MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/12/2013

UMA MENINA SEM MODOS: QUE MORAL PODEMOS TIRAR?

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UMA MENINA SEM MODOS

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de abril de 2010)

    Como muitos adultos, sou fascinado por Alice no País das Maravilhas & Através do espelho e o que Alice encontrou lá, de Lewis Carroll, mais até do que muita criança. Relendo o primeiro (no original, Alice´s adventures in Wonderland, 1865 , numa excelente tradução integral (ou seja, não é uma das adaptações e condensações que inundam o mercado editorial) de Nicolau Sevcenko para a CosacNaify (infelizmente com ilustrações medonhas), mais uma vez me espantei com o volume de crueldade, desfaçatez, arrogância, perversidade, estupidez e violência que avulta na aparentemente inofensiva história da menina que vê um coelho tirando um relógio do bolso do colete, vai atrás dele, entra numa toca e a partir daí vive diversas aventuras num País das Maravilhas que de maravilhoso nada tem a não ser o nonsense do autor, seus jogos com as palavras, a lógica formal e seus silogismos, e as convenções sociais.

Nessa outra dimensão da realidade, Alice ora cresce desmesuradamente, ora diminui de forma aflitiva (“dessa vez, pode ser que eu suma de uma vez, como uma vela. E o que seria eu então?”). Isso gera dúvidas quanto à sua própria identidade, como no divertidíssimo diálogo com a pedante Lagarta, que pergunta quem é ela: “Eu neste momento  não sei muito bem, minha senhora. Pelo menos, quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem era eu, mas acho que depois mudei várias vezes… Eu acho que não consigo me explicar, minha senhora, pois não sou mais eu mesma…”

Alice fica confusa e furiosa com todas as suas mudanças, mas não exatamente angustiada, não há uma ameaça à sua identidade. Não estamos  no mundo da Metamorfose de Kafka… ainda. O que está em jogo, aqui, é a disponibilidade infinita da criança, antes de ser domesticada e deformada pelas regras absurdas e impositivas do mundo adulto. Todo o absurdo delicioso de Alice no País das Maravilhas reside no fato de que os seres que a heroína encontra tentam impingir-lhe (e se ela retruca e questiona, consideram-na  “sem modos”) ou considerações lógicas que no fundo são idiotas e rebarbativas, ou regras que não têm sentido, que “têm de ser assim”, sem fundamentação alguma.

Nada demonstra melhor isso (se as cenas anteriores, como a conversa com a Lagarta, a cena com a Duquesa, a Cozinheira e o Bebê, ou a hora do chá interminável com o Chapeleiro |Maluco e a Lebre Aloprada, não o tiverem feito; de qualquer forma, elas inscrevem-se indelevelmente na nossa imaginação, mesmo que não procuremos “explicá-las”) do que o baralho de cartas que forma uma  Corte (é preciso lembrar que Carroll escrevia num país onde até hoje persiste a realeza). E há coisa mais arbitrária do que as regras de um jogo de cartas?

Durante o julgamento do Valete (com a ameaça onipresente da Rainha de Copas de sempre mandar cortar a cabeça de alguém, promulgando a sentença, antes do veredicto, e aí sim estamos já no mundo kafkiano), o Rei quer expulsar  Alice citando a regra 42 do regulamento. Ela, a sem modos, retruca: “Pois bem, eu não vou sair daqui  de jeito nenhum! E além do mais, não existe essa tal regra, você acaba de inventar isso agora mesmo”. O rei replica, como se  bastasse apenas dizer isso: “É a mais antiga regra do Livro”. Alice, impávida, mostra que tudo que é sólido pode se desmanchar no ar e que as certezas do mundo adulto podem sempre ser voltadas contra ele: “Nesse caso, ela deveria ser a de Número Um”.

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QUE MORAL PODEMOS TIRAR?

