MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/12/2012

Um momento de alegria purinha: a história sem fim de “O arqueólogo do futuro”

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2007)

Num país em que os professores têm de lidar com uma literatura juvenil em geral de baixa qualidade, é motivo de alegria uma autora do naipe de Maria Valéria Rezende se voltar para esse gênero de produção nas quatro histórias que compõem O Arqueólogo do Futuro, cujo título é uma brincadeira com as teorias que insistem a respeito do Fim da História.

Novamente chama a atenção o jogo entre os mundinhos pequenos perdidos no mapa e o vasto mundo globalizado, presente desde sua coletânea de estréia, Vasto Mundo. Das cidadezinhas onde nascem os misteriosos digiolhos, de lugarejos ermos como Itacoatiara do Ingá (palco do texto-título), mesmo do âmbito quase doméstico de Milagre de celular, para a China abrindo-se para o capitalismo na história mais carismática, Orelhão em Pequim, na qual o narrador adolescente envia um longo e-mail para seu camarada Beiçola, mostrando sua descoberta da China, das meninas chinesas, a língua e seus ideogramas, descobrindo como a diversidade das falas pode gerar a escrita e a literatura.

Como todo garoto que se preze na tradição da ficção, Orelhão tem necessidade de aventura. Segue o mapa, mas gostaria de não seguir: “embora eu tivesse uma certa vontade de me perder naquele outro mundo, pois afinal, “estou na China, estou no mundo, estou na vida”.

É como garoto (até usando o indefectível boné) também que o alienígena de O Arqueólogo do Futuro vai viver seus dias de extraviado no nosso planeta e nosso tempo, aprendendo a se sentir vivo (e até aprendendo o que é o cansaço, após horas de curtição), ao cair no forró, enquanto espera a crucial data de 24 de junho.

A menina de Milagre de celular se sente invisível por não possuir um aparelho, e depois que o consegue, sofre a angústia de não ter quem ligue para ela (“eu estava achando que tinham feito só uma pequena alteração da tal praga contra mim). Como é bom uma autora que conheça realmente a garotada, que não crie uma ficção juvenil de laboratório ou para incutir parâmetros curriculares disfarçados!

Quanto ao Caso do Digiolho, talvez seja a narrativa mais complexa do livro, com sua fábula praticamente nascendo do proverbial, do popular, da idéia de que “apontar estrelas” faz nascerem verrugas. No caso, o menino que aprende o nome dos astros e que desenvolve um olho no dedo, fenômeno que se espalha, até que se crie uma “digimoda” (digirroupas) e as possibilidades desses novos apêndices são atrofiadas, pois eles caem em desuso (como se a humanidade não estivesse preparada para aumentar sua percepção das coisas, e evoluir).

Como saldo final dessas quatro histórias deliciosas (e ilustradas de forma inspirada,  por Clóvis Dias Júnior), as quais proporcionaram ao responsável por esta coluna um “um momento de alegria purinha (tal como Orelhão com as chinesinhas), o que fica mais evidente é a vitalidade, a simpatia que os narradores transmitem (e como isso é importante para fisgar o leitor em formação), simpatia da escritora por seus personagens, simpatia pela vida e pela História que nunca acaba…

os destinatários

TRECHOS SELECIONADOS:

“Ninguém me ligava e, com ele calado, ninguém notava que eu tinha um celular. Todo mundo tem, já virou coisa invisível, a menos que perturbe, tocando uma musiquinha daquelas. Daí sim, todos notam. Mas o meu não tocava. Eu é que não ia ligar pra ninguém porque meus créditos grátis tinham que durar três meses. Pior ainda, não encontrei mais nenhum carinha que pedisse o número do meu celular.  Eu já estava achando que tinham feito só uma pequena alteração da tal praga contra mim.

   Até que, segunda-feira passada, aconteceu o milagre. Eu estava sozinha na lanchonete em frente ao colégio, o celular espremido entre o prato do hambúrguer e o copo de guaraná e, de repente, tirintintim tirintintim. Era ele tocando.

   Fiquei nervosa, quase derrubei o prato e o copo, dei uma cotovelada no garoto desconhecido que estava ao lado, não achava o botãozinho que tinha de apertar, daí o carinha disse, com uma voz linda, bem grossa, parecendo de um rapaz mais velho:

__ Aperta o verdinho.

   Apertei e ouvi alguém gritar no meu ouvido:

__ Ô Murilinho, onde é que tu tá?” (trecho de Milagre de celular)

“Finalmente, ontem à noite, tomei uma decisão radical: resolvi fugir pra rua de qualquer jeito antes dos outros acordarem. Preparei um bloquinho e um lápis na minha mochila, pus meu despertador para as quatro e meia da manhã, debaixo do travesseiro pra não acordar meu pai.

   Pouco antes das cinco horas e do sol nascer, passei pela portaria do hotel, que já estava aberta. O porteiro se postou diante de mim com um olhar de dúvida e falou qualquer coisa naquele  inglês dele. Gele: não vai dar pé. Mas então tive uma inspiração, taquei meu  ´ni hau´, que quer dizer mais ou menos ´como vai´, que o Valdomiro tinha me ensinado, e fiz um gesto meio desajeitado, tentando imitar o tai chi chuan. A cara do chinês se abriu no maior sorriso, ele saiu na minha frente, esticou o braço pra direção da porta, e eu soltei meu ´xié, xié´, que é ´obrigado´. Saí tranquilamente pela rua. Fiquei feliz: tinha conseguido resolver um problema por meio do diálogo, com as duas únicas expressões que sei em mandarim (…)

    Daí a pouco virei uma esquina, cheguei numa avenida mais larga, com espaços bem amplos e ajardinados, no meio, e comecei a me espantar: vinha chegando gente de todo lado, de todas as idades, velhinhos e velhinhas velhíssimos, adultos, jovens da nossa idade e criancinhas, cada um escolhendo seu lugar, concentrando-se, respirando e começando seus exercícios preferidos, numa variedade enorme de estilos, uns parecendo cegonha se equilibrando num  pé só, outros dando saltos acrobáticos incríveis, daqueles de filme. Maior silêncio. Cada um na sua. Um não perturba o outro, um não invade o espaço do outro. A maior concentração, e tudo naquele sol  da manhãzinha começando a passar pelos ramos das árvores. Nem parecia que a gente estava no meio de uma cidade de milhões de pessoas!

   (…) E também me senti monstruosamente alto, gordo e desajeitado no meio daquela gente tão leve, como se eu fosse um baobá—lembra os desenhos daquele livro do Pequeno Príncipe que a professora da quarta série fazia a gente ler?—no meio de um bambuzal. Ali, eu senti que finalmente tinha chegado à China dos chineses.  (trecho de Orelhão em Pequim)

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“o digiolho era uma atrapalhação pras lavadeiras, porque ardia com sabão e água sanitária; pras costureiras, que precisavam das duas mãos pra puxar o pano na máquina ou pra costurar à mão. Morriam de medo de enfiar a agulha no tal do olhinho. O serviço delas ficou  bem mais difícil e vagaroso. O mesmo se pode dizer dos marceneiros, dos pedreiros, de quem tinha que tirar leite das vacas, dos mecânicos, das cozinheiras… Já pensou o perigo de cair pimenta no olho do dedo?

    Era um problemão pra quem gostava de jogar vôlei, sinuca, plantar bananeira, tirar meleca do nariz sem largar o que estava fazendo com a mão mais esperta, empinar pipa, tocar piano, violão, cavaquinho e assim por diante, praticamente pra todo mundo.

   Logo que a agitação da novidade passou e os problemas se apresentaram, a gente foi chegando à conclusão de que não podia ficar usando três olhos ao mesmo tempo. Melhor usar mesmo, no dia-a-dia, os dois velhos olhos da cara. Daí começamos a enrolar o dedo com uma tira de pano pra proteger o digiolho quando não estivesse em uso. Então, alguém teve a ideia de fazer uma roupinha, como um dedal de pano, mais bacaninha, e aquilo virou assunto de moda.

