MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/11/2013

SOB A REDOMA e a maturidade de um mestre: Stephen King

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Voltou para lá para fora, farejou o ar-parado, com um toque desagradável de fumaça-e olhou para oeste, para a mancha preta pendente os  os mísseis tinham se chocado. Parecia um tumor de pele. Sabia que estava se concentrando em Dale Barbara e em Big Jim Rennie e nos assassinatos porque eram o elemento humano, coisas que ele meio que entendia. Mas ignorar a Redoma seria um erro… (trecho de Sob a Redoma)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2013)

Quem estiver acompanhando a série Under the Dome (exibida pela TNT), abismado com a mediocridade dos episódios que banalizam uma situação tão dramática (uma redoma possivelmente alienígena de repente isola a cidadezinha de Chester´s Mill, no Maine), ou com os personagens (para não falar dos intérpretes) sem-graça que os povoam, nem imagina que o livro original de Stephen King (publicado originalmente em 2011, nos EUA, e aqui comentado na tradução de Maria Beatriz de Medina) é a prova definitiva da sua maturidade e vigor como romancista.

No momento em que Chester´s Mill vê-se à parte do mundo, o poder local está concentrado nas mãos do vereador Big Jim Rennie[1]. Ele e outras autoridades (inclusive um reverendo, Lester Coggins) desviaram verbas e material essencial (cilindros de gás, por exemplo, os quais seriam vitais na condição pós-redoma) para um imenso laboratório de metanfetamina[2]. É um dos motivos porque Rennie hostiliza e não reconhece o coronel Dale Barbara (veterano do Iraque, que atuava como chapeiro numa lanchonete local[3]) quando este é investido pelo governo americano como líder durante a crise, mas não o principal: Barbara havia se desentendido com o filho do vereador, Junior (um psicopata necrófilo e truculento, que gosta de ficar com suas vítimas enquanto elas se decompõem), e simboliza tudo o que o chefão mais odeia: forasteiro, imbuído dos símbolos das garantias civis e multiculturais do governo Obama. Corrupto e deslavadamente tacanho, Rennie representa uma mentalidade muito presente e atuante nos EUA, aquela mesma que se ampara no número de armas que se tem em casa, na crença de que tudo o que vem de fora é errado e perigoso: Os amigos de Barbara no lado de fora teriam uma tendência especial a entender tudo errado… Enfim, a redoma é ideal para pôr em prática tal modo de pensar, tão Sarah Palin, tão tea party. Tendo Barbara como bode expiatório (ele é preso pelos assassinatos que Junior e o próprio pai deste cometeram após o surgimento da redoma), Chester´s Mill pouco a pouco se torna um lugar com forte sabor totalitário, com milícia em vez de polícia (adolescentes problemáticos são incorporados à força policial; amigos de Junior estupram a garota do responsável pelo refino da metanfetamina, que se tornou um recluso dado a visões apocalípticas).

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Embora Sob a Redoma tenha uma galeria e tanto de personagens, em suas quase mil páginas, Big Jim Rennie é a grande criação de King, fazendo dele a encarnação moderna de Willie Stark, o político demagogo e rapinante criado por Robert Penn Warren no clássico Todos os Homens do Rei (1946), um dos mais importantes romances americanos.  Alguns podem alegar que o vereador é caricatural e que o romance utiliza os mais deslavados recursos folhetinescos, polarizando personagens “bons” e vilões. Se assim for, que folhetim esplêndido o autor de Misery e O Iluminado conseguiu criar! Em Sob a Redoma, aprofundou-se vertiginosamente o pendor cada vez mais político e engajado que foi tomando conta da sua obra, principalmente em reação ao governo Bush e às medidas autoritárias e regressivas pós-11 de setembro e outros miasmas norte-americanos. Se King acaba sendo, como tanto deplora Harold Bloom em mais um de seus equívocos, o horizonte de leitura do adolescente atual, não vejo nada mais consistente e consequente para formar consciências não-conformistas e informadas do perigo para a liberdade representado por medidas “de segurança” e de exceção.