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 2010)

Na minha geração (a dos quarentões), a referência de tradução para Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho (e o que Alice encontrou por lá) é a de Sebastião Uchôa Leite (1980), que resgatou os clássicos de Lewis Carroll do mundo Disney e das adaptações infantis (mesmo a de Monteiro Lobato). Atualmente, contudo, a versão de maior destaque é a da Zahar, realizada por Maria Luíza X. de A. Borges, porque se baseia na edição norte-americana comentada (por um grande especialista, Martin Gardner). Além das notas enciclopédicas,  apresenta as ilustrações originais de John Tenniel e um capítulo que permaneceu inédito de Através do Espelho, “O marimbondo de peruca”.

       Agora, com o lançamento da superprodução (que não parece nada auspiciosa) de Tim Burton, lançou-se uma versão reduzida, sem o aparato crítico-informativo de Gardner e sem o capítulo extra, tornando-a mais palatável para o leitor comum, e talvez para as crianças. A meu ver ainda continua sendo um belo acontecimento editorial, mesmo porque não se compromete de forma alguma com o visual do filme (e leva a vantagem sobre o empreendimento similar da CosacNaify, uma notável tradução de Nicolau Sevcenko, já que este se limitou à primeira parte).

     Que “impulsos inconscientes” tornavam necessário para Carroll (pseudônimo do clérigo e matemático Charles Dodgson) “estar sempre deformando e esticando, comprimindo e invertendo, revertendo e distorcendo o mundo conhecido, pergunta Martin Gardner. O autor de Alice foi um pedófilo que nunca abusou (ao que se saiba) de uma criança, mas que sempre teve a necessidade de estar cercado por menininhas impúberes e até desenvolveu a arte da fotografia na Inglaterra para registrar suas “amiguinhas”, inclusive a verdadeira (e homônima) inspiradora da sua heroína.

  No entanto, todos concordam, há tanto dele quanto da sua musa no personagem (ele se auto-retrata de uma forma mais explícita no cavaleiro desajeitado e quixotesco de Através do Espelho). A duplicidade em que se debatia, um homem que inovou a lógica formal e ao mesmo tempo acreditava em fadas, um solteirão inveterado e com uma orientação sexual muito particular numa das épocas (a vitoriana) mais conservadoras da história, é magistral, cômica e bizarramente transformada num desfile de personagens malucos (alguns deles inesquecíveis) e paradoxais.

      “Há uma moral em tudo, desde que tiremos proveito dela, escreveu Dickens, um dos ídolos literários de Dodgson, o qual, por sua vez, afirmou num ensaio: Tudo tem uma moral, se decidimos procurar por ela”, o que vai de encontro ás suas reiteradas afirmações de que não se deveria procurar uma “moral” nas histórias de Alice (aliás, a Duquesa, uma personagem ridícula e feia do primeiro livro, vive fazendo isso). Qual seria a moral dessas aventuras? Creio que já nos primeiros capítulos podemos extraí-la (sem que isso tire o encanto e a variedade dos episódios, principalmente de Através do Espelho): Alice chegou ao País das Maravilhas, mas há uma porta fechada e ela procura a chave. Com ela em mãos, nem por isso consegue a entrada, pois muda de tamanho a toda hora, ou seja, nunca está na medida certa para ingressar no outro lado da porta, que é o mundo dos adultos. No final, para vencer esse desafio, ela cria um emblema de si mesma, torna-se uma Rainha. Vitória ou derrota da infância, da inocência e da infinita disponibilidade e desenvoltura, tudo o que Charles Dodgson/Lewis Carroll idolatrava?