   Em poucas semanas, a digirroupa virou uma mania…” (trecho de O caso do digiolho)

“Tranquilo quanto à missão, enquanto a Clarinha me puxava pela mão, olhei á volta pra ver como era, afinal, a vida na Terra. A Terra era uma praça enorme, cercada de faixas nas quais estava escrito O MAIOR SÃO JOÃO DO MUNDO, cheia de barraquinhas, um cheiro delicioso de comidas desconhecidas, terráqueos de todas as categorias chegando aos milhares, uma música em alto volume que dava uma vontade irresistível de agarrar uma garota, apertar bem e sacudir o corpo todo, que era o que eu via um monte de nativos fazendo. Meu sistema informou: Forró, forró, forró. Dança, dança, dança.

   Bom, amigo, o resto você sabe, porque você estava lá com a galera da Clarinha. Puxa, que noite! Que experiência! Aprendi a dançar, a comer pamonha, comi e bebi tudo o que a Clarinha me deu, aprendi a beijar, a ficar, a namorar, percebi que aquilo entre as minhas pernas não era uma perna a mais, enquanto meu sistema interno quase enlouquecia de tanto piscar (…) Depois de horas de curtição, aprendi o que é cansaço. A Clarinha sentou no chão, encostou-se na parede de uma barraca, fez eu me deitar com a cabeça em seu colo, tirou meu boné e começou a coçar mina cabeça. Meu sistema piscou alucinado: Cafuné, cafuné, cafuné! Boné, boné, boné! Antena, antena, antena! Nem liguei, nem entendi direito o que ele queria…”  (trecho de O arqueólogo do futuro)

o que ela diz

UNIVERSO EM EXPANSÃO: O êxodo do rural para o urbano de Maria Valéria Rezende

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de agosto de 2006)

Vasto mundo, coletânea que marcou a estréia de Maria Valéria Rezende, extraía seu cerne do meio rural paraibano. No seu livro seguinte, O voo da guará vermelha, ela aproveitava a amplidão que o romance oferece para fazer com que a origem agrária das personagens não se perdesse totalmente no cinzento espaço urbano onde transcorre a trama principal, resgatando a trajetória do protagonista.

Sobrou pouco espaço para o rural nos dezesseis textos de Modo de apanhar pássaros à mão, embora o leitor que se tenha tomado de apreço por Farinhada (Vasto Mundo) e pelo casal Rosálio-Irene (O Vôo da Guará Vermelha) os reencontre em dois momentos: em Sagüi, vemos a prostituta Irene, apesar de aidética, relutar em aceitar clientes sem camisinha, não que a tentação não surja, e lutar contra uma lembrança simultaneamente dolorosa e alentadora; Maurílio, de A Bicicleta, pensa em voltar para Farinhada, devido à confusão em que se meteu movido por sua paixão pela bicicleta do título: “Parece que eu estava adivinhando quando vi você lá na loja, linda, roxinha, tão diferente das outras”.

Irmã de destino de Maurílio é a paraibana grávida que pede ao marido, o narrador de Desejo, que lhe arranje romãs em plena São Paulo. Pois sejam bicicletas roxas, sejam romãs, a vida nunca é apenas sobrevivência e luta. Mesmo com a perda do emprego e uma desesperadora fila de banco para retirada do fundo de garantia, há a possibilidade de reinventar a vida alheia (Ficção). Há até a possibilidade de se oferecer a própria miséria em espetáculo (Viaduto).

Essa brecha num cotidiano idiotizado e desmoralizador é explorada de forma poderosa num dos mais longos (e o melhor entre eles, junto com o conto-título) relatos do livro, Dilema: em meio a um universo de elevadores quebrados, subidas penosas até o andar em que se mora, emprego frustrante e vocação fracassada, Alicia descobre que o romanesco mora ao lado, encarnado na frágil vizinha, refugiada do Leste Europeu, dona Romana, com seu foulard cor de maravilha e quem sabe do que mais?”, com seu rosto rosado, “onde veinhas azuis desenham um craquelê de louça antiga”, com lágrimas das quais uma escorre e fica inteira, como um cabochon de cristal”, em cujo apartamento há “um relógio rococó, exposto sobre uma credência de bela marchetaria, enfim, da escolha das palavras que a autora tece caprichosamente em torno dela até o papel que ocupará no destino de Alicia, toda a aparentemente inocente figura da velhinha se destina a ser um modo de apanhar o leitor a laço, numa atmosfera que nada fica a dever a um Paul Auster.

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II

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de agosto de 2006)

Comentando Modo de apanhar pássaros à mão, destaquei na seção anterior o conto Dilema, no qual ao naufrágio da existência (revelado por meio de arruinados e petrificados objetos) de uma refugiada do Leste Europeu contrapunha-se uma reviravolta romanesca, eixo transfigurador do relato.

O cruel O sonho e o tempo não permite tal redenção à protagonista, a qual tenta, através da diáfana harpa que lhe coube de herança, emergir da decadência da sua família e dos interditos da vida como mulher. Tocar algum dia a harpa era o seu heroísmo para enfrentar o mergulho na pobreza. Esse é o sonho. O que o tempo faz com ele, é melhor nem contar, embora quando Maria Valéria Rezende conte até o cruel possa ser hipnótico.

A harpa também é a jaula etérea construída em torno da tia da narradora de Lamento para Harpa e Tuba (conto admiravelmente construído, um dos exemplos máximos do virtuosismo que Modo de apanhar pássaros à mão desvela, mais que exibe) condenada ao papel da solteirona da família, uma das “meninas”, seja em que geração estiver, até que um abençoado passo em falso a empurre para a turbulenta, chã e plebéia tuba.

Afirmei acima que a coletânea mais desvela do que exibe o virtuosismo da autora. É uma diferença fundamental, e nenhum relato a demonstra mais cabalmente do que o conto-título. Nos últimos anos, tivemos alguns autores que aliaram a exploração da violência urbana e a irrealidade contemporânea com os rescaldos de uma erudição, exibicionista e fútil, que caía meio de pára-quedas, caso de Rubem Fonseca (por exemplo, em Bufo & Spallanzani ou Vastas emoções e pensamentos imperfeitos) ou Patrícia Melo (Acqua Toffana).

É contundente a maneira como Modo de apanhar pássaros à mão utiliza a receita de um manual do século XVIII para que o narrador a coloque em prática no terreno mais artificioso e falso da civilização capitalista, o mais preocupado com o aparente e o efêmero: o universo da alta moda, aquele que desperta o desejo sendo apenas uma fantasmagoria, e aquele em que a mulher é imobilizada em imagens tão petrificantes quanto as dos contos de fada: bela adormecida, branca-de-neve. E, ao fim e ao cabo, o olho do fotógrafo obcecado pela mulher-imagem denuncia um abissal antierotismo (não só no sentido do sexo, quanto de Eros como sinônimo de pulsão de viver), característico desse universo, a sua tanatização, por assim dizer.

Trata-se de um ponto alto na nossa ficção atual. A autora ainda se permite fantasias caprichosas como a do irmão de Drácula que descobre os prazeres dos trópicos e dos rodízios de churrascaria (Metamorfose) ou da mulher que manda uma manifesto delicioso pela Internet antes de fechar de vez sua conta (Manifesto ou como antigamente), após um embate com uma feia realidade nada virtual, ainda menos virtuosa: “Agora vem esse gordão nojento, com o microfone sem fio na mão esquerda e já metendo a direita entre a calcinha e a bunda da menina… sem parar de berrar essa porcaria de mentira eleitoral, metendo a mão, a menina não quer, se retorce, se vira tentando escapar, me olha, ela também tem uma falha nos dentes, foi um segundo mas eu sei que ela me olhou suplicante, pedindo socorro, meto a mão na buzina, grito, xingo e ninguém me ouve…”

