elas que vêm a nós, e desarranjam nossas existências, e nos estigmatizam, e nos destroem.

  O que me resta, senão uma postura de humildade perante a vida? De joelhos, frente ao seu vasto mistério, rogo, vida, vida minha, não me tome mais nada,por tudo que há de sagrado, não me prive da minha verdade, não viole minha essência!”

“Durante anos, andei por consultórios de terapeutas  e psicanalistas, submetendo-me a tratamentos convencionais e alternativos (…) Devia ser exaustivo tentar me curar dessas feridas sem nome que carrego comigo. Aquilo exigia horas de delirantes sessões, um sem-fim de palavras e lágrimas, e também de enormes silêncios, durante os quais eu tinha pensamentos descabidos, como, por exemplo, se aquele psicanalista empavonado, que me ouvia balançando a cabeça com ar grave, e que se dizia deficiente visual, o era de fato, ou se fazia passar por tal com a finalidade de deixar as pacientes como eu mais à vontade e, assim, por trás dos óculos escuros, desfrutar com avidez de partes dos seus corpos que normalmente não estariam à vista.

   Deitada, abria bem as pernas, e sim, parecia-me que uma tensão se apoderava dele, dos músculos do seu rosto, que as narinas se dilatavam e lhe tremia o queixo, e suspeitava que, escondido sob as calças, o sexo inchasse à sua revelia.

   Assombroso? Não, apenas excitante.

   Quem ali de nós dois poderia ser considerado ´normal´? Não seríamos todos neuróticos, paranoicos, fóbicos, psicóticos, fetichistas, maníacos, obsessivo-compulsivos, todos buscando algum sentido para a vida?

   Tão tênue a fronteira entre a fragilidade e a loucura, meu amor…

   Como escapar da pungente consciência da nossa finitude, senão através de fantasias e atos extremos?”

“E quando o desejo se tornava maior que nós, você estacionava e me tomava toda nos braços, e por alguns instantes as igrejas seculares viravam o rosto para não assistir ao brilho candente e enceguecedor do nosso irresoluto amor (…) Você tinha pressa de estar dentro de mim—desde sempre, a inquietude, a voracidade nos gestos, a impetuosidade no querer–, e em breve estaria, porém, em meio a beijos, lambidas, toques, desejava vê-lo, vê-lo mais, ah, João Antonio, não queria que nada me escapasse, nem o mais remoto sinal, a mais secreta singularidade do seu corpo, os pelos no interior das narinas, a cicatriz de uma cirurgia no tórax, os músculos retesados das coxas, a surpreendente opulências das nádegas, todas as suas mais íntimas partes.

  Queria devassá-la devagar e perversamente—onde se oculta o mistério da carne?—, encher meus olhos, fartá-los das estrelas, flores, montanhas, rios e lajedos do seu corpo, dos palácios, templos e catedrais que o engrandeciam—seu corpo Olimpo (…) uma trilha de desejo crescente, vem, João Antonio, meu corpo alucinava, vem logo (…)

   Qual o destino de um corpo, senão a sublimidade de outro? (…) e agigantava-se em mim uma saudade do seu corpo, que tinha o cheiro de chuva, o gosto morno e felpudo de um mistério da minha infância, uma saudade dos seus olhos que sabiam contar coisas bonitas de mim, das suas mãos, que me teciam incêndios na pele…”

VEJA TAMBÉM : http://literaturasemfronteiras.blogspot.com.br/2012/07/a-suite-de-silencios-de-marilia-arnaud.html


[1] Esta é a tradução de Luiza Lobo. No original, “What is the meaning of life? That was all—a simple question; one that tended to close in on one with years. The great revelation had never come. The great revelation perhaps never did come. Instead there were little daily miracles, illuminations, matches struck unexpectedly in the dark, here was one … the breaking wave; Mrs. Ramsay bringing them together, Mrs. Ramsay saying Life stand still here; Mrs. Ramsay making of the moment something permanent… this was of the nature of a revelation. In the midst of chaos there was shape…” (utilizo a edição da Wordsworth Library Collection, 2007).

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