Volto a afirmar: em Sob a Redoma,  King atingiu a maestria da sua arte, criando um mundo completo, com sua população, sua geografia, até mesmo sua ecologia (a descrição da degradação ambiental da redoma é um achado magistral) tão convincentes quanto nossa própria realidade[4]. Mas embora inegavelmente grande,  ele sempre foi um autor com aspectos problemáticos (por exemplo, sua capacidade de inventar argumentos geniais, sem a necessária contrapartida de solucioná-los a contento, na maioria absoluta de seus livros) e o romance é um gênero eminentemente contingencial, o que explicaria os “defeitos” que, a meu ver, não prejudicam gravemente o conjunto, sendo o principal deles a revelação da pueril origem da redoma (ela devia ser algo incognoscível, não uma plataforma para uma conclusão moralista à la Além da Imaginação) e o modo de desativá-la[5]; outro é o desapreço (bem menor do que em obras anteriores, é justo anotar) do autor pelos seus personagens, a quem mata sem a menor cerimônia[6]; também não são de grande ajuda passagens subliterárias do tipo: “Acima dela, as estrelas transbordavam pelo céu na profusão extravagante de sempre, uma catarata sem fim de energia que não precisava de gerador.

Por incrível de pareça, nada disso importa. Sob a Redoma é um romance que fica em pé, literal e metaforicamente. O que é grave, e não dá para entender num demiurgo tão zeloso (e obviamente orgulhoso, como se verifica no posfácio) do seu território criado nos mínimos detalhes, um cochilo tal como o seguinte:  na pág. 524, Rusty, um dos heróis, vê um homem “desconhecido” à sua frente: é Thurston Marshall, que se tornará um voluntário no hospital da cidade. O problema é que eles já haviam se conhecido, na pág. 338!

Prefiro pensar que, assim como tenho certeza de que ele se deleita secretamente com as péssimas adaptações cinematográficas e televisivas, as quais acabam valorizando por tabela seus textos (com as célebres exceções de praxe,  todo mundo as conhece: O Iluminado, Carrie, Zona Morta, Christine, O nevoeiro e poucas mais), ele também se dá ao luxo, matreiramente, de brincar com seus leitores, inclusive os mais cricris e detalhistas. Prazeres perversos de mestre.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/26/destaque-do-blog-novembro-de-63-de-stephen-king/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/22/adaptacoes-de-stephen-king/

artigo king

TRECHO SELECIONADO

Numa resenha publicada no “Rascunho” (cf. http://rascunho.gazetadopovo.com.br/sob-a-redoma-ou-nao-eis-a-questao/), José Roberto Torero afirma que se sentiu meio enfastiado na leitura do romance de King porque a narrativa era praticamente conduzida pela ação (Algo curioso, que neste livro é levado às últimas conseqüências, é que só a ação fala. Não temos narrador ou personagens analisando, filosofando ou simplesmente pensando sobre um fato. Há apenas os fatos. Conhecemos os personagens pelo que eles fazem, não pelo que pensam), para mim uma visão equivocada, pois King conduz a ação multiplicando-se entre os olhares dos personagens (se são olhares movidos por maniqueísmos, já são outros quinhentos). Mas a afirmação me parece ainda mais discutível por não levar em conta a variegada estratégia narrativa. Por isso, escolhi um trecho que começa na página 717. Pode não ser muito original o exercício brincalhão de ubiquidade, mas serve para refutar a ideia de romance movido a ação feito um roteiro ( Esta ação excessiva e a falta de um sentido submerso fez com que eu tivesse um tanto de preguiça para ler as mais de setecentas páginas do livro. Gosto de ação, realmente não tenho nada contra. Mas é necessário temperar com um tanto de raciocínio, senão fica cansativo. ):

Outra noite cai sobre a cidadezinha de Chester´s Mill: outra noite debaixo da Redoma. Mas para nós não há descanso; temos que comparecer a duas reuniões,  e também temos de que dar uma olhada em Horace, o corgi, antes de dormir. Hoje Horace faz companhia a Andrea Grinnell, e embora por enquanto esteja matando o tempo, ele não esqueceu a pipoca entre o sofá e a parede.