No seu êxodo do campo para a cidade, Maria Valéria Rezende parece ter mantido sua faca só lâmina, afiada e precisa.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Há meses que o reumatismo de Dona Romana vai passar logo e que Alícia assume o papel de enfermeira, companhia e, afinal, dona da casa. Sua literatura teve de ser posta entre parênteses mas isto vai passar logo, tanto quanto os achaques da velhinha. Alícia não confessa mas, no fundo, está gostando, sobretudo pela oportunidade que tem tido de xeretar nos misteriosos guardados da outra, atendendo aos constantes pedidos de Dona Romana para que procura uma coisa ou outra nos armários e gavetas, muitas vezes um mimo, um pequeno camafeu, um finíssimo binóculo para ópera, um livro, uma caixinha de lenços de renda de Bruxelas que quer dar a Alícia como forma de agradecer-lhe os cuidados. Até agora a bisbilhotice da escritora só lhe tinha rendido mais perplexidade sobre a verdadeira personalidade e a intrigante biografia da vizinha, além de algumas sugestões interessantes para algum trecho descritivo de um personagem que ela um dia há de criar. Mas nesta tarde de sábado, enquanto a outra dorme sua sesta, Alícia se aventura a esquadrinhar mais profundamente o estranho armário, que enche um terço da sala, cheio de gavetas e desvãos sugerindo compartimentos secretos e, abrindo uma gaveta quase invisível, perfeitamente encaixada e disfarçada em complicadas folhagens entalhadas, encontra três grosos cadernos de capa dura, atados com uma fina desbotada e cobertos de ponta a ponta pela fina escritura de Dona Romana, a mesma que, apenas mais trêmula, ela lê todas as semanas nas listas de compras a fazer. Impossível resistir…” (trecho de Dilema, a meu ver uma das obras-primas de Maria Valéria Rezende).

“Irene, cansada, cansada, como custa esforço não pensar em nada!, como custa afastar do pensamento a criança nos braços encarquilhados da velha naquele barraco fincado na lama, o papel amarelo com o resultado do exame, o médico falando, falando, falando, o tempo passando, passando, passando numa correria, quase todo dia já é segunda-feira, ir levar um dinheiro para a velha, ir saber se o  remédio prometido chegou, pegar o pacote de camisinhas e ouvir a assistente social lhe dizer que mude de vida…” (trecho de Sagui, fragmento belíssimo de O voo da guará vermelha)

“… minha mão se estende leve e firme ajeita melhor com um ligeiro toque uma das dobras do lençol de seda encobre revelando esta esplêndida nudez foi preciso ajudá-la a despir-se estava um pouco tonta mas ela consentiu claramente consentiu consentiu queria também  foi a bênção a consagração esse consentimento o desejo dela a entrega porque eu não quero só o corpo só a luz a cor a maciez o calor do corpo quero a alma de Íbis a alma que se entrevê agora que ela entreabre os olhos e sorri os lábios formando um silencioso vem! mas não não!  volto a sentar-me na poltrona imóvel meditativo não é a hora qualquer precipitação estragaria tudo tenho de conter-me…” (trecho de Modo de apanhar pássaros à mão, coitadinha da Patrícia Melo)

“… ei, bróder, porteiro, por favor, onde vende romã?, o quê?, essa planta aí é romã? um pé disso vivo em São Paulo?, no meio do cimento?, vejo nada, no escuro, nem conheço, por favor, chego aqui, abre essa grade, dá uma romã que eu tiro a morto, louco não, é minha mulher grávida com desejo, só quero uma romã, uma só, é romã?…” (um Cântico de Salomão degradado no asfalto da cidade grande, um dos melhores momentos da coletânea: Romã)

“…uma penteadeira fantástica, que Tia Lucinda chamava de psichê, com o enorme espelho oval cercado de anjinhos dourados, gordinhos, cada um diferente dos outros. Sobre o tampo de mármore rosado do psichê, misturavam-se uma infinidade de frascos de perfume das formas mais estranhas, batons e caixinhas de ruge, com que podíamos pintar-nos, aquelas caixas de porcelana para o pó-de-arroz, com tampas que eram bibelôs de damas antigas em poses lânguidas e saias de mil babados de tule, cofres com bailarinas rodopiando sobre espelhos, cheios de broches, pulseiras, anéis, colares que ela nos deixava revirar e experimentar o quanto quiséssemos. Felizes, acreditávamos que era tudo ouro e pedras preciosas, um tesouro riquíssimo em nossas mãos. Só no quarto de Tia Lucinda podíamos nós,  pobres injustiçadas no mundo dos grandes, mexer nas coisas, e vê-las à vontade com os olhinhos invisíveis que tínhamos nas pontas dos dedos…”  (trecho de Lamento para harpa e tuba)

“Todas as tardes lá íamos nós, em bando, para o cinema Pathé, ver o seriado do Homem Invisível, que eu não via mesmo, cega pela aflição de saber que ele ali estava, sua mão a poucos centímetros da minha, desejando o mesmo que eu, e uma prima sempre ao meu lado, que tampouco via o Homem Invisível porque não desgrudava os olhos de meu colo, tentando ver por ali, entre as duas poltronas, o excitante acontecimento do encontro das mãos…” (trecho de O Homem Invisível, que me lembrou o tipo de relato desenvolvido com tanta felicidade por Lygia Fagundes Telles em Invenção e Memória)

“Cresci, a lembrança de Polixena misturou-se com outras histórias de princesas, dragões, castelos e mistérios, que ficaram guardadas, envoltas em algodão num canto da memória, enquanto eu entrava no mundo imediato da adolescência com seus prementes desejos, medos, sensações e descobertas, mas, de algum modo, sabia que Polixena estava no centro daquele sentimento de privilégio e proteção com que eu atravessava a vida. Eu gostava das meninas e elas de mim, a namorada do momento consolou-me quando meu pai morreu, eu quase não via meu irmão e nem sentia sua falta, sentia-me amado, tivera um pai perfeito, tinha uma mão linda e amorosa, eu era feliz. Meu irmão era infeliz…” (trecho de A Princesa de Tróia, que ganha com a inserção no conjunto, mas é o momento mais fraco do livro)

“Já te contei, não foi?, como é que eu consegui comprar você com o dinheiro mais duro de ganhar da minha vida, o maior medo que eu já passei e até agora, pensando naquilo, eu me tremo todo. Eu que sempre passei longe do Bitola e da galera dele, eu, hein! Aquilo lá não presta, é droga, é assalto, é tudo o que há de ruim, e eu não quero nada com uma gente assim, me guardo dessas coisas que eu quero é ter o coração em paz, mas pra qualquer um pode chegar  uma hora como aquela, eles me cercando, a galera toda junto, e dali só se escapa pra morte. Morrer eu não queria não, que sou novo demais e, depois, o desespero de minha mãe seu eu morresse, já pensou?” (outro dos meus favoritos, A bicicleta)

“É hora de começar a investir, meu querido irmão, e que melhor investimento poderia haver para nós do que uma grande cadeia de churrascarias rodízio, abertas vinte e quatro horas, hein? Que me dizes? Negócio promissor e seguríssimo, já que a última coisa que as pessoas deixam de fazer, quando lhes faltamos meios, é comer! Já tenho todos os planos feitos  para a mais grandiosa dessas cadeias e pensei até em ligar as várias unidades  com um sistema de túneis que lhes acrescentaria encanto e praticidade para nossa administração. Exagerei nos planos mas não quero renunciar a nada e portanto falta-me um sócio que traga um bom capital. Que melhor sócio poderia eu desejar do que meu próprio irmão, o único que pode compreender profundamente o que tudo isto significa para mim?” (trecho de Metamorfose, o meu favorito pessoal, apesar de não ser necessariamente o melhor)

“Fico olhando o bumbum da garota se requebrando lá em cima, na beirada do caminhão, balançando a bandeirinha do candidato com uma mão mole, cansada. Não há mais nada pra eu olhar, o caminhão tapa tudo. Grande merda!, a menina não tem nem catorze anos, basta começar a tomar formas de mulher pra eles começarem a explorar, é só vestir minissaia, um exíguo top e sacudir a bunda, debaixo desse sol de duas da tarde, por dois cachorros quentes de carrocinha e dez reais no fim do dia.” (trecho de Manifesto ou Como antigamente)

