MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/10/2014

POÉTICA DA PENUMBRA: Patrick Modiano, o Nobel dos territórios obscuros

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 15 de outubro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/10/patrick-modiano-o-nobel-dos-territorios.html)

Aos 69 anos, Patrick Modiano foi anunciado como vencedor do Nobel, exatamente meio-século após outro francês, bem mais célebre, Jean-Paul Sartre, ter recusado com veemência a premiação. Será mera coincidência?[1]

Ao contrário, no entanto, da suposição generalizada por aqui, Modiano não é um desconhecido. Seus livros geralmente são sucesso de vendas e, para muitos, trata-se do maior escritor vivo da França. Aos 33 anos, Uma rua de Roma (Rue de boutiques obscures, 1978) ganhou o badalado prêmio Goncourt. Nessa obra-prima, ele fixou definitivamente um inconfundível universo de territórios e tempos obscuros, ao criar o detetive desmemoriado que investigava indícios, quase todos fugidios e evanescentes, do próprio passado, ao mesmo tempo uma incógnita e carregado de marcas opressivas: a Ocupação nazista, o colaboracionismo.

Modiano obsessivamente nomeia logradouros e fixa datas[2]. Nem por isso deixamos de ter a sensação de mergulhar numa atmosfera insubstancial, na falta de evidências concretas, a realidade tomada pelo fuliginoso, uma verdadeira poética da penumbra: Janeiro de 1965. Às seis horas já estava escuro no cruzamento do bulevar Ornano com a rua Championnet. Eu não era nada, eu me confundia com esse crepúsculo, com essas ruas…”, lemos em outro belo livro, Dora Bruder (1997), onde o narrador persegue — com clara percepção do fiasco da empreitada— os vestígios mínimos (“Levei quatro anos para descobrir a data exata de seu nascimento, 25 de fevereiro de 1926. E levei mais dois anos para conhecer o lugar onde nascera: Paris, décimo segundo arrondissiment. Mas, sou paciente. Posso esperar horas sob a chuva”) remanescentes da passagem por este mundo de uma adolescente judia dos tempos da Segunda Guerra: “Os pais perdem a pista da filha, e um deles vai desaparecer também, nesse 19 de março, como se o inverno daquele ano separasse as pessoas, destruísse e queimasse as pistas, ao ponto de lançar uma dúvida sobre a sua existência. E não há nada que possa ser feito. Os mesmos que são encarregados de o procurar e encontrar fazem fichas para que seja mais fácil fazer com que você desapareça depois, definitivamente”. Modiano continua a seu modo — com uma espécie de olhar de esguelha — uma das Grandes Narrativas da modernidade, cujo grande pai fundador é Kafka: a irrealização do humano (e especialmente da singularidade individual) pela burocracia.

Alguém ficará surpreso de lhe atribuírem o Nobel por conta “da arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a Ocupação”?

du plus loin

Apesar de tema recorrente, é injusto dizer que sua obra se limita a esse período histórico. Tome-se, por exemplo, um romance excelente como Do mais longe do esquecimento (Du plus loin de l´oubli, 1996) [3], cuja trama transcorre vinte anos depois da guerra. O narrador, ainda menor de idade, rompeu com os pais e mora num hotel (sem domicílio fixo, os personagens modianescos transitam por alojamentos provisórios, muitas vezes precários e sórdidos, nas bordas do escuso[4]), vendendo livros de arte para sobreviver.

Ele se envolve com Jacqueline, viciada em éter, que vive com Van Bever, jogador inveterado, e tem um caso com o suspeitíssimo dentista Cartaud. A certa altura, Jacqueline propõe ao protagonista que roube uma mala no consultório do amante e ele o faz sem pestanejar. As páginas em que narra o intervalo de tempo, após o roubo, até entrar em contato com Jacqueline, estão entre as melhores que Modiano escreveu. O jovem narrador, inclusive, se visualiza fugindo sozinho com a mala, arrastado pelo imaginário das estações e trens que pululam no universo do Nobel 2014[5], tanto quanto os hotéis e pensões.