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/04/09/destaque-do-blog-as-aventuras-de-alice/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/11/excesso-de-fadas-na-mente-do-matematico-lewis-carrol-silvia-e-bruno/

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18/01/2012

O MAIOR INIMIGO DE SHERLOCK HOLMES

“Arthur tinha  a intenção de usar Holmes por dois anos—três no máximo, antes de matá-lo;  depois, ele concentrar-se-ia nos romances históricos, que sempre soubera ser o que fazia melhor…”

“Em dezembro daquele ano, Holmes despencou para a morte nos braços de Moriarty, ambos precipitados no abismo pela mão impaciente do autor. Os jornais de Londres […] encheram-se de protestos e indignação pela morte de um detetive inexistente cuja popularidade tinha começado a embaraçar e até mesmo aborrecer o seu criador. Arthur teve a impressão de que o mundo havia enlouquecido: seu pai acabara de ser enterrado, sua esposa estava condenada [pela tuberculose], mas os homens da City estavam aparentemente usando fitas pretas nos chapéus em sinal de luto por mr. Sherlock Holmes…”

    (trechos de Arthur & George, de Julian Barnes)

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2012)

  Durante muitos anos, Arthur Conan Doyle (1859-1930) manteve a esperança (a ilusão) de que a criação de Sherlock Holmes não fosse o seu legado, pois não era “séria”, como suas outras obras literárias. Por isso, após o sucesso estrondoso de Um estudo em vermelho, O sinal dos quatro e As aventuras de Sherlock Holmes, no último conto de Memórias de Sherlock Holmes (The memoirs of Sherlock Holmes,1893), ele resolveu matá-lo.

   O legendário conto O problema final (The final problem) transformou-se num texto-fetiche porque nele aparece também um criminoso que ao longo de todo o imaginário em torno do detetive da Baker Street ganharia status de arqui-vilão (mesmo que só tenha sido utilizado em escassas aventuras): o professor Moriarty.

   Watson está casado, não vê Holmes há certo tempo e, de repente, este surge na calada da noite em sua residência e pede que ele o acompanhe ao Continente. E expõe sua situação: está prestes a desbaratar todo o submundo do crime e pode ser morto a qualquer hora. Quem está por detrás de tudo é um ex-gênio da matemática e agora o “Napoleão do Crime”, Moriarty.

    O que torna notável O problema final é como Holmes assume Moriarty como uma contrapartida complementar de si mesmo, e a necessidade de os dois se destruírem mutuamente, como supostamente acontece nas cataratas Reichenbach (na Suíça). Como narra Watson, “Aludia repetidamente ao fato de que, se pudesse ter certeza de que a sociedade se livraria do prof. Moriarty, ele encerraria alegremente sua carreira [1].

    Chegando a tal clímax, com a criação de um vilão desses, não é de estranhar que houvesse uma grita geral contra um desfecho tão abrupto para Holmes. Conan Doyle resistiu quase uma década, cedendo enfim ao publicar (em 1902) O cão dos Baskervilles, o qual se transformaria no mais famoso entre os romances sherloquianos.

   Não bastou. O público queria que Holmes estivesse vivo (pois os fatos do livro sobre a maldição dos Baskervilles teriam acontecido antes de sua suposta morte). E então veio um triunfal A volta de Sherlock Holmes (The return of Sherlock Holmes,1905), cujo primeiro relato, A aventura da casa vazia, começa três anos após os nefastos acontecimentos nas cataratas. Watson ainda se interessa pelos crimes “interessantes” que mobilizam a imaginação, e um deles é o assassinato de um jovem dentro de um quarto trancado. Perambulando pelos arredores do local do homicídio, esbarra num velho livreiro, que pouco depois descobre tratar-se de Holmes, vivo e disfarçado (um pendor que a ficção inglesa demonstra de forma contumaz), devido à necessidade de se ocultar do braço-direito de Moriarty (que realmente morreu na queda), coronel Moran, o misterioso assassino do quarto trancado, especialista em armas de ar comprimido. No desenlace, lemos que “mais uma vez o Sr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida a examinar aqueles probleminhas interessantes que a vida complexa de Londres apresenta com tanta fartura” [2].