“Reivindicou outra vez as aulas de harpa, mostrando as mãos agora magras e compridas. Não havia mais professores desse instrumento na cidade. Contentou-se, provisoriamente, com dois discos de música de harpa, para tocar na vitrolinha da irmã, quando esta permitisse. Fazia baixezas para obter tais permissões, inclusive acompanhar a irmã nas festinhas de quinze anos, nas tardes dançantes do clube, onde, segundo o pai, ou vão as duas ou não vai nenhuma…” (trecho de O sonho e o tempo)

“Acabou. Este pacotinho de notas é o ponto final, acabou-se, isto agora não volta mais pra trás, eu ainda com uma esperancinha até receber este dinheiro, está aqui a prova de que estou mesmo desempregada, nunca fui desempregada, antes era só ainda não empregada, pra que lado eu vou, meu Deus, nesse calor, nessa rua cheia de desempregados?, só pode ser, essa gente toda andando de um lado pro outro, desamparada, menos o rapaz feliz, solta ele ali, sabe muito bem pra onde vai, e por que é que eu estou indo atrás dele?, ai, não ande muito depressa, não vê que eu tenho as pernas curtas?, pra que correr tanto?, onde é que ele vai?, ai, graças a Deus, pro shopping… pelo menos tem ar condicionado!, espera, meu filho, eu estou de salto alto…”  (trecho de Ficção)

“Que nada!, na frente dele se juntando aquelas sombras impassíveis, muito mais gente do que ele viu no começo, velhos, adultos, multidão de crianças, olhando pra ele espantados, mas ninguém dá um passo pra fora do viaduto. Albérico tenta gritar ainda, convencer as vítimas a salvar-se, mas a voz não sai mais, acabou-se de vez. Tem um rádio qualquer ligado  nesse mundo: dezesseis horas e cinquenta e três minutos, chove a cântaros na capital paulista, e a chuva deve aumentar nas próximas horas. Aquela gente  toda ali parada, braços cruzados, não, não vai acontecer nada. Albérico sente a alma cair-lhe aos pés como um pedaço de papel molhado de lágrimas, antes disfarçadas pela chuva, agora denunciadas pelos soluços que já não dá mais pra segura: Vem pra cá, rapaz, sai dessa chuva, o homem magro com a barba enorme puxa Albérico pra debaixo do viaduto, o moço tá passando mal, gente, traz um caixote aí pra ele sentar. Aí, senta, moço, senta, rapaz. O viaduto não vai cair não, não tem perigo, esse é o melhor de São Paulo…”(trecho de outro ponto alto, Viaduto)

“Nunca fiz isto antes, mas o teu olhar dolorido desatou meu silêncio. Só eu vi, só eu sei, sei a profundidade, a altura e a amplitude da tua dor. Eu, sim, a velha tia silenciosa e apagada, tranquila como uma poça d´água que, não, nunca sofreu sua própria dor de amor, nem ardor de paixão, nunca sentiu punhal de ciúme, só sentimentos muito tênues, ínfimos encantos, pequenos dolorimentos em surdina, dos que nem arranham a pele da alma. Por isso mesmo meus olhos sempre foram claros, completamente videntes, porque nunca houve em mim sentimento soberano que os turvasse, nem desejos prementes que distorcessem os objetos e os fatos, nem expectativa ou ambição que me perturbassem a  intenção do olhar; pude permanecer sempre  atenta ao mundo fora de mim e por isso sempre vi os pequenos sinais, os detalhes que ninguém mais vê, laivos, leves traços, eflúvios, indícios, alusões, sutilezas, segredos…” (trecho de Toda dor tem fim)

“Não, vomitar agora, não! Eu prometo que se eu escapar desta eu nunca mais bebo, eu me conformo com minha vida, não penso mais em plástica, envelheço numa boa, eu troco este carrão por um fusca velho e dou o dinheiro pros pobres, vou ser voluntária no hospital do câncer, vou visitar a vovó todo dia, eu juro, meu Deus, me salva que eu tiro aquele Buda do meu altarzinho, está me ouvindo?, quem está me ouvindo?, Buda?, se você me salvar eu tiro a Nossa Senhora Aparecida, viu? Está me ouvindo, Nossa Senhora?, Iemanjá?, eu jogo aqueles duendes todos no lixo…” (trecho de É do cinema americano)

“Aurélia sabe apenas que este ano Rita é o primeiro destaque da escola, vai passar logo depois da comissão de frente, lá embaixo, no asfalto, a fantasia de Noiva da Noite, um esplendor que só mesmo o Alemão pode pagar. É hoje o desfile, o morro ferve, Aurélia pregou a última pluma na última fantasia minutos antes do sol nascer e correu pra pedra lá no alto, lá ficou todo o dia que não foi pra ela mais do que um momento, o longo e único momento da espera entre a partida e a volta, momento que terminou de repente, ao fim da tarde, quando viu entrar o navio na baía e soube que Orestes voltava nele, que não voltava para ela, que vinha apenas para a Noiva da Noite…” (trecho de Melodrama ou A Noiva da Noite)

Éramos, somos e seremos seis

06/12/2012

POR DETRÁS DAS PALAVRAS DESENCONTRADAS: a estreia memorável de Maria Valéria Rezende

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(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 8 de maio de 2001)

Numa conferência sobre o papel da literatura na formação do homem, Antônio Cândido se refere à importância do regionalismo para a ficção brasileira e a seu processo de democratização: da tirania do pitoresco e do exótico, executada por um escritor representante da norma culta, o qual se diverte e diverte o leitor imitando e caricaturando uma linguagem inculta e dialetal, para uma assimilação do falar inculto e dialetal dentro da própria linguagem do narrador. Um dos grandes precursores dessa atitude mediadora, por assim dizer, que atenua o choque hierárquico entre a norma culta e a fala regional, foi João Simões Lopes Neto (dos Contos Gauchescos), que trouxe o universo do homem “rústico” para a esfera do “civilizado”. Como diz Cândido, “o leitor nivelado ao personagem pela comunidade do meio expressivo, se sente participante de uma humanidade que é a sua e, deste modo, pronto para incorporar à sua experiência humana mais profunda o que o escritor lhe oferece como visão da realidade”.

É no extremo desse processo democratizante e solidário que se encontram os contos de Vasto Mundo, de Maria Valéria Rezende. Todos se passam no povoado de Farinhada, na Paraíba, que nem está no mapa (mas que, ora em diante, constará de toda a cartografia literária que se preze), e nos seus arredores (o sítio Ventania, Itapagi, Cataventos, onde fica o Rabo da Gata, a zona das prostitutas), e quase todos praticam o chamado discurso indireto livre, isto é, não se deixa muito claro o que pertence ao narrador e o que pertence ao personagem, portanto não há um distanciamento nítido entre culto e inculto, entre literário e popular.

O único conto em primeira pessoa é Morte Certa, no qual a narradora conta como o pacato Chico Quinta-Feira foi misteriosamente assassinado na sua frente, mas mesmo o narrador em terceira pessoa nunca se afasta muito do ângulo de visão das personagens, seja daqueles simplórios que se iludem com um possível amor, como Preá no conto-título, que sobe na ponta da torre da igreja para locar um beijo à moça forasteira (e assim inaugura a brecha entre o cafundó e o vasto mundo); ou como Mocinha, de Olhares (um dos melhores momentos de uma coletânea que prima pela unidade e coesão), que mal existia no mundo e que passa a se arrumar e valorizar porque um forasteiro pisca incessantemente para ela (mas é um problema fisiológico); ou como Josineide, de Um amor de Outro Mundo, que espera o homem certo, o príncipe encantado, e que acredita ter engravidado de um E.T.; ou como aqueles que abraçam uma causa política, como o sapateiro (e depois o seu filho) de O azul e o encarnado, o padre Franz de Não se vende jumento velho ou a freira de Aurora dos Prazeres; ou como aquelas mulheres que jamais pensariam em entrar em alguma causa política e, no entanto, acabam envolvendo-se por força das circunstâncias e da compaixão, como a mulher do latifundiário em O tempo que Dona Eulália foi feliz, ou como a mulher que lidera uma cantoria religiosa (e também de protesto) pela prisão de um posseiro em A guerra de Maria Raimunda; ou ainda como a mulher que nada tem a ver com política, mas quer recuperar a virilidade do marido, contratando uma prostituta em A obrigação; ou até como um matador que se angustia numa cafua em Medo. É como a própria autora (que não se assemelha em nada a uma escritora “estreante”), assumindo a “voz” da  Vila,  afirma de início: “Creio ter compreendido que nisto consiste o serem humanos, em poderem ser narrados, cada um deles, como uma história”.