Enfim, os dois vão para Londres e conviverão com a nascente fauna da Swinging London anos 1960, em disponibilidade total (e sempre com um pé no submundo[6]), e também com um sentimento de irrealidade (que pode ter elementos de sonho ou pesadelo), de que “a vida ainda não começou”. E nem começará: tão gratuitamente como se aproximou dele, Jacqueline desaparecerá; só irão se reencontrar dali a quinze anos; e depois de outros tantos, ele perambulará por Paris, recordando e ruminando esses incidentes e ligações (“Quinze anos se passaram ainda, numa tal bruma, que se confundem uns com os outros”), possivelmente os únicos um pouco mais nítidos na nebulosa, no lusco-fusco da sua existência: “…teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e perda progressiva de identidade…”, ele nos diz, manuseando a certidão de nascimento, como se tentando comprovar via documentação sua presença no mundo[7], tal como o narrador de Dora Bruder tentará fazer com a desaparecida Dora, ou Guy, o detetive de Uma rua de Roma, com seu passado, antes de adotar esse avatar[8].

A desconcertante, fragmentária educação sentimental narrada em Do mais longe do esquecimento pode frustrar leitores que queiram uma trama unívoca, coesa e dirigida a um fim. Em contrapartida, se o pensador polonês Zygmunt Bauman estiver correto em sua hipótese de que vivemos em plena “modernidade líquida”, com o afrouxamento de laços com o real e até da noção de identidade, poucos a registraram tão poderosamente quanto Patrick Modiano em seus romances curtos, de linguagem sóbria, quase seca, e perigosamente movediços: podemos afundar neles[9].

resenha modiano

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NOTAS

[1] E aqui devo lembrar que somente  21 anos depois da “desfeita” do autor de A náusea a França, outrora muito constante nos anúncios de vencedores, ganharia novamente um Nobel, com Claude Simon, em 1985.

Numa resenha em que fazia “apostas para o Nobel”, escrevi na minha coluna em A TRIBUNA de Santos, em 4 de outubro de 2008:

Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os ‘nativos’ (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (Rue de Boutiques Obscures, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?”

Le Clézio foi o vencedor daquele ano. Agora, só falta Kundera.

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2011/10/03/o-nobel-do-nomade/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/28/quando-a-identidade-e-a-memoria-sao-liquidas-uma-rua-de-roma-de-patrick-modiano/

[2] Na abertura de Uma rua de Roma o leitor já pode ter um vislumbre dessa recorrência obsessiva:

“Atrás de Hutte, prateleiras de madeira escura cobriam a metade da parede: aí se encontravam catálogos telefônicos e anuários de todos os tipos, e desses últimos cinquenta anos. Hutte dissera-me várias vezes que eram instrumentos de trabalho insubstituíveis, dos quais jamais se separaria. E que tais catálogos e anuários constituíam a mais preciosa e comovente biblioteca que alguém pudesse ter, pois em suas páginas estavam registrados muitos seres, coisas e mundos desaparecidos, sobre os quais só aqueles volumes prestavam testemunho”.

[3] Título tirado de uma citação do poeta alemão Stefan George (1868-1933), o qual foi de certa forma espuriamente encampado pela propaganda nazista, devido aos elementos “arianos” da sua obra.

[4] Como acontece com o pai, figura recorrente, metido em negociatas no mercado negro, e um judeu de ambíguas estratégias de sobrevivência durante o período mais sombrio (pelo menos no século XX) da França, país em que o antissemitismo possivelmente aflorou de forma violenta muito antes da Ocupação, a qual de certa representou apenas o ápice de um longo processo.

[5] Inclusive nos sonhos e pesadelos:

“Mas comecei a sentir uma espécie de pânico, uma vertigem, como ocorre nos pesadelos, ou quando não conseguimos chegar numa estação, e as horas passam, e vamos perder o trem.