   Na próxima vez, Doyle não foi tão radical (já conhecia seu público e talvez já estivesse resignado) e agiu mais esperta e sutilmente para se livrar de sua criatura. Em Os últimos casos de Sherlock Holmes (His last bow, 1917), já no prefácio ele anuncia a “aposentadoria” do detetive devido ao reumatismo e à paixão pela apicultura. Isso não impede que em Seu último caso, seja utilizado pela Inteligência britânica para desmascarar e prender um espião alemão, às vésperas da Primeira Guerra. Já então bastante adaptado para teatro e cinema, Doyle dispensa a narrativa de Watson e escreve de forma cênica, quase toda em diálogos, embora utilizando seus velhos recursos: o uso do disfarce, o duelo de inteligência entre vilão e herói etc. O último parágrafo é elegíaco, com Holmes dizendo a seu fiel companheiro: “Você é um ponto fixo numa época de mudanças! De qualquer forma vem vindo um vento leste, como nunca antes varreu a Inglaterra. Será frio e amargo, e muitos de nós poderão ser fulminados por sua rajada (…) quando passar a tempestade, um país mais puro, melhor, mais forte, brilhará ao sol…”[3]

   Nem assim foi o fim. Em 1927, surgiram  as Histórias de Sherlock Holmes (The case-book of Sherlock Holmes), das quais pelo menos uma ficou bastante famosa (O vampiro do Sussex), e cujo prefácio não poderia ser mais (auto)mordente: “Receio que Sherlock Holmes fique parecendo com um desses tenores populares que, tendo sobrevivido à sua época, ainda se sentem tentados a fazer repetidas mesuras de despedida para o seu público complacente. Isto tem de acabar, e ele precisa seguir o caminho de todo ser humano, real ou imaginário”.[4]

    Não acabou. E não há indícios que acabe. Holmes sobreviveu a Doyle, como sobreviveu a Moriarty.


[1]  Neste passo, como em todas as demais ocorrências no corpo do texto, utilizo as versões constantes na edição da Agir Sherlock Holmes- edição completa (romances e contos). As passagens citadas foram traduzidas por Áurea Brito Wissenberg, Flávio Mello e Silva, Adailton J. Chiaradia & Myrian Ribeiro Güth.

   Na edição da Zahar Sherlock Holmes- edição definitiva (comentada e ilustrada), as traduções foram realizadas por Maria Luiza X. de A. Borges. As memórias de Sherlock Holmes ocupam o volume 2 e a passagem encontra-se traduzida da seguinte forma: “Reiterou inúmeras vezes que, se pudesse ter certeza de que a sociedade ficaria livre do professor Moriarty, poria fim à sua própria carreira alegremente”. Na verdade, `pôr fim à sua carreira alegremente” significa morrer.

   É curioso também como os preconceitos científicos da época entram em jogo na caracterização de Moriarty: ele poderia levar uma carreira de gênio matemático, mas sente correr no sangue uma tara criminal hereditária.

 [2]  Na já referida edição da Zahar, A volta de Sherlock Holmes ocupa o volume 3, o conto aparece como A casa vazia e a passagem aparece assim: “…mais uma vez, Mr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida ao exame daqueles interessantes probleminhas que a vida complexa de Londres apresenta com tanta abundância”;

   A esposa de Watson sequer é mencionada. Ela tem um desaparecimento mais gritante do que o do próprio Holmes.

[3] No volume 4 da edição Zahar, o título é O último adeus de Sherlock Holmes e lemos a passagem deste modo: “Meu bom e velho Watson! Você é o único ponto fixo numa era em transformação. Mesmo assim, um vento leste se aproxima, um vento como nunca soprou na Inglaterra. Será frio e implacável, Watson, e muitos de nós poderemos perecer sob seu sopro. Apesar disso […] o sol iluminará uma terra mais limpa e mais forte quando a tempestade tiver passado.” Aqui já é um mundo pós-John Buchan e Os 39 degraus, com carros, submarinos etc.