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E por meio dessa penetração nos corações e mentes dos personagens é que se executa a mágica dialética entre o mundinho de Farinhada & arredores  e o tal “vasto mundo”: são forasteiros que chegam (como o jogador o qual, através de artimanhas, consegue a mão da moça mais bonita do lugar “e talvez do mundo inteiro”, em Sorte no jogo), são migrantes que vem aqui para o sudeste, é o E.T. que supostamente aparece no lugar, é o Iraque que aparece na tela da única televisão a que o zé povinho tem acesso (“Deve ser bem longe, que aqui ninguém nem ouve a zoada os tiros”, olha que genial), é o violento latifundiário, marido de dona Eulália (aquela que tem seu “tempo de felicidade”), que vai para Houston, após ser acometido por uma doença que o torna fétido.

O que importa, no entanto, é que “mundo, mundo, vasto mundo”, mesmo nesse mundinho onde-judas-perdeu-as-botas da Paraíba, os dramas humanos são aqueles mesmos de sempre, não muito diferentes do sudeste onde tantos familiares do povo de Farinhada se perdeu e da própria Houston.

Toda a empatia democrática demonstrada à exaustão por Maria Valéria e sua arte narrativa corria o risco de hipertrofiar-se numa idealização do povo, e às vezes certas soluções “coletivas” (como em Aurora dos Prazeres & A guerra de Maria Raimunda) parecem de fato idealizantes demais no seu exagero entusiástico pela força dos movimentos populares. Dois outros textos, porém, encarregam-se de fornecer a poética que norteia Vasto Mundo: a crença no socialismo democrático muitas vezes se transforma no exercício utópico, o que é um vezo da literatura latino-americana em geral, e que anda meio esquecido. São eles Boas notícias & Vou-me embora, os mais esclarecedores e emblemáticos da coletânea (embora o melhor, a meu ver, seja o maravilhoso Não se vende jumento velho).

Em Vou-me embora no anseio do professor Paulo Afonso em saber a localização da Pasárgada de Manuel Bandeira vemos a transfiguração do cotidiano pelo apelo poético e utópico, que também aparece em outros momentos de Vasto Mundo, como as representações de cenas bíblicas em A ressurreição ou o uso das fitas azuis e vermelhas no pulso, em brincadeiras pastorais e namoradeiras, representando a luta contra o poder em O azul e o encarnado.

E no belo Boas notícias (que tem um enganoso parentesco com o argumento de Central do Brasil), a mulher que lê as cartas de parentes para o pessoal do sítio Ventania e reinventa os fatos, afastando ou suavizando os detalhes ruins representa um pouco do projeto transfigurador da própria Maria Valéria Rezende, ao transformar seres humanas em vidas narradas, impulsionando seu texto muito além da mera denúncia factual (estamos aqui em outro nível de participação social e aproveitamento do regionalismo, de um raro quilate): “Era bom fazer um mundo melhor e aos poucos passou a viver como se o que inventava fosse a verdade, como se as notícias funestas é que fossem invenções de alguma alma maldosa que se apossara do correio. Já não se sentia mentindo, apenas interpretando a verdade que se escondia por trás de palavras desencontradas”.

a releitura de vasto mundo para neoleitores

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TRECHOS DOS CONTOS

Nota de 2012Relendo os contos da coletânea, me dei conta de que gostei ainda mais desta vez, e de todos em geral (não há um único conto fraco ou titubeante em Vasto Mundo, até Ressurreição, para o qual eu tinha torcido um pouco o nariz na primeira leitura, me agradou muito nessa revisão).  Algum dia, discutirei a classificação dada pela Beca ao livro como “romance”. Dadas várias experiências literárias, entre as mais recentes a do Inferno Provisário de Luiz Ruffato, em que histórias “soltas” são amarradas com a etiqueta de “romance”, e dado que o mundo de Farinhada preenche esse requisito de forma muito mais convincente e orgânico, até poderia ser tentado a aceitar essa classificação. Mas deixo para depois essa discussão.

Fiz as citações não pela ordem do índice, mas por essa preferência pessoal:

“Desistindo aos poucos de fazer retornar o padre à sobriedade permanente, a gente de Farinhada foi se conformando e passou a tratá-lo com maior carinho, como mãe que privilegia o filho mais fraco ou mais malandro. Encarregavam-se, por turnos, de levá-lo de volta para casa a cada entardecer. Limpavam-lhe a casa, lavavam-lhe a roupa, zelando para que não andasse sujo e nem caísse pelas calçadas. Com incansável paciência, as mães da vila faziam-no comer  empregando os estratagemas com as crianças de colo.

   Farinhada já se acostumava com os novos modos do padre. De qualquer jeito, era seu padre, o único que jamais tinha tido e que a libertara do medo do deus castigador, revelando-lhe o Deus maternal que se preocupa até mesmo com a situação da safra de feijão dos pobres ou com a diarreia dos meninos. As atividades religiosas e sociais retomaram seu ritmo, com os leigos cuidando de tudo. Até o dia em que as moças voltaram da reunião das catequistas em Itapagi, com a notícia que, por obra da gente de Assis Tenório, o bispo já sabia de tudo e vinha no sábado para levar embora o padre Franz…” (trecho de Não se vende jumento velho; se eu tivesse de fazer uma antologia dos meus contos prediletos, escolheria esse para representar o mundo de Farinhada)

“Aquele homem enorme, que jamais se vira por aqui, sabia bem para o que viera. Estacionou o caminhão vazio no pátio do posto e atravessou a rua com passo lento e seguro em direção a Maria Laura. Não foi preciso que dissesse nada para que a multidão dos basbaques ali postados lhe fosse abrindo o caminho, até que parou na primeira fila a menos de dois metros da janela. Plantou firmemente no chão aquelas pernas que pareciam troncos, cruzou os braços que pareciam pernas sobre o peito de touro e fixou na mulher olhos grandes e doces como os de uma vaca. Não se moveu mais até a madrugada. Foi assim por mais três dias, desde que se abria a janela, ao sol das duas da tarde, até que se fechasse aos primeiros sinais do amanhecer: ele olhava a mulher e ela o olhava. Ninguém sabe o conteúdo da muda conversa que se teceu entre os dois, mas os mais próximos e atentos acreditaram perceber uma sutil mudança em Maria Laura, como se sua beleza chegasse enfim à perfeição final. Alguns já nem puderam mais mirá-la, ofuscados.” (trecho de Sorte no jogo, que mostra que Maria Valéria leu muito atenta e proficuamente García Márquez)

“De volta ao Rio de Janeiro, esgotados os recursos médicos modernos, nos meses que se seguiram, apelou-se para o sobrenatural, o alternativo, o que fosse. Procuraram u famoso médium, que incorporava um doutor alemão, para que se operasse espiritualmente o fazendeiro mas foram informados de que aquele mal ultrapassava os poderes normais de cura espiritual. Mandaram vir os mais famosos babalaôs e babalorixás, pais, mães, filhas e filhos-de-santo, astrólogos, adeptos dos florais de Bach e da neurolinguística, numerólogos e videntes, ciganas, exorcistas e frades milagreiros, grafólogos, tarólogos, ufólogos, bruxas modernas, dançarinas do ventre, entendidos de I-ching, de tai-chi-chuan e de tae-kuon-do, terapeutas de vidas passadas, psicanalistas de todas as correntes, cabalistas, pajés de várias tribos, massagistas japoneses, acupunturistas chineses, bailarinas tailandesas, um chef de cozinha francês, hipnotizadores, faquires, ecologistas, encantadores de serpentes, professores de aeróbica e hidroginástica, padres e pastores de todas as igrejas que operavam curas, representantes do reverendo Moon, o preparados físico da seleção brasileira de futebol, rastafáris, roqueiros e funkeiros, gueixas e marafonas, mandaram buscar um pergaminho iluminado com uma bênção especial do Papa, uma fotografia autografada da Princesa Diana…” (trecho de O tempo em que dona Eulália foi feliz)