    Há vinte anos, experimentei uma aventura parecida. Soube que meu pai fora hospitalizado no Pitié-Salpêtrière. Eu não o tinha visto mais desde o final da minha adolescência. Decidi que lhe faria uma visita improvisada.

    Lembro que vaguei durante horas pelo enorme hospital, à sua postura. Entrava em prédios antigos, nas salas de enfermaria, repletas de camas, e as perguntas que fazia às enfermeiras recebiam sempre respostas contraditórias. Acabei duvidando da existência de meu pai (…) Percorri os pátios de cimento até a noite. Não consegui encontrar meu pai. Nunca mais o revi.”

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[6]Gente engraçadaDo tipo que deixa apenas, após sua passagem, um nevoeiro que rapidamente se dissipa. Hutte e eu lidávamos freqüentemente com esses seres cujas pegadas se perdem. Um belo dia, surgem do nada e ao nada retornam, depois de ter brilhado com algumas fagulhas. Rainhas de beleza. Gigolôs. A maioria deles, mesmo no instante da vida, não possuía maior consistência do que uma onda de vapor que não se condensará jamais” (Uma rua de Roma)

[7] Talvez seja interessante uma amostra maior, situando melhor a passagem citada acima:

“Por mais que juntasse outras lembranças mais recentes, estas pertenciam a uma vida anterior que eu não estava inteiramente certo de ter vivido.

    Tirara do bolso minha certidão de nascimento. Nascera durante o verão de 1945, e uma tarde, às cinco horas mais ou menos, meu pai fora assinar o registro da prefeitura. Eu via sua assinatura na fotocópia que me haviam dado—uma assinatura ilegível. Depois ele voltara para casa a pé, pelas ruas desertas daquele verão, em que se ouviam as campainhas cristalinas das bicicletas, no silêncio. E era a mesma estação de hoje, o mesmo fim de tarde ensolarado.

     Tornara a guardar a certidão de nascimento no bolso. Estava num sonho, do qual precisava mesmo acordar. Os laços que me ligavam ao presente estiravam-se cada vez mais. Realmente, teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e de perda progressiva de identidade, e já não poder indicar aos passantes meu domicílio… Ainda bem que tinha no bolso aquela certidão de nascimento, como os cães que se perderam em Paris, mas trazem na coleira o endereço e o telefone do dono… E tentava explicar para mim mesmo a hesitação que sentia. Fazia muitas semanas que não via ninguém. As pessoas a quem telefonara não tinham voltado das férias. Além disso, errara ao escolher um hotel afastado do centro. No início do verão, pretendia passar ali apenas uma temperada muito breve, e alugar um pequeno apartamento ou um conjugado. A dúvida insinuava-se em mim: teria eu realmente vontade de ficar em Paris? Enquanto durasse o verão, teria a ilusão de ser apenas um turista, mas no início do outono as ruas, as pessoas e as coisas retomariam sua cor cotidiana: cinza. E eu não sabia se ainda tinha coragem de me fundir de novo naquela cor.”

[8] “…tive a desagradável impressão de sonhar. Já vivera minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado. Por que desejar de novo atar laços rompidos e procurar passagens muradas há tanto tempo? E esse pequeno homem gorducho e bigodudo que andava a meu lado, eu tinha dificuldade em acreditar que fosse real”, lemos em Uma rua de Roma.

[9] Os romances de Modiano acima citados, Uma rua de Roma, Do mais longe do esquecimento e Dora Bruder foram lançados no Brasil pela Rocco e traduzidos respectivamente por Herbert Daniel-Cláudio Mesquita (1986), Maria Helena Franco Martins (2000) e Márcia Cavalcanti Ribas Vieira (1998).

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22/10/2012

Leitura em espelho: ANDANDO NA SOMBRA, de Doris Lessing, e A FORÇA DAS COISAS, de Simone de Beauvoir

    

                              I

“A memória é uma grande criadora de comédia. Décadas depois, um evento que foi doloroso, ou mesmo aterrorizante, pode parecer simplesmente absurdo”. Esse trecho é do primeiro volume autobiográfico de Doris Lessing, Debaixo da minha pele, e ajuda a entender Andando na sombra: esse segundo volume é um ajuste de contas com o comunismo, que dominou e assombrou a vida da grande escritora inglesa durante muitos anos, um “evento doloroso e aterrorizante” que, colocado sob perspectiva, revela-se absurdo.