[4] No volume 5 da Zahar, e sempre na tradução de Maria Luiza X. de A. Borges: “Receio que Mr. Sherlock Holmes possa vir a ser um daqueles tenores populares que, tendo deixado para trás seus dias de glória, ainda se sentem tentados a fazer repetidas despedidas de suas indulgentes platéias. Isso precisa cessar, e ele deve seguir o caminho de toda carne, material ou imaginária.”

   Não tenho a energia e o gênio investigativo da nossa Sherlock das traduções e suas contrafações e indevidas apropriações, Denise Bottmann (basta conferir recenseamentos como, só para dar um exemplo entre muitos, o que ela realizou sobre Nietzsche, no notável www.naogostodeplagio.blogspot.com )  por isso sequer arranhei a massa de versões vernáculas dos quatro romances e cinqüenta e seis contos do cânone sherloquiano. Só a Melhoramentos têm duas séries diferentes, a L&PM também tem publicado vários títulos e por aí vai…

    Por exemplo, a primeira vez que li (deve ter sido em 1977 ou 78) casos da dupla Holmes-Watson, As aventuras de Sherlock Holmes (que me desiludiu de tal forma que durante anos tive uma certa aversão pelo personagem), foi numa edição da Artenova.

13/01/2012

O FIO VERMELHO DO CRIME NA MEADA CINZENTA DA VIDA

Dedico este post à minha amiga Maria Valéria Rezende, pelas nossas conversas sobre Marx

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“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciênia. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sõbrevém então uma época de revolução social…”

      Em 1859, Karl Marx conseguiu publicar alguns capítulos mais ou menos em estado legível das suas primeiras investigações sobre o capital, que ele começara a esboçar dois anos antes: Contribuição para a crítica da economia política (cuja tradução pode ser encontrada no volume dedicado a ele em “Os Pensadores”, organizado por José Arthur Gianotti, responsável também pela tradução, com a colaboraçãode Edgard Malagodi). Como acontecia muito comumente em Marx, quando ele publicou, já estava “alhures”, o texto já se tornara algo superado (no sentido pessoal, claro), e ele estava pronto para se dedicar ao Capital.

O trecho que transcrevi é do prefácio que escreveu, sintetizando sua trajetória até os limites da grande obra da sua vida (cujo primeiro volume só apareceu em 1867, como desenvolvimento extremo das idéias da Contribuição).

Esse texto de Marx é da maior importãncia: temos a base das suas principais idéias sobre o capitalismo e além disso, ele estava no centro do Império. Como narra o doutor Watson, voltando do Afeganistão, muito doente e combalido: “… senti-me naturalmente atraído por Londres, essa grande cloaca para a qual todos os vagabundos e ociosos do Império são irresistivelmente drenados.” ( UM ESTUDO EM VERMELHO). Marx, o homem do “tudo que é sólido desmancha no ar”, esperando que as contradições do capitalismo, tal como as diagnotiscava no seu centro, a capital-cloaca do império Britânico. Se pensarmos que, no mesmo ano Darwin publicou A origem das espécies temos uma espécie de ano-chave, cabalístico. E foi justamente em 1859 que nasceu Arthur Conan Doyle.

Ao contrário de Agatha Christie, o criador de Sherlock Holmes não foi generoso na quantidade de histórias do seu herói (que foi um peso na sua vida e ele estava sempre disposto a matá-lo): seis coletâneas de contos e quatro romances; porém, a quantidade de material que um dos mais famosos personagens da cultura ocidental (e certamente o mais conhecido detetive), ao lado de Ulisses, Quixote, Hamlet e poucos mais, gerou é  incontável.

A coleção Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada, que agora chega ao sexto volume, pela Zahar, ajuda a compreender o mito Holmes, que ultrapassou o seu criador e os textos originais: nela, o gênio da dedução da Baker Street 221-B e seu parceiro Watson são tomados como seres reais, e todo o aparato de notas e informações é baseado nessa premissa lúdica e muito atraente para quem vive da bênção da leitura segundo Harold Bloom: “mais vida em tempo ilimitado”.