“A vida correu, por mais de sete anos, Maria do Socorro feliz, Cicinho crescendo, Pedro silencioso: nem á mulher contou o que se havia passado durante os anos em que desaparecera da vila. Assim teria continuado, que já se iam esquecendo dos tempos de ausência e doença do sapateiro, mas o rebuliço que andava acontecendo pelo país afora foi bater em Farinhada na pessoa de um jornalista e mudou uma vez mais a vida de Pedro de Antonino. Veio primeiro o repórter sozinho, perguntando por um tal Pedro Lima, filho dali de Farinhada. Só havia um. Durante quatro dias perguntou, o senhor foi estivador em Santos, esteve na Espanha, esteve na França, sem resposta, sem cessar, até que Pedro de Antonino olhou-o como quem volta de muito longe e disse: sou eu. Daí em diante aconteceram, em pouco tempo, coisas que agitaram toda a vila e encheram de orgulho os farinhenses, ainda que não entendessem completamente o que aquilo significava.” (trecho de um dos contos mais ricos sob o ponto de vista da técnica narrativa: O azul e o encarnado)

“A cada dia um novo passo a caminho da felicidade: terça-feira dobrou a cintura da saia para  encurtá-la, quarta-feira soltou os cabelos, quinta-feira foi á casa de Seu Feliciano e arranjou um serviço para distribuir camisetas do candidato de Assis Tenório e recolher os títulos dos eleitores beneficiados. Pagaram bem, bendita política! Sexta-feira foi ao Bazar Duas Irmãs e comprou um par de brincos dourados. Sábado, o lotação de Itapagi chegou e ele não veio. Logo hoje que estava se sentindo tão bonita! Dedicou o sábado e o domingo a aperfeiçoar as cenas de seu futuro com Roberto Carlos, sonhando acordada. À tardinha, quando todos os jovens da vila se concentravam na praça, ajeitou-se toda, botou os brincos e também foi. Seria impressão ou aquele rapaz do novo posto do correio estava olhando para ela de um jeito diferente? Não é que estava mesmo! E ali adiante, aquele  outro. Enxeridos…” (fui um pouco obtuso na primeira avaliação desse conto, Olhares, pois se o adorei, prestei mais atenção na crueldade patética da situação dos “olhares”, sem perceber que ao mesmo tempo havia um desabrochar da moça para além desse núcleo meio Cabíria ou Macabéa, lembremos de Machado de Assis: “O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”.)

“Desde então, Zefinha Lima tornou-se guardiã da alegria tranquila do sítio Ventania. Nunca mais emprestaria sua voz para uma notícia ruim. Quando as cartas eram boas, lia ou escrevia com a maior fidelidade, sem omitir uma palavra. Não mentia á toa, pelo gosto de mentir. Continuava a ser uma mulher verdadeira, mas a verdade maior era que aquele povo precisava viver. Que podiam eles fazer diante das desgraças já acontecidas, tão longe? Já bastava o peso cotidiano das duras tarefas do roçado e da casa, do sol quente e dos mosquitos, do medo das mordidas de cobras e das truculências de Assis Tenório que os explorava até arrancar o couro, do esforço sem descanso para sobreviver na pobreza. Bastavam as desgraças, doenças, mortes e malfeitorias que aconteciam ali mesmo, aos olhos de todos, que ela não podia mudar.

   Para a professora do sítio Ventania, impedir que as más notícias andassem daqui para lá e de lá para cá, espalhando tristeza e agonia, tornou-se uma missão. Quando era impossível esconder de todo um fato triste, pelo menos retirava-lhe a violência.” (trecho de Boas Notícias, que pode ser tomado como uma “poética de Farinhada”)

“E foi daí que Maria Raimunda, que tinha ficado só espiando a confusão, que não tinha nada a ver com isso, segura lá no sítio dela que ninguém podia tomar, entrou na história.

    Maria de Zuza não aguentou mais, vendo o marido, pai de seus filhos, homem de bem que nunca tinha pisado em delegacia nem por bebedeira, assim preso e maltratado feito malfeitor. Foi falar com Padre Franz e ele lhe disse que Deus olhava pelos pobres, aguentasse, tivesse paciência, tivesse coragem. Ela não tinha mais, não podia. Foi buscar força na casa da tia que para tudo tinha saída. Maria Raimunda viu Maria de Zuza chorando, olhou a penca de crianças agarradas nela, chorando todas, o bucho grande já em ponto de parir mais um, afastou a pena que vinha vindo e deixou crescer a raiva. Banhou-se, vestiu-se, agarrou num terço, saiu de casa e foi passando pelos sítios vizinhos chamando as mulheres que estavam na hora de rezar e foram todas atrás dela, no sol da uma da tarde, hora mais estranha para rezar!, porque é difícil resistir à autoridade de Maria Raimunda.” (trecho de A guerra de Maria Raimunda)

“Nos dias que se seguiram, muita gente jurou ter visto coisas estranhas, mas nenhum sinal concreto da presença do extraterrestre foi encontrado. Farinhada, o povoado mais perto da famosa curva, encheu-se de jornalistas, equipes de televisão e curiosos. Só o pessoal da NASA não apareceu. A pensão de Dona Inácia fez bons lucros, as meninas namoraram os fotógrafos, Erlinda vendeu mais de seiscentas empadinhas na praça, Padre Franz passou horas tomando cana e conversando de política com os jornalistas, enfim, uma semana de festa e distração. Passados sete dias sem sinal do viajante astral, a imprensa volúvel foi-se embora e as águas da rotina farinhense voltaram ao seu leito.

    Farinhada já começava a esquecer o episódio do disco voador. O extraterrestre, se é que existia, com certeza não havia mesmo de ficar num lugarzinho chinfrim como Farinhada e devia ter ido para uma cidade importante. Apenas Josineide não podia esquecê-lo: desde o dia da notícia alguma coisa mudara  em seus sonhos premonitórios…” (o delicioso Um amor de outro mundo; alguns anos mais tarde, Maria Valéria narraria outra visita de E.T. ao Nordeste no belo e divertido O arqueólogo do futuro)

“Oxente, então não é estranho esse caso? Pois se Raimundo Balbino, que qualquer um conhecia aqui na vila, que nunca saiu de Farinhada para nada além de Itapagi, já tinha morrido fazia para mais de três anos, de um caroço que lhe deu no espinhaço, foi se acabando bem devagarinho, para morrer na rede pendurada na sala da frente, de porta e janela aberta por mor de todo o mundo ver, de vela na mão, com Padre Franz de estola roxa ungindo o home, a prefeitura já avisada para emprestar o caixão, a cachaça já comprada e o café já feito na  cozinha para a sentinela, tudo normal como tem de ser a morte de um cristão! E Risoleta que nem gritou de desespero, nem se agarrou com a tampa do caixão de Chico pra não deixar fechar, ficou só ali parada  e calada a noite toda, olhando para o marido, quase que sorrindo…” (trecho de Morte Certa)

“Saíram da vila e do tempo, viveram por duas horas na Palestina, envolvidos em profundas emoções. Nem repararam que a rainha Herodíades era banguela, que a donzela Salomé estava buchuda de sete meses, que a cabeleira de Madalena escorregava para um lado e que se tocava o nosso velho baião na corte do rei Herodes. As palavras desconhecidas que pontilhavam os versos alexandrinos em que se desfiavam as falas em nada diminuíam sua capacidade de comover.” (trecho de Ressurreição, que agora só me desagrada um tantinho pelo seu ar “clube de conto”—Maria Valéria vai me entender)

“Um dia ouviu a Irmã Odete explicando a um grupo de moças mais velhas a beleza da vida religiosa e que qualquer uma delas podia estar sendo chamada. Aurora entendeu tudo e tomou sua decisão.