   Então vamos, você e eu, enquanto a noite se espalha contra o céu como um paciente anestesiado sobre a mesa. Vamos enquanto as primeiras estrelas desbotadas começam a aparecer lá em cima. Hoje à noite, esta é a única cidade, numa área de quatro estados, em que elas estão visíveis (…) Ali as estrelas brilham, mas agora são estrelas sujas, porque a Redoma está suja.

 (…) vamos flutuar por certas ruas semidesertas, passar pela igreja Congregacional e pelo presbitério (a reunião ali ainda não começou, mas Piper encheu a máquina grande de café, e Julia está fazendo sanduíches à luz de um lampião sibilante), pela casa dos McCain, cercada pelas curvas tristes da fita amarela da polícia, pelo morro da praça da Cidade e pela Câmara de Vereadores, onde o zelador Al Timmons e dois amigos seus limpam e arrumam tudo para a assembleia especial da noite de amanhã, pela praça do Memorial de Guerra, onde a estátua de Lucien Calvert (bisavô de Norrie, provavelmente não preciso dizer isso a você) faz a sua longa vigília.

    Que tal uma paradinha para olharmos Dale Barbara e Rusty? (…) Não há muito o que ver no Galinheiro, porque a esperança é tão invisível quanto nós. Os dois homens não têm nada para fazer a não ser esperar até amanhã à noite e torcer para que tudo dê certo para eles (…) Por enquanto, os dois homens—os nossos heróis, suponho—estão sentados no catre e brincam de adivinhar (…) Que tal deixá-los para aliviar como puderem o peso das próximas 24 horas Vamos seguir o nosso caminho…

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[1] Ele é o segundo vereador, mas o primeiro, Andy Sanders (cujo aproveitamento na trama será dos mais interessantes) é apenas uma marionete. Sua mulher é uma das primeiras vítimas da redoma.

[2] Por que Big Jim deixou ele fazer tanto?, era o que Fern queria saber. E por que nós fomos juntos? O que a gente tinha na cabeça? Não conseguiu encontrar resposta para essa pergunta a não ser a óbvia: porque podiam…

[3] Apesar de sua verve crítica anti-institucional, King não deixa de ser seduzido pelo chavão do soldado meio atormentado e solitário, um tanto loser, porém no fundo íntegro e heróico. O ator que faz Barbara, na minissérie (é preciso considerar que alteraram radicalmente os personagens, quase sempre pra pior), Mike Vogel, é um suprassumo de inexpressividade. Aliás, ali, parece que apenas Dean Norris (que interpreta Big Jim Rennie) está vivo.

[4] Até agora, só encontrara essa amplitude e acabamento em The Stand- A dança da morte (falo da reedição de 1990, não da versão original, de 1978).

[5] Ele se vale daquela famosa fala do Rei Lear sobre nós sermos como moscas de asas arrancadas pelos deuses: “Como moscas para meninos travessos, assim somos nós…” etc. etc.

Também não me entusiasmam aquelas manifestaçõs oraculares de alguns personagens, em particular as crianças, e as associações com o Halloween.

No entanto, acho bem sensata  a fala de Julia Shumway: Não acredito que nós fizemos isso conosco. As coisas que comandam a caixa, os cabeças de couro, criaram a situação, mas acho que só são um monte de crianças observando a festa… Estão lá fora. Nós estamos dentro, e nós fizemos isso a nós mesmos.

[6] São vitais à trama o assassinato de Brenda Perkins (esposa do chefe de polícia) e a covarde execução de Clover, o pastor alemão da reverenda Piper Libby. Sem falar no regalo com a grotesquerie fisiológica, outras mortes (especialmente na turma do final, incluindo a da cadela  Audrey) são discutíveis, como por exemplo a da vereadora Andrea Grinnell e da forasteira Carolyn Sturges, pelo menos da maneira como ocorrem. Talvez a vida real seja gratuita no sentido de distribuição de mortandade, mas um ficcionista não precisa se guiar pela aleatoriedade.

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