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Foi com os filmes estrelados pelo magnífico Jeremy Brett (ver foto acima; onde vemos que na sua composição de Holmes ele deixou qualquer clichê para trás e deu-lhe um toque “Hannibal Lecter”;  outro talentoso Holmes moderno foi James D´Arcy, porém logo o substituíram por Rupert Everett que deu um show de canastrice), numa série de televisão memorável, e também devido a essa coleção que fiz as pazes com Sherlock Holmes. Quando era garoto, tive a maior decepção com As aventuras de Sherlock Holmes (como explico na resenha abaixo). Mais tarde, lendo os romances, considerei Doyle um escritor medíocre, muito inferior à criadora de Poirot e Miss Marple. No cômputo geral, seu personagem valia mais como paradigma incessantemente reinventado.

O sexto volume proporciona a oportunidade de reler justamente o “nascimento” de Holmes & Watson, UM ESTUDO EM VERMELHO  (1887), e constato que minha paixão pelo tipo de mistério arquitetado por Agatha Christie atrapalhou na avaliação dos talentos de Doyle. É certo que a história é fraca, o mistério incolor, as deduções cabotinas e nada convincentes. Holmes informa aos policiais da Scotland Yard, após a descoberta de um corpo numa casa deserta: “… o assassino foi um homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, estava na flor da idade, usava botinas grosseiras de bico quadrado e fumava um charuto Trichinopolo. Veio para cá com sua vítima num fiacre de quatro rodas, puxado por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova na parte dianteira direita.  Com toda probabilidade, o assassino tinha um rosto avermelhado e unhas notavelmente compridas na mão direita. Estas são apenas algumas indicações, mas podem ajudá-los.” A não ser para impressionar o leitor, em que essas informações minuciosas, mas realmente inúteis, poderiam ajudar a polícia? Esse lado CSI oitocentista de Sherlock Holmes permanece o aspecto que mais me desaponta e irrita.

Por outro lado, como é talentosa, colorida e bem-humorada a narração do Dr. Watson! Como resistiu ao tempo! Vemos de forma sintética o primeiro encontro dos dois, como começam a dividir os aposentos na Baker Street, as diferenças de temperamento, a fixação dos hábitos e manias do detetive, sua gangue de menores de rua, que se espalham por uma Londres-Babel. Há, ademais, todo o flash back ambientado em Utah, entre os mórmons, que explica o porquê dos assassinatos cometidos pelo vingativo Jefferson Hope (eu não dava grande valor a essa parte, porém agora a acho excelente e cheia de suspense). Levando isso em conta, até as vaidades de Holmes, ciosamente contabilizadas pelo seu parceiro (ou “discípulo”), que importância tem se os crimes (dois americanos são assassinados) são pouco interessantes e se os métodos para desvendá-los pareçam truques? São truques de um bom prestidigitador literário, é preciso que se faça a devida justiça a esse autor que foi um dos responsáveis por manter a era vitoriana como um fetiche absoluto na imaginação popular e na indústria cultural.

Antípoda a Marx,  Holmes é o homem da ordem, da manutenção da lógica do capitalismo: “O fio vermelho do assassinato corre através da meada incolor da vida, e nosso dever é desemaranhá-lo, isolá-lo, e expor cada centímetro dele.”

Temos, também, na fixação do Cânone Sherloquiano, as deliciosas notas em que, além das muitas informações da época, fanáticos pelo detetive analisam exaustivamente cada momento do livro, propondo interpretações e soluções para os desacertos e contradições (pois eles abundam, e os fanáticos pela obra são os primeiros a apontá-los), que são quase  um segundo livro para se ler.