   Aos dezoito anos, quando o irmão mais velho casou-se e trouxe a mulher para dentro da casa. Aurora esperou que o irmão menor se curasse de uma catapora, enrolou numa toalha as poucas roupas que tinha, o velho livro de rezas da mãe, deixou recado com a cunhada: Diga a Pai que fui viver com as freiras na casa de Deus.” (trecho de Aurora dos Prazeres)

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“Três vezes se confessara com Frei Damião. Dissera tudo: que se deitara com mulher-dama e com mulher casada, que embuchara uma moça e depois a abandonara na zona, que chamara nomes, que jurara o Santo Nome em vão, que pensara em fazer acordo com o Cão… As mortes não disse, que não entravam no rol dos pecados. Recebera a bênção e tomara a Santa Comunhão das mãos do frade santo.

   E agora? Descobrira que era medo aquela mão gelada e dura esmagando-lhe o peito, o tremor no corpo inteiro, o suor frio, as tripas se retorcendo cada noite. Medo do Cão, porque se desviara de seu caminho: sem mandado de ninguém, matava com raiva um inocente.”  (trecho de Medo)

“Paulo Afonso esquadrinhara os atlas do velho padre, a enciclopédia amarelada e rota, começando pelas regiões mais longínquas, onde talvez ainda houvesse reis. Nunca pudera encontrar Pasárgada e acabara por voltar sempre, esmorecido, a Itapagi… a Farinhada não podia voltar porque não aparecia em nenhum mapa. Com o tempo, já nem buscava mais precisamente aquela terra, simplesmente vagava ao léu, por caminhos imaginários, enquanto Padre Joaquim cochilava na cadeira de balanço. Ia escolhendo e colecionando nomes de lugares encantados que copiava num caderninho e escondia como um tesouro:  Karakoran, Bangalore, Anatólia, Bucaramanga… muito longe, para além de oceanos e cordilheiras…ou Almenara, Parintins…. até Alhandra, Sirinhaém, logo ali, a apenas alguns milímetros de distância. Dos nomes terrestres passou aos nomes das estrelas: Sirius, Canopus, Antares, Aldebarã…” (trechos de Vou-me embora)

“Não adianta, o padre não entende essas coisas. Como é que pode dizer que não é obrigação, se foi Nosso Senhor que mandou e ele ainda mais fez promessa?  O padre diz que hoje é diferente. Como é que se pode mudar as coisas de Deus assim? Ai, bem que ficava aliviada… mas como é que ainda vou juntar pecado meu com o pecado dele se eu deixar tudo de banda e contente de não fazer mais o sacrifício como sempre fiz? Minha Nossa Senhora da Conceição, tenha pena, e me dê um ensinamento de como trazer a força desse homem de volta. Prometo que nunca mais vou ficar ali pensando que bom que era que não tivesse de aguentar aquilo, prometo que não vou me queixar do bucho grande, das varizes, da canseira e de aperreio de menino.” (trecho de A obrigação)

“Farinhada toda já sabe do amor de Preá e da exigência da moça. Apostam que ele sobe, que ele não sobe. A torre da igreja é alta e fina como uma agulha, como as da terra do Padre Franz, que a mandou fazer. Dona Inácia diz que é maldade da moça, diz a Preá que não suba. Mas o povo espera o domingo com mais interesse do que o clássico jogo de sábado contra o Itapagi Esporte Clube: Preá é leso, vai subir mesmo… Erlinda está fazendo coxinhas para vender na praça durante o acontecimento. Disseram que vem um caminhão de gente do sítio Ventania só para ver.” (trecho de Vasto Mundo, que, de qualquer forma, é um conto paradigmático).

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04/12/2012

A voz do povo: “Ouro dentro da cabeça”

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“…quem é que sabe, afinal, o que há de verdadeiro nas coisas que a gente lembra?, e que verdade se esconde nas coisas que a gente pensa que está inventando agora?” (O voo da guará vermelha)

“Pensei que até poderia enfim aprender a ler, porque ali por todo lado havia uma placa escrita. Se havia letras, havia gente que sabia ler, e, então, saí buscando caderno e quem quisesse me ensinar. Perguntava a todo mundo, homem, mulher e soldado, mas todos eles me olhavam como se eu estivesse louco:

__ Pra que aprender a ler, se nunca se ouviu dizer que lendo se encontra ouro?

   Começaram todos eles a me chamar de Doutor, a mangar de mim, me enganar, me aconselhando a procurar esse e aquele, que era um bom professor. Eu passava um dia inteiro procurando por Fulano pra, quando achava, saber que o sujeito era maluco, dos muitos loucos que havia, ou dos que já amanheciam afogados na cachaça. Por fim, vi que as bodegas dali não vendiam livro, nem um lápis, nem papel. Pensei aprender com as placas escritas pelas ruelas, mas, sempre que eu perguntava o que uma placa dizia, o outro sem nem olhar respondia as mesmas palavras que não iam me servir pra quase nada.

__ Compro ouro.

   Muitos dias se passaram, senti uma tristeza funda. Quando voltava da mata, onde eu ia bem cedinho controlar as arapucas e apanhar alguma fruta, entregava na cozinha o que eu trazia do mato, pra pagar minha pensão, e me largava na rede, cismando na minha vida, em tanta ilusão que eu tinha quando abandonei a Furna e desci aquela serra.

    Depois de tanto sofrer, embolando pelo mundo, o que é que eu tinha? Nadinha. A inocência perdida, assim como a alegria e a esperança de poder ler esses livros que eu ainda carregava e os livros todos que eu tinha a ambição e a certeza de ler, um dia, pra viver todas as vidas que alguém viveu e escreveu…” (Ouro dentro da cabeça)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 04 de dezembro de 2012)

Além da realeza da nossa MPB, um dos maiores nomes da cena atual da nossa literatura, Maria Valéria Rezende, completa 70 anos em 2012 (no próximo dia 8).

Preocupada com a formação de novos leitores, ela vem realizando experiências fundamentais na área da literatura infanto-juvenil (O arqueólogo do futuro, 2007, pelo qual tenho um apreço especial; o delicioso O problema do pato, 2007, que discute diversas concepções de morte e sepultamento a partir da morte de um pato de estimação;os haicais de No risco do caracol, 2008, entre outros[1]) e agora lança a ousada reescritura de um dos estratos narrativos de sua obra-prima O voo da guará vermelha (2005), no qual o protagonista contava sua trajetória de vida, mas de forma enovelada e não-linear (como o romance se fazia num ritmo “mil e uma noites”, o relato de um episódio desembocava em outro, numa técnica de encaixes).

Em Ouro dentro da cabeça, o Rosálio de O voo da guará vermelha transforma-se em Marílio e, como um artista popular de praça pública, conta suas errâncias pelo mundo de uma forma mais ordenada. O tento da sua criadora é que, propondo basicamente um texto para leitores iniciantes, ela consegue apaixonar e enredar o leitor experiente,  por meio de um discurso narrativo tão convincente, tão plástico, tão expressivo, que a “voz” de Marílio ecoa dentro da nossa cabeça como pedra preciosa lapidada, bem pouco “naive”. Nada falta, nada sobra. Ou melhor: gostaríamos de mais aventuras (alguns episódios do romance anterior foram abreviados, como a história de João Santeiro[2] e sua mulher adúltera, a qual no entanto sempre voltava para ele, quando abandonada e estropiada pelo amante; outros foram suprimidos, como o do Gaguinho, que organizava espetáculos de teatro no morro), mas tratando-se da formação de um herói macunaímico, proteico como a feição mais natural do povo brasileiro, graças a Deus ainda não uniformizado completamente pela televisão e pelo consumismo, a tendência é para o infinito.