Andando na sombra começa em 1949 , a partir da emigração da autora de Roteiro para um passeio ao inferno da Rodésia para a Inglaterra, e sua estréia como escritora, com a publicação de A canção da relva. Mesmo assim, tudo que não tem a ver com a experiência dela como militante do Partido Comunista fica secundário no livro, o que, ao mesmo tempo, representa sua força e sua fraqueza.

Doris Lessing já abordou muitas vezes essa sua desilusão, já explorou muitas vezes a dificuldade que tantas pessoas tiveram para se desvencilhar da lealdade para com ideais que nunca correspondiam à realidade e que, ao fim e ao cabo, legitimavam atrocidades cometidas na URSS, principalmente no período stalinista. Ela sempre associou a dificuldade de abandonar o partido e a própria idéia de comunismo, sem se tornar vítima de uma “má consciência”, de estar cometendo uma traição aos explorados e descamisados do mundo, como uma espécie de substituto do fervor religioso.

Nunca, entretanto, ela se estendeu tanto na questão como em Andando na sombra, onde a narração do período e a reflexão propiciada pelo olhar memorialista se alternam (processo que ela já usara magistralmente em Debaixo da minha pele, um de seus melhores textos), fazendo com que o livro seja quase  que o seu testamento, a súmula de suas idéias, o seu balanço final: “Será que têm interesse hoje essas antigas paixões políticas? Para mim o importante é o que se aprende com elas. Continuamos convivendo com o (hoje) incrível e imperdoável fato de que algumas das pessoas mais preocupadas com a sociedade, mais esperançosas quanto ao futuro, mais dedicadas, foram coniventes com os crimes do mundo comunista, recusando-se, primeiro, a reconhecê-los…. E essa atitude, essa relutância em criticar a URSS, continua até hoje e se evidencia na forma como Hitler é colocado na posição de criminoso-mor de nossos tempos, ao passo que Stálin era mil vezes pior…. O interesse, com certeza, é o porquê. Afinal de contas, essa situação, ou uma que lhe seja parecida, voltará a acontecer, num contexto diverso, numa história diferente. Tudo volta.”

Apesar do brilho com que ela captura toda a “atmosfera” da Guerra Fria, é justamente a concentração maciça de pormenores da atividade política que faz com que Andando na sombra não seja tão bom quanto Debaixo da minha pele. Casas,pessoas, obras e outros “detalhes” que aparecem nesse segundo volume, ficam apenas como um pano-de-fundo fuliginoso nessa sombria constatação a posteriori da comédia absurda que foi o engajamento dos anos 50, através da observação mortífera da memória.

Há maravilhosas observações sobre diversos outros temas (os gatos, por exemplo, que ganham três páginas inesquecíveis) e a narração da mudança, em 1962, para uma casa própria (no final do livro) é demais, com sua descrição da reforma, dos trabalhadores e dos vizinhos, porém tudo  fica acachapado no todo do livro e ele fica desarmônico, desigual.

E embora Andando na sombra seja esclarecedor no sentido de mostrar por que Doris Lessing tantas vezes colocou como alter ego das suas narrativas donas-de-casa (como em O verão antes da queda,  A cidade de quatro portas, Memórias de um sobrevivente, por exemplo), é pena que ela  equacione tão pouco sua vida com os livros que surgiram a partir dessa época, como os maravilhosos The golden notebook- O carnê dourado e Landlocked- Exilada em seu país.

Nesse ponto, Andando na sombra perde longe para as incríveis memórias de Simone de Beauvoir, principalmente Na força da idade & A força das coisas, nas quais política, literatura, existência dia-a-dia são capturadas de uma forma coesa e poderosa, e uma coisa não avassala a outra no texto, mesmo que o tenha feito na vida.