(o texto acima é a versã ampliada de resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de novembro de 2009, em homenagem aos 150 anos de Conan Doyle)

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(resenha sobre os dois primeiros volumes da coleção da Zahar, publicada  originalmente em “A Tribuna”, em 05 de agosto de 2006)

  Após a “Obra Completa” de Arthur Conan Doyle (1859-1930) envolvendo Sherlock Holmes, em três compactos volumes, pela Ediouro (nota de 2009: a editora Agir fundiu os três volumes num só), a Jorge Zahar lança agora uma iniciativa bem mais ousada: a tradução dos cinco volumes de uma enciclopédia sherloquiana, sob a responsabilidade de Leslie S. Klinger: Sherlock Holmes- Edição Definitiva – Comentada e Ilustrada. Por enquanto, há dois volumes no mercado e eles são uma verdadeira delícia para o amante da ficção, ainda que não exatamente pela qualidade da ficção de Conan Doyle.

Pois, ao reler –no primeiro volume—As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), senti a mesma e frustrante decepção que tive aos 12 anos diante da mesma coletânea inaugural de casos do mais cultuado detetive do mundo: histórias medíocres, mistérios pífios, demonstrações ocas da pretensa acuidade de Holmes, embora –então, como agora— o dr. Watson escapasse milagrosamente ileso do desastre. Isso sempre determinou uma antipatia invencível pelo personagem até que ele foi admiravelmente encarnado por Jeremy Brett (secundado por um igualmente mais-que-perfeito Edward Hardwicke como Watson). A magistral caracterização de Brett (similar à perfeição com que David Suchet encarnou Poirot) operou uma necessidade de reavaliar o fascínio e o carisma de uma das personagens fictícias mais célebres, imitadas, pastichadas, verdadeiro ícone cultural.

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E a essa expectativa a edição de Klinger atende fartamente: vastamente documentada, com anotações à margem do texto (é preciso que se faça justiça ao trabalho editorial, de primeira qualidade), ela se fundamenta num pressuposto fascinante: a crença na existência efetiva de Holmes & Watson, crença compartilhada há mais de um século por muita gente.

No caso de Klinger, pouco importa se essa crença é simulada, produto de uma brincadeira intelectual, um auto-ilusionismo. O que importa é que ela funciona e faz da sua coleção um empreendimento importantíssimo para a literatura e a ficção, num momento em que a obsessão por histórias baseadas em fatos reais, reality shows e outras fórmulas acabam encenando pelo mundo afora uma espécie de morte da imaginação. Klinger vem reinstaurar o prazer de descobrir o “amigo imaginário”, aquele que nos dá acesso ao nosso próprio código pessoal. E o leitor de 40 anos, mesmo não se convencendo muito com relação a Arthur Conan Doyle, lembra-se de outras portas de acesso a esse mundo: Júlio Verne, Mark Twain, Agatha Christie, Robert Louis Stevenson.

Pena que as aventuras de Sherlock Holmes ficam a dever, mesmo com o poder de persuasão do genial Jeremy Brett ou com o aparato de Leslie S. Klinger: por exemplo, na famosa e paradigmática Um escândalo na Boêmia, há uma ridícula aparição do cliente (o rei da Boêmia), que faz o leitor cair na gargalhada, não há mistério algum e ainda Holmes é derrotado, depois de encenar uma tola farsa; em A liga dos Cabeças Vermelhas há até um certo clima na narrativa do cliente, mas todas as ações de Holmes para solucionar o problema tiram o charme do conto, que fica como um protótipo distante dos seriados televisivos (Holmes seria um CSI hoje em dia); e, só para dar mais um exemplo, que raio de mistério seria Um Caso de Identidade?: no próprio ato de se contar o problema, qualquer leitor percebe a solução.

Mesmo assim, e que se perdoe o paradoxo, vale a pena mergulhar nos volumes de Sherlock Holmes- Edição Definitiva, um presente para a memória afetiva de quem norteou sua formação pela leitura de livros.

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serviço: Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada. Organizador: Leslie S. Klinger. Primeiro volume: As Aventuras de Sherlock Holmes.495 págs. Segundo volume: As Memórias de Sherlock Holmes (1893). 427 págs. Tradução de  Maria Luiza X. de A. Borges. Editora Jorge Zahar.

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