Não se pense que a brilhante autora de Vasto Mundo (2001) e Modo de apanhar pássaros à mão (2006) tenha apenas reordenado a busca de Marílio, desde que era o Coisa-Nenhuma, menino sem nome, mestiço numa comunidade de negros, a Furna dos Crioulos (“Logo que eu nasci, não se sabia bem a cor da pele… O silêncio de minha mãe sustentou esse mistério até que eu cresci um pouco, minha cor foi se mostrando), e que sempre teve como maior desejo alfabetizar-se (“a coisa que eu mais queria era aprender a ler livros, que, quando o Pajé morresse, e eu fosse um pouco maior, ia sair pelo mundo por mor de aprender a ler e a escrever”). Cada capítulo, já a partir do título, é moldado como uma volta do parafuso em torno do eixo central que é essa procura de sentido, de organização da experiência através da palavra (“Conforme ela ia lendo, vi que ali estava tudinho que eu tinha lhe contado, até minha viagem de avião. Pedi pra ela ler de novo e escutei, assombrado, ir saindo a minha história das letras naquele papel que a mulher tinha traçado. Como se fosse um sonho, um milagre, a voz da bêbada lendo, apontando as letras com o dedo e contando toda a história de Maria Flora, que eu achava que ela nem tinha escutado, nem lembrava”), e por meio de uma disposição tipográfica que mimetiza exemplarmente a “fala” do herói (o livro também é ilustrado de forma admirável, por Diogo Droschi).

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O Coisa-Nenhuma, o Piá, pupilo do forasteiro branco que lê histórias (como a de Dom Quixote) e que lega a ele uma caixa com livros, por causa de uma alfabetizadora cuja fugaz passagem pelo lugarejo ermo o frustra enquanto leitor e homem desabrochando, forja para si o nome de Marílio e ganha o mundo, conhecendo o drama dos sem-terra, dos trabalhadores em regime de escravidão nos latifúndios do país, o desmatamento criminoso, a loucura da busca pelo ouro nos garimpos alucinantes, tomando consciência do poder bruto da exclusão, em toda a sua significação: “Descobri que, na cidade, tudo aquilo que eu sabia… tudo aquilo que eu pensava que era bom conhecimento, não valia quase nada na cidade, quase nada. Fiquei burro de repente. Só valia força bruta dos meus braços, minhas pernas, como se eu só fosse um corpo com uma cabeça vazia.”.

No final de O voo da guará vermelha, morta Irene (para imensa tristeza do leitor), a outra protagonista da história (que não aparece em  Ouro dentro da cabeça), Rosálio diz: “vou para o meio do mundo contar tudo o que já sei e mais as coisas que eu só posso conhecer quando disser, soltando minhas palavras, sem teto, laje ou telhado por cima de minha cabeça que me separe de Irene, que eu sei que por onde for, a minha guará vermelha, minha mulher encantada, vai sempre me acompanhar…”

A impressão que temos, ao ler esse novo livro de Maria Valéria Rezende, é que ela, também contumaz viajante por todo o vasto mundo, incorporou em si, quase como uma alma gêmea, a dicção de Rosálio-Marílio, e que esta por sua vez é uma alegoria do povo brasileiro, que, das praças, dos grotões, dos lugares não-midiáticos, dá o ar da graça na páginas dessa pequena, mas preciosa pepita ficcional. Irene dentro de Rosálio, ele-Marílio dentro de Maria Valéria, caixinhas chinesas que proporcionam um dos encontros mais consequentes entre o oral e o letrado já efetuados neste país.

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[1] Em 2012, foi lançada também sua tradução para Micrômegas, de Voltaire.

[2] Em O voo da guará vermelha, ele se chamava João dos Ais.

A linguagem contra o esquecimento do ser num dos grandes romances brasileiros


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“… e isso é tudo o que há para se ver, sem conhecer nem nascente nem poente, nem manhã nem tarde, tudo tão aqui, tão perto que a vista logo ali bate e volta, curtinha, sem se poder estirar mais longe, nem para fora nem para dentro, revolteando como passarinho há pouco engaiolado, afogando-se, cegueira. Tudo tão nada que Rosálio nem consegue evocar histórias que o façam saltar para outras vidas, porque seus olhos não encontram cores com que pintá-las…”

A tragédia maior retratada em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, era o vácuo de linguagem em que se debatiam as personagens, que não tinham sequer o vocabulário para expressar sua angústia e sua miséria. Vácuo de linguagem, “esquecimento do ser”.

É contra a submersão nessa condição desumana e cinzenta que luta o casal protagonista de O vôo da guará vermelha, Irene e Rosálio; ela, uma prostituta já num estágio avançado da AIDS (embora ainda recebendo clientes); ele, um servente de pedreiro analfabeto, inteligente, inato contador de histórias.

Depois de ter gostado muito da coletânea de contos Vasto mundo, primeiro livro de Maria Valéria Rezende,  fiquei um tanto alarmado com o título de seu romance, com seu apelo pitoresco, justamente uma armadilha regionalista evitada com perícia na obra de estréia. E tratando-se um segundo livro, sempre um momento perigoso…

Ao conhecer o encontro desse casal tão despojado de tudo no primeiro capítulo, qualquer prevenção caiu por terra. Fazia tempo que um capítulo inicial não emocionava tanto, mesmo porque a procura de sobrevivência se faz sobretudo pela aquisição da linguagem e essa experiência pedagógica é que permeia o relacionamento de Rosálio e Irene, ela ensinando-o a ler enquanto ele lhe conta histórias para que ela continue a querer viver, num processo de sedução especialíssimo: “Rosálio está ansioso para ver a mulher e as páginas em que ela o guia e onde as palavras o esperam querendo entregar-se a ele”. Ou ainda: “E ela sabe escrever!, esta mulher sabe ler!, leia mais, leia tudinho, me diga onde está  guará, e agora onde está vermelha e sangue e espinhos e penas. Aqui, ali, acolá, Rosálio corre nas linhas buscando a guará vermelha nos espinheiros das letras até vê-la com clareza e distinguir, luminosos, espinhos, penas e sangue.”

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A experiência de vida gera a escrita (Irene escreve as histórias de Rosálio num caderno), que devolve a experiência organizada e transformada, “tudo junto, embaralhado, tramado num pano só, nascendo da mesma cepa, me ensinando essa lição: que a vida mistura tudo e quem quiser separar não vive nada que valha”.

A expressão “experiência pedagógica” pode levar a um equívoco. Não se pense que Maria Valéria Rezende pretenda dar lições explícitas ao leitor e que O vôo da guará vermelha é um daquele textos dos quais se tira uma “mensagem” unívoca e edificante. A autora tem um lado idealista visível, um ideário perceptível, mas a qualidade da sua escrita e sua capacidade de concretizar ficcionalmente essas vidas com suas cores cambiantes é que faz dela um talento a ser acompanhado com muita atenção.

A leitura de O vôo da guará vermelha, assim como a de Vasto mundo, leva sempre a evocar as lições mais profundas de Antonio Cândido sobre a vocação da literatura brasileira, que é, no limite, a responsabilidade solidária diante de uma multidão de deserdados. Ou seja, para usar o velho clichê (nem por isso menos necessário), “dar voz aos oprimidos”. E ela o faz sem resvalar nunca no discurso panfletário. Suas personagens tiram as palavras (e portanto suas vidas) do nada, dispondo-as numa articulação narrativa, uma “forma”, uma imagem de nós mesmos (ao contrário do fazendeiro que, numa das belas anedotas de Rosálio-Scherazade, foi perdendo, devido à sua abjeção, sua identidade a ponto de não se reconhecer nos espelhos e ter pavor de encará-los). Como nos ensina o mestre da crítica brasileira, “a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere… toda obra literária pressupõe esta superação do caos.

E isto vai de encontro à tristeza que é a irrealidade demagógica e aleatória dos projetos governamentais no nosso país, que deixa os Rosálios com fome de palavras e de vida, como nos mostra a emblemática história da professora que, montada uma escola, chega no seu povoado  natal, fica um pouco, e depois some: o povo ficou na mesma, vivendo no realengo, a diferença era aquela casa nova, mais bonita do que qualquer outra do arraial, branquinha, vistosa, a nos lembrar todo dia que ali só havia analfabetos, coisa que a gente antes nem atinava o que era…A gente ficou mais pobre por causa daquela escola. Ninguém pensou em fazer nessa casa moradia e ela lá ficou, vazia…”

É assim que geralmente acabam as casas do rei-menino (para aludir ao título de um dos inúmeros livros de um dos ”luminares” da nossa educação atual, Gabriel Chalita, que sempre me lembra o Gilderoy Lockhart de Harry Potter e a câmara secreta: muita auto-promoção e pouca substância) que é o ensino brasileiro.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de outubro de 2005)

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