Mas a própria Simone de Beauvoir  adverte para as conclusões apressadas demais: “Apresento cada momento da minha evolução e é preciso ter a paciência de não fechar a conta antes do fim”.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de setembro de 1998)

                                    II

 Há poucas leituras mais apaixonantes e absorventes que a dos volumes autobiográficos de Simone de Beauvoir: Memórias de uma moça bem-comportada,Na força da idade, A força das coisas, Balanço Final.

A força das coisas (1963) recentemente ganhou nova tradução no Brasil (feita por Maria Helena Franco Matias, pela Nova Fronteira; já havia  outra, com o belo título de Sob o signo da história). Cobre um período mais ou menos similar ao retratado por Andando na sombra, de Doris Lessing.

Quando Paris foi libertada pelos Aliados e a Segunda Guerra terminou havia um clima de esperança e fraternidade entre simpatizantes e militantes do socialismo e do comunismo. As dissensões  entre todos e a Guerra Fria fizeram com que as posições se radicalizassem,  o engajamento muitas vezes descambou para o sectarismo fanático, e a postura pró-URSS levava a conflitos internos que Jean-Paul Sartre e Simone tentaram superar.

Já tendo contado esse período em Os mandarins (que deverá figurar como um dos grandes romances do século), por que tentar de novo? “Eu pensava que é projetando uma experiência no imaginário que apreendemos com mais clareza o seu significado. Mas eu lamentava que o romance sempre fracassasse em expressar sua contingência. Numa autobiografia, os acontecimentos se apresentam em sua gratuidade, seus acasos, suas combinações,tal qual se passaram: essa fidelidade faz compreender melhor do que a mais hábil transposição como as coisas acontecem a sério com os homens. O perigo é que, através da sua caprichosa profusão, o leitor possa não distinguir nenhuma imagem clara, apenas um amontoado confuso de coisas. O escritor não tem meios para contar simultaneamente os fatos de uma vida e seu significado. Nenhum desses dois aspectos da realidade é mais verdadeiro que o outro. Os mandarins, portanto, não me dispensava de prosseguir essas memórias…”

E, à medida que o leitor vai prosseguindo nas memórias de La Beauvoir, elas vão ficando cada vez mais desoladas e desoladoras. A Guerra da Argélia a transforma numa “exilada em seu país” , com ódio de seus compatriotas, que consentem com a tortura, o massacre, as injustiças gritantes. O governo de De Gaulle torna-se uma ditadura.

Ao mesmo tempo, a autora de A convidada (outro belíssimo romance) vai se dando conta do seu processo de envelhecimento: “Bruscamente esbarro na minha idade… Muitas vezes paro, espantada, diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontrem vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está nem bem nem mal, tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara de velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

Mesmo assim ela vive, escreve, sente, ama, participa.E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, mesmo no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa  austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror da ditadura e dar o devido valor a um instante, a uma paisagem,a um encontro, a um sentimento individual e fugaz. A vida salta dessas páginas, em que “a força das coisas” destrona o amor pelo absoluto que foi o núcleo do projeto pessoal de Simone de Beauvoir na sua infância,mocidade e começo da maturidade, como ela conta em Memórias de uma moça bem-comportada e no extraordinário Na força da idade, e que fica clara nos textos de Quando o espiritual domina, suas primeiras tentativas ficcionais mais articuladas. É possível que a vitalidade poderosa do livro seja resultado também do fato de ter sido escrito muito perto dos acontecimentos, ainda no calor da hora, ainda com o engajamento total da autora no que está contando, sem indulgência, sem conciliação, sem serenidade.

Os livros de Simone de Beauvoir dão o que ela pede a uma obra literária em A força das coisas: “…a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  29 de setembro de 1998)

VER TAMBÉM NO BLOG

(sobre Simone de Beauvoir):

https://armonte.wordpress.com/2010/05/07/simone-de-beauvoir/

(sobre Doris Lessing):

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

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